H.P. Lovecraft

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    H. P. Lovecraft | O chamado de Cthulhu

    É concebível que tais grandes poderes ou seres tenham sobrevivido… sobrevivido de um passado extremamente remoto, quando a consciência era provavelmente manifestada em formas e contornos surgidos muito antes do advento da espécie humana… formas das quais somente a poesia e a lenda preservaram uma tênue memória e chamaram-nas de deuses, monstros, criaturas míticas das mais variadas espécies…

    ALGERNON BLACKWOOD

    I. O HORROR NA ARGILA

    A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, é a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo. Vivemos numa plácida ilha de ignorância em meio a negros mares de infinito, e não está escrito pela Providência que devemos viajar longe. As ciências, cada uma progredindo em sua própria direção, têm até agora nos causado pouco dano; mas um dia a junção do conhecimento dissociado abrirá visões tão terríveis da realidade e de nossa apavorante situação nela, que provavelmente ficaremos loucos por causa dessa revelação ou fugiremos dessa luz mortal rumo à paz e à segurança de uma nova Idade das Trevas.

    Os teosofistas fizeram conjecturas sobre a apavorante imensidão do ciclo cósmico, do qual nosso mundo e a raça humana constituem meros incidentes transitórios. Eles aludiram a estranhas sobrevivências em termos que congelariam o nosso sangue se não fossem mascarados por ameno otimismo. Mas! não foi deles que veio o vislumbre das eras proibidas que me arrepiam quando nelas penso e me enlouquecem quando com elas sonho; esse vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, cintilou quando juntei duas peças separadas no caso, uma velha notícia de jornal e as anotações de um professor já falecido. Espero que ninguém mais venha a fazer essa junção; com certeza, se eu viver, nunca fornecerei voluntariamente elo algum de tão nefasta cadeia. Acho que o professor também pretendia guardar segredo sobre a parte que ele conhecia, e que teria destruído suas anotações se a morte súbita não o tivesse levado antes.

    Meu conhecimento da coisa começou no inverno de 1926 a 1927 com a morte do meu tio-avô, George Gamell Angell, professor emérito de línguas semíticas da Universidade Brown, em Providence, Rhode Island. O professor Angell gozava de grande renome como autoridade em inscrições antigas e a ele recorriam com freqüência diretores de importantes museus, de modo que seu falecimento, aos noventa e dois anos de idade, deve ser lembrado por muitos. A nível local, esse interesse foi intensificado pela obscuridade da causa mortes. O professor retornava do navio de Newport quando caiu de repente, segundo testemunhas, após ter sido empurrado por um negro com jeito de marinheiro, saído de um dos suspeitos e escuros pátios na encosta íngreme que formava um atalho entre o cais e a casa do finado na rua Williams. Os médicos foram incapazes de achar qualquer distúrbio visível, mas concluíram, após perplexa discussão, que alguma obscura lesão cardíaca, agravada pela subida brusca de tão íngreme colina por tão idoso homem, fora responsável pelo óbito. Naquela época não vi motivo algum para discordar desse diagnóstico, mas ultimamente sinto-me inclinado a questionar e mais do que questionar.

    Como herdeiro e executor do meu tio-avô, que morrera viúvo e sem filhos, esperava-se que eu examinasse seus papéis cuidadosamente, e com esse propósito levei todos os seus arquivos e caixas para minha residência em Boston. Grande parte do material que organizei será publicado mais tarde pela Sociedade Arqueológica Americana, mas havia uma caixa que eu achei extremamente enigmática e que me senti um tanto avesso a mostrá-la a outros olhos. Havia sido fechada com cadeado e não encontrei a chave até que me ocorreu examinar o chaveiro pessoal que o professor levava sempre no bolso. Consegui, de fato, abri-la, mas então pareceu-me que foi só para dar de cara com outro segredo ainda maior e mais impermeável. Pois qual poderia ser o significado do estranho baixo-relevo de argila e das esparsas anotações, comentários e recortes que achei? Teria o meu tio, nos últimos anos de vida, se tornado crédulo das mais superficiais imposturas? Resolvi que procuraria o excêntrico escultor responsável por essa aparente perturbação da paz de espírito de um velho.

    O baixo-relevo era um tosco retângulo com menos de dois dedos de espessura e uns doze a quinze centímetros de comprimento, obviamente de origem moderna. O seu desenho, contudo, nada tinha de moderno na atmosfera e no que sugeria; pois, embora os caprichos do cubismo e do futurismo sejam muitos e desvairados, não reproduzem com freqüência aquela regularidade críptica que se insinua na escrita pré-histórica. E a maior parte daqueles desenhos com certeza parecia algum tipo de escrita, ainda que a minha memória, bastante familiarizada com os papéis e coleções do meu tio, não conseguisse identificá-la ou sequer suspeitar de suas afiliações mais remotas.

    Acima desses hieróglifos aparentes havia uma figura de evidente intenção pictórica, embora sua execução impressionista impedisse uma idéia muito clara de sua natureza. Parecia um tipo de monstro, ou de símbolo representando um monstro, cuja forma só uma mente doentia poderia conceber. Se eu disser que minha algo extravagante imaginação lhe atribuía ao mesmo tempo os traços de um polvo, de um dragão e de uma caricatura humana, não estarei sendo infiel ao espírito da coisa. Uma cabeça polpuda e tentaculada encimava um corpo grotesco e escamoso dotado de asas rudimentares; mas era o contorno geral do todo que chocava. Atrás da figura havia uma vaga sugestão de cenário de arquitetura ciclópica.

    Essa singularidade era acompanhada, além de uma pilha de recortes de jornal, por escritos com a caligrafia mais recente do professor Angell, sem qualquer pretensão a estilo literário. O que parecia ser o documento principal tinha por título “CULTO DE CTHULHU” em letras de fôrma, para evitar a leitura incorreta de palavra tão inaudita. Esse manuscrito estava dividido em duas seções, a primeira das quais intitulada “1925 -Sonho e Interpretação do Sonho de H. A. Wilcox, Rua Thomas, 7, Providence, R. L”, e a segunda, “Narrativa do Inspetor John R. Lagrasse, Rua Bienville, 121, Nova Orleans, La., na reunião de 1908 da S. A. A. – Notas do Mesmo, & Relato do Prof. Webb”. Todos os demais manuscritos eram notas breves, sendo algumas delas relatos de sonhos esquisitos de diferentes pessoas, citações de livros e revistas teosóficas (principalmente de A Atlântlda e a Perdida Lemúria de W. Scott-Elliott) ou ainda comentários sobre antiquíssimos e ainda remanescentes sociedades secretas e cultos proibidos, com referências a trechos de compêndios de mitologia e antropologia tais como O Ramo de Ouro, de James G. Frazer, e Culto às Bruxas na Europa Ocidental, de Miss Murray. Os recortes referiam-se basicamente a doenças mentais raras e surtos de alucinações coletivas na primavera de 1925.

    A primeira metade do manuscrito principal narrava uma estória muito peculiar. Aparentemente no dia 1 ° de março de 1925, um moço magro, moreno, de aspecto neurótico e excitado, visitou o professor Angell trazendo consigo o singular baixo-relevo de argila, que estava então recente e úmido. Seu cartão trazia o nome de Henry Anthony Wilcox e meu tio reconhecera-o como o filho mais novo de uma excelente família que ele conhecia superficialmente, e que estivera estudando escultura na Escola de Desenho de Rhode Island e vivendo sozinho no edifício Fleur-de-Lys perto daquela instituição. Wilcox era um jovem precoce de reconhecido talento porém grande excentricidade, e desde a infância despertara atenção devido às estórias esdrúxulas e aos sonhos bizarros que tinha o hábito de contar. Ele chamava a si mesmo de “psiquicamente hipersensível”, mas a gente convencional da antiga cidade comercial considerava-o apenas “esquisitão”. Sem
    nunca se misturar muito com os seus, gradualmente afastara-se do convívio social e só era conhecido de um pequeno grupo de estetas de outras cidades. Mesmo o Clube de Arte de Providence, ansioso por preservar seu conservadorismo, desistira de tê-lo entre seus membros.

    Na ocasião da visita, continuava o manuscrito do professor, o escultor pediu abruptamente a assistência do conhecimento arqueológico de seu anfitrião para identificar os hieróglifos do baixo-relevo. Falava de um jeito sonhador e afetado que denotava pose e alienação; e foi com certa rispidez que meu tio respondeu-lhe, pois a notória frescura do tablete indicava relação com tudo menos com arqueologia. A réplica do jovem Wilcox, que impressionou meu tio o bastante para que este a recordasse e a registrasse textualmente, foi feita num tom fantasticamente poético que deve ter caracterizado toda a sua conversa e que desde então verifiquei ser bem próprio dele; ele disse: “Realmente é novo, pois o fiz na noite passada durante um sonho que tive com cidades estranhas; e sonhos são mais antigos do que a cismarenta Tiro, a contemplativa Esfinge ou a Babilônia dos jardins suspensos.”

    Foi então que ele começou a narrativa desconexa que subitamente despertou uma memória adormecida e conquistou o interesse febril do meu tio. Um leve tremor de terra ocorrera na noite anterior, o mais intenso registrado na Nova Inglaterra em anos, e afetara vivamente a imaginação de Wilcox. Este, ao se recolher, tivera um sonho sem precedentes, com grandes cidades ciclópicas de blocos titânicos e monólitos que alcançavam o céu, todos gotejando lodo verde e impregnados de horror latente. Hieróglifos cobriam as paredes e colunas, e de algum ponto indeterminado, abaixo, vinha uma voz que não era uma voz, e sim uma sensação caótica que só a fantasia poderia transmudar em som, mas que ele tentou traduzir num amontoado quase impronunciável de letras: “Cthulhu fhtagn “.

    Essa mixórdia verbal foi a chave para a lembrança que excitou e perturbou o professor Angell. Ele interrogou o escultor com minúcia científica e estudou com intensidade quase frenética o baixo-relevo no qual o rapaz se encontrara trabalhando, enregelado e apenas com suas roupas de dormir, quando acordou, atônito. Meu tio culpou sua velhice, Wilcox disse depois, por sua demora em reconhecer tanto os hieróglifos quanto o desenho pictórico. Muitas das perguntas dele pareceram altamente despropositadas ao visitante, especialmente as que tentavam relacionar a figura com cultos ou sociedades estranhas; e Wilcox não pôde compreender as repetidas promessas de silêncio que recebeu em troca de sua confissão de ser membro de alguma difundida irmandade mística ou pagã. Quando o professor Angell se convenceu de que o escultor realmente desconhecia qualquer culto ou sistema de ciência oculta, assediou seu visitante com pedidos de que viesse relatar-lhe futuramente os sonhos que voltasse a ter. Isso deu frutos regulares, pois após a primeira entrevista o manuscrito registra visitas diárias do rapaz, durante as quais ele narrava fragmentos surpreendentes de sua imagística noturna, centrada sempre num assustador panorama ciclópico de megalitos escuros e gotej antes, com uma voz ou inteligência subterrânea clamando monotonamente em enigmáticos impactos sensórios. Os dois sons mais freqüentemente repetidos eram aqueles traduzidos pelas letras ” Cthulhu ” e “R’lyeh “.

    No dia 23 de março, continuava o manuscrito, Wilcox não apareceu; em sua residência informaram que ele havia sido acometido por uma espécie desconhecida de febre e levado para a casa de sua família na rua Waterman. Havia gritado à noite, acordando vários outros artistas do prédio, e manifestara desde então apenas alternações de inconsciência e delírio. Meu tio telefonou imediatamente para a família, e a partir daí acompanhou o caso de perto, indo muitas vezes ao consultório do Dr. Tobey, o médico encarregado, na Rua Thayer. A mente febril do rapaz aparentemente ocupava-se de coisas estranhíssimas, e o doutor de vez em quando estremecia ao falar delas. Essas coisas não somente repetiam o que ele sonhara antes, mas também incluíam uma coisa gigantesca “com milhas de altura” que caminhava ou se movia. Em nenhum momento descrevera o objeto, mas ocasionais palavras frenéticas, conforme repetidas pelo Dr. Tobey, convenceram o professor de que devia tratar-se da inominável monstruosidade que Wilcox procurara representar em sua escultura do sono. Referências a esse objeto, acrescentou o doutor, eram invariavelmente prelúdio à queda do rapaz na letargia. Sua temperatura, curiosamente, não estava muito acima da normal; mas todo o seu estado parecia indicar antes febre do que perturbação mental.

    No dia 2 de abril, por volta das 3 da tarde, todos os sinais da enfermidade de Wilcox desapareceram subitamente. Sentou-se empertigado na cama, atônito por encontrar-se em casa e ignorando completamente o que acontecera em sonho ou realidade desde a noite de 22 de março. Tendo recebido alta do médico, voltou para o seu alojamento três dias depois; porém não foi mais de nenhuma serventia para o professor Angell. Todos os vestígios de sonhos bizarros haviam desaparecido com a convalescença, e meu tio não registrou mais seus sonhos após uma semana de relatos inúteis e irrelevantes de visões absolutamente normais.

    Neste ponto terminava a primeira parte do manuscrito, mas referências a algumas das anotações dispersas deram-me muito o que pensar, tanto, na verdade, que somente o enraizado ceticismo que então constituía minha filosofia pode explicar o fato de que eu continuava duvidando do artista. As anotações em questão eram aquelas que descreviam os sonhos de várias pessoas durante o mesmo período em que o jovem Wilcox tivera as suas estranhas visões. Meu tio, ao que parece, havia rapidamente organizado um esquema prodigiosamente amplo de investigação entre quase todos os amigos que podia interrogar sem impertinência, pedindo-lhes relatos de seus sonhos de todas as noites e datas de quaisquer visões incomuns a partir de certo dia. A receptividade ao seu pedido parece ter variado; mas ele deve ter recebido, no mínimo, mais respostas do que um homem normal poderia dar conta sem uma secretária. Essa correspondência original não foi preservada, porém suas anotações constituíam um resumo abrangente e realmente significativo dela. As pessoas comuns da sociedade e do mundo dos negócios o tradicional “sal da terra” da Nova Inglaterra – deram um resultado quase completamente negativo, embora casos esparsos de impressões noturnas desagradáveis mas indefinidas apareçam aqui e ali, sempre entre 23 de março e 2 de abril – o período de delírio do jovem Wilcox. Os homens de ciência não foram afetados em grau muito maior, apesar de quatro casos de descrição vaga sugerirem vislumbres fugazes de paisagens estrambóticas, e de um caso mencionar certo pavor de algo anormal.

    Foi dos artistas e poetas que as respostas pertinentes vieram, e tenho certeza de que o pânico teria se instaurado se eles tivessem podido comparar as anotações. Como eu não tinha as cartas originais, meio que suspeitei que o compilador houvesse feito perguntas tendenciosas ou organizado a correspondência em concordância com o que ele havia latentemente resolvido ver. Por essa razão continuei a achar que Wilcox, tendo tomado conhecimento das informações que o meu tio possuía, estivera pregando uma peça no veterano cientista. Essas respostas de estetas contavam uma história perturbadora. Entre 28 de fevereiro e 2 de abril uma grande proporção deles havia sonhado com coisas bizarras, sonhos cuja intensidade era incomensuravelmente maior durante o período do delírio do escultor. Cerca de um quarto das respostas falava de cenas e de sons que nada diferiam dos que Wilcox descrevera, e alguns desses sonhadores confessaram um medo agudo da coisa gigantesca e inominável visível no final. Um dos casos, que a anotação descreve com particular ênfase, era seríssimo. O indivíduo em questão, um arquiteto de grande renome, inclinado à teosofia e ao ocultismo, foi acometido de loucura violenta na data da crise do jovem Wilcox, e expirou vários meses mais tarde após gritar incessantemente que o salvassem das garras de uma besta que escapara do inferno. Se o meu tio tivesse se referido a esses casos por nome e não apenas por número, eu teria tentado obter alguma corroboração e feito alguma investigação pessoal; do jeito que estava, consegui localizar somente uns poucos missivistas. Todos estes, no entanto, confirmaram as anotações plenamente. Muitas vezes tenho me perguntado se todas as pessoas interrogadas pelo professor se sentiram tão perplexas quanto aquele grupo. Sorte deles nunca terem recebido explicação nenhuma.

    Os recortes de jornal, como já disse, mencionavam casos de pânico, manias e excentricidades ocorridos durante o período em questão. O professor Angell deve ter empregado um escritório especializado na coleta de recortes, pois o número de artigos era tremendo, e as fontes espalhavam-se por todo o planeta. Um recorte falava de um suicídio noturno em Londres, onde um sonâmbulo pulara de uma janela após um grito lancinante. Outro consistia numa carta desconexa ao editor de um jornal na América do Sul, em que um fanático, baseado em visões que tivera, predizia um futuro calamitoso. Um despacho da Califórnia descrevia uma colônia de teosofistas envergando em massa túnicas brancas à espera de certo “glorioso advento” que nunca chegava, ao passo que notícias da índia falavam reservadamente sobre graves tumultos nativos por volta do fim de março. Orgias de vodu multiplicaram-se no Haiti e postos avançados na África reportaram murmúrios agourentos. Oficiais norte-americanos nas Filipinas encontraram hostilidade por parte de certas tribos nessa época e policiais de Nova Iorque foram atacados por multidões de levantinos histéricos na noite de 22 para 23 de março. O oeste da Irlanda também foi infestado de rumores inacreditáveis e lendas, e um pintor fantástico chamado Ardois-Bonnot exibiu um delirante quadro intitulado Paísagem Onírica no salão de primavera de Paris de 1926.E tão numerosos são os tumultos registrados em hospícios que só por milagre a fraternidade médica deixou de notar estranhos paralelismos e tirar conclusões mistificadas. Em suma, um surpreendente punhado de recortes, e é com assombro que me lembro hoje do empedernido racionalismo com que os pus de lado. Mas eu estava então convencido de que o jovem Wilcox tivera conhecimento dos assuntos antigos mencionados pelo professor.

    II. O RELATO DO INSPETOR LEGRASSE

    Os assuntos antigos que haviam feito o sonho e o baixo-relevo do escultor tão significativos para o meu tio constituíam o tema da segunda metade do seu longo manuscrito. Parece que anteriormente o professor Angell tinha visto uma vez os contornos infernais da inominada monstruosidade, confundira-se diante dos hieróglifos desconhecidos e escutara as agourentas sílabas que só podem ser grafadas como “Cthulhu”; e tudo isso interligado de forma tão espantosa e horrível, que não é de admirar que tenha perseguido o jovem Wilcox com perguntas e exigências de informações.

    Essa prévia experiência ocorrera em 1908, dezessete anos antes, quando a Sociedade Arqueológica Americana realizou seu encontro anual em Saint Louis. O professor Angell, como convinha a alguém de sua autoridade e realizações, tivera um papel proeminente em todas as deliberações, e foi um dos primeiros a serem abordados por diversos leigos que aproveitaram a oportunidade para fazer perguntas e pedir opinião de peritos sobre certos problemas.

    O principal desses leigos, que em breve se tornaria o foco de interesse de toda a reunião, foi um homem de meia-idade e aparência convencional que tinha viajado desde Nova Orleans para obter certa informação especial impossível de obter de qualquer fonte local. Seu nome era John Raymond Legrasse e sua profissão era a de inspetor de polícia. Trazia com ele a razão de sua visita, uma grotesca, repulsiva e aparentemente antiquíssima estatueta de pedra cuja origem não conseguia determinar.

    Não se deve imaginar que o inspetor Legrasse tivesse o menor interesse em arqueologia; ao contrário, seu desejo de esclarecimento era movido por considerações puramente profissionais. A estatueta, ídolo, fetiche ou o que quer que fosse, fora capturada alguns meses antes nas florestas pantanosas do sul de Nova Orleans durante uma batida policial num suposto culto de vodu; e tão singulares e medonhos eram os ritos ligados à peça, que a polícia de imediato percebeu que dera de cara com um culto sinistro totalmente desconhecido para eles e infinitamente mais diabólico que o mais negro dos círculos africanos de vodu. Sobre a sua origem, além das estórias esdrúxulas e inacreditáveis arrancadas aos membros capturados, absolutamente nada pôde ser descoberto. Daí a ansiedade da polícia por qualquer conhecimento de coisas antigas que pudesse ajudá-la a identificar o símbolo aterrador e, através dele, descobrir a fonte daquele culto.

    O inspetor Legrasse não estava de forma alguma preparado para a sensação que a sua intervenção causou. Um simples olhar ao objeto fora suficiente para lançar os homens de ciência ali reunidos num estado de tensa excitação, e eles não perderam tempo em se amontoar ao redor dele para encarar de perto a diminuta imagem cuja profunda estranheza e aparência de antigüidade genuína e abismal indicavam panoramas arcaicos ainda por revelar. Nenhuma escola conhecida de escultura animara aquele terrível objeto, e no entanto séculos, até milênios pareciam gravados em sua baça e esverdeada superfície de pedra não identificada.

    A imagem, que foi finalmente passada devagar de mão em mão para exame mais atento e cuidadoso, tinha entre quinze e dezoito centímetros de altura e era de elaborado artesanato. Representava um monstro vagamente antropóide, mas com uma cabeça semelhante à de um polvo e cujo rosto era uma massa de tentáculos, de corpo escamoso com aspecto elástico, prodigiosas garras nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas atrás. Essa coisa, que parecia imbuída de assustadora e inatural malignidade, tinha uma corpulência algo intumescida e estava agachada ameaçadoramente sobre um bloco retangular ou pedestal coberto de caracteres indecifráveis. As pontas das asas tocavam a beirada traseira do bloco, o assento ocupava o centro e as compridas e recurvadas garras das patas traseiras dobradas sobre si mesmas, agarravam a beirada dianteira e estendiam-se por um quarto da altura do pedestal. A cabeça cefalópode estava inclinada para frente, de modo que as extremidades dos tentáculos faciais varriam as costas das maciças patas dianteiras que agarravam os joelhos dos membros traseiros. 0 aspecto geral era anormalmente vivido, e ainda mais sutilmente assustador pelo fato de sua origem ser totalmente desconhecida. Embora sua vasta, espantosa e incalculável antigüidade fosse inegável, a estatueta não apresentava ligação com nenhum tipo de arte pertencente à mocidade da civilização, ou, na verdade, a qualquer época.

    O seu próprio material era um mistério, pois a pedra lisa e negro-esverdeada com pintas douradas ou iridescentes e estrias não se assemelhava a nada familiar à geologia ou à mineralogia. Os caracteres ao longo da base eram igualmente intrigantes, e nenhum dos cientistas ali presentes, apesar de representarem metade do conhecimento mundial nesse campo, teve a menor noção sequer da mais remota filiação lingüística deles. Tal como o tema e o material, esses caracteres pertenciam a alguma coisa horrivelmente distante e alheia à humanidade como a conhecemos, algo que sugeria de forma assustadora antigos e profanos ciclos de vida dos quais nosso mundo e nossas concepções não fazem parte.

