Marquês de Sade

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    Marquês de Sade | O corno de si próprio

    Um dos maiores defeitos das pessoas mal-educadas é expor uma porção de indiscrições, maledicências ou calúnias sobre tudo o que respira, e isso diante das pessoas que não conhecem; não se poderia imaginar a quantidade de casos que se tornaram o fruto de semelhantes falatórios: qual é o homem honesto, com efeito, que ouvirá falar mal do que o interessa sem dar reparo aos malefícios a que o expõe?

    Não se faz com que esse princípio de sábia moderação penetre o bastante a educação dos jovens, não se lhes ensina o suficiente a conhecer o mundo, os nomes, as qualidades, as atinências das pessoas com as quais é-lhes dado conviver; coloca-se, no lugar desse princípio, mil asneiras que só servem para a conspurcação, no exato momento em que se alcança a idade da razão.

    Sempre faz lembrar capuchinhos ensinando, a todo instante, beatices, hipocrisias ou inutilidades, e nunca uma boa máxima de moral. Ide mais longe, interrogar um jovem sobre seus verdadeiros deveres para com a sociedade, perguntai-lhe o que deve a si mesmo e aos outros, de que modo é preciso conduzir-se a fim de ser feliz: ele vos responderá que se lhe ensinou a ir à missa e rezar litanias, mas que nada compreende do que quereis dizer-lhe; que se lhe ensinou a dançar, a cantar, mas não a viver entre os homens.

    O caso que se tomou a consequência do inconveniente que descrevemos não foi sério a ponto de causar derramamento de sangue, disso não resultando senão um gracejo; e é para esmiuçá-la que iremos abusar alguns minutos da paciência de nossos leitores.


    O sr. Raneville, de cinquenta anos aproximadamente, tinha um desses temperamentos fleumáticos que não deixam de exercer, em absoluto, certo encanto no mundo: rindo pouco, mas fazendo os outros rirem muito; pelas tiradas de seu espírito mordaz e pela maneira frívola com que as proferia, amiúde encontrava, unicamente por seu silêncio, ou pelas expressões burlescas de sua fisionomia taciturna, o segredo de divertir mil vezes mais os círculos em que era admitido do que esses tagarelas maçadores sem vivacidade, monótonos, tendo sempre um conto a vos narrar do qual riem uma hora antes, sem ser bastante felizes para alegrar sequer um minuto quantos o escutam.

    Tinha ele um importante emprego no departamento do fisco, e, para se consolar de um péssimo casamento outrora contraído em Orléans, após ter por lá deixado sua mulher desonesta, em Paris despendia sem preocupação vinte ou vinte e cinco mil libras de renda com uma mulher belíssima a quem sustentava, e com alguns amigos tão amáveis quanto ele.

    A amante do sr. Raneville não era propriamente uma moça, mas uma mulher casada e, por consequência, mais ardente, pois, mesmo que se queira negar, essa pitada de sal do adultério acrescenta com frequência grande sabor a um gozo; era ela muito bonita, com seus trinta anos, e tinha o mais belo corpo que é possível achar; separada do marido, medíocre e desagradável, viera da província em busca de fortuna em Paris, e não demorara muito para a encontrar.

    Raneville, naturalmente libertino, à espreita de todo bom pedaço, não deixara escapar este e, havia três anos, por mui honesto tratamento, fineza e dinheiro, fazia com que essa jovem esquecesse todas as decepções que outrora aprouve ao himeneu disseminar em seu caminho.

    Ambos, tendo aproximadamente o mesmo destino, consolavam-se de maneira mútua, e se certificavam dessa grande verdade que, entretanto, não corrige ninguém, segundo a qual só há tantos casamentos maus e, em consequência, tanta infelicidade no mundo, porque pais avaros ou imbecis unem mais as fortunas do que os temperamentos: pois – dizia amiúde Raneville à sua amante –, é bem certo que se o acaso nos tivesse unido, em vez de nos dar, a vós, um marido tirano e ridículo, e a mim, uma mulher prostituta, as rosas teriam nascido aos nossos pés em vez dos espinhos que por tanto tempo colhemos.

    Um acontecimento corriqueiro, do qual é bastante desnecessário falar, levou certo dia o sr. Raneville a essa aldeia lamacenta e insalubre denominada Versalhes, onde reis feitos para serem adorados em sua capital parecem fugir à presença de súbditos que os procuram, onde a ambição, a avareza, a vingança, e o orgulho levam diariamente uma multidão de infelizes nas asas do tormento a sacrificar ao ídolo do momento, onde a elite da nobreza da França, que poderia desempenhar um papel importante em suas terras, consente vir se humilhar em ante-câmaras, adular de modo vil porteiros, ou mendigar humildemente uma refeição pior do que a sua para alguns desses indivíduos que a sorte arranca, por uns momentos, às nuvens do esquecimento, a fim de os recolocar lá pouco depois.

    Tendo resolvido seus negócios, o sr. Raneville monta num desses coches da corte denominados “penicos”, e, lá se encontra fortuitamente em companhia de um certo Dutour, muito tagarela, bem gordo e pesado, grande trocista, também empregado no departamento do fisco, só que em Orléans, sua terra, a qual, conforme disse há pouco, é igualmente a do sr. Raneville.

    Trava-se a conversa, Raneville sempre lacónico e sem jamais se revelar, já sabe o nome, o sobrenome, a cidade e a ocupação do seu companheiro de estrada, antes de dizer sequer uma palavra.

    Tendo informado esses detalhes, o sr. Dutour adentra um pouco mais naqueles da sociedade.

    – Vós estivestes em Orléans, senhor – diz Dutour –, segundo me parece, acabais de afirmar isso.
    – Em tempos passados, lá residi alguns meses.
    – E conhecestes, dizei-me, certa sra. Raneville, uma das maiores p. do mundo que já moraram em Orléans?
    – Sra. Raneville, uma mulher bastante bonita.
    – Exato.
    – Sim, eu a conheci em certa ocasião. Pois bem, eu vos direi confidencialmente que a possuí, por três dias, como se faz com uma p. Com toda certeza, se há um marido cornudo, pode-se dizer que ele é esse pobre Raneville.
    – E o conheceis?
    – Não, só de nome; trata-se de pessoa má, que se arruína em Paris, segundo dizem, com moças e devassos como ele.
    – Nada vos direi sobre ele; não o conheço, mas compadeço-me dos maridos cornos; não o sois, por acaso, senhor?
    – A qual dos dois vos referis, ao marido ou ao corno?
    – A um e outro; essas coisas estão de tal forma ligadas hoje em dia que na verdade é muito difícil diferenciá-las.
    – Sou casado, senhor; tive a infelicidade de desposar uma mulher que comigo não se satisfez; e como seu temperamento me conviesse muito pouco, nós nos separamos amigavelmente, ela preferiu vir para Paris partilhar da solidão de uma de suas parentas, religiosa do convento de Sainte-Aure, e reside nessa casa, de onde me envia notícias suas de vez em quando, porém de maneira nenhuma a vejo.
    – Ela é devota?
    – Não; mas talvez eu tivesse preferido isso.
    – Ah! eu vos compreendo. E vós não tivestes sequer a curiosidade de vos informar sobre sua saúde, nesta vossa estada a que ora vos obrigam vossos negócios em Paris?
    – Em verdade, não, não gosto dos conventos: amigo dos prazeres, da alegria, criado para os entretenimentos, festejado nos círculos sociais, não ouso em absoluto ir me arriscar num locutório há pelo menos seis meses de vapores.
    – Mas uma mulher...
    – ... É um indivíduo que pode interessar quando dela nos ser-vimos, mas da qual devemos saber nos separar quando sérias razões dela nos afastam.
    – Há severidade no que dizeis.
    – Absolutamente... sabedoria... é o tom do presente, é a linguagem da razão; devemos adotá-la, ou passar por idiotas.
    – Isso supõe algum desvio em vossa mulher; explicai-me isso: desvio de natureza, de complacência ou de conduta.
    – Um pouco de tudo... um pouco de tudo, senhor, mas deixe-mos isso, rogo-vos, e retornemos a essa cara sra. Raneville: por Deus, não compreendo que, tendo estado em Orléans, vós não tenhais vos divertido com essa criatura... pois todos a possuíram.
    – Todos, não, pois bem vedes que eu não a possuí: não gosto de mulheres casadas.
    – E sem querer ser por demais curioso: com quem passais vosso tempo, senhor, eu vos pergunto?
    – Primeiramente com meus negócios, e, em seguida, com uma criatura bastante bonita, com quem janto de vez em quando.
    – Não sois casado, senhor?
    – Sou.
    – E vossa mulher?
    – Ela se encontra na província, e deixo-a lá, assim como deixais a vossa em Sainte-Aure.
    – Casado, senhor, casado, e seríeis da confraria? Por favor, respondei-me.
    – Não vos disse que esposo e corno são sinónimos? A depravação dos costumes, o luxo... tantas coisas que fazem uma mulher decair.
    – Oh! é bem verdade, senhor, é bem verdade.
    – Respondeis como homem sábio.
    – Não, absolutamente; se bem que, senhor, uma belíssima pessoa vos consola à ausência da esposa abandonada.
    – Sim, na verdade, uma belíssima pessoa; quero que a conheceis.
    – Senhor, eu ficaria muito honrado.
    – Oh! nada de cerimónias, senhor; eis-nos ao nosso destino; deixo-vos livre esta noite, por causa de vossos negócios, mas amanhã sem falta espero-vos para jantar no endereço que vos entrego.

    E Raneville tem o cuidado de dar um endereço falso, no qual pronto adverte, a fim de que os que vierem perguntar por ele chamando-o por este nome o possam encontrar com facilidade.

    No dia seguinte, o sr. Dutour por razão nenhuma falta ao encontro, e, tendo sido tomadas as precauções, de modo a fazer com que, com um nome fictício, a ele fosse dado encontrar Raneville na residência, ele entra sem dificuldade. Aos primeiros cumprimentos, Dutour parece inquieto por não vislumbrar ainda a divindade que espera ver.

    – Homem impaciente – diz-lhe Raneville – daqui vejo o que procuram vossos olhos... prometi-vos uma bela mulher; já desejaríeis voltear em sua presença; acostumado a desonrar a fronte dos maridos de Orléans, desejaríeis, estou bem certo disso, tratar da mesma forma os amantes de Paris: aposto como estaríeis bem contente de me colocardes na mesma condição desse infeliz Raneville, de quem ontem me falastes de modo tão divertido.

    Dutour responde como homem galante, como pretensioso e, consequentemente, como tolo, a conversação se torna divertida por uns instantes e Raneville, tomando o amigo pela mão:

    – Vinde – diz-lhe –, homem cruel! Vinde ao próprio templo onde a divindade vos espera.

    Dizendo isso, ele faz com que Dutour entre num gabinete luxurioso, onde a amante de Raneville, preparada para o gracejo e, tendo a palavra, encontrava-se no mais elegante déshabillé, sobre uma otomana de veludo, porém velada: nada ocultava a elegância e a exuberância de seu porte, apenas era impossível ver-lhe o rosto.

    – Eis uma pessoa belíssima – exclama Dutour – mas por que me privar do prazer de admirar suas feições, estamos aqui, portanto, no harém do grande Senhor?
    – Não, não é preciso comentários; trata-se de pudor.
    – Como, de pudor?
    – Seguramente; acreditais que eu queira me limitar a vos mostrar somente o porte ou o déshabillé de minha amante; meu triunfo seria completo se, ao retirar todos esses véus, eu vos convencesse do quanto devo estar feliz pela posse de tão fartos encantos. Como essa jovem fosse singularmente modesta, enrubesceria com tais detalhes; ela bem quis concordar com isso, mas sob a cláusula expressa de estar coberta. Sabeis o que é o pudor e as delicadezas das mulheres, sr. Dutour; não é a um homem elegante com trajes da moda como vós que se prescreveria acerca de tais coisas!
    – Como, por Deus, ireis me mostrar?
    – Tudo, já vos disse; ninguém tem menos ciúme do que eu; a felicidade que se experimenta sozinho me parece insípida; só encontro satisfação junto à outra pessoa com quem compartilho.

    E para constatar suas máximas, Raneville começa por retirar um lenço de gaze que revela nesse instante o mais belo pescoço que é possível deslumbrar... Dutour se inflama.
    – E então – diz Raneville –, o que achais disso?
    – São os atributos da própria Vênus.
    – Acreditai: seios tão alvos e firmes são feitos para incendiar... tocai-os, meu camarada! os olhos algumas vezes nos enganam; minha opinião é a de que, em matéria de volúpia, é preciso valer-se de todos os sentidos.

    Dutour estende a mão trémula, apalpa, com êxtase, o mais belo seio do mundo, e não deixa de se surpreender com a incrível complacência de seu amigo.

    – Vamos, mais para baixo! – diz Raneville, levantando até o ventre uma saia leve de tafetá, sem que nada se oponha a essa incursão – pois bem! o que dizeis dessas coxas? Acreditais que o templo do amor possa ser sustentado por colunas mais belas do que essas?

    E o caro Dutour, continuando a apalpar tudo o que Raneville lhe exibia:

    – Patife! adivinho vossos pensamentos – continua o complacente amigo –, esse delicado templo, que as próprias Graças cobriram de um musgo suave... ardeis com desejos de entreabri-lo, não é verdade?
    O que digo; com vontade de lá colher um beijo, isso sim.