    No entanto, enquanto os vários cientistas balançavam a cabeça e admitiam-se derrotados perante o enigma trazido pelo inspetor, havia na reunião um homem a quem pareceram estranhamente familiares aquelas monstruosas forma e escrita, e que então falou com certa hesitação do pouco que sabia a respeito. Ele era o falecido William Channing Webb, professor de antropologia na Universidade de Princeton e explorador de considerável renome.

    O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma expedição à Groenlândia e à Islândia em busca de inscrições rúnicas, que não conseguiu achar; e ao percorrer a costa oeste da Groenlândia havia encontrado uma singular tribo de esquimós degenerados cuja religião, uma curiosa forma de culto ao diabo, provocou-lhe calafrios com sua repelência e deliberada sede de sangue. Tratava-se de um credo do qual os outros esquimós pouco sabiam, e que só mencionavam com estremecimentos de horror, dizendo que vinha de eras terrivelmente antigas, anteriores à criação do mundo. Além de ritos inenarráveis e sacrifícios humanos, havia alguns esquisitos rituais hereditários dirigidos a um supremo diabo ancião ou tornasuk, dos quais o professor Webb fizera uma cuidadosa transcrição fonética com a ajuda de um idoso angekok ou bruxo-sacerdote, grafando os sons em caracteres romanos o melhor que pôde. Porém, o que mais interessava era o fetiche que esse culto idolatrava e em torno do qual dançavam quando a aurora boreal lambia os picos gelados. Segundo declarou o professor, tratava-se de um tosco baixo relevo de pedra que compreendia uma figura medonha e algumas inscrições crípticas; e, até onde podia afirmar, coincidia, nos aspectos essenciais, com a coisa bestial que se tornara centro das atenções na reunião.

    Essas informações, recebidas com assombro e emoção pelos presentes à reunião, foram ainda mais emocionantes para o inspetor Legrasse, que imediatamente começou a assediar o seu informante com perguntas. Tendo anotado e transcrito um ritual oral entre os sectários brejeiros que seus homens haviam prendido, pediu ao professor que procurasse lembrar o melhor que pudesse das sílabas anotadas entre os esquimós diabolistas. Seguiu-se então uma exaustiva comparação de detalhes e um momento de boquiaberto silêncio, quando tanto o detetive quanto o cientista concordaram na identidade virtual da frase comum aos dois ritos infernais tão distantes um do outro como se pertencessem a mundos diferentes. O que, essencialmente, tanto os bruxos esquimós quanto os sacerdotes brejeiros da Louisiana entoavam aos seus ídolos era algo semelhante ao que vai abaixo, sendo as divisões entre palavras supostas por analogia com as quebras tradicionais na frase quando cantada em voz alta:

    “Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’naglfhtagn.”

    Nesse ponto Legrasse levava vantagem sobre o professor Webb, pois vários dos seus prisioneiros mestiços haviam-lhe repetido o que celebrantes mais velhos haviam-lhes dito sobre o significado dessas palavras. Esse texto dizia mais ou menos o seguinte:

    “Na sua casa em R’lyeh, Cthulhu morto espera sonhando.”

    Então, em resposta às urgentes solicitações de todos, o inspetor Legrasse narrou, tão detalhadamente quanto possível, sua experiência com os idólatras dos pântanos, contando uma estória à qual pude ver que o meu tio atribuía enorme importância. Fazia lembrar os sonhos mais desvairados dos mitômanos e teosofistas, além de revelar um grau surpreendente de imaginação cósmica, que nunca se esperaria entre aqueles marginais e párias da sociedade.

    No dia 1 ° de novembro de 1907 chegara à polícia de Nova Orleans um chamado frenético da região de pântanos e lagoas ao sul. Os grileiros de lá, na maioria descendentes primitivos, mas de boa índole, dos homens de Lafitte, estavam tomados do mais absoluto pânico por causa de uma coisa desconhecida que viera sobre eles à noite. Tratava-se de vodu, aparentemente, mas de uma espécie de vodu muito mais terrível do que qualquer outra que já tinham visto; e algumas de suas mulheres e crianças haviam desaparecido desde que o malévolo tantã começara a bater incessantemente bem para dentro das sombrias florestas, onde nenhum morador da região se aventurava. Ouviam-se gritos insanos e berros apavorantes, cânticos que gelavam o sangue e chamas demoníacas que bruxuleavam; e ninguém mais suportava aquilo, acrescentou o assustado mensageiro.

    Então um grupo de vinte policiais, em duas carruagens e um automóvel, havia partido no Fim da tarde com o trêmulo grileiro como guia. No fim da estrada transitável desceram e chapinharam por milhas em silêncio, em meio aos terríveis bosques de ciprestes onde nunca raiava o dia. Medonhas raízes e malignas barbas-de-velho dificultavam a caminhada, e de vez em quando uma pilha de pedras úmidas ou fragmentos de uma parede apodrecida intensificavam, com sua sugestão de povoação sórdida, uma angústia que cada árvore mal formada e a profusão de fungos contribuía para criar. Por fim, a aldeia dos grileiros, um ajuntamento miserável de cabanas, ficou à vista, e moradores histéricos acorreram para refugiar-se em volta do grupo de lanternas balouçantes. O som abafado dos tantãs já se ouvia ao longe, bem longe; e um grito agudo como um guincho vinha em intervalos desiguais quando o vento mudava de direção. Também um clarão avermelhado parecia filtrar-se através da pálida vegetação rasteira, oriundo de avenidas intermináveis de noite selvagem. Todos os assustados grileiros recusaram-se terminantemente a dar um passo sequer rumo àquele culto ímpio, de modo que o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas embrenharam-se sem guia nas arcadas negras de terror pelas quais nenhum deles jamais passara antes.

    A região em que agora se aventuravam os policiais era tradicionalmente de má reputação, desconhecida e inexplorada pelos brancos. Corriam lendas sobre um lago oculto nunca contemplado por mortais, no qual vivia uma gigantesca e disforme criatura poliposa branca com olhos luminosos; e os grileiros sussurravam que diabos com asas de morcego voavam para fora de cavernas nas entranhas da terra à meia-noite para adorar aquele ser. Diziam que ele estivera lá antes de D’Iberville, antes de La Salle, antes dos índios e antes mesmo dos saudáveis animais e pássaros das florestas. A criatura era o pesadelo encarnado e vê-la significava morrer. Mas também fazia os homens sonharem, por isso sabiam que deviam manter-se afastados. A atual orgia vodu ocorria, de fato, no limite daquela área amaldiçoada, daí o próprio local do culto ter talvez aterrorizado os grileiros mais do que os sons chocantes e os incidentes.

    Só a poesia ou a loucura poderiam descrever fielmente os barulhos ouvidos pelos homens de Legrasse ao avançarem pelos atoleiros negros rumo ao clarão vermelho e aos tantãs abafados. Existem sons característicos de homens e característicos de bestas, e é pavoroso escutar um quando a fonte deveria produzir o outro. A fúria animal e a licenciosidade orgiástica ali eram atiçadas a níveis demoníacos por uivos e êxtases guinchantes que reverberavam por aqueles bosques cobertos de noite como tempestades pestilenciais emanadas dos abismos do inferno. De vez em quando as ululações menos organizadas cessavam, e do que parecia um coro bem treinado de vozes roucas, elevava-se como uma ladainha aquela frase ou ritual nefando:

    “Ph’nglul’ mglw’nafh Cthulhu R’lych wgah’naglfhtagn. “

    Foi então que os homens, tendo alcançado um local onde as árvores eram mais finas, de repente avistaram o próprio espetáculo. Quatro deles cambalearam, um desfaleceu e dois emitiram um grito frenético que a louca cacofonia da orgia afortunadamente encobriu. Legrasse jogou água do pântano no rosto do homem desmaiado e todos ficaram trêmulos e quase hipnotizados de horror.

    Numa clareira natural do pântano havia uma ilha de relva com cerca de meio hectare, sem árvores e toleravelmente seca. Nela saltava e se retorcia uma indes
    critível horda de anormalidade humana, que só um Sime ou um Angarola poderiam pintar. Sem roupa alguma, aquelas criaturas híbridas zurravam, berravam e se contorciam ao redor de uma monstruosa fogueira circular, no meio da qual erguia-se, revelado por ocasionais frestas na cortina de chamas, um imponente monólito de granito com uns dois metros e meio de altura; em cima dele, numa pequenez incongruente, jazia a nefasta estatueta. De um amplo círculo de dez cadafalsos dispostos a intervalos regulares, com o monólito cingido de chamas ao centro, pendiam de ponta-cabeça os corpos atrozmente mutilados dos indefesos grileiros que haviam desaparecido. Era dentro desse círculo que a roda de adoradores pulava e rugia da esquerda para a direita numa bacanal sem fim entre o anel de cadáveres e o anel de fogo.

    Pode ter sido só imaginação, como podem ter sido apenas ecos, que induziram um dos homens, um excitável hispânico, a julgar ter ouvido respostas antifonais ao ritual, vindas de um distante e penumbroso ponto no fundo da floresta de antigas lendas e horrores. Mais tarde encontrei e interroguei esse homem, Joseph D. Galvez, que mostrou ter uma imaginação delirante; de fato, ele chegou ao extremo de sugerir ter escutado um leve rufiar de grandes asas e vislumbrado olhos fulgurantes bem como um montanhoso vulto branco além das árvores remotas mas eu suponho que ele andara assimilando muita superstição local.

    Na verdade, a pausa horrorizada dos homens foi de duração relativamente curta. O dever vinha em primeiro lugar; e embora houvesse quase cem celebrantes naquela horda, a polícia confiou em suas armas de fogo e investiu resolutamente contra a nauseante turba. Por cinco minutos o alarido e o caos resultantes foram indescritíveis. Golpes selvagens foram vibrados, tiros foram disparados e fugas ocorreram, mas no final Legrasse pôde contar uns quarenta e sete soturnos prisioneiros, os quais forçou a vestirem-se depressa e formar uma fila entre duas fileiras de policiais. Cinco dos adoradores jaziam mortos e dois gravemente feridos foram carregados em padiolas improvisadas por seus camaradas. A imagem sobre o monólito foi, é lógico, cuidadosamente removida e levada embora por Legrasse.

    Interrogados na chefatura de polícia após uma jornada tensa e extenuante, verificou-se que todos os prisioneiros eram de classe social ínfima, mestiços e mentalmente perturbados. A maioria era de marinheiros, e um magote de negros e mulatos, quase todos das índias Ocidentais ou portugueses das ilhas de Cabo Verde, dava uma tintura de vodu ao culto heterogêneo. Antes, porém, que muitas perguntas fossem feitas, ficou claro que se tratava de algo muito mais profundo e antigo do que o fetichismo negro. Degradadas e ignorantes que eram, aquelas criaturas atinham-se com surpreendente consistência à idéia central de seu credo abominável.

    Eles adoravam, segundo disseram, os Grandes Antigos, que viveram muitas eras antes da existência do homem e que chegaram ao recém-criado mundo vindos do céu. Esses Antigos haviam agora desaparecido no interior da terra e sob o mar; porém, mesmo mortos, haviam transmitido seus segredos em sonhos ao primeiro homem, que instaurou um culto que jamais morrera. Era esse o culto que professavam, e os prisioneiros afirmaram que ele sempre existira e sempre existiria, oculto em distantes locais desertos e sombrios por todo o mundo, até o tempo em que o sumo sacerdote Cthulhu, de sua escura morada na poderosa cidade de R’lyeh, sob as águas do mar, se levantasse e pusesse de novo a terra sob seu domínio. Um dia ele chamaria, quando as estrelas estivessem prontas, e o culto secreto estaria sempre à espera para libertá-lo.

    Até lá, nada mais seria dito. Havia um segredo que nem a tortura poderia extrair. A humanidade não estava de forma alguma sozinha entre os seres conscientes da terra, pois formas saíam das trevas para visitar os poucos fiéis. Mas esses não eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O ídolo esculpido representava o grande Cthulhu, mas ninguém poderia dizer se os outros eram ou não exatamente como ele. Ninguém era capaz hoje em dia de ler a antiga escrita, porém as coisas eram transmitidas por tradição oral. O cântico ritual não era o segredo – este nunca era falado em voz alta, apenas sussurrado. O cântico significava apenas isto: “Na sua casa em R’lyeh, Cthulhu morto espera sonhando”.

    Apenas dois dos prisioneiros foram considerados sãos o bastante para serem enforcados; os demais foram internados em diversas instituições. Todos negaram participação nos assassinatos rituais e asseveraram que estes haviam sido obra dos Asas Negras, que tinham vindo a eles oriundos do seu imemorial ponto de encontro na floresta assombrada. Mas desses misteriosos aliados nenhum relato coerente pôde ser obtido. A maior parte do que a polícia conseguiu averiguar veio de um mestiço fabulosamente idoso chamado Castro, que afirmava ter viajado a portos longínquos e falado com líderes imortais do culto nas montanhas da China.

    O velho Castro recordava-se de fragmentos de medonhas lendas que empalideciam as especulações dos teosofistas e faziam homem e mundo parecerem recentes e efêmeros. Houve épocas em que outros Seres dominavam a terra, e Eles haviam erigido cidades colossais. De acordo com o que os chineses imortais lhe haviam dito, vestígios desses Seres podiam ainda ser encontrados nas rochas ciclópicas em ilhas do Pacífico. Todos Eles haviam morrido muitas eras antes da chegada do homem, mas havia artes capazes de fazê-los reviver quando as estrelas retornassem às posições certas no ciclo da eternidade. Eles mesmos tinham vindo das estrelas e trazido consigo Suas imagens.

    Esses Grandes Antigos, prosseguiu Castro, não se compunham inteiramente de carne e ossos. Tinham forma – não o provava aquela imagem talhada nas estrelas? -, mas essa forma não era feita de matéria. Quando as estrelas assumiam a configuração correta, Eles podiam transportar-se de um mundo para outro pelo espaço sideral; mas quando as estrelas não eram favoráveis, Eles não podiam viver. Contudo, embora já não vivessem, Eles nunca verdadeiramente morriam. Jaziam todos em suas moradas de pedra na grande cidade de R’lyeh, preservados pelos encantamentos do poderoso Cthulhu para uma gloriosa ressurreição quando as estrelas e a terra estivessem mais uma vez prontas para Eles. Chegado esse tempo, porém, alguma força exterior precisaria liberar Seus corpos. Os encantamentos que Os preservavam intactos também Os impediam de fazer o movimento inicial, e tudo que podiam fazer era ficar despertos nas trevas e meditar, enquanto milhões de anos se escoavam. Sabiam de tudo o que acontecia no universo, pois comunicavam-se por telepatia. Mesmo naquele instante conversavam em Suas tumbas. Quando, após infindáveis eras de caos o primeiro homem surgiu, os Grandes Antigos falaram aos mais sensíveis dentre eles dando forma aos seus sonhos, pois só assim Sua linguagem conseguia alcançar as mentes carnosas dos mamíferos.

    Em seguida, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens formaram o culto ao redor de pequenos ídolos que os Grandes lhes haviam mostrado, ídolos trazidos de estrelas sombrias na noite dos tempos. Aquele culto jamais morreria até que as estrelas ficassem propícias de novo, e então os sacerdotes secretos tirariam o grande Cthulhu da Sua tumba para que Este fizesse reviver os Seus súditos e retomasse o Seu domínio sobre a terra. O tempo seria fácil de reconhecer, pois por essa época a humanidade já teria se tornado como os Grandes Antigos: livres, selvagens, além do bem e do mal, ignorando leis e preceitos morais, com todo mundo gritando, matando e farreando em meio a feroz alegria. Então os Antigos, libertados, ensinar-lhes-iam novas formas de berrar e matar e farrear com alegria desenfreada, e toda a terra se inflamaria num holocausto de êxtase e liberdade. Até lá, cabia ao culto, mediante ritos apropriados, manter viva a memória daqueles procedime
    ntos antediluvianos e prefigurar a profecia da volta d’Eles.

    Em priscas eras homens eleitos haviam falado com os sepultados Antigos em sonhos, mas então algo acontecera: a grande cidade de pedra de R’lyeh, com seus monólitos e sepulcros, afundara sob as ondas, e as águas profundas, repletas do único mistério primordial que nem o pensamento pode atravessar, haviam interrompido o intercâmbio espectral. Mas a memória nunca morreu, e os sumos sacerdotes diziam que a cidade emergiria de novo quando as estrelas se alinhassem corretamente. Então vieram das profundezas da terra os seus espíritos negros, bolorentos e trevosos, cheios de rumores ancestrais colhidos em cavernas sob esquecidos leitos oceânicos. Mas deles o velho Castro não ousou falar muito. Calou-se apressadamente, e não houve persuasão ou sutileza capaz de extrair-lhe mais informações sobre o assunto. Curiosamente, evitou também mencionar o tamanho dos Antigos. A respeito do culto, afirmou crer que sua sede ficava nos desertos inacessíveis da Arábia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intacta. Não tinha relação com os cultos de bruxaria europeus e, exceto por seus membros, era virtualmente desconhecido. Nenhum livro jamais aludiu diretamente a ele, embora os chineses imortais dissessem que havia duplos sentidos no Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred, que os iniciados poderiam interpretar como quisessem, especialmente o polêmico dístico:

    Não está morto o que pode eternamente jazer, E com estranhas eras pode até a morte morrer.

    Legrasse, bastante impressionado e não pouco estupefato, havia investigado em vão sobre as afiliações históricas do culto. Aparentemente Castro dissera a verdade ao afirmar que era totalmente secreto. As autoridades da Universidade de Tulane não puderam dar esclarecimento algum tanto a respeito do culto quanto da imagem, e agora o detetive viera consultar as maiores autoridades do país, sem nada obter além da estória da Groenlândia contada pelo professor Webb.

    O interesse febril despertado na reunião por Legrasse e sua narrativa, corroborada pela estatueta, encontra eco na subseqüente correspondência dos que estavam presentes, embora haja escassa menção ao incidente na publicação formal da sociedade. Cautela é a preocupação máxima daqueles que estão acostumados à charlatanice e impostura ocasionais. Legrasse emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas com a morte deste, foi-lhe devolvida e com ele permanecia quando a vi, não faz muito tempo. É uma coisa verdadeiramente medonha, e inequivocamente aparentada à escultura sonhada e esculpida pelo jovem Wilcox.

    Não me surpreendeu que a narrativa do escultor tivesse alvoroçado o meu tio, pois que idéias poderiam ocorrer-lhe, após saber o que Legrasse descobrira sobre o culto, ao ouvir um rapaz sensível dizer-lhe que sonhara não somente a figura e os hieróglifos exatos da imagem encontrada no pântano e do demoníaco baixo-relevo da Groenlândia, como também escutara em seus sonhos pelo menos três das palavras precisas da fórmula emitida tanto pelos diabolistas esquimós quanto pelos mestiços da Louisiana? Foi a coisa mais natural que o professor Angell iniciasse uma investigação aprofundada, ainda que eu privadamente suspeitasse que o jovem Wilcox ouvira falar do culto de maneira indireta e tivesse inventado uma série de sonhos para intensificar e manter o mistério, às custas do meu tio. As narrativas de sonhos e os recortes coletados pelo professor eram, é claro, forte corroboração; mas o meu racionalismo e a extravagância da coisa toda levaram-me a adotar o que julguei ser a conclusão mais sensata. Assim, depois de estudar detidamente o manuscrito mais uma vez e de correlacionar as anotações teosóficas e antropológicas na narrativa feita por Legrasse sobre o culto, fiz uma viagem a Providence para ver o escultor e repreendê-lo devidamente por divertir-se às custas de um homem letrado e idoso.

    Wilcox ainda vivia sozinho no edifício Fleur-de-Lys, na Rua Thomas, uma hedionda imitação vitoriana da arquitetura bretã do século xv1, que pavoneia sua fachada de estuque em meio às lindas casas coloniais na antiga colina, e à sombra do mais esplêndido campanário georgiano dos Estados Unidos. Encontrei-o trabalhando em seus aposentos, e de imediato constatei, a julgar pelas suas peças espalhadas, que seu talento era de fato profundo e original. Acredito que um dia ele será aclamado como um dos grandes decadentistas, pois cristalizou na argila e um dia refletirá no mármore os pesadelos e fantasias que Arthur Machen evoca na prosa e Clark Ashton Smith torna visível no verso e na pintura.

    Moreno, franzino e de aspecto algo desleixado, ele se voltou languidamente ao me ouvir bater à porta e, sem se levantar, perguntou-me a que vinha. Quando eu lhe disse quem eu era, ele demonstrou certo interesse; pois meu tio despertara-lhe a curiosidade ao investigar seus sonhos estranhos, embora nunca tivesse explicado a razão do seu interesse. Eu tampouco expliquei, mas procurei sutilmente fazer com que se abrisse comigo.

    Em pouco tempo fiquei convencido da sua absoluta sinceridade, pois falou nos sonhos de um modo inequívoco. Os sonhos e o resíduo subconsciente deles haviam influenciado profundamente a sua arte, e ele me mostrou uma estátua mórbida cujos contornos quase me fizeram estremecer com a força de seu poder de negra evocação. Não se lembrava de ter visto o original daquilo, exceto no seu próprio baixo-relevo onírico, mas os contornos haviam-se formado insensivelmente sob suas mãos. Era, sem dúvida, o vulto gigantesco que ele entrevira no seu delírio. Deixou claro nada saber sobre o culto secreto, salvo o que o infatigável interrogatório do meu tio deixara escapar; e de novo me esforcei por imaginar algum modo pelo qual ele pudesse ter recebido as estranhas impressões.

    Falou de seus sonhos num modo estranhamente poético, fazendo-me ver com assustadora nitidez a úmida cidade ciclópica de lodosa pedra verde (cuja geometria, ele enfatizou singularmente, estava “toda errada”) e escutar com apavorada expectativa a evocação incessante e quase mental oriunda do subterrâneo da terra: “Cthulhu fhtagn”, “Cthulhu lhtagn”.

    Essas palavras tinham feito parte daquele ritual macabro que falava do morto Cthulhu à espera, sonhando, na sua tumba de pedra em R’lyeh, e senti-me profundamente abalado, apesar do meu racionalismo. Eu tinha certeza de que Wilcox ouvira falar no culto por acaso, mas logo se esquecera dele em meio à massa de suas leituras e imaginação igualmente bizarras. Mais tarde, em virtude da impressionabilidade do moço, a lembrança achara expressão subconsciente em sonhos, no baixo-relevo e na medonha estátua que eu agora via, de modo que sua impostura sobre o meu tio fora totalmente inocente. O rapaz, ao mesmo tempo meio afetado e ligeiramente mal-educado, não era do tipo que eu jamais poderia vir a gostar; mas eu estava ao menos disposto a reconhecer tanto o seu gênio quanto a sua honestidade. Despedi-me dele amigavelmente, desejando-lhe todo o sucesso que seu talento promete.