    E Dutour transtornado... balbuciando... não respondia mais se-não pela violência das sensações das quais seus olhos eram os instrumentos; encorajam-no... seus dedos libertinos acariciam os pórticos do templo que a própria volúpia descerra a seus desejos: esse beijo divino permitido, ele o dá, e por uma hora o saboreia.
    – Amigo – diz ele –, não aguento mais! expulsai-me de vossa casa, ou permiti que eu siga em frente.
    – Como? Em frente? E para que diabo de lugar desejas ir, respondei-me?
    – Pobre de mim; vós não me compreendeis de modo algum; estou inebriado de amor, não posso mais me conter.
    – E se essa mulher é feia?
    – É impossível sê-lo com encantos tão divinos.
    – Se ela é...
    – Que ela seja tudo o que quiser, eu vos digo, meu caro; não posso mais resistir a isso.
    – Segui em frente, portanto, terrível amigo, segui; satisfazei-vos, pois que é preciso: sereis pelo menos grato por minha complacência?
    – Ah! Terei a maior gratidão, sem dúvida. E Dutour com a mão afastava delicadamente o amigo, como que para deixá-lo a sós com essa mulher.
    – Oh! para deixar-vos, não, não posso – diz Raneville –, mas sois, assim, tão escrupuloso que não podeis vos contentar com mi-nha presença? Entre homens não se age absolutamente desse mo-do: de resto, são minhas condições; ou diante de mim, ou nada.
    – Fosse diante do diabo – diz Dutour, não se contendo mais e precipitando-se ao santuário onde seu incenso vai se queimar –, se assim quereis, concordo com tudo...
    – Pois bem – dizia de modo fleumático Raneville – as aparências vos enganaram, e as delícias prometidas por tão diversos en-cantos são ilusórias ou reais... Ah! nunca, nunca vi algo de tão voluptuoso.
    – Mas esse maldito véu, amigo, esse véu pérfido: não me será permitido retirá-lo?
    – Sim... no último momento, naquele momento tão deleitável, em que todos os nossos sentidos, seduzidos pela embriaguez dos deuses, ela sabe nos tomar tão afortunados quanto eles próprios, e amiúde bem superiores. Essa surpresa dobrará vosso êxtase: ao en-canto de usufruir a própria Vénus, vós acrescentareis as inexprimíveis delícias de contemplar as feições de Flore, e tudo isso se unindo a fim de aumentar vossa felicidade; mergulhareis com bem mais facilidade nesse oceano de prazeres, onde o homem encontra com tanta satisfação o consolo de sua existência... Vós me fareis um si-nal...
    – Oh! como podeis ver – diz Dutour –, sinto-me arrebatado neste momento.
    – Sim, estou vendo; sois fogoso.
    – Mas fogoso a um ponto... ó meu amigo! atinjo este instante celeste! arrancai, arrancai esses véus, que eu contemple o próprio firmamento.
    – Ei-lo – diz Raneville fazendo desaparecer o véu –, mas cui-dado para não encontrardes talvez, um pouco perto desse paraíso o inferno!
    – Oh! pelos céus – exclama Dutour, ao reconhecer sua mulher – ... O quê? Sois vós, senhora?... senhor, que estranho gracejo! vós mereceríeis... essa celerada...
    – Um momento, um momento, homem fogoso! sois vós que mereceis tudo; aprendei, meu amigo, que é preciso ser um pouco mais cauto com as pessoas que não se conhece do que o fostes comigo ontem.
    Esse infeliz Raneville que haveis tratado tão mal em Orléans... sou eu mesmo, senhor; como vedes, eu o retribuo a vós em Paris; de resto, aqui estais, bem mais avançado do que poderíeis crer; pensáveis ter feito corno de mim e acabais de fazê-lo de vós mesmo.

    Dutour aprendeu a lição, estendeu a mão ao amigo, e concordou que recebera o que havia merecido.
    – Mas essa pérfida...
    – Pois bem, ela não vos imita? Qual é a lei bárbara que faz acorrentar desumanamente esse sexo, concedendo-nos toda a liberdade? É ela equitativa? E por que direito natural encerrais vossa mulher em SainteAure, enquanto, em Paris e em Orléans, fazeis os maridos cornos? Meu amigo, isso não é justo, essa encantadora criatura, cujo valor não soubesses reconhecer, veio em busca de outras conquistas: ela teve razão; encontrou-me; faço sua felicidade; fazei a da sra. Raneville; concordo com isso, vivamos felizes os quatro, e que as vítimas do destino não se tornem as dos homens.

    Dutour achou que seu amigo tinha razão, mas por uma fatalidade inconcebível, tornou a se apaixonar com a mão loucamente por sua mulher; Raneville, por mais cáustico, tinha a alma bela demais para resistir aos pedidos de Dutour quanto a recuperar sua mulher, a jovem concordou com isso, e houve nesse acontecimento único, sem dúvida, um exemplo bem singular dos golpes do destino e dos caprichos do amor.

    Marquês de Sade | O marido que recebeu uma lição

    Um homem já na decadência pensou em se casar embora até aquele momento tivesse passado sem mulher, e é possível que a coisa mais tola que fez, de acordo com os seus sentimentos, tenha sido unir-se a uma jovem de dezoito anos, com o rosto mais atraente do mundo e com a cintura não menos proveitosa. Bernac – esse era o seu nome -, fazia tolice ainda maior desposando uma mulher, porquanto se exercitava o menos possível nos prazeres que concede o himeneu, e muito faltava para que as manias por que trocava os castos e delicados prazeres dos laços conjugais agradassem a uma jovem do porte da srta. Lurcie, pois assim se chamava a infeliz a quem Bernac acabava de participar seu destino.

    Desde a primeira noite de núpcias, ele relatou suas preferências à jovem esposa, após tê-la feito jurar nada revelar aos pais dela; tratava-se assim diz o célebre Montesquieu – de procedimento ignominioso que leva de volta à infância: a jovem mulher, na postura de uma menina que merece um corretivo, se prestava então por quinze ou vinte minutos, mais ou menos, aos caprichos bestiais do velho esposo, e era à vista dessa cena que ele conseguia experimentar a deliciosa embriaguez do prazer que todo homem mais bem organizado que Bernac decerto teria desejado sentir apenas nos braços encantadores de Lurcie. A experiência pareceu um pouco dura àquela moça delicada, bela, educada no conforto, mas longe do pedantismo; entretanto, como lhe houvessem recomendado ser submissa, julgou tratar-se aquilo de hábito comum aos esposos, e talvez até mesmo Bernac tivesse contribuído para que pensasse assim, e ela se submeteu de modo mais honesto possível à depravação do seu sátiro; todos os dias era a mesma coisa e, com freqüência, até duas vezes em vez de uma. Ao cabo de dois anos, a srta. Lurcie, que continuamos a chamar sempre por esse nome, de vez que na ocasião se achava tão virgem quanto no primeiro dia de suas núpcias, perdeu o pai e a mãe, e com eles a esperança de fazer abrandar seus sofrimentos, como começava a figurar já havia algum tempo. Essa perda só fez tornar Bernac mais audacioso, e se mantivera dentro de alguns limites, por respeito aos pais de sua mulher enquanto vivos, não demonstrou mais nenhuma moderação tão logo ela os perdeu e ele percebeu-a incapaz de quem a pudesse vingar. O que parecia de início apenas um divertimento, tornou-se pouco a pouco um verdadeiro tormento; essa srta. Lurcie não podia mais suportar isso, seu coração se exasperava, e ela sonhava o tempo todo com vingança. Via pouquíssimas pessoas; o marido a isolava tanto quanto possível. Apesar de todas as admoestações de Bernac, o primo dela, o cavalheiro d’Aldour, não deixara em absoluto de ver sua parenta; esse jovem tinha um belo rosto e não era sem interesse que teimava em visitar a prima; como fosse bastante conhecido de toda a gente, o ciumento, temendo que escarnecessem dele, não ousava muito afastar-se de sua casa… A srta. Lurcie deitara os olhos nesse parente para se libertar da escravidão na qual vivia: ouvia diariamente as belas palavras do primo, e, por fim, revelou-se por completo a ele, tudo lhe confessando.

    – Vingai-me desse homem vil – disse-lhe -, e fazei isso por meio de uma cena que o impressione o bastante para ele próprio jamais ousar falar dela a alguém: o dia em que obtiverdes êxito há de ser o dia de vossa glória; apenas a esse preço serei vossa.

    Encantado, d’Aldour tudo promete e só se empenha para o sucesso de uma aventura que vai lhe assegurar tão belos monumentos. Quando tudo está pronto:

    – Senhor – diz ele um dia a Bernac -, tenho a honra de ser muito íntimo de vós, e em vós confio o bastante para não deixar de vos participar o matrimônio secreto que acabo de contrair.

    – Um matrimônio secreto? – diz Bernac, encantado de se ver livre do rival que o fazia tremer.

    – Sim, senhor! Acabo de me unir ao destino de uma esposa encantadora, e amanhã é o dia em que ela me deve tornar feliz; confesso que se trata de uma moça sem bens; mas o que importa isso se o que tenho basta aos dois? Caso-me, é verdade, com uma família inteira, quatro irmãs que vivem juntas, porém, como me apraz a companhia delas, para mim é apenas uma felicidade a mais… Muito me alegraria, senhor – continua o jovem -, se minha prima e vós me désseis amanhã a honra de vir ao menos ao banquete de núpcias.

    – Senhor, saio muito pouco, e minha mulher menos ainda; vivemos ambos num grande retiro; ela está contente assim, e eu não a incomodo absolutamente.

    – Conheço vossas preferências, senhor – retruca d’Aldour -, e respondo-vos que sereis servido a contento… Amo a solidão tanto quanto vós e, por sinal, tenho razões de discrição, como já disse: é na campanha, faz um belo dia, tudo vos convida e dou-vos minha palavra de honra que estaremos absolutamente sozinhos.

    Lurcie a propósito deixa entrever certo desejo; seu marido não ousa contrariá-la diante de d’Aldour, e combinam o passeio.

    – Devíeis querer tal coisa – diz o homem, irritado no momento em que se vê a sós com sua mulher -, bem sabeis que absolutamente não me preocupo com tudo isso; saberei como dar fim a todos esses vossos desejos, e previno-vos de que em pouco tempo planejo isolar-vos numa de minhas terras, onde não vereis ninguém mais além de mim.

    E como o pretexto, com ou sem fundamento, acrescentasse muito aos atrativos das cenas luxuriosas às quais Bernac inventava planos quando lhe faltava o realismo, aproveitou a oportunidade, fez Lurcie passar ao seu quarto e lhe disse:

    – Iremos… Sim, eu prometi, mas pagareis caro pelo desejo que demonstrastes…

    A infeliz, acreditando estar próxima do desfecho, suporta tudo sem se queixar.

    – Fazei o que vos aprouver, senhor – diz ela humildemente -, vós me concedestes uma graça, sou-vos muito grata.

    Tanta doçura, tanta resignação teria desarmado qualquer um que não tivesse um coração tornado empedernido pelos vícios como o do libertino Bernac, mas nada é capaz de o deter; satisfaz-se, dorme tranqüilo; no dia seguinte, d’Aldour, conforme o combinado, vem buscar o casal e partem.

    – Vereis – diz o jovem primo de Lurcie, entrando com o marido e a mulher numa casa completamente isolada -, vereis que isso não tem lá muito jeito de uma festa popular; nenhum coche, nenhum lacaio, já vos disse; estamos completamente sozinhos.

    Entretanto, quatro mulheres altas de uns trinta anos, fortes, vigorosas e de cinco pés e meio de altura cada uma, avançam sobre a escadaria e vêm receber o Sr. e a Sra. Bernac da maneira mais honesta.

    – Eis minha mulher, senhor – diz d’Aldour, apresentando uma delas -, e estas três aqui são suas irmãs; casamo-nos esta manhã ao alvorecer, em Paris, e os esperamos para celebrar as bodas.

    Tudo se passa segundo as leis da mútua cortesia; depois de algum tempo de reunião no salão, onde Bernac se convence, para grande surpresa sua, que ele se encontra tão só quanto o pôde desejar, um lacaio anuncia o almoço, e sentam-se à mesa. Nada mais descontraído que a refeição, as quatro pretensas irmãs muito acostumadas aos repentes, trouxeram à mesa toda a vivacidade e todo o bom humor possíveis, mas como a decência não é esquecida um minuto sequer, Bernac, enganado até o fim, crê-se na melhor companhia do mundo; todavia, Lurcie encantada de ver o seu tirano numa situação difícil, divertia-se com seu primo, e, decidida em desespero de causa a renunciar enfim a uma continência que não lhe trouxera até aquele momento senão tristezas e lágrimas, bebia com ele o champanhe, inundando-o com os mais ternos olhares; nossas heroínas, que tinham de buscar forças, consagravam-se igualmente à libação, e Bernac, motivado, ainda sem conceber senão uma alegria simples em tais circunstâncias, não se poupava mais do que as outras pessoas. Entretanto, como era mister não perder a razão, d’Aldour interrompe a tempo e propõe passar ao café.

    – Por Deus, meu primo – diz ele, assim que Bernac se encontra afetado -, consenti em vir visitar minha casa; sei que sois homem de bom gosto; eu a comprei e a mobiliei propositadamente para meu casamento, mas temo ter feito um mau negócio; dir-me-eis vossa opinião, por favor.