    A questão do culto continuava a me fascinar, e às vezes eu tinha visões de fama pessoal obtida graças a pesquisas sobre sua origem e conexões. Visitei Nova Orleans, conversei com Legrasse e outros participantes da batida policial, vi a monstruosa imagem e até entrevistei alguns prisioneiros mestiços ainda vivos; o velho Castro, infelizmente, já morrera havia alguns anos. O que ouvi então, de forma tão nítida e em primeira mão, embora não fosse mais que uma confirmação detalhada daquilo que meu tio escrevera, voltou a me estimular, pois tive a certeza de estar na pista de uma religião muito real, muito secreta e muito antiga, cuja descoberta faria de mim um antropólogo de renome. Minha atitude era ainda de absoluto materialismo, como gostaria que ainda fosse, e descartei com inexplicável má vontade a coincidência entre os relatos de sonhos
    e os esquisitos recortes colecionados pelo professor Angell.

    Uma coisa que comecei a suspeitar e que agora infelizmente eu sei; é que a morte do meu tio nada teve de natural. Ele caiu de uma ladeira estreita que saía de um antigo cais repleto de mestiços estrangeiros, após um descuidado empurrão de um marinheiro negro. Não esqueci o sangue misto e atividades navais dos membros do culto na Louisiana, e não me surpreenderia se viesse a ouvir falar de métodos secretos e agulhas envenenadas tão implacáveis e antigas quanto os rituais e credos crípticos. É verdade que Legrasse e seus homens foram deixados em paz; mas na Noruega, um certo homem do mar, que viu coisas, morreu. Será que as investigações mais profundas do meu tio, após o encontro com o escultor, não poderiam ter chegado a ouvidos sinistros? Eu acho que o professor Angell morreu porque sabia demais ou estava prestes a saber demais. Se terei o mesmo fim que ele, é o que me resta saber, pois agora eu também sei demais.

    III. A LOUCURA QUE VEIO DO MAR

    Se aprouver aos céus conceder-me algum dia uma bênção, pedirei que seja o esquecimento total dos resultados do mero acaso que fixou meus olhos num certo pedaço perdido de papel que forrava uma prateleira. Não era algo com que eu normalmente tropeçaria no curso da minha rotina diária, pois tratava-se de um velho número de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. A notícia escapara até mesmo ao escritório de recortes que, na época de sua publicação, coletava avidamente material para a pesquisa do meu tio.

    Eu havia praticamente deixado de lado minhas investigações sobre o que o professor Angell chamava “Culto de Cthulhu”, e estava visitando um letrado amigo em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e renomado mineralogista. Um dia, examinando amostras de reserva colocadas desordenadamente sobre as prateleiras de uma sala nos fundos do museu, meu olhar foi atraído por uma estranha gravura num dos velhos jornais espalhados debaixo das pedras. Era o exemplar do Sydney Bulletin a que me referi, pois meu amigo tinha amplas ligações em todos os países imagináveis; e a figura era uma litografia de uma horrorosa estatueta de pedra quase idêntica à que Legrasse encontrara no pântano.

    Ansiosamente afastando da folha de jornal os preciosos espécimes minerais, estudei a notícia detalhadamente, mas fiquei desapontado ao ver que não era muito extensa. O que sugeria, no entanto, era de imensa importância para minha investigação algo desalentada, e rasguei cuidadosamente o recorte a fim de empreender ação imediata. Dizia o seguinte:

    NAVIO ABANDONADO ENCONTRADO NO MAR

    Vigilant chega rebocando iate neozelandês armado e avariado. Encontrados a bordo um sobrevivente e um morto. Estória de batalha desesperada e mortes em alto-mar. Marinheiro salvo recusa-se a dar detalhes da estranha experiência. Misterioso ídolo achado em seu poder. Será aberto Inquérito.

    O cargueiro da Morrison Co., Vigilant, proveniente de Valparaíso, atracou esta manhã no porto de Darling, trazendo a reboque o avariado e inutilizado, mas fortemente armado, iate a vapor Alert, com matrícula de Dunedin, N. Z., que fora avistado no dia 12 de abril na latitude sul 34° 21′, longitude oeste 152° 17′, com um homem vivo e um morto a bordo.

    O Vigilant deixou Valparaíso a 25 de março e, no dia 2 de abril, sua rota foi consideravelmente desviada para sul por fortíssimas tempestades e ondas monstruosas. Em 12 de abril foi avistado o barco à deriva, e embora aparentemente abandonado pela tripulação, foram encontrados a bordo um sobrevivente em estado de semi-delírio e um homem com evidências de estar morto há mais de uma semana.

    O sobrevivente agarrava um horrível ídolo de pedra de origem desconhecida e cerca de um pé de altura, a respeito de cuja natureza as autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu de College Street confessaram a mais absoluta ignorância, e que o sobrevivente afirma ter encontrado na cabina do iate, num pequeno relicário esculpido, de formato comum.

    Após recuperar a consciência, esse homem narrou uma estória excessivamente estranha de pirataria e chacina. Seu nome é Gustaf Johansen, norueguês de alguma instrução, e servira como segundo-oficial da escuna Emma, de Auckland, que zarpou de Callao a 20 de fevereiro, com tripulação de onze homens.

    A Emma, disse ele, foi retardada e largamente desviada de seu curso na direção sul pela grande tempestade de 1° de março; no dia 22 desse mês, na latitude sul 49° 51′ e longitude oeste 128° 34′, encontrou o Alert, tripulado por um esquisito e mal-encarado grupo de canacas e mestiços. Recebendo ordem peremptória de voltar, o capitão Collins recusou-se, ao que o estranho grupo abriu fogo violentamente e sem aviso sobre a escuna, com uma bateria peculiarmente pesada de canhões de bronze que faziam parte do equipamento do iate.

    Os homens da Emma reagiram, prosseguiu o sobrevivente, e embora a escuna começasse a afundar devido a tiros que a atingiram abaixo da linha de flutuação, conseguiram abordar a embarcação inimiga e lutar corpo a corpo com os selvagens sobre o convés do iate, sendo forçados a matá-los todos, o número destes sendo ligeiramente maior, por causa de seu modo feroz e desesperado, ainda que despreparado, de lutar.

    Três homens da Emma, incluindo o capitão Collins e o primeiro-oficial Green, foram mortos, e os oito restantes, sob comando do segundo-oficial Johansen, prosseguiram viagem no iate capturado, seguindo na direção original a fim de constatar se havia alguma razão para a ordem de retornar que tinham recebido.

    No dia seguinte, ao que parece, desembarcaram numa pequena ilha, embora não conste a existência de ilha alguma naquela parte do oceano. Seis homens morreram em terra, ainda que Johansen seja estranhamente reticente sobre essa parte da estória, limitando-se a afirmar que caíram num abismo rochoso.

    Parece que mais tarde ele e um companheiro voltaram ao iate e tentaram prosseguir viagem, mas foram atingidos pela tempestade do dia 2 de abril.

    A partir desse dia até seu resgate no dia 12, o homem se lembra de pouca coisa, e não se recorda sequer de quando William Briden, seu companheiro, morreu. A morte de Briden não revela causa aparente e provavelmente deveu-se a choque emocional ou exposição contínua às intempéries.

    Notícias recebidas de Dunedin informam que o Alert era bem conhecido por lá como navegador de cabotagem e que gozava de má reputação nos meios marítimos. Era de propriedade de um curioso grupo de mestiços cujas freqüentes reuniões e viagens noturnas aos bosques despertavam considerável curiosidade; zarpara com grande pressa logo depois da tempestade e dos tremores de terra de 1° de marco.

    Nosso correspondente em Auckland atribui à Emma e sua tripulação uma reputação excelente, e Johansen é descrito como homem sóbrio e valoroso.

    Amanhã o almirantado abrirá inquérito sobre o incidente, no qual serão feitos todos os esforços para induzir Johansen a falar mais do que até o momento.

    Isso era tudo, juntamente com a foto da imagem infernal; mas que sucessão de idéias desencadeou na minha mente! Aqui estavam novos tesouros de informação sobre o Culto de Cthulhu, bem como evidências de que possuía estranhos interesses no mar tanto quanto em terra. Que motivo levara a tripulação de mestiços a ordenar o retorno da Emma enquanto navegavam com aquele medonho ídolo? Qual era a ilha desconhecida onde seis membros da tripulação da Emma haviam morrido e sobre a qual o imediato Johansen guardava tanto segredo? O que haveria descoberto a investigação do almirantado e o que se saberia em Dunedin sobre aquele culto nefasto? E o mais surpreendente de tudo: que profunda e sobrenatural ligação de datas era essa que dava um significado maligno e agora inegável aos vários episódios tão cuidadosamente anotados por meu tio?

    A 1° de março (nosso 28 de fevereiro, segundo a hora do meridiano de Greenwich) haviam ocorrido o terremoto e a tempestade. De Dunedin o Alert e sua revoltante tripulação haviam zarpado ansiosamente, como se atendessem a um imperioso chamado, enquanto do outro lado da terra poetas e artistas haviam começado a sonhar com uma estranha e lodosa cidade ciclópica, e um jovem escultor moldara durante o sono a forma do temível Cthulhu. A 23 de março a tripulação da Emma desembarcava numa ilha desconhecida, deixando ali seis mortos; e na mesma data os sonhos de homens sensíveis assumiam grande nitidez e se ensombreciam com o pavor da perseguição maligna de um monstro gigantesco, ao passo que um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava repentinamente em total delírio! E o que dizer daquela tempestade de 2 de abril – data em que cessaram todos os sonhos da cidade lodosa e Wilcox emergiu incólume do cativeiro de sua estranha febre? O que dizer de tudo isso e das alusões do velho Castro sobre os Antigos, submersos filhos das estrelas cujo reinado estava próximo, do fervoroso culto que lhes era dedicado e do domínio que tenham sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando à beira de horrores cósmicos além da capacidade humana de suportá-los? Se assim fosse, deveriam ser horrores apenas da mente, pois de alguma forma o dia 2 de abril pusera fim a qualquer ameaça monstruosa que iniciara seu assédio contra a alma da humanidade.

    Naquela noite, após um dia inteiro de telegramas apressados e tomada de providências, despedi-me do meu anfitrião e embarquei num trem para São Francisco. Em menos de um mês estava em Dunedin, onde, contudo, descobri que pouco se sabia acerca dos estranhos membros do culto que haviam freqüentado as velhas tavernas do cais. A ralé do porto era comum demais para fazer jus a qualquer menção especial, embora se falasse vagamente sobre uma excursão terra adentro que aqueles mestiços haviam feito, e durante a qual tênues batidas de tambor e labaredas vermelhas nas colinas distantes tinham-se feito notar.

    Em Auckland soube que Johansen havia retornado com os cabelos loiros totalmente brancos após um interrogatório superficial e inconcludente em Sydney, e que depois vendera sua pequena casa na Rua Oeste e zarpara com a esposa para seu antigo lar em Oslo. Nem aos seus amigos quis contar sobre a sua eletrizante experiência mais do que contara aos oficiais do almirantado, e o máximo que puderam fazer foi dar-me o endereço dele em Oslo.

    Depois disso fui a Sydney e conversei sem proveito algum com marinheiros e integrantes do tribunal marítimo. Vi o Alert, agora vendido e sendo usado como cargueiro no Cais Circular, em Sydney Cove, mas nada ganhei com a visita à neutra embarcação. A imagem agachada, com sua cabeça de polvo, corpo de dragão, asas escamosas e pedestal coberto de hieróglifos era conservada no Museu de Hyde Park, e eu a estudei detidamente, constatando ser obra de rematada e artística malignidade, dotada do mesmo mistério profundo, assustadora antigüidade e estranheza alienígena de material que eu observara no espécime menor de Legrasse. O curador me contou que os geólogos consideravam-na um monstruoso enigma, pois juravam não haver no mundo rocha igual àquela. Então me lembrei, com um calafrio, do que o velho Castro dissera a Legrasse sobre os primordiais Grandes: “Tinham vindo das estrelas, trazendo consigo Suas imagens”.

    Abalado por uma revolução mental como nunca experimentara antes, resolvi visitar o imediato Johansen em Oslo. Embarcando rumo a Londres, mal cheguei lá e tomei imediatamente um navio para a capital norueguesa, onde desembarquei em um dia de outono nos bem cuidados cais à sombra do Egeberg.

    O endereço de Johansen, segundo apurei, ficava na Cidade Velha do rei Harold Haardrada, o bairro que manteve vivo o nome de Oslo durante os séculos em que a capital mascarou-se sob o nome de “Cristiânia”. Fiz o breve trajeto de táxi, e foi com o coração palpitante que bati à porta de um antigo e belo edifício com fachada de estuque. Atendeu-me uma mulher de rosto triste vestida de preto, e a decepção se abateu sobre mim quando ela me informou, num inglês trôpego, que Gustaf Johansen havia morrido.

    Ele não sobrevivera muito tempo após o seu regresso, contou-me sua viúva, pois os acontecimentos no mar em 1925 haviam-no al quebrado. Johansen não contara à esposa mais do que contara ao público, porém deixara um longo manuscrito – sobre “assuntos técnicos”, segundo disse – escrito em inglês, com o propósito evidente de salvaguardá-la do perigo de uma leitura casual. Durante um passeio por uma vi ela estreita próxima às docas de Gothenburg, fora derrubado por um pesado fardo de jornais caído da janela de um sótão. Dois marinheiros de Lascar imediatamente ajudaram-no a levantar-se, mas antes que a ambulância chegasse, ele já estava morto. Os médicos não encontraram causa específica para o óbito, atribuindo-o a problemas cardíacos e constituição debilitada.

    Senti então remoer-me as entranhas aquele obscuro terror que nunca mais me deixará até que eu também venha a repousar, “acidentalmente” ou de outra forma. Tendo persuadido a viúva de que minha ligação com os “assuntos técnicos” de seu marido davam-me direito ao manuscrito, levei o documento comigo e comecei a lê-lo no navio de volta a Londres.

    A redação era simples e sem elegância de estilo – tentativa de marinheiro ingênuo de compor um diário a posterióri – e procurava reconstituir, dia a dia, aquela última e fatídica viagem. Não há por que transcrevê-lo na íntegra com toda a sua ilegibilidade e redundâncias, mas narrarei o essencial do seu conteúdo para mostrar por que o barulho da água contra o casco do navio tornou-se tão insuportável para mim que tampei meus ouvidos com algodão.

    Johansen, graças a Deus, não sabia de tudo, mesmo tendo visto a cidade e a Coisa, mas nunca voltarei a dormir calmamente de novo ao pensar nos horrores que espreitam incessantemente a vida no tempo e no espaço, e naquelas ímpias blasfêmias oriundas de imemoriais estrelas que sonham nas profundezas do mar, conhecidas e adoradas por um culto de pesadelo pronto e ansioso por soltá-las sobre o mundo assim que outro terremoto traga de novo à tona sua monstruosa cidade de pedra.

    A viagem de Johansen havia começado exatamente como ele contou ao almirantado. A escuna Emma, com lastro, deixara Auckland a 20 de fevereiro, e sentira toda a força da tempestade causada pelo terremoto que deve ter feito emergir os horrores que preencheram os sonhos de tantos homens. Recuperado o controle da embarcação, esta prosseguia normalmente quando foi abordada pelo Alert a 22 de março, e pude sentir a tristeza do imediato ao descrever o bombardeio e afundamento do seu barco. Dos satanistas trigueiros do Alert ele fala com significativo horror. Havia neles algo de peculiarmente abominável que fazia com que a sua destruição parecesse quase um dever, e Johansen demonstra ingênua surpresa frente à acusação de desumanidade levantada contra o seu grupo durante os trabalhos da corte de inquérito. Então, levados adiante pela curiosidade no iate capturado, sob o comando de Johansen, os homens avistaram uma enorme coluna de pedra que se projetava fora do mar, e na latitude sul 47° 9′ e longitude oeste 126° 43′, deram com um litoral de lama, lodo e alvenaria ciclópica coberta de musgo que não podia ser outra coisa senão a substância tangível do supremo terror do planeta – a cadavérica cidade-pesadelo de R’lyeh, construída há incontáveis eras antes da História pelos gigantescos e nefastos vultos procedentes das estrelas sem luz. Ali jaziam o grande Cthulhu e suas hordas, ocultos em verdes criptas lodosas de onde finalmente, após ciclos incalculáveis, emitiam os pensamentos que infundem medo nos sonhos dos sensíveis e conclamam imperiosamente os fiéis a uma peregrinação de libertação e restauração. Johansen nada suspeitava sobre isso, mas Deus sabe que ele logo veria o bastante!

    Suponho que apenas o cume de uma montanha, a revoltante cidadela coroada por um monólito, onde estava sepultado o grande Cthulhu, emergiu verdadeiramente das águas. Quando penso na extensão de tudo o que pode estar à espreita lá embaixo, quase tenho vontade de me matar de uma vez. Johansen e seus homens estavam boquiabertos perante a cósmica majestade daquela gotejante Babilônia de demônios ancestrais, e devem ter adivinhado, sem maior orientação, que não se tratava de nada proveniente deste ou de qualquer planeta são. Perplexo temor diante do incrível tamanho dos blocos de pedra esverdeados, da estonteante altura do grande monólito esculpido e da assombrosa identidade entre as colossais estátuas e baixos-relevos e a esdrúxula imagem encontrada no relicário do Alert, é flagrante em cada linha da assustada descrição do imediato.

    Sem ter qualquer noção da escola artística a que se dá o nome de futurismo, Johansen chegou a algo muito próximo quando falou sobre a cidade; pois, ao invés de descrever qualquer estrutura ou edifício definidos, ele se refere apenas às amplas impressões de vastos ângulos e superfícies de pedra superfícies grandes demais para pertencer a qualquer coisa correta ou apropriada nesta terra, e ímpias com aquelas horríveis imagens e hieróglifos. Menciono a alusão dele a ângulos porque sugere algo que Wilcox me dissera sobre seus arrepiantes sonhos; ele havia dito que a geometria do local do sonho era anormal, não-euclidiana, e perturbadoramente repleta de esferas e dimensões alheias às nossas. Agora um marujo iletrado sentia a mesma coisa encarando a terrível realidade.

    Johansen e seus homens desembarcaram numa lamacenta encosta daquela monstruosa acrópole, e galgaram com dificuldade os titânicos blocos escorregadios que não poderiam ser uma escada para mortais. No céu, o próprio sol parecia distorcido quando visto através do miasma polarizador que subia daquela perversão encharcada de mar, e uma serpenteante ameaça e suspense pareciam espreitar de soslaio naqueles insanamente ilusórios ângulos de rocha talhada, onde um segundo olhar mostrava concavidade após o primeiro ter mostrado convexidade.

    Algo muito próximo ao pavor já sobreviera a todos os exploradores antes que coisa mais definida do que pedra, lodo e algas fosse vista. Cada um deles teria fugido se não temesse a zombaria dos demais, e foi com entusiasmo mínimo que procuraram – em vão, como se veria – alguma pequena lembrança para levar consigo.

    Foi Rodrigues, o português, que galgou o pé do monólito e gritou o que havia encontrado. Os demais seguiram-no e olharam cheios de curiosidade a imensa porta esculpida com o já familiar baixo relevo da lula-dragão. Segundo Johansen, era como uma enorme porta de celeiro; e todos julgaram ser uma porta devido ao dintel, umbral e batente ornamentados em volta, embora não conseguissem determinar se era plana como um alçapão ou oblíqua como uma porta externa de porão. Como Wilcox diria, a geometria daquele lugar era toda errada. Não se podia ter certeza de que o mar e a terra fossem horizontais, daí a posição relativa de tudo o mais parecer fantasmagoricamente variável.

    Briden empurrou a pedra em diversos lugares, sem resultado. Em seguida Donovan tateou delicadamente as beiradas, pressionando cada ponto em separado. Escalou interminavelmente a grotesca cornija de pedra – isto é, diríamos “escalar” se a coisa não fosse mesmo horizontal – enquanto os homens se perguntavam, atônitos, corno alguma porta no universo poderia ser tão vasta. Então, muito devagar e suavemente, o painel de meio hectare de extensão pôs-se a ceder para dentro na parte de cima, ao que puderam constatar que estava equilibrada.

    Donovan deslizou ou de alguma forma propulsou-se para baixo ou ao longo do batente e veio juntar-se aos companheiros, e todos assistiram à estranha recessão do portal monstruosamente esculpido. Naquela fantasia de distorção prismática, ele se movia anomalamente em sentido diagonal, subvertendo todas as regras da matéria e da perspectiva.

    A abertura era negra, de uma escuridão quase palpável. Aquela tenebrosidade tinha, com efeito, uma qualidade positiva, pois escurecia partes das paredes internas que deveriam estar claras, e na verdade se evolava como fumaça de seu imemorial aprisionamento, visivelmente eclipsando o sol à medida em que se esquivava pelo céu encolhido e convexo com esvoaçantes asas membranosas. O fedor que subiu das recém-abertas profundezas era insuportável, e logo depois Hawkins, que tinha ouvido apurado, julgou captar um asqueroso chapinhar vindo lá de baixo. Todos ficaram atentos, e continuavam atentos quando Aquilo assomou babosamente à vista e, às apalpadelas, espremeu Sua gelatinosa imensidão verde através da passagem negra para fora, ganhando o ar contaminado daquela peçonhenta cidade de loucura.

    A caligrafia do pobre Johansen quase cedeu ao escrever essa parte. Dos seis homens que não voltaram ao navio, ele acha que dois morreram de puro pavor naquele instante amaldiçoado. A Coisa não pode ser descrita – não existem palavras capazes de expressar tais abismos de loucura estridente e imemorial, tais contradições alienígenas de toda matéria, força e harmonia cósmica. Uma montanha caminhava, ou cambaleava! Deus! Não admira que do outro lado da terra um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telepático! A Criatura dos ídolos, o verde e pegajoso rebento das estrelas, despertara para reclamar o que era seu. As estrelas estavam novamente alinhadas, e o que um culto milenar falhara em fazer por fé, um bando de marinheiros inocentes fizera por acaso. Após trilhões de anos, o grande Cthulhu estava solto mais uma vez, e ávido de prazer.

    Três homens foram varridos pelas flácidas garras antes que alguém pudesse se voltar para fugir. Que descansem em paz, se é que há algum descanso no universo. Foram eles Donovan, Guerrera e Angstrom. Parker escorregou enquanto os outros três disparavam freneticamente sobre panoramas intermináveis de rocha esverdeada rumo ao bote, e Johansen jura que ele foi tragado por um ângulo de alvenaria que não devia estar lá, um ângulo que, sendo agudo, comportava-se como se fosse obtuso. De modo que somente Briden e Johansen alcançaram o bote, e remaram desesperadamente para o Alert enquanto a montanhosa monstruosidade descia desajeitadamente pelas pedras limosas e hesitava, cambaleante, à beira d’água.