    – De bom grado – diz Bernac -, ninguém como eu entende mais dessas coisas, e estimarei tudo a mais ou menos dez luíses de diferença, garanto.

    D’Aldour lança-se sobre as escadas dando a mão a rua bela prima, posicionam Bernac no meio das quatro irmãs, e penetram nessa ordem num apartamento muito escuro e muito afastado, absolutamente ao extremo da casa.

    – É aqui a câmara nupcial – diz d’Aldour ao velho ciumento -, vedes essa cama, meu primo; eis onde a esposa vai deixar de ser virgem; ela já não arde de desejos tempo demais?

    Era o sinal: no mesmo instante, nossas quatro malandras saltam sobre Bernac, armadas cada uma de um punhado de varas; retiram-lhe as calças, duas delas o imobilizam, e as outras duas se alternam para fustigá-lo e enquanto o molestam vigorosamente:

    – Meu caro primo – exclama d’Aldour -, não vos disse ontem que seríeis servido a contento? Não imaginei nada melhor para agradar-vos do que devolver-vos o que dais todos os dias a essa encantadora mulher; vós não sois bastante bárbaro para fazer-lhe uma coisa que não gostaríeis de receber; assim, orgulho-me de fazer-vos minha corte; falta ainda uma circunstância, portanto, à cerimônia; minha prima, segundo dizem, embora há muito esteja ao vosso lado, ainda é tão virgem como se vós tivésseis vos casado apenas ontem; tal abandono de vossa parte provém unicamente da ignorância, seguramente; garanto que é por que não sabeis como proceder… Vou mostrar-vos, meu amigo.

    Ao dizer isso, tendo ao fundo uma agradável música, o homem fogoso deita sua prima na cama e a torna mulher aos olhos de seu indigno esposo… Só nesse momento termina a cerimónia.

    – Senhor – diz d’Aldour a Bernac ao descer do altar -, achareis a lição talvez um pouco severa, mas admiti que o ultraje a que submetíeis vossa esposa era, pelo menos, igual; não sou, nem quero ser, amante de vossa mulher; ei-la, devolvo-a, mas vos aconselho a comportar-vos doravante de maneira mais honesta com ela, caso contrário, ela ainda encontraria em mim um vingador que vos pouparia ainda menos.

    – Senhora – diz Bernac furioso -, na verdade esse procedimento…

    – É o que vós merecestes – responde Lurcie -, mas se ele vos desagrada, entretanto, tendes toda a liberdade de expressá-lo; exporemos cada um nossas razões, e veremos de qual dos dois rirá o povo.

    Bernac, confuso, reconhece seus erros, não inventa mais sofismas para legitimá-los, lança-se aos joelhos de sua mulher para rogar seu perdão: Lurcie, terna e generosa, o levanta e abraça, ambos retornam a sua casa, e não sei que meios utilizou Bernac, mas desde esse dia, nunca a capital viu casal mais unido, amigos mais ternos e esposos mais virtuosos.

    Marquês de Sade | O Talião

    Um bom burguês da picardia, talvez descendente de um desses ilustres trovadores das margens do Oise ou do Somme, e cuja vida entorpecida, acabara de ser retirada às trevas havia dez ou doze anos por um grande escritor do século; um bom e honesto burguês, eu dizia, habitava a cidade de Saint-Quentin, tão célebre pelos grandes homens que deu à literatura, e o fazia honradamente, ele, a mulher e uma prima em terceiro grau, religiosa em um convento dessa cidade. A prima em terceiro grau era uma moreninha de olhos vivos, rosto bonito e olhar leviano, nariz arrebitado e cintura esbelta; estava ela aflita aos vinte e dois anos e religiosa havia quatro; irmã Petronille era seu nome; tinha, além disso, bela voz, e muito mais temperamento que religião.

    Quanto ao Sr. Esclaponville – assim se chamava nosso burguês – era ele um gorducho bom e alegre, de mais ou menos vinte e oito anos, amando mormente a prima mas nem tanto a Sra. Esclaponville, pois que já fazia dez anos que com ela dormia e um hábito de dez anos é bem prejudicial ao fogo do himeneu. A Sra. Esclaponville – pois é preciso pintar, por quem passaríamos se não pintássemos num século em que só se precisa de quadros, em que nem mesmo uma tragédia seria aceita se os negociantes de telas não encontrassem nela ao menos seis temas retratados – a Sra. Esclaponville, eu dizia, era uma loura algo insípida, porém branquíssima, com bonitos olhos, bem gordinha, e com essas grandes bochechas comumente denominadas no mundo de bom gozo.

    Até o presente momento, a Sra. Esclaponville ignorava que existisse um modo de se vingar de um esposo infiel; casta como sua mãe, que vivera oitenta e três anos com o mesmo homem sem o trair, ainda era bastante ingênua, muito cheia de candura para sequer suspeitar desse crime horrendo que os casuístas denominaram adultério, e que os hedonistas que tudo edulcoram, chamaram simplesmente galanteria; mas uma mulher enganada logo recebe de seu ressentimento conselhos de vingança, e como ninguém gosta de ser ludibriado, nada há que não faça, tão logo seja possível, para não ser motivo de censura. A Sra. Esclaponville percebeu, enfim, que seu caro esposo visitava muito amiúde a prima em terceiro grau: o demônio do ciúme apodera-se de sua alma, ela espreita, informa-se e acaba por descobrir e poucas coisas podem ser constatadas em Saint-Quentin como o romance de seu esposo com a irmã Petronille. Segura de seu ato, a Sra. Esclaponville declara enfim a seu marido que a conduta que ele segue trespassa-lhe a alma, que, por seu próprio comportamento, não merecia tais atitudes, e suplica-lhe que abandone seus erros.

    – Meus erros – responde fleumático o esposo ignoras, portanto, que me salvo, minha cara amiga, ao dormir com minha prima religiosa? – Purifica-se a alma em tão santo romance; trata-se de uma identificação com o Ser supremo; é incorporar em si o Espírito Santo: não há nenhum pecado, minha cara, quando estão envolvidas pessoas consagradas a Deus; elas depuram tudo o que se faz com elas e visitá-las, em suma, é abrir caminho à beatitude celeste.

    A Sra. Esclaponville, bem descontente com o insucesso da repreensão, não diz palavra, mas em seu íntimo jura encontrar recursos para tornar sua eloqüência mais persuasiva… Nisso tudo, diabo é que as mulheres têm um meio sempre à disposição: por menos bonitas, basta que se manifestem para que acorram vingadores de toda parte.