    O vapor continuava a sair do iate a despeito da saída de todos os homens para a praia, portanto bastou alguns momentos de febril corre-corre entre rodas e motores para fazer o Alert partir. Lentamente, em meio aos horrores distorcidos daquele indescritível e infernal cenário, o iate começou a singrar as águas mortíferas, enquanto sobre as pedras lavradas daquela praia sepulcral que não pertencia a este planeta, a Coisa titânica vinda das estrelas espumava e vozeava como Polifemo praguejando contra o navio de Odisseu em fuga. Então, mais ousado que o lendário ciclope, o grande Cthulhu deslizou oleosamente para dentro d’água e começou a perseguir o iate, erguendo ondas com suas braçadas de potência cósmica. Briden olhou para trás e enlouqueceu, com ocasionais acessos de riso, até que a morte foi encontrá-lo certa noite na cabina, enquanto Johansen errava pelo convés a delirar.

    Mas Johansen ainda não se rendera. Sabendo que a Coisa alcançaria facilmente o Alert antes que o vapor atingisse a pressão máxima, optou por uma saída desesperada: regulando o motor para velocidade total, correu como um raio ao convés e reverteu o timão. O mar cobriu-se de remoinhos e espuma, e enquanto o vapor subia cada vez mais, o valente norueguês dirigiu a nave contra a abominação gelatinosa que o perseguia erguendo-se das imundas ondas espumantes como o castelo de popa de um galeão demoníaco. A medonha cabeça de polvo com tentáculos retorcendo-se chegava quase à altura do gurupés do resoluto iate, mas Johansen prosseguiu inabalavelmente.

    Houve um estouro como o de uma bexiga rebentando, o derrame de uma nojeira lamacenta como a que jorra de um peixe-lua partido, um fedor como de mil sepulturas abrindo-se de chofre e um som que o cronista negou-se a registrar. Por um instante o barco foi emporcalhado por uma nuvem verde, acre e cegante, e logo depois havia apenas um empeçonhado fervilhar à ré, onde – Deus do Céu! a espalhada plasticidade daquele inominável rebento sideral estava nebulosamente recompondo-se na sua execrável forma original, distanciando-se cada vez mais à medida em que o Alert ganhava velocidade de seu vapor ascendente.

    Isso foi tudo. Depois disso Johansen limitou-se a contemplar o ídolo na cabina e a providenciar comida para si e para o maníaco risonho do seu lado. Não tentou navegar depois daquela façanha, pois a experiência como que lhe esvaziara a alma. Sobreveio então a tempestade de 2 de abril e uma concentração de nuvens que lhe obscureceram a consciência. Teve uma sensação de turbilhão espectral por líquidos golfos de infinito, de Jornadas estupefacientes através de universos giratórios numa cauda de cometa, e de mergulhos histéricos das profundezas do inferno até a lua e da lua de volta às profundezas do inferno, tudo isso animado por um coro gargalhante dos deuses ancestrais, disformes e hilários, e dos zombeteiros demônios do Tártaro, verdes e com asas de morcego.

    Saído desse sonho veio o socorro – o Vigilant, a corte do almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta ao lar, à velha casa às margens do Egeberg. Não podia falar nada – tê-lo-iam julgado louco. Ele haveria de escrever o que sabia antes que a morte chegasse, mas era necessário que sua esposa de nada desconfiasse. A morte viria como uma bênção se ao menos obliterasse as lembranças.

    Esse foi o documento que eu li, e que então coloquei na caixa de metal junto com o baixo-relevo e os papéis do professor Angell. A eles acrescentarei este meu relato -prova da minha sanidade, no qual reuni as peças de algo que, espero, nunca mais ninguém volte a decifrar. Vi tudo o que o universo pode conter de horror, e depois disso até mesmo os céus primaveris e as flores de verão serão veneno para mim. Mas não creio que minha vida será longa. Como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, também eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.

    Cthulhu também vive ainda, acredito, naquele precipício de pedra que o vem abrigando desde a infância do sol. Sua amaldiçoada cidade tornou a afundar, pois o Vigilant percorreu aquela região após a tempestade de abril; mas seus adoradores na terra ainda urram, saltam e matam ao redor de ídolos sobre monólitos em locais ermos e solitários.

    Ele deve ter sido surpreendido pelo afundamento quando se achava no seu abismo negro, do contrário o mundo inteiro estaria agora berrando de pavor e frenesi. Quem sabe qual será o final? O que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugnância suprema aguarda sonhando nas profundezas e a podridão paira sobre as precárias cidades dos homens. O tempo virá… mas não devo, nem posso pensar! Só me resta a esperança de que, se eu não sobreviver a este manuscrito, meus testamenteiros tenham mais precaução que audácia e impeçam que outros olhos o vejam.

    H.P. Lovecraft | O Horror de Dunwich

    Górgonas, Hidras e Quimeras – horrendas histórias de Celainó e das Hárpias – podem-se reproduzir no âmago das superstições – mas já estavam lá antes. São transcrições, tipos – os arquétipos estão dentro de nós, eternos. Do contrário, como poderia afetar-nos a narração daquilo que sabemos ser falso quando lúcidos? Será que naturalmente concebemos o terror a partir de tais objetos, considerados em sua capacidade de nos causar danos físicos? Ora, não se trata disso! Esses terrores são de tempos mais antigos. Datam do além-corpo – ou, sem o corpo, teriam sido os mesmos… Que o tipo de medo aqui tratado é puramente espiritual – que é forte em proporção a sua falta de objetivo na Terra, que predomina no período de nossa infância inocente – são dificuldades cuja solução pode proporcionar alguma provável introvisão de nossa condição ante-mundana e, pelo menos, um vislumbre da zona de sombras da pré­existência.

    CHARLES LAMB: Witches and other night-fears (Bruxas e outros temores-noturnos)

    1

    QUANDO ALGUÉM QUE viaja pelo centro-norte de Massachussets pega o caminho errado no cruzamento da rodovia de Aylesbury logo após passar por Dean’s Corners, depara-se com uma região isolada e curiosa. O relevo torna-se mais montanhoso e os paredões de pedras cobertos por roseiras-bravas estreitam cada vez mais a estrada sinuosa e poeirenta. As árvores das numerosas matas parecem grandes demais, e as ervas daninhas, as amoreiras silvestres e o capim atingem uma exuberância raramente encontrada em regiões povoadas. Ao mesmo tempo, há poucos e improdutivos campos cultivados e somente algumas casas esparsas, que se revestem de um surpreendente aspecto uniforme de antigüidade, imundície e ruína. Sem saber por que, hesitamos em pedir informações às enrugadas e solitárias figuras entrevistas, uma vez ou outra, nas soleiras das portas caindo aos pedaços ou nas campinas em declive cobertas de pedras. Essas figuras são tão silenciosas e furtivas que temos uma certa sensação de estarmos confrontando-nos com coisas proibidas, com as quais seria melhor não termos a menor ligação. Quando um aclive na estrada traz à vista as montanhas por sobre a mata densa, aumenta a sensação de estranha inquietude. Os cumes são arredondados e simétricos demais para suscitar conforto e naturalidade, e, às vezes, o céu delineia com especial clareza os bizarros círculos de altos pilares de pedra com os quais a maioria deles é coroada.

    Desfiladeiros e ravinas de uma profundidade extraordinária interceptam o caminho, e as grosseiras pontes de madeira não inspiram muita segurança. Na próxima descida da estrada, há trechos pantanosos que, instintivamente, causam repulsa e até certo medo quando, ao entardecer, chilram curiangos escondidos e os vaga-lumes surgem numa profusão anormal para dançar ao ritmo insistente do coaxo roufenho, horripilante e estridente das rãs-touros-gigantes. O curso estreito e brilhante das áreas mais altas do rio Miskatonic sugere uma estranha semelhança com uma serpente ao enredar-se próximo às bases das colinas arredondadas entre as quais nasce.

    Conforme as colinas vão ficando mais próximas, prestamos mais atenção às suas encostas arborizadas que aos topos coroados de pedras. Essas encostas assomam-se tão obscuras e íngremes que desejaríamos que se mantivessem afastadas, mas não há outra estrada por onde possamos evitá-las. Do outro lado de uma ponte coberta, vemos um pequeno povoado comprimido entre o riacho e a ladeira vertical da Montanha Redonda e imaginamos que o conjunto de apodrecidos telhados à holandesa revelam um período arquitetônico mais antigo que o da região vizinha. Não é nada animador, observando mais atentamente, que a maioria das casas estão abandonadas e caindo aos pedaços e que a igreja, com o campanário quebrado, abriga agora o único e desmazelado estabelecimento comercial da aldeia. Apavoramo-nos ao ter que passar pelo tenebroso túnel da ponte, contudo não há como evitá-lo. Uma vez transposto, não é raro sentirmos um leve e maligno odor na rua do povoado, que acumula o mofo e a decadência de séculos. É sempre um alívio sair desse lugar e seguir pela estrada estreita que circunda a base das colinas e cruza a planície até se unir novamente à rodovia de Aylesbury. Depois de algum tempo, às vezes nos damos conta de que passamos por Dunwich.

    Pessoas de fora visitam Dunwich com muito pouca freqüência, e, desde uma certa temporada de horror, todas as placas que indicavam sua direção foram retiradas. O cenário, julgado por qualquer cânon estético comum, excede em beleza, e, no entanto, não há afluência de artistas nem de turistas de verão. Há dois séculos, quando ninguém ria ao se falar de bruxaria, adoração de Satanás e presenças estranhas nas florestas, era de costume explicar a razão de se estar evitando a localidade. Em nossa era racional -desde que o horror de Dunwich de 1928 foi silenciado por aqueles que se sensibilizaram pelo bem-estar da cidade e do mundo- as pessoas afastam-se dela sem saber exatamente por quê. Talvez isso se deva ao fato – embora não possa ser aplicado a estranhos desavisados – de que os habitantes locais estejam agora numa fase de decadência repugnante e muito superior aquele nível de atraso tão comum nos confins da Nova Inglaterra. Eles acabaram por formar uma raça própria, com características mentais e físicas bem definidas de degeneração e endogamia. Sua inteligência média é lamentavelmente baixa, ao mesmo tempo que seus anais exalam a podridão de uma imoralidade patente e de assassinatos, incestos e atos de quase inominável violência e perversidade mais ou menos encobertos. A velha aristocracia, representada pelas duas ou três famílias nobres que vieram de Salem em 1692, mantiveram-se um pouco acima do nível geral de decadência; embora muitos ramos misturaram-se tão profundamente à massa sórdida que somente seus nomes permanecem como um indicativo da origem que desonram. Alguns dos Whateley e Bishop ainda mandam seus filhos mais velhos para Harvard e Miskatonic, embora estes raramente retornem aos arruinados telhados à holandesa sob os quais eles e seus ancestrais nasceram.

    Ninguém, nem mesmo aqueles que conhecem os fatos relacionados ao recente horror, podem dizer com clareza o que há de errado com Dunwich, embora velhas lendas falem de ritos profanos e conclaves de índios, nos quais eram invocadas formas proibidas de sombra que saíam das grandes colinas arredondadas, e eram feitas preces orgiásticas respondidas por altas crepitações e estrondos provenientes do solo abaixo. Em 1747, o Reverendo Abijah Hoadley, recém-chegado à Igreja Congregacional do Povoado de Dunwich, pregou um sermão memorável sobre a presença próxima de Satanás e seus diabretes, no qual disse:

    Não se pode negar que essas Blasfêmias de um infernal Cortejo de Demônios são assuntos de Conhecimento muito comum para serem negadas; as vozes amaldiçoadas de Azazel e Buzrael, de Belzebu e Belial que provêem do subsolo, foram ouvidas por mais de Vinte Testemunhas confiáveis e que ainda estão vivas. Eu mesmo, menos de Duas Semanas atrás, ouvi um Discurso muito claro de Forças malignas na Colina atrás da minha casa; onde havia uma Algazarra e Agitação, uns Gemidos, Berros e Silvos, que nenhuma Coisa desta Terra poderia provocar e que, com certeza, vinham daquelas Cavernas, que somente a Magia Negra pode descobrir e somente o Diabo revelar.

    O Sr. Hoadley desapareceu logo após proferir esse sermão, mas o texto, impresso em Springfield, ainda existe. Ruídos nas colinas continuaram a ser relatados ano a ano e ainda formam um quebra-cabeças para geólogos e fisiógrafos.

    Outras tradições falam de fétidos odores perto dos círculos de pilares de pedras que coroam as colinas e de presenças etéreas impetuosas, que são ouvidas debilmente a certas horas e em pontos fixos na base das grandes ravinas, enquanto ainda outras tentam explicar o Campo do Demo – uma encosta árida e amaldiçoada onde não cresce nenhuma árvore, arbusto ou capim. Além disso, os habitantes locais têm um medo mortal dos numerosos curiangos que cantam mais alto nas noites quentes. Juram que os pássaros são psicopompos à espera das almas dos moribundos e que emitem seus gritos sinistros em uníssono com a respiração ofegante do sofredor. Se conseguem agarrar a alma fugitiva quando deixa o corpo, eles rapidamente se alvoroçam chilreando numa risada demoníaca, mas, se falham, caem pouco a pouco num silêncio desapontado.

    É claro que essas histórias são obsoletas e ridículas, pois são transmitidas desde tempos muito antigos. Dunwich é, de fato, um povoado absurdamente velho – bem mais velho do que qualquer uma das comunidades num raio de 50 quilômetros. Ao sul, podemos avistar as paredes do porão e a chaminé da antiga casa dos Bishop, que foi construída antes de 1700, ao passo que as ruínas do moinho da cachoeira, construído em 1806, constituem-se na peça arquitetônica mais moderna visível. A indústria não floreceu em Dunwich, e o movimento fabril do século XIX não resistiu muito tempo. Mais velhos de todos são as grandes circunferências de colunas de pedra desbastadas dos topos das colinas, mas elas são mais atribuídas aos índios que aos colonizadores. Depósitos de caveiras e ossos, encontrados dentro desses círculos e ao redor da enorme pedra em forma de mesa na Colina Sentinela, sustentam a crença popular de que tais locais já foram cemitérios dos Pocumtucks; ainda que muitos etnólogos, menosprezando a absurda improbabilidade de tal teoria, persistem acreditando tratar-se de restos caucásicos.

    Foi no distrito de Dunwich, numa grande e em parte desabitada sede de um sítio localizada na encosta de uma colina a cerca de seis quilômetros e meio do povoado e dois quilômetros e meio de qualquer outra residência, onde nasceu Wilbur Whateley, às 5 horas da manhã do domingo, dia dois de fevereiro de 1913. Essa data era relembrada porque era o dia de Nossa Senhora da Candelária, que os habitantes de Dunwich curiosamente celebram com outro nome, e porque foram ouvidos os ruídos nas colinas e todos os cães das redondezas latiram persistentemente durante toda a noite anterior. Menos digno de nota era o fato de que a mãe fazia parte do ramo decadente dos Whateley, uma mulher albina de 35 anos um tanto deformada e nada atraente, que morava com um pai idoso e meio louco de quem, em sua juventude, correram rumores sobre as mais assustadoras histórias de bruxarias. Lavinia Whateley não tinha marido conhecido, mas, de acordo com o costume da região, não fez nenhuma tentativa de rejeitar a criança; no que diz respeito ao outro lado da linhagem, os camponeses puderam especular, e assim o fizeram de todas as maneiras cabíveis. A mãe, pelo contrário, parecia estranhamente orgulhosa dessa criança escura e semelhante a um bode, que contrastava muito com seu doentio albinismo de olhos cor-de-rosa, e costumava sussurrar muitas profecias curiosas sobre seus puderes incomuns e seu futuro brilhante.

    Lavinia era bem capaz de mencionar tais coisas, já que era uma criatura solitária e dada a vagar em meio a tempestades nas colinas, tentando ler os grandes livros malcheirosos que seu pai herdara através de dois séculos de existência dos Whateley e que estavam-se desmantelando com o tempo e com os buracos de traça. Nunca fora à escola, mas se alimentava de fragmentos desconexos de sabedoria antiga que o Velho Whateley lhe havia ensinado. A remota sede sempre fora temida devido à reputação do Velho Whateley de ser praticante de magia negra, e a inexplicada morte violenta da Sra. Whateley, quando Lavinia tinha doze anos, não havia ajudado a tornar o local popular. Isolada em meio a estranhas influências, Lavinia apreciava os devaneios selvagens e grandiosos e as ocupações singulares; em seu tempo livre, não se dedicava muito aos cuidados da casa, de onde todos os padrões de ordem e limpeza haviam desaparecido há muito tempo.

    Houve um grito horrível que ecoou até por sobre os ruídos das colinas e os latidos dos cães na noite em que Wilbur nasceu, mas nenhum médico ou parteira conhecidos fizeram seu parto. Os vizinhos não sabiam nada dele até uma semana depois, quando o Velho Whateley conduziu seu trenó pela neve até o Povoado de Dunwich e disse umas palavras incoerentes para o pessoal da venda do Osborn. Parecia haver uma mudança no velho – um novo elemento de dissimulação em seu cérebro enevoado que subitamente o transformou de objeto em sujeito do medo – embora não costumasse ser perturbado por nenhum acontecimento familiar corriqueiro. Em meio a tudo isso, mostrou um certo orgulho, que pôde também ser notado em sua filha posteriormente, e o que ele disse sobre a paternidade da criança foi lembrado anos depois por muitos daqueles que o ouviram.

    – Num quero sabê o que o povo fala; se o fio da Lavinny paricesse com o pai, não ia parecê com nada conhecido. Oceis acha que só tem gente iguar que a gente daqui. A Lavinny já leu e viu umas coisa que a maioria d’oceis só sabe falá. Eu acho que o home dela é dos mió qu’oceis pode encontrá desse lado de Aylesbury; e se oceis conhecesse das montanha como eu, num ia pedi mió casamento na igreja do que o dela. Vô falá uma coisa pr’oceis – um dia oceis vai ouvi um fio da Lavinny chamá o nome do pai no ar to da Colina Sentinela!

    As únicas pessoas que viram Wilbur durante o primeiro mês de sua vida foram o velho Zechariah Whateley, dos Whateley não decadentes, e Mamie Bishop, a companheira de Earl Sawyer. A visita de Mamie foi mesmo por curiosidade, e as histórias contadas por ela depois fizeram justiça a suas observações; mas foi então que Zechariah levou duas vacas leiteiras da raça Alderney que o Velho Whateley havia comprado de seu filho Curtis. Isso marcou o começo de uma seqüência de compras de gado da parte da família do pequeno Wilbur que só terminou em 1928, ano em que se deu o horror de Dunwich; no entanto, o estábulo em ruínas dos Whateley em nenhum momento pareceu estar superlotado de gado. Houve uma época em que as pessoas ficaram curiosas a ponto de subir às escondidas para contar o rebanho, que pastava precariamente na encosta íngreme acima da velha sede, mas nunca conseguiram encontrar mais do que dez ou doze animais anêmicos e exangues. Era evidente que alguma praga ou doença, talvez disseminada através da pastagem insalubre ou do madeiramento e dos fungos contaminados do estábulo imundo, estava causando um alto índice de mortalidade no gado do Whateley. Feridas ou chagas esquisitas, algo semelhantes a incisões, pareciam afligir o gado que se encontrava à vista; e uma ou duas vezes, durante os primeiros meses de vida do menino, alguns visitantes sugeriram ter reconhecido chagas similares nos pescoços do velho grisalho barbado e de sua desleixada filha albina de cabelo crespo.

    Na primavera após o nascimento de Wilbur, Lavinia retomou suas costumeiras perambulações pelas colinas, carregando em seus braços desproporcionais a criança morena. O interesse popular pelos Whateley diminuiu depois que a maioria dos camponeses já havia visto o bebê, e ninguém se preocupou em comentar sobre o acelerado desenvolvimento que aquele recém-nascido parecia exibir todos os dias. O crescimento de Wilbur era de fato impressionante, visto que, num prazo de três meses de seu nascimento, havia atingido um tamanho e força muscular incomuns para crianças com menos de um ano completo. Seus movimentos e até mesmo seus sons vocais mostravam prudência e decisão muito peculiares para uma criança, e ninguém estranhou quando, aos sete meses, começou a andar sem ajuda, com pequenos tropeços que desapareceriam no próximo mês.

    Pouco tempo depois – no Halloween – uma grande fogueira foi vista à meia-noite no cume da Colina Sentinela, onde está a velha pedra em forma de mesa entre seu túmulo de ossos antigos. Surgiram muitos comentários quando Silas Bishop – dos Bishop não decadentes – mencionou ter visto o menino subindo correndo com muita rapidez a montanha à frente de sua mãe cerca de uma hora antes de as chamas serem notadas. Silas estava arrebanhando uma novilha desgarrada, mas quase esqueceu sua missão quando avistou, de relance, a presença das duas figuras iluminadas parcialmente por sua lanterna. Elas dispararam a correr pelo mato rasteiro quase sem fazer barulho, e o pasmado observador parecia acreditar que estavam inteiramente nuas. Mais tarde, já não podia ter certeza com respeito ao menino, que poderia estar vestido com um tipo de cinto de franjas e com uma bermuda ou calças escuras. Wilbur nunca mais foi visto, vivo e consciente, sem um traje completo e muito bem abotoado, pois o desalinho ou iminente desalinho deste sempre parecia enfurecê-lo e alarmá-lo. Seu contraste com a esquálida mãe e o avô a este respeito era um fato muito observado até que o horror de 1928 sugeriu a mais válida das razões.

    No mês de janeiro seguinte, houve apenas alguns boatos sobre o fato de que “o moleque negro da Lavinny” havia começado a falar com somente onze meses. Seu modo de falar era algo notável tanto por ser diferente do sotaque comum à região quanto por não apresentar aquele balbucio infantil de que muitas crianças de três ou quatro anos podem muito bem se orgulhar. O menino não era falador, entretanto, quando falava, parecia expressar algum elemento indefinível e totalmente alheio a Dunwich e seus habitantes. A estranheza não estava no que ele dizia, ou nas simples expressões que ele usava, mas parecia vagamente ligada a sua entonação ou aos órgãos internos que produziam os sons pronunciados. Também seu aspecto facial era notável pela maturidade; embora apresentasse a mesma ausência de queixo da mãe e do avô, seu nariz firme e precocemente modelado, aliado à expressão dos grandes, escuros e quase latinos olhos, davam-lhe um certo ar adulto e uma inteligência fora do comum. Era, contudo, extremamente feio apesar de sua aparência brilhante; havia algo quase caprino ou animalesco em seus lábios grossos, na pele amarelada e de poros grandes, nos cabelos crespos e grossos e nas orelhas estranhamente alongadas. Logo, tornou-se decididamente ainda menos apreciado do que sua mãe e seu avô, e todas as suposições sobre ele eram pinceladas com referências à antiga magia do Velho Whateley e a como as colinas certa vez tremeram quando ele gritou o terrível nome de Yog-Sothoth no meio de um círculo de pedras segurando um enorme livro aberto a sua frente. Os cães detestavam o menino, e ele era sempre obrigado a tomar várias medidas defensivas contra seus latidos ameaçadores.