    Havia na cidade certo vigário de paróquia denominado abade du Bosquet, grande folgazão de uns trinta anos, cortejando todas as mulheres e fazendo da testa de todos os esposos de Saint-Quentin, verdadeira floresta. A Sra. Esclaponville fez contato com o vigário; insensivelmente, o vigário também fez contato com a Sra. Esclaponville, e os dois acabaram por se conhecer enfim de modo tão completo que teriam podido pintar-se mutuamente dos pés à cabeça sem que fosse possível se equivocarem quanto ao corpo. Ao cabo de um mês, todos vieram felicitar o pobre Esclaponville, que se gabava de ser o único a escapar aos temíveis galanteios do vigário, e de que, em Saint-Quentin, era ela a única fronte que esse patife ainda não maculara.

    – Isso não pode ser – diz Esclaponville aos que lhe falavam -, minha mulher é casta como uma Lucrécia; poderiam me dizer cem vezes, que eu não acreditaria.

    – Vem, pois – diz-lhe um de seus amigos -, vem que eu te convenço por meio de teus próprios olhos, e veremos em seguida se duvidarás.

    Esclaponville deixa-se levar, e seu amigo o conduz a meia légua da cidade, num local solitário onde o Somme, estreitado nas margens entre duas sebes frescas e cobertas de flores, oferece agradável banho aos habitantes da cidade; porém, como o encontro houvesse sido marcado numa hora em que normalmente as pessoas não se banham, nosso pobre marido tem a tristeza de ver chegar, um após o outro, sua honesta mulher e seu rival, sem que ninguém os possa interromper.

    – Pois bem – diz o amigo a Esclaponville sentes coceira na testa?

    – Ainda não – diz o burguês, esfregando-a contudo, é possível que, involuntariamente, ela venha até aqui para se confessar.

    – Permaneçamos, pois, até o desfecho, – diz o amigo…

    Não demorou muito: mal havia chegado à deliciosa sombra da sebe olente, o abade du Bosquet desabotoa tudo o que impede as apalpadelas voluptuosas com que sonha, e põe-se no dever de trabalhar santamente para reunir, é possível que pela trigésima vez, o bom e honesto Esclaponville aos outros esposos da cidade.

    – Pois bem, acreditas agora? – Diz o amigo.

    – Retornemos – diz asperamente Esclaponville tendo sido obrigado a acreditar, eu bem poderia matar esse maldito padre, e acabariam fazendo com que eu pagasse mais do que ele vale; retomemos, meu amigo, e guarda segredo, eu te peço.

    Esclaponville torna a casa todo confuso, e, pouco depois, sua benigna esposa vem se apresentar para jantar ao lado de tão casta pessoa.

    – Um momento, queridinha – diz o burguês furioso – desde minha infância jurei a meu pai nunca jantar com putas.

    – Com putas- responde complacentemente a Sra. Esclaponville -, meu amigo, esse comentário me surpreende; que motivo tens para tal censura?

    – Como, sem-vergonha, que motivo tenho para te censurar? Que foste fazer esta tarde no banho com o nosso vigário?

    – Oh, meu Deus – responde a doce mulher -, é apenas isso, meu filho? É apenas isso que tens a me dizer?

    – Como, por Deus, é apenas isso…

    – Mas, meu amigo, eu segui teus conselhos; não me dissestes que nada se arrisca quando se dorme com pessoas da Igreja? Que depuramos nossa alma em tão santo romance? Que tal ato equivalia a identificar-se ao Ser supremo, fazer entrar o Espírito Santo em si, e abrir caminho, em resumo, à beatitude celeste… Pois bem, meu filho, só fiz o que me disseste; sou, portanto, uma santa, não uma meretriz! Ah! Respondo-te que se a alguma dessas boas almas de Deus é dado um meio de abrir caminho, como disseste, à beatitude celeste, esse meio é certamente o Sr. vigário, pois nunca vi uma chave tão grande!

    Marquês de Sade | O Professor Filósofo

    De todas as ciências que se inculca na cabeça de uma criança quando se trabalha em sua educação, os mistérios do cristianismo, ainda que uma das mais sublimes matérias dessa educação, sem dúvida não são, entretanto, aquelas que se introjetam com mais facilidade no seu jovem espírito. Persuadir, por exemplo, um jovem de catorze ou quinze anos de que Deus pai e Deus filho são apenas um, de que o filho é consubstancial com respeito ao pai e que o pai o é com respeito ao filho, etc, tudo isso, por mais necessário à felicidade da vida, é, contudo, mais difícil de fazer entender do que a álgebra, e quando queremos obter êxito, somos obrigados a empregar certos procedimentos físicos, certas explicações concretas que, por mais que desproporcionais, facultam, todavia, a um jovem, compreensão do objeto misterioso.

    Ninguém estava mais profundamente afeito a esse método do que o abade Du Parquet, preceptor do jovem conde de Nerceuil, de mais ou menos quinze anos e com o mais belo rosto que é possível ver.

    – Senhor abade, – dizia diariamente o pequeno conde a seu professor – na verdade, a consubstanciação é algo que está além das minhas forças; é-me absolutamente impossível compreender que duas pessoas possam formar uma só: explicai-me esse mistério, rogo-vos, ou pelo menos colocai-o a meu alcance.

    O honesto abade, orgulhoso de obter êxito em sua educação, contente de poder proporcionar ao aluno tudo o que poderia fazer dele, um dia, uma pessoa de bem, imaginou um meio bastante agradável de dirimir as dificuldades que embaraçavam o conde, e esse meio, tomado à natureza, devia necessariamente surtir efeito. Mandou que buscassem em sua casa uma jovem de treze a catorze anos, e, tendo instruído bem a mimosa, fez com que se unisse a seu jovem aluno.

    – Pois bem, – disse-lhe o abade – agora, meu amigo, concebas o mistério da consubstanciação: compreendes com menos dificuldade que é possível que duas pessoas constituam uma só?

    – Oh! meu Deus, sim, senhor abade, – diz o encantador energúmeno – agora compreendo tudo com uma facilidade surpreendente; não me admira esse mistério constituir, segundo se diz, toda a alegria das pessoas celestiais, pois é bem agradável quando se é dois a divertir-se em fazer um só.

    Dias depois, o pequeno conde pediu ao professor que lhe desse outra aula, porque, conforme afirmava, algo havia ainda "no mistério" que ele não compreendia muito bem, e que só poderia ser explicado celebrando-o uma vez mais, assim como já o fizera. O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem, e a lição recomeça, mas desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa visão que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, não pôde evitar colocar-se como o terceiro na explicação da parábola evangélica, e as belezas por que suas mãos haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.

    – Parece-me que vai demasiado rápido, – diz Du Parquet, agarrando os quadris do pequeno conde muita elasticidade nos movimentos, de onde resulta que a conjunção, não sendo mais tão íntima, apresenta bem menos a imagem do mistério que se procura aqui demonstrar… Se fixássemos, sim… dessa maneira, diz o velhaco, devolvendo a seu aluno o que este empresta à jovem.

    – Ah! Oh! meu Deus, o senhor me faz mal – diz o jovem – mas essa cerimônia parece-me inútil; o que ela me acrescenta com relação ao mistério?