    Nesse ínterim, o Velho Whateley continuou a comprar gado sem que se percebesse qualquer aumento em seu rebanho. Ele também cortou madeira e começou a consertar as partes sem uso de sua casa – uma construção espaçosa, de telhado pontiagudo, cuja parte de trás estava inteiramente encravada na ladeira rochosa da colina, e cujos três cômodos térreos menos arruinados haviam sempre sido suficientes para ele e sua filha. O velho devia ainda ser muito forte para conseguir realizar tanto trabalho pesado; e, embora ainda balbuciasse coisas de modo demente algumas vezes, sua carpintaria parecia demonstrar resultados de cálculos precisos. Ele começou as obras assim que Wilbur nasceu, pondo logo um dos muitos barracões de ferramentas em ordem, revestindo-o com ripas e equipando-o com uma fechadura nova e resistente. No que se refere à reforma da abandonada parte de cima da casa, foi um artífice não menos cuidadoso. Sua obsessão mostrava-se somente em seu preciso fechamento com madeira de todas as janelas da parte em reparos – embora muitos declarassem que era uma loucura incomodar-se com a reforma em geral. Menos inexplicáveis foram as instalações de outro quarto térreo para seu novo neto – um quarto que diversos visitantes viram, embora ninguém nunca fosse admitido na completamente fechada parte de cima. Nesse aposento, ele colocou estantes altas e firmes, nas quais começou a organizar, numa ordem aparentemente cuidadosa, todos os carcomidos livros antigos e partes de livros que até então ficavam amontoados desordenadamente pelos cantos dos vários cômodos.

    – Eu usei um pouco eles – disse ao tentar remendar uma página rasgada, escrita em letra gótica, com cola preparada no enferrujado fogão da cozinha – mais o menino é que vai usá eles mais. É mió ele guardá eles direitim porque eles vai sê útir pr’ele aprendê.

    Quando Wilbur tinha um ano e sete meses – em setembro de 1914 – seu tamanho e habilidades eram quase alarmantes. Tinha a estatura de uma criança de quatro anos e falava de modo fluente e com uma inteligência incrível. Corria livremente pelos campos e colinas e acompanhava sua mãe em todas as suas perambulações. Em casa, estudava cuidadosamente as esquisitas figuras e gráficos dos livros de seu avô, enquanto o Velho Whateley instruía-o e catequisava-o por longas e silenciosas tardes. Nessa época, a reforma da casa havia terminado, e aqueles que a observavam ficavam imaginando por que uma das janelas superiores havia sido transformada numa sólida porta de madeira. Era uma janela na parte de trás da empena do lado leste, encostada na colina; e ninguém podia imaginar por que uma rampa de madeira foi construída desde o chão e presa nela. Por volta do período de término dessa obra, as pessoas notaram que a velha casa das ferramentas, hermeticamente fechada e com as janelas revestidas por ripas de madeira desde o nascimento de Wilbur, havia sido abandonada de novo. A porta ficava descuidadamente aberta e, assim que Earl Sawyer entrou ali depois de uma visita para a venda de gado ao Velho Whateley, ficou um tanto perturbado com o odor singular com o qual se deparou – esse mau cheiro, afirmou, que ele nunca havia sentido antes em toda a sua vida, exceto perto dos círculos indígenas nas colinas, e que não poderia provir de nada são ou desta Terra. Mas até aí, os lares e barracões do povo de Dunwich nunca foram notáveis pela imaculabilidade olfativa.

    Nos meses seguintes, não houve nenhum acontecimento digno de nota, com exceção de que todos constataram um lento mas constante aumento nos misteriosos ruídos nas colinas. Na Véspera de Maio de 1915, houve tremores que até mesmo os moradores de Aylesbury sentiram, enquanto que o Halloween daquele ano produziu um estrondo no subsolo, sincronizado, de forma bizarra, com rajadas de chamas – “é as bruxaria dos Whateley” – provenientes do cume da Colina Sentinela. O modo como Wilbur crescia era tão estranho que parecia um menino de dez anos quando acabara de completar três. Lia sozinho e sem nenhuma dificuldade; mas falava muito menos que antes. Uma taciturnidade profunda estava absorvendo-o, e, pela primeira vez, as pessoas começaram a falar especificamente de um certo semblante de maldade em seu rosto caprino. Às vezes, balbuciava em uma linguagem desconhecida e cantava em ritmos bizarros que assustavam o ouvinte, provocando-lhe uma sensação de inexplicável terror. A aversão dos cães por ele tornara-se então assunto para extensos comentários, e ele era obrigado a carregar uma pistola para atravessar o campo em segurança. Os usos ocasionais da arma não aumentaram sua popularidade entre os donos de cães de guarda.

    Os poucos que visitavam a casa encontravam Lavinia freqüentemente sozinha no térreo, enquanto gritos estranhos e passos ressoavam na lacrada parte de cima. Ela nunca contava o que seu pai e o menino faziam lá em cima, embora uma vez tenha empalidecido e ficado muito apavorada quando um vendedor de peixe brincalhão tentou abrir a porta trancada que dava para a escada. Aquele mascate contou ao pessoal da venda no Povoado de Dunwich que pensou ter ouvido pisadas de cavalo naquele piso de cima. Eles refletiram, pensando na porta, na rampa e no gado que desapareceu tão repentinamente, estremecendo ao se lembrar das histórias de quando Whateley era jovem e das estranhas coisas que são chamadas para fora da Terra quando um novilho é sacrificado no momento oportuno para certos deuses pagãos. Durante um determinado tempo, notou-se que os cães haviam começado a detestar e temer toda a propriedade dos Whateley tão violentamente quanto detestavam e temiam o jovem Wilbur em pessoa.

    Em 1917 chegou a guerra, e o grande proprietário de terras Sawyer Whateley, na condição de presidente da junta de recrutamento local, havia tido muito trabalho para encontrar uma quota de jovens de Dunwich aptos até mesmo para serem mandados para o serviço militar. O governo, alarmado com tais sinais de uma decadência regional completa, enviou vários oficiais e peritos médicos para investigar, conduzindo uma pesquisa que os leitores dos jornais da Nova Inglaterra ainda recordam. Foi a publicidade dedicada a essa investigação que colocou repórteres no rastro dos Whateley e causou a publicação, no Boston Globe e Arkham Advertiser, de histórias dominicais sensacionalistas sobre a precocidade do jovem Wilbur, a magia negra do Velho Whateley, as estantes de livros antigos, o lacrado segundo piso da antiga sede e a singularidade de toda a região com seus ruídos nas colinas. Wilbur tinha quatro anos e meio então e parecia um rapaz de quinze. Seus lábios e bochechas estavam completamente cobertos com pelos ásperos e escuros e sua voz havia começado a mudar.

    Earl Sawyer foi para a propriedade dos Whateley com o grupo de repórteres e fotógrafos e chamou sua atenção para o estranho mau cheiro que parecia provir da parte de cima lacrada. Ele afirmou que era exatamente igual a um cheiro que sentira no barracão de ferramentas abandonado quando a reforma havia finalmente terminado e semelhante aos leves odores que, às vezes, parecia sentir perto do círculo de pedras nas montanhas. O povo de Dunwich leu as histórias quando foram publicadas e riu dos erros óbvios. Tentavam imaginar, também, por que os escritores atinham-se tanto ao fato de que o Velho Whateley sempre pagava pelo gado com antiqüíssimas moedas de ouro. Os Whateley haviam recebido seus visitantes com uma aversão mal disfarçada, embora não tivessem ousado oferecer nenhuma forte resistência ou se recusado a falar, para evitar que se desse maior publicidade ao caso.

    Durante uma década, os anais dos Whateley inseriram-se indistintamente na vida cotidiana de uma mórbida comunidade acostumada a seus estranhos modos, que eram fortalecidos com as orgias da Véspera de Maio e da Véspera de Todos os Santos. Duas vezes por ano, eles faziam fogueiras no cume da Colina Sentinela; nesses momentos, os estrondos das montanhas ressurgiam com uma violência cada vez maior, ao passo que, durante todo o ano, eram realizados atos estranhos e pressagiosos no solitário casarão. Com o tempo, os visitantes afirmaram ouvir sons na lacrada parte de cima mesmo quando toda a família estava embaixo, e eles ficaram imaginando o quão rápido ou demorado era, geralmente, o sacrifício de uma vaca ou novilha. Falou-se em dar queixa à Sociedade Protetora dos Animais, mas nunca nada foi feito, já que o povo de Dunwich não demonstra a menor vontade de chamar a atenção do mundo exterior para si.

    Por volta de 1923, quando Wilbur era um menino de dez anos cuja mentalidade, voz, estatura e rosto barbado davam-lhe todas as impressões de maturidade, uma segunda grande febre de carpintaria começou na velha casa. As obras foram realizadas somente na parte de cima, e, pelos pedaços de madeira jogados, as pessoas concluíram que o jovem e seu avô haviam arrancado todas as repartições e até removido o sótão, deixando apenas um espaço vazio e aberto entre o térreo e o telhado pontiagudo. Haviam derrubado, também, a grande chaminé central e adaptado ao enferrujado fogão uma frágil chaminé de latão externa.

    Na primavera após esse acontecimento, o Velho Whateley notou o número crescente de curiangos que saíam do Vale da Fonte Fria para gorjear embaixo de sua janela à noite. Parecia considerar essa circunstância como de grande importância e disse ao pessoal da venda do Osborn que achava que sua hora quase havia chegado.

    – Eles pia bem juntim com a minha respiração agora – disse – e acho que eles tão se arrumano pra pegá meu esprito. Eles sabe que ele tá saíno e num qué perdê ele. Oceis vai sabê, gente, dispois que eu morrê se eles me pegô ô não. Se pegá, eles vai ficá cantano e rino até o dia nascê. Se num pegá, eles vai ficá bem quetim. Espero que eles e os esprito que eles caça tem umas briga danada de boa argum dia.

    Na noite de 1° de agosto, comemoração da festa da colheita, de 1924, o Dr. Houghton de Aylesbury foi chamado com urgência por Wilbur Whateley, que galopou a toda pressa com seu último cavalo através da escuridão para telefonar da venda do Osborn no povoado. Ele encontrou o Velho Whateley em estado muito grave, com o coração acelerado e a respiração ofegante que indicavam um final bem próximo. A disforme filha albina e o neto com aquela barba esquisita puseram-se ao lado da cama, enquanto do abismo vazio acima vinha um inquietante som semelhante ao rítmico balanço ou marulho das ondas em alguma praia de águas calmas. O médico, contudo, estava mais incomodado com o chilrar dos pássaros noturnos do lado de fora; uma legião aparentemente ilimitada de curiangos que gritava sua mensagem infinita em repetições diabolicamente sincronizadas com a respiração entrecortada do moribundo. Era por demais incomum e anormal, pensou o Dr. Houghton, como toda aquela região que ele havia adentrado tão relutantemente em resposta ao urgente chamado.

    Por volta da uma hora, o Velho Whateley recobrou a consciência e interrompeu sua respiração ofegante para balbuciar algumas palavras a seu neto.

    -Mais espaço, Willy, mais espaço logo. Ocê cresce, mais ele cresce mais ligero. Vai tá pronto para servi ocê logo, menino. Abre os portão pra Yog-Soloth com aquela reza comprida que ocê vai encontrá na página 751 da edição compreta, e intão bota fogo na prisão. Fogo nenhum da Terra pode queimá ele.

    Ele estava claramente alucinado. Depois de uma pausa, durante a qual o bando de curiangos lá fora sincronizou seus gritos com o andamento alterado da respiração do velho, ao mesmo tempo que alguns indícios dos estranhos ruídos nas colinas vieram de bem longe, ele pronunciou mais uma ou duas frases.

    – Dá comida pr’ele sempre, Willy, e óia o tanto; mais não deixa ele crescê muito ligero pro
    lugá, porque se ele rebentá o lugá dele e saí antes d’ocê abri pro Yog-Sothoth, tá tudo acabado e
    num vai servi pra nada. Só eles lá de longe pode fazê ele se murtiplicá e trabaiá. … Só eles, os
    antigo que qué vortá. . . .

    Mas as palavras deram lugar às palpitações de novo, e Lavinia gritou ao perceber a maneira como os curiangos acompanhavam a mudança. Por mais de uma hora nada mudou; então, finalmente, ouviu-se o último estertor do moribundo. O Dr. Houghton cobriu os vitrificados olhos cinzas com as pálpebras enrugadas ao mesmo tempo que o tumulto de pássaros silenciava-se imperceptivelmente. Lavinia soluçou, mas Wilbur somente se regojizou ao mesmo tempo que os ruídos nas colinas retumbavam debilmente.

    – Eles não pegaro ele – murmurou com sua voz grossa e grave.

    Nessa época, Wilbur era um estudioso de uma erudição espantosa em seu modo unilateral, e muitos bibliotecários de lugares distantes, onde são guardados livros raros e proibidos de tempos remotos, começavam a conhecê-lo por correspondência. Era cada vez mais odiado e temido na região de Dunwich devido a certos desaparecimentos de jovens que as suspeitas levavam vagamente a sua porta; mas conseguia sempre silenciar as investigações através de intimidações ou lançando mão daquele estoque de ouro antigo que, assim como no tempo de seu pai, ainda era gasto de modo regular e crescente para a compra de gado. Aparentava estar extremamente maduro agora e sua estatura, tendo alcançado o limite normal dos adultos, parecia sujeita a aumentar ainda mais. Em 1925, quando recebeu a visita de um estudioso e correspondente da Universidade de Miskatonic que partiu pálido e confuso, elejá havia alcançado mais de dois metros de altura.

    Durante todos esses anos, Wilbur vinha tratando sua semi-deformada mãe albina com um desprezo crescente, chegando a proibi-la de ir às colinas com ele na Véspera de Maio e em Todos os Santos; e, em 1926, a pobre criatura queixou-se a Mamie Bishop de estar com medo dele.

    – Tem mais coisa dele que eu sei do que eu posso contá pr’ocê, Mamie – ela disse – e hoje em dia tem mais inda do que eu mema sei. Juro por Deus, num sei que é que ele qué nem que é que tá tentano fazê.

    Naquele Hallowen, os ruídos nas colinas soaram ainda mais alto, e o fogo queimou na Colina Sentinela como de costume; mas as pessoas prestaram mais atenção aos gritos rítmicos de vastos bandos de curiangos, incomumente atrasados, que pareciam estar reunidos perto da não-iluminada casa dos Whateley. Após a meia-noite, suas notas estridentes irrromperam num tipo de gargalhada pandemoníaca que cobriu toda a região, e eles não se calaram até o nascer do sol. Então, eles desapareceram rapidamente em direção sul, pois já estavam atrasados em um mês completo. O que isso significava, ninguém pôde ter muita certeza até algum tempo depois. Parecia que nenhum dos habitantes da região havia morrido, mas a pobre Lavinia Whateley, a albina deformada, nunca mais foi vista.

    No verão de 1927, Wilbur consertou dois barracões do terreiro e começou a transportar seus livros e pertences para lá. Logo depois, Earl Sawyer contou ao pessoal da venda do Osborn que mais obras de carpintaria estavam sendo realizadas na casa dos Whateley. Wilbur estava fechando todas as portas e janelas do térreo e parecia estar retirando as repartições, tal como ele e seu avô haviam feito há quatro anos. Estava vivendo num dos barracões, e Sawyer achava que ele parecia mais preocupado e trêmulo do que o normal. Em geral, as pessoas suspeitavam que ele soubesse alguma coisa sobre o desaparecimento de sua mãe, e muito poucas ousavam aproximar-se dos arredores de sua propriedade agora. Sua altura aumentara para cerca de dois metros e quinze centímetros, e nada indicava que esse desenvolvimento fosse parar.

    O inverno seguinte trouxe um acontecimento não menos estranho do que a primeira viagem de Wilbur para fora da região de Dunwich. Correspondências trocadas com a Bilioteca Widener em Harvard, a Biblioteca Nacional em Paris, o Museu Britânico, a Universidade de Buenos Aires e a Biblioteca da Universidade de Miskatonic em Arkham não tornaram possível o empréstimo de um livro que ele queria desesperadamente; assim, ao final, ele partiu em pessoa, maltrapilho, sujo, barbado e com seu dialeto impolido para consultar a cópia na biblioteca de Miskatonic, que era a mais próxima a ele geograficamente. Com quase dois metros e meio de altura, e carregando uma maleta barata e recém-comprada na venda do Osborn, essa gárgula escura e caprina apareceu um dia em Arkham à procura do temido volume mantido a sete chaves na biblioteca da faculdade – o terrível Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred na versão latina de Olaus Wormius, impresso na Espanha no século dezessete. Ele nunca vira uma cidade antes, mas não pensava em outra coisa a não ser encontrar seu caminho para o câmpus universitário; onde, de fato, passou imprudentemente pelo enorme cão-de-guarda de dentes brancos que latiu com fúria e inimizade incomuns enquanto puxava violentamente a rígida corrente que o prendia.

    Wilbur estava com a inestimável mas imperfeita cópia da versão inglesa do Dr. Dee que seu avô havia-lhe deixado de herança e, ao ter acesso à cópia latina, começou a cotejar os dois textos com o objetivo de descobrir uma certa passagem que estaria na página 751 de seu volume defeituoso. Por mais que tentasse, não poderia deixar de dizê-lo, de maneira educada, ao bibliotecário – o mesmo erudito Henry Armitage (mestre pela Miskatonic, doutor pela Princeton e pela Johns Hopkins) que uma vez havia passado pela fazenda e que agora, polidamente, importunava-o com perguntas. Ele estava procurando, tinha que admitir, por um tipo de fórmula ou encantamento contendo o temível nome Yog-Sothoth, mas as discrepâncias, repetições e ambigüidades confundiam-no, tornando a tarefa muito complicada. Ao copiar a fórmular que ele finalmente escolheu, o Dr. Armitage olhou involuntariamente por cima de seus ombros para as páginas abertas; a da esquerda, na versão latina, continha ameaças monstruosas à paz e sanidade do mundo.

    Também não é para se pensar (dizia o texto, que Armitage ia traduzindo mentalmente) que o homem é o mais velho ou o último dos mestres da Terra, nem que a massa comum de vida e substância caminha sozinha. Os Antigos foram, os Antigos são e os Antigos serão. Não nos espaços que conhecemos, mas entre eles. Caminham serenos e primitivos, sem dimensões e invisíveis para nós. Yog-Sothoth conhece o portal. Yog-Sothoth é o portal. Yog-Sothoth é a chave e o guardião do portal. Passado, presente e futuro, todos são um em Yog-Sothoth. Ele sabe por onde os Antigos entraram outrora e por onde Eles entrarão de novo. Ele sabe por quais campos da Terra Eles pisaram, onde Eles ainda pisam e por que ninguém pode vê-los quando pisam. Por seu cheiro, os homens podem saber que estão próximos, mas niguém conhece seu aspecto exterior, a não ser pelos traços daqueles que Eles geraram na humanidade; e daqueles há muitos tipos, diferindo em aparência do mais verdadeiro modelo de homem para aquela forma que não se vê ou que não tem substância que são Eles. Caminham invisíveis e fétidos em locais solitários onde as Palavras foram proferidas e os Ritos ressoaram em seus Períodos. O vento algaravia com Suas vozes, e a Terra murmura com Sua consciência. Eles dobram a floresta e esmagam a cidade, entretanto nenhuma floresta ou cidade pode ver a mão que castiga. Kadath, no deserto frio, conheceu-Os, mas qual homem conhece Kadath? O deserto gelado do Sul e as ilhas submersas do Oceano contêm pedras onde Sua marca está gravada, mas quem já viu a profunda cidade congelada ou a torre lacrada e toda coroada com algas e crustáceos? O Grande Cthulhu é Seu primo, entretanto só pode espiá-Los obscuramente. Iäl Shub-Niggurath! Como uma vileza vocês Os conhecerão. A mão deles está em suas gargantas, entretanto vocês não os vêem, e Sua morada é mesmo única com a entrada guardada. Yog-Sothoth é a chave para o portal, onde as esferas se encontram. O homem reina agora onde Eles reinaram um dia; em breve, Eles reinarão onde o homem reina agora. Depois do verão vem o inverno, e depois do inverno, o verão. Eles esperam pacientes e fortes, porque aqui reinarão de novo.

    O Dr. Armitage – associando o que estava lendo com o que ouvira sobre Dunwich e as inquietantes presenças que por lá pairavam e sobre Wilbur Whateley e sua aura débil e hedionda, que se estendia desde um nascimento dúbio até indícios de um provável matricídio – sentiu uma onda de temor tão tangível quanto uma corrente vinda da fria viscosidade de um túmulo. O gigante caprino e encurvado diante dele assemelhava-se à prole de um outro planeta ou dimensão; como algo apenas parcialmente humano e ligado a golfos negros de essência e entidade que se estendiam como fantasmas titânicos além de todas as esferas de força e matéria, espaço e tempo. Em seguida, Wilbur levantou a cabeça e começou a falar daquele modo estranho e ressoante que sugeria órgãos produtores de sons diferentes dos comuns aos humanos.

    – Sr. Armitage – disse – eu acho qu’eu tenho que levá aquele livro pra casa. Tem coisa
    nele que eu tenho que exprimentá numas condição que num posso cunsegui aqui, e ia sê um pecado
    mortar deixá que umas norma besta me impidisse. Me deixa levá ele comigo, senhor, e eu juro que
    ninguém vai ficá sabeno. Num preciso dizê pro senhor que vou tomá conta direitim dele. Num fui
    eu que deixô essa cópia do Dee do jeitim que tá…

    Ele parou quando viu a expressão negativa no rosto do bibliotecário, e suas próprias feições caprinas tornaram-se maliciosas. Armitage, quase pronto a dizer-lhe que poderia tirar uma cópia das partes que precisava, de repente pensou nas possíveis conseqüências e se conteve. Era uma responsabilidade muito grande dar a tal ser a chave para essas blasfemas esferas exteriores. Whateley percebeu como as coisas se encontravam e tentou responder gentilmente.

    -Ara, tá certo, se o senhor acha ansim. Tarveiz em Harvard eles num seja tão cheio de coisa que nem o senhor. – E, sem dizer mais nada, levantou-se e saiu caminhando com suas passadas largas, abaixando-se ao passar por cada porta.