    – Por Deus! – diz o abade, balbuciando de prazer – não vês, caro amigo, que te ensino tudo ao mesmo tempo? É a trindade, meu filho… É a trindade que hoje te explico; mais cinco ou seis lições iguais a esta e serás doutor na Sorbornne.

    Marquês de Sade | O marido padre – Conto provençal

    Entre a cidade de Menerbe, no condado de Avinhão, e a de Apt, em Provença, há um pequeno convento de carmelitas isolado, denominado Saint-Hilaire, assentado no cimo de uma montanha onde até mesmo às cabras é difícil o pasto; esse pequeno sítio é aproximadamente como a cloaca de todas as comunidades vizinhas aos carmelitas; ali, cada uma delas relega o que a desonra, de onde não é difícil inferir quão puro deve ser o grupo de pessoas que freqüenta essa casa. Bêbados, devassos, sodomitas, jogadores; são esses, mais ou menos, os nobres integrantes desse grupo, reclusos que, nesse asilo escandaloso, o quanto podem ofertam a Deus almas que o mundo rejeita. Perto dali, um ou dois castelos e o burgo de Menerbe, o qual se acha apenas a uma légua de Saint-Hilaire – eis todo o mundo desses bons religiosos que, malgrado sua batina e condição, estão, entretanto, longe de encontrar abertas todas as portas de quantos estão à sua volta.

    Havia muito o padre Gabriel, um dos santos desse eremitério, cobiçava certa mulher de Menerbe, cujo marido, um rematado corno, chamava-se Rodin. A mulher dele era uma moreninha, de vinte e oito anos, olhar leviano e nádegas roliças, a qual parecia constituir em todos os aspectos lauto banquete para um monge. No que tange ao Sr. Rodin, este era homem bom, aumentando o seu patrimônio sem dizer nada a ninguém: havia sido negociante de panos, magistrado, e era, pois, o que se poderia chamar um burguês honesto; contudo, não muito seguro das virtudes de sua cara-metade, era ele sagaz o bastante para saber que o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de os estar usando; estudara para tornar-se padre, falava latim como Cícero, e jogava bem amiúde o jogo de damas com o padre Gabriel que, cortejador astuto e amável, sabia que é preciso adular um pouco o marido de cuja mulher se deseja possuir. Era um verdadeiro modelo dos filhos de Elias, esse padre Gabriel: dir-se-ia que toda a raça humana podia tranqüilamente contar com ele para multiplicar-se; um legítimo fazedor de filhos, espadaúdo, cintura de uma alna* , rosto perverso e trigueiro, sobrancelhas como as de Júpiter, tendo seis pés de altura e aquilo que é a característica principal de um carmelita, feito, conforme se diz, segundo os moldes dos mais belos jumentos da província. A que mulher um libertino assim não haveria de agradar soberbamente? Desse modo, esse homem se prestava de maneira extraordinária aos propósitos da Sra. Rodin, que estava muito longe de encontrar tão sublimes qualidades no bom senhor que os pais lhe haviam dado por esposo. Conforme já dissemos, o Sr. Rodin parecia fazer vistas grossas a tudo, sem ser, por isso, menos ciumento, nada dizendo, mas ficando por ali, e fazendo isso nas diversas vezes em que o queriam bem longe. Entretanto, a ocasião era boa. A ingênua Rodin simplesmente havia dito a seu amante que apenas aguardava o momento para corresponder aos desejos que lhe pareciam fortes demais para que continuasse a opor-lhes resistência, e padre Gabriel, por seu turno, fizera com que a Sra. Rodin percebesse que ele estava pronto a satisfazê-la… Além disso, num breve momento em que Rodin fora obrigado a sair, Gabriel mostrara à sua encantadora amante uma dessas coisas que fazem com que uma mulher se decida, por mais que hesite… Só faltava, portanto, a ocasião.

    Num dia em que Rodin saiu para almoçar com seu amigo de Saint-Hilaire, com a idéia de o convidar para uma caçada, e depois de ter esvaziado algumas garrafas de vinho de Lanerte, Gabriel imaginou encontrar na circunstância o instante propício à realização dos seus desejos.

    – Oh, por Deus, senhor magistrado, – diz o monge ao amigo – como estou contente de vos ver hoje! Não poderíeis ter vindo num momento mais oportuno do que este; ando às voltas com um caso da maior importância, no qual haveríeis de ser a mim de serventia sem par.

    – Do que se trata, padre?

    – Conheceis Renoult, de nossa cidade.

    – Renoult, o chapeleiro.

    – Precisamente.

    – E então?

    Pois bem, esse patife me deve cem écus* , e acabo de saber que ele se acha às portas da falência; talvez agora, enquanto vos falo, ele já tenha abandonado o Condado… Preciso muitíssimo correr até lá, mas não posso fazê-lo.

    – O que vos impede?

    – Minha missa, por Deus! A missa que devo celebrar; antes a missa fosse para o diabo, e os cem écus voltassem para o meu bolso.

    – Não compreendo: não vos podem fazer um favor?

    – Oh, na verdade sim, um favor! Somos três aqui; se não celebrarmos todos os dias três missas, o superior, que nunca as celebra, nos denunciaria à Roma; mas existe um meio de me ajudardes, meu caro; vede se podeis fazê-lo; só depende de vós.

    – Por Deus! De bom grado! Do que se trata?

    – Estou sozinho aqui com o sacristão; as duas primeiras missas foram celebradas, nossos monges já saíram, ninguém suspeitará do ardil; os fiéis serão poucos, alguns camponeses, e quando muito, talvez, essa senhorazinha tão devota que mora no castelo de… A meia légua daqui; criatura angelical que, à força da austeridade, julga poder reparar todas as estroinices do marido; creio que me dissestes que estudastes para ser padre.

    – Certamente.

    – Pois bem, deveis ter aprendido a rezar a missa.

    – Faço-o como um arcebispo.

    – Ó meu caro e bom amigo! – prossegue Gabriel lançando-se ao pescoço de Rodin – são dez horas agora; por Deus, vesti meu hábito, esperai soar a décima primeira hora; então celebrai a missa, suplico-vos; nosso irmão sacristão é um bom diabo, e nunca nos trairá; àqueles que julgarem não me reconhecer, dir-lhes-emos que é um novo monge, quanto aos outros, os deixaremos em erro; correrei ao encontro de Renoult, esse velhaco, darei cabo dele ou recuperarei meu dinheiro, estando de volta em duas horas. O senhor me aguardará, ordenará que grelhem os linguados, preparem os ovos e busquem o vinho; na volta, almoçaremos, e a caça… Sim, meu amigo, a caça, creio que há de ser boa dessa vez: segundo se disse, viu-se pelas redondezas um animal de chifres, por Deus! Quero que o agarremos, ainda que tenhamos de nos defender de vinte processos do senhor da região!