    Armitage ouviu o latido feroz do enorme cão-de-guarda e observou as passadas de gorila de Whateley ao atravessar a pequena parte do câmpus visível da janela. Pensou nas fantásticas histórias que ouvira e recordou os velhos artigos dominicais do Advertiser; nisso e também nas informações que havia conseguido com os camponeses e habitantes do povoado de Dunwich durante sua única visita lá. Coisas invisíveis de fora da Terra – ou, pelo menos, não da Terra tridimensional – corriam fétidas e horríveis pelos vales estreitos da Nova Inglaterra e pairavam obscenamente sobre os topos das montanhas. Há tempos elejá se convencera disso. Agora parecia sentir a presença iminente de alguma fase terrível do horror que se impunha e entrever um avanço diabólico nos domínios negros do antigo e até então passivo pesadelo. Encerrou o Necronomicon com um estremecimento de repugnância, mas a sala ainda exalava um mau cheiro ímpio e inidentificável. “Como uma vileza vocês os conhecerão”, citou. Sim, o odor era o mesmo que aquele que lhe causou náuseas na casa dos Whateley há menos de três anos. Pensou uma vez mais em Wilbur, caprino e ominoso, e riu ironicamente dos rumores que corriam no povoado sobre sua linhagem.

    – Endogamia? – Armitage pronunciou meio alto para si. – Deus meu, que simplórios! Mostre a eles o Grande Deus Pã de Arthur Machen e vão pensar que é um escândalo corriqueiro como os de Dunwich! Mas que coisa – que amaldiçoada influência amorfa dessa ou de fora desta Terra tridimensional – era o pai de Wilbur Whateley? Nascido no dia de Nossa Senhora da Candelária – nove meses depois da Véspera de Maio de 1912, quando os rumores sobre ruídos esquisitos provenientes da terra chegaram até Arkham -, que tipo de ser passeava pelas montanhas naquela noite de maio? Que horror nascido no dia da Exaltação da Cruz impunha-se ao mundo em carne e osso semi-humanos?

    Durante as semanas seguintes, o Dr. Armitage começou a coletar todos os dados possíveis sobre Wilbur Whateley e as presenças amorfas que circundavam Dunwich. Entrou em contato com o Dr. Houghton de Aylesbury, que havia atendido o Velho Whateley em sua doença fatal, e encontrou muito sobre o que ponderar nas últimas palavras do avô citadas pelo médico. Uma visita ao Povoado de Dunwich não lhe trouxe maiores novidades; mas uma pesquisa mais aprofundada no Necronomicon – naquelas partes que Wilbur havia procurado tão avidamente – parecia fornecer novas e terríveis pistas sobre a natureza, métodos e desejos da estranha maldade que tão vagamente ameaçava este planeta. Conversas mantidas em Boston com vários estudiosos da cultura antiga e cartas a outros de diversos lugares trouxeram-lhe um crescente assombro que passou lentamente por vários graus de inquietação até um estado de medo espiritual realmente intenso. À medida que o verão aproximava-se, aumentava sua sensação de que algo deveria ser feito sobre os terrores ocultos do vale superior do Miskatonic e também sobre o ser monstruoso conhecido entre os humanos como Wilbur Whateley.

    O horror de Dunwich chegou mesmo entre o dia 1° de agosto, comemoração da festa da colheita, e o equinócio de 1928, e o Dr. Armitage estava entre aqueles que testemunharam seu monstruoso prólogo. Nesse ínterim, ele ouvira sobre a grotesca viagem de Whateley a Cambridge e sobre seus esforços desvairados para tomar emprestado ou copiar o que necessitava do Necronomicon na Biblioteca Widener. Tais esforços foram em vão, já que Armitage havia sido muito perspicaz ao deixar de sobreaviso todos os bibliotecários a cargo do temível volume. Wilbur ficou extremamente nervoso em Cambridge; estava ansioso para ter o livro e, contudo, quase igualmente ansioso para voltar para casa de novo, como se temesse as conseqüências de se ausentar por muito tempo.

    No princípio de agosto, manisfestou-se o resultado já meio que esperado, e, nas primeiras horas do dia 3, o Dr. Armitage foi acordado repentinamente pelos selvagens e furiosos latidos do feroz cão-de-guarda do câmpus universitário. Profundos e terríveis, os rosnados e latidos semelhantes aos de um cão raivoso continuaram sempre em volume ascendente, mas com pausas terrivelmente significativas. Então, soou um grito de uma garganta completamente diferente – um grito que acordou metade dos moradores de Arkham e assombrou seus sonhos para sempre -, um grito que não poderia vir de nenhum ser nascido na Terra ou completamente humano.

    Armitage, apressando-se em vestir algo e atravessando correndo a rua e o gramado em direção aos prédios da faculdade, viu que outros já haviam chegado a sua frente e ouviu os ecos estridentes de um alarme antifurto que vinha da biblioteca. À luz da lua, uma janela aberta mostrava-se como um buraco negro. O que viera havia, de fato, conseguido entrar, pois os latidos e gritos, agora passando gradualmente a uma mistura de rosnados lentos e gemidos, procediam inconfundivelmente de dentro. Um certo instinto avisou Armitage que o que estava acontecendo não era algo para olhos despreparados virem, então ele empurrou a multidão para trás com autoridade enquanto destrancava a porta do vestíbulo. Entre os demais, viu o Prof. Warren Rice e o Dr. Francis Morgan, para quem havia contado algumas de suas suposições e desconfianças, e acenou para que o acompanhassem. Os sons interiores, exceto pelo ganido contínuo e vigilante do cão-de-guarda, haviam quase que desaparecido nesse momento; mas foi então que Armitage sobressaltou-se ao perceber que um coro alto de curiangos entre a moita de arbustos havia começado a piar num ritmo abominável, como se em uníssono com as últimas respirações do moribundo.

    O prédio estava exalando um terrível mau cheiro que o Dr. Armitage conhecia muito bem, e os três homens atravessaram correndo o saguão em direção à pequena sala de leitura genealógica de onde provinha o débil ganido. Por alguns segundos, ninguém ousou acender a luz, até que Armitage juntou coragem e bateu no interruptor. Um dos três – não se sabe qual – soltou um grito alto ao ver o que se esparramava a sua frente entre mesas bagunçadas e cadeiras viradas. O Prof. Rice afirma que perdeu completamente a consciência por um instante, embora suas pernas não bambearam nem ele caiu.

    Aquela coisa, que se encontrava meio caída de lado numa poça fétida de ícor amarelo esverdeado e de uma substância preta viscosa e de quem o cão havia rasgado toda a roupa e uns pedaços da pele, tinha quase três metros de altura. Não estava morta de verdade, mas se contorcia silenciosa e espasmodicamente enquanto seu peito arfava em monstruoso uníssono com o enlouquecido piar dos curiangos que esperavam do lado de fora. Pedaços de couro de sapato e de roupa rasgada estavam espalhados pela sala, e, bem perto da janela, um saco de lona vazio se encontrava onde evidentemente havia sido jogado. Perto da escrivaninha central, havia um revólver caído, com um cartucho picotado mas carregado que mais tarde serviu para explicar por que não fora disparado. Contudo, a coisa eclipsava todas as outras imagens que havia a seu redor naquele momento. Seria banal e não muito preciso dizer que nenhuma caneta humana poderia descrevê-la, mas podemos dizer, com propriedade, que não poderia ser vividamente visualizada por qualquer um cujas idéias de aspecto e contorno são vinculadas demais às formas de vida comuns deste planeta e das três dimensões conhecidas. Sem sombra de dúvida, era um ser parcialmente humano, com mãos e cabeça muito semelhantes às dos homens, e o rosto caprino e sem queixo tinha a marca dos Whateley. Mas o tronco e as partes inferiores do corpo eram tão teratologicamente espantosas que somente as roupas largas o possibilitaram caminhar pela Terra sem ser desafiado ou erradicado.

    Acima da cintura, era semi-antropomórfico, embora o peito – onde as patas dilacerantes do cão ainda pousavam atentamente – tinha a pele reticulada como o couro de um crocodilo ou jacaré. As costas eram malhadas de amarelo e preto e apresentavam uma certa semelhança com a pele escamosa de certas cobras. Abaixo da cintura, contudo, era muito pior, pois aqui toda a semelhança humana desaparecia e a pura fantasia começava. A pele era coberta por uma camada grossa de pelos negros e ásperos, e uma infinidade de compridos tentáculos cinza-esverdeados com ventosas vermelhas projetavam-se molemente do abdome. Sua disposição era repugnante e parecia seguir as simetrias de alguma geometria cósmica desconhecida na Terra ou no sistema solar. Em cada um dos quadris, bem cravejado num tipo de órbita rosada e ciliada, encontrava-se o que parecia ser um olho rudimentar; enquanto que, em vez de um rabo, em seu lugar pendia um tipo de tromba ou palpo com marcas anulares roxas e com muitas evidências de ser uma boca ou garganta não-desenvolvida. Os membros, exceto por sua pelagem negra, lembravam grosseiramente as patas traseiras de sauros gigantes da Terra pré-histórica e terminavam em hipotênares com veias saltadas que não eram nem cascos nem garras. Quando respirava, o rabo e os tentáculos mudavam de cor ritmicamente, como se obedecendo a alguma causa circulatória normal para o lado não-humano de sua descendência. Nos tentáculos, isso era observável como um aprofundamento do matiz esverdeado, ao passo que no rabo manifestava-se através da alternância entre seu aspecto amarelado e um repulsivo branco acinzentado nos espaços entre os anéis roxos. De sangue verdadeiro, não havia nada; só mesmo o ícor amarelo esverdeado que escorria pelo chão pintado para além do alcance daquela viscosidade e deixava uma curiosa descoloração por onde passava.

    Como a presença dos três homens parecia despertar aquele ser moribundo, ele começou a resmungar sem virar ou levantar a cabeça. O Dr. Armitage não fez nenhum registro escrito de seus murmúrios, mas afirma categoricamente que nada em inglês foi pronunciado. Em princípio, as sílabas desafiavam toda a correlação com qualquer linguagem da Terra, mas as últimas trouxeram alguns fragmentos desconexos certamente retirados do Necronomicon, aquela monstruosa blasfêmia em busca da qual a coisa havia sucumbido. Esses fragmentos, da maneira que Armitage os recorda,

    diziam algo como “Ngai, nghaghaa, bugg-shoggog, y’hah; Yog-Sothoth, Yog-Sothoth Eles

    foram extinguindo-se conforme os curiangos davam seus gritos estridentes em crescendos ritmados que pressagiavam algo medonho.

    Então houve uma pausa em sua voz entrecortada, e o cão levantou a cabeça num longo e lúgubre uivo. Uma mudança ocorreu no rosto amarelo e caprino da coisa prostrada, e os grandes olhos negros fecharam-se de modo aterrador. Do lado de fora da janela, a gritaria dos curiangos parou de repente, e sobre os murmúrios da multidão reunida ouviu-se o horripilante zumbido e alvoroço de seu vôo. Tendo a lua como fundo, vastos bandos de plúmeos observadores alçaram vôo e sumiram de vista, agitados com a presa que haviam encontrado.

    De repente, o cão moveu-se de modo abrupto, deu um latido assustado e saltou para fora da janela pela qual havia entrado. Um brado saiu da multidão, e o Dr. Armitage gritou para os homens do lado de fora que ninguém poderia entrar até que a polícia ou o legista chegassem. Ele agradeceu o fato de que as janelas eram altas demais para permitir que se visse dentro, mas mesmo assim puxou para baixo todas as escuras cortinas, cobrindo cada uma das janelas cuidadosamente. Nesse momento, chegaram dois policiais, e o Dr. Morgan, encontrando-os no vestíbulo, advertiu-os, para seu próprio bem, a adiarem sua entrada na malcheirosa sala de leitura até que o legista chegasse e a coisa prostrada pudesse ser coberta.

    Enquanto isso, mudanças assustadoras estavam acontecendo no chão. Não é necessário descrever o tipo e grau de encolhimento e desintegração que ocorria ante os olhos do Dr. Armitage e do Prof. Rice; mas se pode dizer que, com exceção da aparência externa do rosto e das mãos, o elemento realmente humano em Wilbur Whateley devia ser muito pequeno. Quando o legista chegou, só restava uma massa viscosa esbranquiçada sobre o chão de madeira todo pintado, e o medonho odor havia quase que desaparecido. Aparentemente, Whateley não tinha crânio ou esqueleto ósseo; pelo menos numa forma definida e concebível. De algum modo, saíra a seu pai desconhecido.

    No entanto, isso tudo foi somente o prólogo do verdadeiro horror de Dunwich. Oficiais aturdidos procederam às formalidades; detalhes anormais foram devidamente ocultados da imprensa e do público; e homens foram enviados a Dunwich e Aylesbury para fazer o levantamento dos bens e notificar todos que pudessem ser herdeiros do falecido Wilbur Whateley. Encontraram os camponeses em grande agitação, tanto devido aos crescentes estrondos que provinham do interior das colinas arredondadas quanto pelo inusitado mau cheiro e pelos sons do marulhar das ondas que cada vez soavam mais alto vindos da grande concha vazia formada pela casa hermeticamente fechada dos Whateley. Earl Sawyer, que tomou conta do cavalo e do gado durante a ausência de Wilbur, lamentavelmente desenvolvera uma crise nervosa aguda. Os oficiais arranjaram desculpas para não entrar naquele local fechado e desagradável e contentaram-se com limitar sua investigação dos aposentos do falecido – os barracões recentemente consertados – a uma única visita. Eles preencheram um volumoso relatório no forum de Aylesbury, e dizem que litígios referentes à herança ainda tramitam entre os inumeráveis Whateley, decadentes ou não, do vale superior do Miskatonic.

    Um quase interminável manuscrito, redigido em caracteres estranhos num enorme livro razão e considerado como um tipo de diário devido ao espaçamento e às variações na tinta e caligrafia, apresentava-se como um quebra-cabeça desconcertante para aqueles que o encontravam na velha cômoda que servia como escrivaninha de seu dono. Após uma semana de discussão, foi enviado para a Universidade de Miskatonic, junto com a coleção de livros estranhos do falecido, para estudo e possível tradução; mas mesmo os melhores lingüistas logo viram não ser provável sua decifração com facilidade. E nenhum sinal do ouro antigo, com o qual Wilbur e o Velho Whateley haviam sempre pagado suas dívidas, foi encontrado ainda.

    Foi na noite do dia nove de setembro que o horror rompeu solto. Os ruídos das colinas haviam sido muito acentuados no fim de tarde, e os cães latiram freneticamente durante toda a noite. Aqueles que acordaram cedo no dia dez perceberam um peculiar mau cheiro no ar. Por volta das sete horas, Luther Brown, o empregado da propriedade de George Corey, localizada entre o Vale da Fonte Fria e o povoado, voltou correndo feito louco de seu passeio matinal à Campina dos Dez Acres com as vacas. Estava quase tendo um colapso de medo quando entrou tropeçando pela cozinha, enquanto que lá fora, no terreiro, o não menos assustado rebanho dava patadas e mugia deploravelmente, após haver compartilhado o pânico do menino durante todo o caminho de volta. Entre arquejos, Luther tentou balbuciar sua história para a Sra. Corey.

    – Lá no arto da estrada dispois do vale, dona Corey, tem arguma coisa lá! Parece que caiu um raio e tudo o mato e as arvrinha da estrada foi empurrada p’a tráis iguar que se uma casa tinha passado por ali. E isso num é nem o pió. Tem umas marca na estrada, dona Corey, umas marca redonda e grandona do tamanho dum barrir, tudo afundado iguar que se um elefante tinha passado, e é uma coisa que quatro pé num pudia fazê. Oiei pra um ou dois antes de corrê e vi que tava tudo cuberto com uns risco que se espaiava dum lugá só, iguar que se um leque de foia de parmera, duas ou treis veiz mais grande que é, tinha socado fundo a estrada. E o cheiro era horrívi, iguar que aquele invorta da casa do Fiticero Whateley.

    Nesse momento, ele gaguejou e parecia tremer outra vez com o mesmo pavor que o tinha feito voltar correndo para casa. A Sra. Corey, incapaz de extrair mais informações, começou a telefonar para os vizinhos; iniciando assim, nas redondezas, o prólogo do pânico que anunciava terrores maiores. Quando ligou para Sally Sawyer, governanta da propriedade de Seth Bishop, o lugar mais próximo da propriedade dos Whateley, foi sua vez de escutar ao invés de falar, pois Chauncey, filho da Sally, que dormiu muito mal, havia subido até o alto da colina em direção à propriedade dos Whateley e voltado correndo aterrorizado após dar uma olhada no lugar e também na pastagem onde as vacas do Sr. Bishop haviam sido deixadas a noite toda.

    É, dona Corey – chegou a voz trêmula pela linha telefônica -, Chauncey acabô de vortá de lá e num conseguiu nem falá direito de tanto medo! Falô que a casa do Véiu Whateley exprodiu e que tem madera espaiada tudo invorta iguar que se tinha donamite drento, só ficô o chão de baixo, mas tá tudo cuberto com uma coisa que parece piche que tem um cheiro muito ruim e escorre dos canto pro lugá d’onde as madera voaro pra longe. E tem umas marca mais feia no terrero tamém – umas marca redonda mais grande que um barrir, e tudo grudento com aquela coisa que tem na casa que exprodiu. Chancey, ele disse que eles vai lá pr’os lado dos pasto d’onde formô uma faixa mais larga que uma tuia no chão, e tudos muro de preda tumbaro por tudos lado d’onde ele passô.

    E ele contô, dona Corey, cumo é que ele foi procurá as vaca do Seth, apavorado do jeito qu’ele tava, e encontrô elas no pasto de cima perto do Campo do Demo num estado horrive. Metade delas tinha sumido e quage a metade delas que ficô já num tinha mais sangue, com aquelas ferida nelas iguar que as que apareceu no gado dos Whateley deis que o moleque preto da Lavinny nasceu. O Seth saiu agora p’a dá uma oiada nelas, mas eu acho que ele num vai querê chegá muito perto do sítio dos Whateley. O Chauncey num oió direito pra vê d’onde ia dá a faixa dispois do pasto, mas ele disse que acha que vai p’a estrada do barranco inté a vila.

    Eu falo pra sinhora, dona Corey, tem arguma coisa lá fora que não tinha que tá lá fora, e eu acho que o preto Wilbur Whateley, que teve o fim que merecia, tá metido na criação dela. Ele num era inteiro humano, sempre falo pra todo mundo; e eu acho que ele e o Véiu Whateley deve de tê criado arguma coisa naquela casa pregada que era inda menos humano que ele. Sempre teve umas coisa escondida invorta de Dunwich, coisa viva, que num é humana e nem bom pr’os humano.



    O chão tava falano onte de noite e de manhã Chauncey ouviu os curiango tão arto no Vale da Fonte Fria que num cunsiguiu dormi mais. Intão ele achô que ouviu outro baruiu vinu lá do sítio do Fiticero Whateley, um tar de baruiu de madera quebrano e despedaçano, iguar que se arguém tava abrino uma caixa ou engradado grande lá longe. E com tudo isso, ele num conseguiu dormi inté que o sor nasceu, e num acordô muito cedo hoje de manhã, mais ele tem que i de novo lá no Whateley pra vê o que tá sucedeno. Ele viu bastante, eu falo pra sinhora, dona Corey! Isso num é nada baum, e eu acho que tudo os home devia se juntá e fazê arguma coisa. Eu sei que arguma coisa muito ruim vai acontecê e eu tô sintino que a minha hora tá chegano, mas eu entrego nas mão de Deus.

    O seu fio Luther percebeu pra d’onde ia as marca? Não? Intãoce, dona Corey, se tava na estrada do vale desse lado do vale e inda num chegô na sua casa, acho qu’eles deve de entrá no vale. Eles ia fazê isso. Eu sempre falo que o Vale da Fonte Fria num é um lugá saudave nem decente. Os curiango e os vagalume nunca agiro memo cumo se fosse criatura de Deus e tem gente que fala que ocê pode ouvi umas coisa estranha correno e falano no ar lá embaxo se ocê ficá no lugá certo entre os barranco de preda e a Toca do Urso.

    Por volta das doze horas daquele dia, três quartos dos homens e meninos de Dunwich reuniram-se e seguiram pelas estradas e prados que havia entre as recentes ruínas dos Whateley e o Vale da Fonte Fria, examinando horrorizados as muitas pegadas monstruosas, o gado mutilado dos Bishop, os destroços malcheirosos da sede e a vegetação esmagada e contorcida dos campos e beiras de estrada. O que estava correndo solto pelo mundo seguramente havia descido para o interior da grande e sinistra ravina, pois todas as árvores nas encostas estavam envergadas e quebradas, e uma enorme alameda havia-se formado na vegetação rasteira que cobre as ladeiras do precipício. Era como se uma casa, arrastada por uma avalanche, houvesse descido escorregando pela emaranhada vegetação da ladeira quase vertical. Nenhum som chegava do fundo da ravina, somente um fedor distante e indifinível; e não é de se admirar que os homens preferissem ficar na beira e discutir, ao invés de descer e enfrentar o desconhecido horror ciclópico em seu covil. Três cães que estavam com o grupo haviam latido furiosamente de início, mas pareceram amedrontados e relutantes quando próximos ao vale. Alguém telefonou para o Aylesbury Transcript contando as notícias, mas o editor, acostumado às espantosas histórias de Dunwich, não fez mais do que inventar um parágrafo jocoso sobre o fato, que foi reproduzido logo depois pela Associated Press.

    Naquela noite, todos foram para casa, e, em todas elas e também nos celeiros, foram feitas barricadas o mais sólidas possível. É inútil dizer que não foi permitido que nenhuma cabeça de gado permanecesse em pasto aberto. Por volta das duas da manhã, um terrível mau cheiro e os latidos furiosos dos cães acordaram a família de Elmer Frye, cuja propriedade se localizava na margem oriental do Vale da Fonte Fria, e todos concordaram que podiam ouvir um tipo de zunido abafado ou marulho vindo de algum lugar do lado de fora. A Sra. Frye propôs telefonar aos vizinhos, e Elmer estava a ponto de concordar quando o barulho de madeira estilhaçada interrompeu a conversa. Aparentemente, vinha do celeiro, e logo o gado começou a dar patadas no chão e a berrar feito louco. Os cães babaram e se agacharam timidamente perto dos pés da família entorpecida pelo medo. O Frye acendeu uma lanterna por força do hábito, mas sabia que seria a morte sair naquele terreiro escuro. As crianças e as mulheres choramingavam, evitando gritar por algum obscuro e vestigial instinto de defesa que lhes dizia que suas vidas dependiam do silêncio. Por fim, o barulho do gado transformou-se somente num lamento penoso, dando lugar a rachaduras, estalidos e crepitações, que soaram ainda mais alto. Os Frye, amontoaram-se na sala e não ousaram mover-se até que os últimos ecos realmente se extinguissem lá embaixo no Vale da Fonte Fria. Então, entre os desoladores gemidos vindos do estábulo e os demoníacos pios dos últimos curiangos no vale, Selina Frye foi cambaleando até o telefone e espalhou o quanto pôde as notícias sobre a segunda fase do horror.

    No dia seguinte, toda a região de Dunwich estava em pânico, e grupos acovardados e incomunicativos transitavam por onde se dera aquele diabólico acontecimento. Duas faixas enormes de destruição estendiam-se do vale ao terreiro dos Frye, pegadas monstruosas cobriam os trechos de terreno sem vegetação e um lado do velho celeiro vermelho havia desmoronado completamente. Do gado, somente um quarto pôde ser encontrado e identificado. Alguns dos animais haviam sido despedaçados de modo curioso, e todos os que sobreviveram tiveram que ser sacrificados. Earl Sawyer sugeriu que se pedisse ajuda em Aylesbury ou Arkham, mas outros consideraram que seria inútil. O Velho Zebulon Whateley, de um ramo que hesitava entre a integridade física e mental e a decadência, fez sugestões sinistramente desatinadas sobre ritos que deveriam ser praticados nos cumes das colinas. Ele descendia de uma linhagem onde a tradição era forte, e suas lembranças de cânticos nos grandes círculos de pedra não estavam totalmente ligadas a Wilbur e seu avô.

    A noite caiu sobre essa localidade acometida e passiva demais para se organizar para uma defesa real. Em certos casos, famílias muito amigas agrupavam-se sob um só teto e punham-se a vigiar no escuro; mas, em geral, havia somente uma repetição das barricadas da noite anterior e um gesto fútil e ineficaz de carregar mosquetes e armar-se com forcados. Contudo, nada aconteceu, exceto alguns ruídos nas colinas; e, quando o dia nasceu, havia muitos que esperavam que o novo horror houvesse ido embora tão rapidamente quanto chegara. E algumas almas corajosas inclusive propuseram uma expedição ofensiva para descer vale adentro, embora não tenham se aventurado a dar um exemplo concreto para a maioria ainda relutante.

    Ao cair de mais uma noite, as barricadas foram repetidas, embora houvesse menos agrupamentos de famílias. De manhã, tanto os Frye quanto os Bishop relataram a agitação dos cães e os vagos sons e maus cheiros que vinham de longe, enquanto que os primeiros exploradores horrorizaram-se ao notar um novo conjunto de rastros monstruosos na estrada que costeia a Colina Sentinela. Tal como antes, as laterais amassadas da estrada indicavam o tamanho daquele horror blasfemo e assombroso; ao passo que a disposição dos rastros parecia revelar uma passagem em duas direções, como se a montanha movente tivesse vindo do Vale da Fonte Fria e retornado a ele pelo mesmo caminho. Na base da colina, uma faixa de nove metros de pequenos arbustos esmagados seguia colina acima, e os homens ficaram pasmos quando viram que mesmo os locais mais perpendiculares não faziam a trilha implacável desviar. O que quer que fosse, aquele horror podia escalar um rochedo íngreme e quase que completamente vertical; e, como os investigadores subiram até o cume da colina por caminhos mais seguros, viram que a trilha acabava – ou melhor, convertia – lá.

    Era aqui que os Whateley costumavam armar suas fogueiras diabólicas e entoar seus rituais também diabólicos na pedra em forma de mesa na Véspera de Maio e na Véspera de Todos os Santos. Agora aquela mesma pedra formava o centro de um vasto espaço trilhado ao redor pelo horror montanhoso, enquanto que sobre sua superfície ligeiramente côncava encontrava-se um grosso e fétido depósito da mesma substância preta viscosa observada no chão da sede em ruínas quando o horror escapou. Os homens entreolharam-se e murmuraram alguma coisa. Então olharam para baixo. Aparentemente o horror havia descido por um caminho muito parecido com o da subida. Especular era inútil. Razão, lógica e idéias normais de motivação permaneceram confundidas. Somente o velho Zebulon, que não estava com o grupo, poderia ter feito justiça à situação ou sugerido uma explicação plausível.

    A noite de quinta-feira começou como as outras, mas terminou pior. Os curiangos no vale haviam gritado com uma persistência tão incomum que muitos não puderam dormir, e, por volta das três da manhã, os telefones de todas as pessoas envolvidas tocaram tremulamente. Todos que atenderam ouviram uma voz muita assustada gritar: “Socorro, ai meu Deus!…” e alguns pensaram ter ouvido um estrondo que se seguiu à interrupção da exclamação. Não houve mais nada. Ninguém ousou fazer coisa alguma, e não se soube até de manhã de onde era o telefonema. Então aqueles que o tinham recebido se telefonaram e descobriram que somente os Frye não repondiam. A verdade apareceu uma hora depois, quando um grupo de homens armados, que se reuniu às pressas, caminhou penosamente até a propriedade dos Frye no topo do vale. Foi horrível, no entanto, não chegou a ser uma surpresa. Havia mais faixas e marcas monstruosas, mas já não havia casa. Ela desmoronara como uma casca de ovo, e, entre suas ruínas, não foi encontrado nada vivo ou morto. Apenas um mau cheiro e uma substância preta viscosa. Os Elmer Frye haviam sido erradicados de Dunwich.

    8

    Nesse ínterim, uma fase mais calma do horror e, entretanto, ainda mais espiritualmente pungente havia-se desenvolvido de modo obscuro atrás de uma porta fechada de uma sala repleta de estantes em Arkham. O curioso manuscrito ou diário de Wilbur Whateley, entregue à Universidade de Miskatonic para sua tradução, causara muita preocupação e desconcerto entre os especialistas em línguas antigas e modernas; seu alfabeto próprio, apesar de uma semelhança geral com o enigmático árabe falado na Mesopotâmia, era completamente desconhecido por qualquer autoridade que se pudesse consultar. A conclusão final dos lingüistas era que o texto representava um alfabeto artificial, para dar o efeito de uma cifra; embora nenhum dos métodos comuns de solução criptográfica pareciam fornecer qualquer pista, mesmo quando aplicados tendo como base cada língua que o escritor possivelmente haveria usado. Os livros antigos retirados da casa dos Whateley – enquanto extremamente interessantes e, em vários casos, prometendo abrir novas e terríveis linhas de pesquisa entre filósofos e homens de ciência -, não ajudaram em nada no que se refere a esse assunto. Um deles, um tomo pesado com fecho de ferro, estava escrito em outro alfabeto desconhecido, que era de uma espécie muito diferente e lembrava o sânscrito mais do que qualquer outra coisa. O velho livro razão, por fim, ficou totalmente a cargo do Dr. Armitage, tanto devido a seu interesse peculiar pelo tema dos Whateley quanto a seu amplo conhecimento lingüístico e experiência no que se refere a fórmulas místicas da Antigüidade e da Idade Média.

    Armitage imaginava que o alfabeto podia ser algo esotericamente usado por certos cultos proibidos que vinham sendo transmitidos desde tempos remotos e que haviam herdado muitas fórmulas e tradições dos magos do mundo sarraceno. Essa questão, contudo, ele não julgou vital, já que seria desnecessário conhecer a origem dos símbolos se, conforme suspeitava, eles fossem usados como uma cifra numa língua moderna. Acreditava que, considerando a grande quantidade de texto envolvida, era muito pouco provável que o autor tivesse o trabalho de usar uma outra língua que não fosse a sua, exceto talvez em certas fórmulas especiais ou encantamentos. Desse modo, ele abordou o manuscrito com a pressuposição de que a maior parte dele estivesse em inglês.

    O Dr. Armitage sabia, pelas repetidas falhas de seus colegas, que o enigma era profundo e complexo e que nenhum método simples de solução podia merecer sequer uma tentativa. Durante todo o final de agosto, ele se dedicou a adquirir o máximo de conhecimentos sobre criptografia, recorrendo às fontes mais completas de sua própria biblioteca e passando noites e noites entre os arcanos das obras: Poligraphia, de Trithemius; De Furtivis Literarum Notis, de Giambattista Porta; Traité des Chiffres, de De Vigenere; Cryptomenysis Patefacta, de Falconer; os tratados do século dezoito de Davys e Thicknesse; e autoridades razoavelmente modernas como Blair, von Marten e a Kryptographik, de Klüber. Ele intercalou seu estudo dos livros com abordagens ao manuscrito em si e, com o tempo, convenceu-se de que tinha que lidar com um daqueles criptogramas especialmente sutis e engenhosos, nos quais muitas listas separadas de letras correspondentes estão dispostas como uma tábua de multiplicação e a mensagem é construída com palavras-chave arbitrárias de conhecimento apenas dos iniciados. As autoridades mais velhas pareciam de muito mais ajuda que as novas, e Armitage concluiu que o código do manuscrito era muito antigo, sem dúvida legado através de uma longa linhagem de experimentadores. Várias vezes, ele parecia ter encontrado a luz, mas logo algum obstáculo desconhecido o fazia retroceder. Então, com a aproximação de setembro, as nuvens começaram a clarear. Certas letras, tal como usadas em certas partes do manuscrito, emergiram definitiva e indiscutivelmente, tornando-se óbvio que o texto estava, de fato, escrito em inglês.

    Ao anoitecer do dia dois de setembro, a última das grandes barreiras cedeu, e o Dr. Armitage leu, pela primeira vez, uma passagem contínua dos anais de Wilbur Whateley. Era, na realidade, um diário, como todos haviam pensado, e estava expresso num estilo que mostrava claramente uma mistura de erudição oculta e ignorância geral do estranho ser que o escreveu. Já a primeira passagem longa que Armitage decifrou, um registro datado de 26 de novembro de 1916, provou-se altamente alarmante e inquietante. Foi escrita, lembrava-se, por uma criança de três anos e meio que parecia um rapaz de doze ou treze.

    Hoje aprendi o Aklo para o Sabaoth (estava escrito), que não gostei, podia ser respondido da colina e não do ar. Aquele da parte de cima mais na minha frente que eu tinha pensado que estaria, e não parece ter muito cérebro da Terra.. Atirei no Jack, o collie do Elam Hutchins, quando ele veio me morder, e Elam disse que me mataria se ele morresse. Acho que não vai. O avô me fez dizer a fórmula Dho ontem à noite, e acho que vi a cidade interna nos 2 pólos magnéticos. Eu irei àqueles pólos quando a Terra for dizimada, se eu não conseguir transpor com a fórmula Dho-Hna quando eu a praticar. Eles do ar me disseram no Sabbat que passarrão anos até que eu possa dizimar a Terra, e acho que o avô estará morto então, portanto terei que aprender todos os ângulos dos planos e todas as fórmulas entre o Yr e o Nhhngr. Eles do exterior ajudarão, mas não podem ganhar corpo sem sangue humano. Aquele da parte de cima parece que terá a forma certa. Posso vê-lo um pouco quando faço o sinal Voorish ou assopro o pó de Ibn Ghazi nele, e fica quase como eles na Véspera de Maio na Colina. O outro rosto pode desaparecer um pouco. Imagino como parecerei quando a Terra for dizimada e não houver mais seres terrenos nela. Ele que veio com o Aklo Sabaoth disse que posso ser transfigurado e que existe muito de exterior para ser trabalhado.

    Ao amanhecer, o Dr. Armitage estava suando frio de terror e extremamente alerta e concentrado em sua leitura. Ele não havia deixado o manuscrito durante a noite toda; permanecera sentado a sua mesa, à luz elétrica, virando página após página com mãos trêmulas para decifrar o texto críptico o mais rápido que pudesse. Muito nervoso, telefonara a sua esposa para dizer que não iria para casa, e, quando ela lhe trouxe o café da manhã, ele quase não comeu nada. Durante todo aquele dia, continuou lendo, por vezes se detendo exasperadamente quando uma reaplicação do complexo código tornava-se necessária. Troxeram-lhe o almoço e o jantar, mas ele comeu muito pouco de ambos. No meio da noite seguinte, cochilou em sua cadeira, mas logo acordou com um emaranhado de pesadelos quase tão horrendos quanto as verdades e ameaças à existência humana que havia descoberto.

    Na manhã do dia quatro de setembro, o Prof. Rice e o Dr. Morgan insistiram em vê-lo um pouco, partindo de lá trêmulos e mortalmente pálidos. Naquela noite, ele foi para a cama, mas seu sono esteve muito picado. No dia seguinte, uma quarta-feira, voltou para o manuscrito e começou a tomar notas copiosas das partes que ia lendo e daquelas que já havia decifrado. Na madrugada daquela noite, ele dormiu um pouco numa espriguiçadeira de seu escritório, mas voltou ao manuscrito de novo antes do amanhecer. Pouco antes do meio-dia, seu médico, o Dr. Hartwell, telefonou dizendo que queria vê-lo e insistiu que ele parasse de trabalhar. Recusou-se, afirmando que era da mais vital importância para ele completar a leitura do diário e prometendo uma explicação a seu devido tempo. Naquele fim de tarde, bem quando escureceu, ele terminou sua terrível e esgotante leitura e deixou-se cair exausto. Sua esposa, ao trazer-lhe o jantar, encontrou-o num estado de semi-coma, mas ele ainda estava consciente para lhe advertir com um grito agudo quando viu seus olhos vagarem por sobre o que ele havia anotado. Levantando-se com fraqueza, juntou os papéis rascunhados e fechou-os num grande envelope, que imediatamente colocou dentro do bolso interno de seu casaco. Tinha força suficiente para chegar em casa, mas era tão evidente que precisava de ajuda médica que o Dr. Hartwell foi chamado de imediato. Assim que o médico o pôs na cama, ele só conseguiu murmurar repetidas vezes, “Mas o que, em nome de Deus, podemos fazer?”.

    O Dr. Armitage dormiu, mas estava parcialmente delirante no dia seguinte. Não deu explicações a Hartwell, mas em seus momentos mais calmos falou da necessidade imperativa de uma longa reunião com Rice e Morgan. Seus devaneios mais absurdos eram de fato muito alarmantes, incluindo apelos desesperados de que algo numa casa de fazenda totalmente lacrada fosse destruído e também referências fantásticas a um certo plano pela extirpação da humanidade inteira e de toda vida animal e vegetal da face da Terra por uma terrível e mais antiga raça de seres de outra dimensão. Ele bradava que o mundo estava em perigo, já que as Coisas Antigas desejavam devastá-lo e varrê-lo do sistema solar e do cosmos da matéria para outro plano ou fase de existência do qual havia um dia saído há milhares de trilhões de eras. Em outros momentos, requisitava o temível Necronomicon e o Daemonolatreia de Remigius, nos quais parecia estar esperançoso de encontrar alguma fórmula para conter o perigo que ele esconjurava.

    – Detenha-os, detenha-os! – gritava -. Aqueles Whateley queriam deixá-los entrar, e o pior ainda está por vir! Digam a Rice e Morgan que devemos fazer alguma coisa; é um tiro no escuro, mas sei como fazer o pó. … não foi alimentado desde o dia dois de agosto, quando Wilbur veio aqui para morrer, a estas alturas. . . .

    Mas Armitage tinha um físico saudável apesar dos seus setenta e três anos e curou-se de sua indisposição após dormir aquela noite sem desenvolver nenhum estado febril. Ele acordou tarde na sexta, lúcido, embora demonstrando um medo persistente e um enorme senso de responsabilidade. Na tarde de sábado, ele se sentiu apto para ir até a biblioteca e convocar Rice e Morgan para uma reunião, e, durante o resto daquele dia, os três homens estiveram quebrando a cabeça na mais desatinada especulação e desesperado debate. Livros estranhos e terríveis foram retirados em grande volume das estantes da biblioteca e de lugares onde estavam guardados com segurança; diagramas e fórmulas foram copiados com uma pressa febril e em quantidade assustadora. De ceticismo, não havia nenhum. Todos os três haviam visto o corpo de Wilbur Whateley prostrado no chão numa sala daquele mesmo prédio, e, depois disso, nenhum deles poderia sentir a menor inclinação a tratar o diário como delírio de um louco.

    As opiniões estavam divididas a respeito de notificar a Polícia Estadual de Massachusetts, porém a negativa finalmente venceu. Havia coisas envolvidas que aqueles que não haviam visto nada simplesmente não podiam acreditar, como de fato ficou claro durante certas investigações subseqüentes. Tarde da noite, foi encerrada a reunião sem que houvessem traçado um plano definitivo, mas, durante todo o domingo, Armitage esteve ocupado comparando fórmulas e misturando substâncias químicas obtidas do laboratório da faculdade. Quanto mais refletia sobre o infernal diário, mais estava inclinado a duvidar da eficácia de qualquer agente material para eliminar a entidade que Wilbur Whateley havia deixado trás si – a entidade ameaçadora da Terra que, desconhecida por ele, estava para irromper em poucas horas e tornar-se o memorável horror de Dunwich.

    Segunda-feira foi uma repetição de domingo para o Dr. Armitage, pois a tarefa em mãos exigia uma infinidade de pesquisas e experimentos. Consultas posteriores ao diário monstruoso ocasionaram várias mudanças de planos, e ele sabia que mesmo no final haveria ainda muita incerteza. Na terça-feira, já tinha uma linha definitiva de ação planejada minuciosamente e acreditava poder viajar a Dunwich dentro de uma semana. Então, na quarta-feira, veio o grande choque. Escondida num canto do Arkham Advertiser, encontrava-se uma pequena nota jocosa da Associated Press, dizendo que o whisky de contrabando de Dunwich havia criado um monstro que batia todos os recordes. Armitage, meio atordoado, só conseguiu telefonar para Rice e Morgan. Discutiram madrugada adentro e, no dia seguinte, houve um turbilhão de preparativos por parte de todos. Armitage sabia que estaria-se metendo com forças terríveis, contudo viu que não havia outra maneira de acabar com aquela mais profunda e maligna confusão que outros haviam feito antes dele.

    9

    Na sexta-feira de manhã, Armitage, Rice e Morgan partiram de carro para Dunwich, chegando ao povoado por volta da uma da tarde. O dia estava agradável, mas mesmo sob a clara luz do sol uma espécie de calmo pavor e agouro parecia pairar por sobre as estranhas colinas arredondadas e as profundas e sombrias ravinas da acometida região. Por vezes, sobre um topo de montanha, podia-se vislumbrar recortado contra o céu um lúgubre círculo de pedras. Pelo ar de silenciado temor presente na venda do Osborn, eles perceberam que algo horrível havia acontecido e logo ficaram sabendo da aniquilação da casa e da família de Elmer Frye. Por toda aquela tarde, rodaram por Dunwich, questionando os habitantes locais a respeito de tudo aquilo que havia acontecido e vendo com seus próprios olhos, em crescente agonia, as sombrias ruínas dos Frye com traços remanescentes da substância preta viscosa, os rastros blasfemos no terreiro dos Frye, o gado ferido de Seth Bishop e as enormes faixas de vegetação arrasada em vários lugares. A trilha que subia e descia a Colina Sentinela parecia para Armitage de uma significação quase cataclísmica, e, durante um certo tempo, permaneceu olhando para a sinistra pedra em forma de altar no cume.

    Por fim, os visitantes, informados sobre um grupo da Polícia Estadual que viera de Aylesbury aquela manhã em resposta aos primeiros relatos telefônicos da tragédia dos Frye, decidiram procurar os oficiais e comparar suas impressões até onde fosse viável. Isso, contudo, acharam mais fácil de planejar do que de realizar, visto que nenhum sinal do grupo podia ser encontrado em qualquer direção. Eles eram cinco num carro, que agora se encontrava parado e vazio perto das ruínas no terreiro dos Frye. Os habitantes locais, havendo todos falado com os policiais, pareciam primeiramente tão perplexos quanto Armitage e seus companheiros. Foi quando o velho Sam Hutchins pensou em algo que o deixou pálido; cutucou Fred Farr e apontou para o buraco úmido e profundo que se escancarava ali perto.

    – Deus do céu – disse ofegante – Eu falei pr’ eles num descê p’a drento do vale, e eu nunca pensei que arguém ia fazê isso com aquelas marca e aquele cheiro e os curiango tudo berrano lá embaixo naquela escuridão do meio-dia. . . .

    Tanto os habitantes locais quanto os visitantes sentiram um calafrio, e todos os ouvidos pareciam escutar de forma instintiva e inconsciente. Armitage, agora que havia verdadeiramente encontrado o horror e seu rastro de destruição, tremeu com o peso da responsabilidade que lhe era imposta. A noite iria cair em breve, e era então que a blasfêmia montanhosa movia-se pesadamente sobre seu curso bizarro. Negotium Perambulans in tenebris …. O velho bibliotecário recitou a fórmula que havia memorizado e agarrou o papel que continha a alternativa um que não havia memorizado. Viu que sua lanterna elétrica estava em bom funcionamento. Rice, a seu lado, pegou de uma maleta um pulverizador de metal do tipo usado para combater insetos; enquanto Morgan tirava da caixa o rifle de caça grossa no qual confiava, apesar dos avisos dos colegas de que nenhuma arma material ajudaria.

    Armitage, que havia lido o horrendo diário, sabia muito bem que tipo de manifestação esperar, mas não atemorizou mais as pessoas de Dunwich dando a eles quaisquer referências ou pistas. Ele esperava que a coisa pudesse ser derrotada sem qualquer revelação ao mundo sobre a monstruosidade da qual havia escapado. À medida que escurecia, os habitantes locais começaram a se dispersar em direção a suas casas, ansiosos por se trancar dentro delas, apesar da presente evidência de que todas as fechaduras e trancas humanas eram inúteis perante uma força que podia derrubar árvores e esmagar casas a seu bel prazer. Eles balançaram as cabeças ao saber do plano dos visitantes de ficar a postos nas ruínas dos Frye perto do vale; e assim que saíram, tinham pouca expectativa de vê-los de novo algum dia.

    Houve estrondos embaixo das colinas naquela noite, e os curiangos piaram ameaçadoramente. De vez em quando, um vento, soprando por sobre o Vale da Fonte Fria, trazia um toque de inefável fedor para o ar pesado da noite; tal fedor todos os três observadores já haviam sentido uma vez, quando estiveram perto de uma coisa moribunda que havia passado por quinze anos e meio como um ser humano. Mas o procurado terror não apareceu. O que quer que estivesse lá embaixo no vale estava esperando o momento propício, e Armitage disse a seus colegas que seria suicídio tentar atacá-lo no escuro.

    Amanheceu lividamente, e os sons noturnos pararam. Era um dia cinza e triste, com uma garoa intermitente; e nuvens cada vez mais carregadas pareciam amontoar-se além das colinas em direção noroeste. Os homens de Arkham estavam indecisos sobre o que fazer. Buscando abrigo contra a chuva que aumentava embaixo de uma das poucas construções que ainda restavam na propriedade dos Frye, discutiram a conveniência de esperar ou partir para a agressão descendo vale adentro em busca da inominável e monstruosa presa. O aguaceiro aumentou, e estrépitos de trovões soaram vindos de horizontes distantes. Relâmpagos difusos tremeluziram, e então um raio bifurcado caiu próximo de onde estavam, como se descesse para dentro do próprio vale amaldiçoado. O céu ficou muito escuro, e os observadores torceram para que a tempestade fosse daquelas curtas e violentas que são seguidas por um céu limpo.

    Ainda estava horripilantemente escuro quando, não muito mais de uma hora depois, uma confusa babel de vozes soou lá embaixo na estrada. Em seguida, apareceu um grupo de mais de uma dúzia de homens, correndo, gritando e até mesmo choramingando histericamente. Alguém que vinha à frente começou a dizer algumas palavras soluçando, e os homens de Arkham sobressaltaram-se quando aquelas palavras adquiriram uma forma coerente.

    – Pai do céu, pai do céu – a voz quase não saiu. – Tá vino de novo, e agora de dia! Ta por aí, tá andano por aí agorica memo, e só Deus sabe quano vai acabá com tudo mundo!

    Ofegante, o narrador silenciou, mas outro continuou a história.

    Faiz quage uma hora que aqui o Zeb Whateley ouviu o telefone tocá e era a dona Corey, muié do George, que mora pra baixo da incruziada. Ela falô que o menino Luther tava tocano o gado p’a drento dispois do raio que caiu, quano viu que as arvre tava vergano p’a drento do outro lado do barranco e sentiu o memo chero ruim qu’ele sentiu quano incontró aquelas baita pegada segunda de manhã. E ela falô qu’ele falô que feiz um subio e um baruio de água, que as arvre e o mato num pudia fazê suzinho, e de repente as arvre do lado da estrada começaro a vergá pr’um lado só, e feiz um baruio horrive de pisada forte espirrano barro. Mais vê só, o Luther num viu nadinha, só as arvre e o mato vergano.

    Aí lá na frente d’onde o corgo dos Bishop passa por baixo da estrada, ele ouviu a ponte rangê e estralá, e pudia contá direitim o baruio da madera rachano e quebrano. E ele num viu nadinha memo, só as arvre e o mato vergano. E quano a Colina Sentinela começo a estralá, o Luther teve corage de subi até d’onde ele tinh’ovido o primer’ estralo e oiô pr’o chão. Só tinha barro e água, e o céu tava preto, e a chuva tav’apagano as pegada demais de ligero; mais deis’ da boca do barranco, d’onde as arvre tinh’entortado, inda tinh’umas marca danada de grande, iguar as qu’ele viu segunda de manhã.

    Nesse momento, o primeiro e alvoroçado narrador interrompeu.

    Mais aquilo num é o pobrema agora, aquilo foi só o começo. O Zeb aqui tava chamano o povo e tudo mundo tava escutano quano ligaro do sítio do Seth Bishop. A Sally, que toma conta da casa, tava berrano que nem doida – tinh’acabado de vê as arvre vergano do lado da estrada, e falo que fazia um baruio de amassá, iguar que um elefante pisano forte e esmagano tudo no caminho pra casa. Intão ela levantô e falô de repente dum cheiro horrívi e falô que o fio dela Chancey tava gritano que era o memo cheiro qu’ele sintiu lá em riba nas ruína dos Whateley na segunda de manhã. E os caçoro tava tudo latino e gemeno feio.

    E intão ela sortó um grito terrívi e falô que o barracão lá embaixo na estrada tinha acabado de dismoroná iguar que se a tempestade tivesse pasado por lá, só que o vento num era forte ansim pra fazê aquilo. Tudo mundo tava ouvino e nóis consiguiu escutá a respiração forte dum montão de gente pelo telefone. De repente, Sally gritô tra’veiz e falô que a cerca da frente da casa tinha acabado de quebrá em mir pedacim, mais num tinha ninhum sinar do que tinha feito aquilo. Intão tudo mundo no telefone consiguiu ouvi o Chancey e o véio Seth Bishop gritano tamém, e a Sally tava berrano arto que arguma coisa pesada tinha batido na casa, num era raio nem nada, mais arguma coisa pesada forçano a frente, que ficava se jogano e forçano, forçano, mais ocê num pudia vê nada das janela da frente. E intão… e intão…

    Traços de pavor realçaram-se em cada rosto; e Armitage, tremendo como estava, mal pôde estimular o narrador a continuar.

    – E intão … a Sally gritô arto: “Acode, a casa tá dismoronano”. . . e pelo telefone nóis consiguiu ovi o baruião de tudo quebrano e uma gritaria danada . . . iguar que quano o sítio do Elmer Frye sumiu, só que pió ….

    O homem fez uma pausa, e outro do grupo falou.

    – Foi só isso memo, nenhum baruiu nem chiado no telefone despois daquilo. Só uma paradera. Nóis que ouviu isso saímo c’os nosso carro e carroça p’a cunsigui juntá bastante home lá no Corey e vim aqui pra vê que ocê achava mió fazê. O que eu acho memo é que é o jurgamento de Deus por causa dos nosso pecado, que nenhum de nóis pode nunca fugi.

    Armitage viu que havia chegado o momento para uma ação verdadeira e falou decisivamente para o hesitante grupo de camponeses assustados.

    Devemos segui-la, rapazes – disse num tom de voz o mais tranqüilizador possível. – Acredito que haja uma chance de fazer com que pare. Vocês sabem que aqueles Whateley eram bruxos, pois bem, essa coisa é uma coisa de feitiçaria e deve ser derrotada pelos mesmos meios. Vi o diário de Wilbur Whateley e li alguns dos estranhos livros antigos que ele costumava ler; e acho que sei o tipo certo de fórmula mágica que devo recitar para fazer com que a coisa despareça. É claro que não se pode ter certeza, mas vale a pena tentar. É invisível – sabia que seria – mas há um pó neste pulverizador de longa distância que pode fazê-lo aparecer por um segundo. Mais tarde vamos experimentá-lo. É uma coisa horrorosa demais para permanecer viva, mas não é tão má quanto o que Wilbur Whateley teria deixado para nós se tivesse vivido mais. Vocês nunca saberão do que o mundo escapou. Agora só temos essa única coisa com que lutar, e não pode multiplicar-se. Pode, contudo, causar muito dano; então não devemos hesitar em livrar a comunidade dela.

    Devemos segui-la, e o modo de começar é indo até o lugar que acabou de ser arrasado. Que alguém indique o caminho; não conheço suas estradas muito bem, mas imagino que deva haver um atalho pelo mato. O que vocês acham?

    Os homens esquivaram-se por um momento, e então Earl Sawyer falou calmamente, apontando com um dedo encardido através da chuva que diminuia aos poucos.

    – Acho que ocê pode chegá até o sítio do Seth Bishop mais dipressa cortano pelo mato mais baixo aqui, passano pela parte rasa do corgo e subino pelas terra roçada do Carrier e dispois pela mata. O sítio aparece na beira da parte arta da estrada, um poquim do otro lado.

    Armitage, Rice e Morgan começaram a caminhar na direção indicada; e a maioria dos habitantes locais seguiram-nos devagar. O céu estava ficando mais limpo, e havia indícios de que a tempestade passara. Quando Armitage inadvertidamente tomava o caminho errado, Joe Osborn avisava-o e andava na frente para mostrar o correto. A coragem e a confiança estavam crescendo, embora o crepúsculo na floresta que cobria a colina quase perpendicular localizada no final do atalho – e entre cujas fantásticas árvores antigas tinham que escalar como se subissem uma escada -, impunha um teste severo a essas qualidades.

    Por fim, chegaram a uma estrada lamacenta no momento em que o sol saía. Eles estavam um pouco além da propriedade de Seth Bishop, mas as árvores tombadas e os horrendos e inconfundíveis rastros mostravam o que havia passado por ali. Só alguns minutos foram gastos pesquisando as ruínas que se encontravam à beira do abismo. Tudo ocorreu como no incidente dos Frye, e nada vivo ou morto foi encontrado em nenhuma das fachadas derruídas que haviam sido a casa e o celeiro dos Bishop. Ninguém queria permanecer ali entre o mau cheiro e a substância preta viscosa, mas todos se viraram instintivamente para a fileira de marcas horríveis que se dirigiam para a arruinada casa dos Whateley e para as ladeiras coroadas de altares da Colina Sentinela.

    Ao passar pelo local onde Wilbur Whateley residia, os homens estremeceram-se visivelmente e pareciam misturar hesitação a seu entusiasmo outra vez. Não era brincadeira seguir o rastro de algo tão grande quanto uma casa que não se podia ver, mas aquilo tinha toda a malevolência destrutiva de um demônio. Do lado oposto da base da Colina Sentinela, os rastros deixavam a estrada, e havia aquele envergamento e emaranhamento da vegetação visível ao longo da extensa faixa que marcava a primeira trilha do monstro indo e voltando do cume.

    Armitage exibiu uns binóculos com uma considerável capacidade de aumento e perscrutou o precipício verde que ladeava a colina. Então, ele passou o instrumento para Morgan, cuja vista era melhor. Após um momento de observação atenta, Morgan soltou um grito agudo, passando-o para Earl Sawyer e indicando com o dedo um certo ponto no precipício. Sawyer, tão desajeitado quanto a maioria dos que não usam instrumentos óticos, atrapalhou-se um pouco, mas, finalmente, focou as lentes com a ajuda de Armitage. Assim que localizou o ponto, seu grito foi menos reprimido do que havia sido o de Morgan.

    – Deus todo poderoso, o mato e as arvrinha tá se mexeno! Tá subino, bem devagarinho, se rastano lá pra riba agorica memo, só Deus sabe p’a modi quê!

    Então, o germe do pânico pareceu espalhar-se por entre os exploradores. Uma coisa era perseguir a entidade inominável, bem outra era encontrá-la. As fórmulas mágicas podiam estar corretas, mas e se não estivessem? Vozes começaram a questionar Armitage sobre o que ele sabia a respeito da coisa, e nenhuma resposta parecia satisfazê-los de verdade. Todos pareciam sentir-se em grande proximidade a fases da Natureza e da existência totalmente proibidas e externas à sã experiência da humanidade.

    10

    Finalmente, os três homens de Arkham – o velho de barba branca Dr. Armitage, o atarracado e grisalho Prof. Rice e o magro e de aparência jovem Dr. Morgan – subiram a montanha sozinhos. Depois de uma instrução muito paciente a respeito de sua focagem e uso, eles deixaram os binóculos com o amedrontado grupo que permaneceu na estrada; e, enquanto subiam, o instrumento foi passado de mão em mão para que pudessem ser observados de perto. Era um trajeto difícil, e Armitage teve que ser ajudado mais de uma vez. Bem acima do esforçado grupo, a grande faixa tremia quando seu infernal criador passava de novo por ela com a lentidão de uma lesma. Assim, tornou-se óbvio que os perseguidores estavam ganhando terreno.

    Curtis Whateley, do ramo não decadente, era quem estava com os binóculos quando o grupo de Arkham desviou-se radicalmente da faixa. Ele disse à multidão que os homens estavam evidentemente tentando chegar a um pico secundário que desse vista para a faixa num ponto consideravelmente à frente de onde o matagal estava agora tombando. Isso, de fato, provou ser verdade, pois o grupo foi visto alcançando a elevação menor momentos depois que a blasfêmia invisível havia passado por lá.

    Então, Wesley Corey, que havia pegado o instrumento, gritou que Armitage estava ajustando o pulverizador que Rice segurava e que algo devia estar para acontecer. Os homens agitaram-se apreensivamente, relembrando que era esperado que o pulverizador desse ao horror oculto um momento de visibilidade. Dois ou três homens fecharam os olhos, mas Curtis Whateley apanhou de volta os binóculos e estendeu seu campo de visão para o máximo. Viu que Rice, da posição vantajosa em que se encontrava o grupo – acima e atrás da entidade -, tinha uma chance excelente de espalhar o poderoso pó com um ótimo efeito.

    Os outros, sem o telescópio, viram apenas por um instante uma nuvem cinza – uma nuvem de cerca do tamanho de um prédio moderadamente alto – perto do topo da montanha. Curtis, que estava com o instrumento, derrubou-o com um grito estridente no barro da estrada onde se podia atolar até o tornozelo. Ele cambaleou e teria caído no chão se dois ou três de seus companheiros não o tivessem agarrado e mantido-o em pé. Tudo o que pôde fazer foi lamentar-se de modo quase inaudível.

    – Ai, ai, Deus todo poderoso. . . aquilo… aquilo. . . .

    Houve um pandemônio de perguntas, e somente Henry Wheeler pensou em resgatar o instrumento caído e tirar o barro dele. Curtis havia perdido os sentidos e mesmo respostas isoladas eram demais para ele.

    – Mais grande que uma tuia . . . tudo feito de corda turcida . . . interim do jeito dum ovo de galinha mais grande que carqué coisa com mais de dúzia de perna iguar que uns barrir que fechava pela metade quano eles pisava… num tinha nada de sólido, iguar que uma geléia, e feito dumas corda turcida separada que se empurrava junto . . . uns óio grande e sartado pur tudo lado. . . umas deiz ou vinte boca ou tromba sartano pra fora de tudo lado, do tamanho duma chaminé de fogão, e tudo mexeno e abrino e fechano . . . tudo cinza, c’uns tipo de argola azur ou roxa . . . e pai do céu, aquela mitade de cara lá em riba!. . .

    Esta lembrança final, o que quer que fosse, significou demais para o pobre Curtis; e ele desmaiou completamente antes que pudesse dizer qualquer coisa mais. Fred Farr e Will Hutchins carregaram-no para a lateral da estrada e o deitaram na grama úmida. Henry Wheeler, tremendo, virou os binóculos resgatados em direção à montanha para ver o que fosse possível. Através das lentes, distinguiam-se três figuras minúsculas, correndo em direção ao cume o mais rápido que a íngreme ladeira permitia. Só isso, nada mais. Então, todos notaram um barulho estranhamente inoportuno no vale profundo atrás, e mesmo na vegetação rasteira da própria Colina Sentinela. Era o piar de inúmeros curiangos, e, em seu coro estridente, parecia estar escondida uma nota de tensa e maligna expectativa.

    Earl Sawyer, então, pegou os binóculos e relatou que as três figuras estavam na crista mais alta, praticamente no mesmo nível da pedra-altar, mas a uma distância considerável dela. Um deles, disse, parecia estar levantado as mãos acima da cabeça a intervalos rítmicos; e, enquanto Sawyer mencionava a circunstância, o grupo parecia ouvir à distância um som lânguido e com uma certa musicalidade, como se um cântico em alto tom estivesse acompanhando os gestos. A bizarra silhueta sobre aquele pico remoto deve ter sido um espetáculo infinitamente grotesco e impressionante, mas nenhum observador estava com disposição para uma apreciação estética. “Eu acho qu’ele tá falano as palavra mágica”, sussurrou Wheeler enquanto arrebatava os binóculos de volta. Os curiangos estavam piando furiosamente e num ritmo singularmente curioso e irregular, bem diferente daquele do ritual.

    De repente, o brilho do sol pareceu diminuir sem a intervenção de qualquer nuvem visível. Era um fenômeno muito peculiar e foi bem notado por todos. Um som estrondeante parecia estar-se formando embaixo das colinas, em estranha concordância com um estrondo que vinha claramente do céu. Um relâmpago cintilou no alto, e o grupo abismado procurou em vão por presságios de tempestade. O cântico dos homens de Arkham agora se tornou inconfundível, e Wheeler viu através do instrumento que eles estavam levantando os braços ao ritmo do encantamento. De alguma propriedade rural longínqua, chegaram frenéticos latidos de cães.

    A mudança nas tonalidades da luz do sol aumentou, e o grupo contemplou maravilhado o horizonte. Uma escuridão arroxeada, nascida de nada mais do que um aprofundamento espectral do azul celeste, impelia-se por sobre as retumbantes colinas. Então, relampejou de novo, de forma mais brilhante do que antes, e o grupo imaginou que havia uma certa neblina ao redor da pedra-altar no ápice distante. Contudo, ninguém estava olhando com os binóculos naquele momento. Os curiangos continuaram com sua vibração irregular, e os homens de Dunwich prepararam-se, em meio a grande tensão, contra alguma ameaça imponderável de que a atmosfera estava sobrecarregada.

    Sem que fossem esperados, chegaram aqueles profundos, dissonantes e roucos sons vocais que nunca sairão da memória daquele acometido grupo que os ouviu. Não haviam nascido de nenhuma garganta humana, pois os órgãos dos homens não podem produzir tais perversões acústicas. É mais provável dizer que eles provinham do próprio abismo, se não fosse tão inconfundível que sua fonte era a pedra-altar no pico. De qualquer modo, é quase errôneo chamá-los de sons, já que muito de seu horripilante e infra-grave timbre falava para partes sombrias de consciência e terror muito mais sutis do que o ouvido; contudo, deve-se chamá-los assim, já que sua forma era incontestável embora vagamente a de palavras semi-articuladas. Eram altos – altos como os estrondos e o trovão sobre os quais ecoavam – contudo não provinham de nenhum ser visível. E porque a imaginação pode servir de fonte hipotética para o mundo dos seres não-visíveis, o grupo amontoado na base da montanha amontoou-se ainda mais e se encolheu como se esperasse um desastre.

    – Ygnaiih. . . ygnaiih . . . thflthkh ‘ngha . . . Yog-Sothoth. . . – soou o horripilante grasnido vindo do espaço. – Y’bthnk. . . h ‘ehye – n ‘grkdl’lh. . .

    Nesse momento, o impulso da fala parecia faltar, como se uma terrível luta psíquica estivesse acontecendo. Henry Wheeler voltou a olhar com os binóculos, mas só viu as grotescas silhuetas das três figuras humanas no pico, todas movendo os braços furiosamente em gestos estranhos como se o encantamento estivesse próximo de seu fim. De quais poços negros de medo ou sentimento aquerôntico, de quais desconhecidos golfos de consciência extra-cósmica ou herança obscura e muito latente, foram trazidos aqueles semi-articulados grasnidos de trovão? Nesse momento, eles começaram a adquirir força e coerência renovadas enquanto aumentava o ímpeto de seu último e definitivo frenesi.

    – Eh-ya-ya-ya-yahaah – e ‘yayayayaaaa. . . ngh ‘aaaaa . . . ngh ‘aaa . . . h ‘yuh. . . hyuh . . . HELP! HELP!. . . ff-ff-ff-FATHER! FATHER! YOG-SOTHOTH!. . .

    Mas isso foi tudo. O pálido grupo que estava na estrada, ainda abalado com as sílabas indiscutivelmente inglesas que haviam fluído densa e ameaçadoramente do enfurecido espaço vazio ao lado daquela repelente pedra-altar, nunca mais ouviria tais sílabas outra vez. Em seguida, sobressaltaram-se violentamente com o terrível estrondo que parecia rasgar as colinas; o ensurdecedor e cataclísmico estrépito cuja origem, fosse na Terra ou no céu, nenhum ouvinte foi capaz de afirmar. Um único raio caiu do zênite púrpura e atingiu a pedra-altar, e uma gigantesca onda de invisível força e indescritível mau cheiro, vinda da colina, assolou todo o campo. As árvores, o mato e a vegetação rasteira foram assolados por sua fúria, e o amedrontado grupo na base da montanha, enfraquecido pelo fedor letal que parecia estar a ponto de asfixiar a todos, foi quase arremessado do chão onde pisava. Cães uivavam à distância; o mato e as folhagens murcharam, passando de verde a um curioso e doentio cinza amarelado, e sobre o campo e a floresta espalharam-se os corpos dos curiangos mortos.

    O mau cheiro passou rapidamente, mas a vegetação nunca mais voltou a ser a mesma. Até hoje, há algo esquisito e ímpio na vegetação que cresce naquela temível colina ou a seu redor. Curtis Whateley mal estava recobrando a consciência quando os homens de Arkham desceram lentamente a montanha sob os raios de sol agora mais brilhantes e imaculados. Estavam sérios e calados e pareciam atordoados por memórias e reflexões ainda mais terríveis do que aquelas que haviam reduzido o grupo de habitantes locais a um estado de estremecimento e intimidação. Em resposta a um turbilhão de perguntas, eles apenas balançaram as cabeças e reafirmaram um fato de vital importância.

    – A coisa se foi para sempre – disse Armitage. Foi decomposta, transformando-se naquilo que era originalmente e não pode existir outra vez. Era uma impossibilidade num mundo normal. Somente uma ínfima parte sua era mesmo matéria em qualquer sentido que conhecemos. Era como seu pai, e a maior parte dela voltou para ele em algum vago domínio ou dimensão fora de nosso universo material, em algum vago abismo do qual somente os mais amaldiçoados ritos de blasfêmia humana poderiam tê-la chamado por um momento nas colinas.

    Houve um breve silêncio, e naquela pausa os sentidos dispersos do pobre Curtis Whateley começaram a se unir de volta numa certa continuidade, e, então, ele levou as mãos à cabeça soltando um gemido. As lembranças pareciam-se retomar onde haviam parado, e o horror da visão que o havia prostrado arrebatou-o novamente.

    – Ai, ai, Deus meu, aquela meia cara, aquela meia cara lá no arto dele . . . aquela cara c’os óio vermeio e o cabelo branco enrolado, e sem queixo, iguar que os Whateley . . . Era um porvo, uma centopéia, pareceno uma aranha, mas a metade da cara era de home no arto dele, e parecia o Fiticero Whateley, só que era muito, muito mais grande. . . .

    Exausto, ele fez uma pausa, enquanto todo o grupo de habitantes locais olhava-o numa perplexidade não totalmente cristalizada em novo terror. Apenas o velho Zebulon Whateley, que vagamente se lembrava de coisas antigas mas que ficara quieto até então, falou em voz alta.

    – Faiz sete ano – divagou – qu’eu ouvi o Véio Whateley falá que um dia nóis ia ouvi um fio da Lavinny chamá o nome do pai dele lá no arto da Colina Sentinela. . . .

    Mas Joe Osborn interrompeu-o para voltar a perguntar aos homens de Arkham.

    – Que era aquilo, intão, e cumo é que o moço Fiticero Whateley chamô ele lá de onde ele

    veio?

    Armitage escolheu suas palavras com muito cuidado.

    – Era, bem, era sobretudo um tipo de força que não pertence à nossa parte do espaço; um tipo de força que age, cresce e toma forma por outras leis, diferentes daquelas da nossa espécie de natureza. Não devemos chamar essas coisas do exterior, e somente pessoas muito perversas e cultos muito perversos é que tentam fazê-lo. Havia alguma coisa dela no próprio Wilbur Whateley, suficiente para torná-lo um demônio e um monstro precoce e fazer de sua morte uma cena terrível demais. Vou queimar seu amaldiçoado diário; e, se vocês forem homens prudentes, dinamitem aquela pedra-altar lá no alto e derrubem todos os círculos de pedras verticais das outras colinas. Coisas como essa trouxeram os seres de que os Whateley gostavam tanto, os seres a que eles iam dar forma terrestre para exterminar a humanidade e arrastar a Terra para algum lugar inominável por alguma razão inominável.

    Mas no que se refere a essa coisa que nós acabamos de mandar de volta, os Whateley a criaram para desempenhar um papel terrível nos feitos que estavam por vir. Cresceu rápido e ficou grande pela mesma razão que Wilbur cresceu rápido e ficou grande, mas o superou porque tinha uma porção maior de exterioridade nele. Vocês não precisam perguntar como Wilbur o chamou do espaço. Ele não o chamou. Era seu irmão gêmeo, mas se parecia mais com o pai do que ele.

    H. P. Lovecraft

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