    – Vosso plano é bom – diz Rodin – e, para vos fazer um favor, não há, decerto, nada que eu não faça; contudo, não haveria pecado nisso?

    – Quanto a pecados, meu amigo, nada direi; haveria algum, talvez, em executar-se mal a coisa; porém, ao fazer isso sem que se esteja investido de poderes para tanto, tudo o que dissentes e nada são a mesma coisa. Acreditai em mim; sou casuísta, não há em tal conduta o que se possa chamar pecado venial.

    – Mas seria preciso repetir a liturgia?

    – E como não? Essas palavras são virtuosas apenas em nossa boca, mas também esta é virtuosa em nós… Reparai, meu amigo, que se eu pronunciasse tais palavras deitado em cima de vossa mulher, ainda assim eu havia de metamorfosear em deus o templo onde sacrificais… Não, não, meu caro; só nós possuímos a virtude da transubstanciação; pronunciaríeis vinte mil vezes as palavras, e nunca faríeis descer algo dos céus; ademais, bem amiúde convosco a cerimónia fracassa por completo; e, aqui, é a fé que faz tudo; com um pouco de fé transportaríamos montanhas, vós sabeis, Jesus Cristo o disse, mas quem não tem fé nada faz…

    Eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimónia penso mais nas moças ou nas mulheres da assembléia do que no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos, acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será, portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.

    – Pelos céus, – diz Rodin – é que tenho uma fome devoradora! Ainda faltam duas horas para o almoço!

    – E o que vos impede de comer um pouco? Aqui tendes alguma coisa.

    – E a tal missa que é preciso celebrar?

    – Por Deus! O que há de mal nisso? Acreditais que Deus se há de macular mais caindo numa barriga cheia em vez de numa vazia? O diabo me carregue se não é a mesma coisa a comida estar em cima ou embaixo! Meu caro, se eu dissesse em Roma todas as vezes que almoço antes de celebrar minha missa, passaria minha vida na estrada. Além disso, não sois padre, nossas regras não vos podem constranger; ireis tão-somente dar certa imagem da missa, não ireis celebrá-la; conseqüentemente, podereis fazer tudo o que quiserdes antes ou depois, inclusive beijar vossa mulher, caso ela aqui estivesse; não se trata de agir como eu; não é celebrar, nem consumar o sacrifício.

    – Prossigamos – diz Rodin – hei de fazê-lo, Podeis ficar tranqüilo.

    – Bem – diz Gabriel, dando uma escapadela, depois de fazer boas recomendações do amigo ao sacristão… – contai comigo, meu caro; antes de duas horas estarei aqui – e, satisfeito, o monge vai embora.

    Não é difícil imaginar que ele chega apressado à casa da mulher do magistrado; que ela se admira de vê-lo, julgando-o em companhia de seu marido; que ela lhe pergunta a razão de visita tão imprevista.

    – Apressemo-nos, minha cara – diz o monge, esbaforido – apressemo-nos! Temos para nós apenas um instante… Um copo de vinho, e mãos à obra!

    – Mas, e quanto a meu marido?

    – Ele celebra a missa.

    – Celebra a missa?

    – Pelo sangue de Cristo, sim, mimosa – responde o carmelita, atirando a Sra. Rodin ao leito – sim, alma pura, fiz de seu marido um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino, apressemo-nos em levar a cabo um profano…

    O monge era vigoroso; a uma mulher, era difícil opor-se-lhe quando ele a agarrava: suas razões, por sinal, eram tão convincentes… Ele se põe a persuadir a Sra. Rodin, e, não se cansando de fazê-lo a uma jovem lasciva de vinte e oito anos, com um temperamento típico da gente de Provença, repete algumas vezes suas demonstrações.

    – Mas, meu anjo – diz, enfim, a beldade, perfeitamente persuadida – sabeis que se esgota o tempo… Devemos nos separar: se nossos prazeres devem durar apenas o tempo de uma missa, talvez ele já esteja há muito no ite missa est.

    – Não, não, minha querida – diz o carmelita, apresentando outro argumento à Sra. Rodin -, deixai estar, meu coração, temos todo o tempo do mundo! Uma vez mais, minha cara amiga, uma vez mais! Esses noviços não vão tão rápido quanto nós… Uma vez mais, vos peço! Apostaria que o corno ainda não ergueu a hóstia consagrada.

    Todavia, mister foi que se despedissem, não sem promessas de se reverem; tracejaram novos ardis, e Gabriel foi encontrar-se com Rodin; este havia celebrado a missa tão bem quanto um bispo.

    – Apenas o quod aures – diz ele – embaraçou-me um pouco; eu queria comer em vez de beber, mas o sacristão fez com que eu me recompusesse; e quanto aos cem écus, padre?

    – Recuperei-os, meu filho; o patife quis resistir, peguei de um forcado, dei-lhe umas pauladas, juro-vos, na cabeça e noutras partes.

    Entretanto, a diversão termina; nossos dois amigos vão à caça e, ao regressar, Rodin conta à sua mulher o favor que prestou a Gabriel.

    – Celebrei a missa – dizia o grande tolo, rindo com todas as forças – sim, pelo corpo de Cristo! Eu celebrava a missa como um verdadeiro vigário, enquanto nosso amigo media as espáduas de Renoult com um forcado… Ele dava com a vara; que dizeis disso, minha vida? Colocava galhos na fronte; ah! Boa e querida mãezinha! Como essa história é engraçada, e como os cornos me fazem rir! E vós, minha amiga, o que fazíeis enquanto eu celebrava a missa?

    – Ah! Meu amigo – responde a mulher – parecia inspiração dos céus! Observai de que modo nos ocupavam de todo, a um e a outro, as coisas do céu, sem que disso suspeitássemos; enquanto celebráveis a missa, eu entoava essa bela oração que a Virgem dirige a Gabriel quando este fora anunciar-lhe que ela ficaria grávida pela intervenção do Espírito Santo. Assim seja, meu amigo! Seremos salvos, com toda certeza, enquanto ações tão boas nos ocuparem a ambos ao mesmo tempo.

    Notas:
    *Antiga medida de comprimento de três palmos. (N. dos T.)

    Marquês de Sade | Augustine de Villeblanche, ou O Estratagema do Amor

    De todos os desvios da natureza, o que mais causou reflexão, que pareceu mais estranho a esses pseudofilósofos que tudo querem analisar sem nunca compreender algo -, dizia a uma de suas melhores amigas, certo dia, a Srta. Villeblanche, da qual falaremos oportunamente daqui a pouco -, é esse gosto bizarro que mulheres de certa compleição, ou de certo temperamento, desenvolveram com respeito a pessoas do seu sexo. Embora bem anteriormente à imortal Safo, e depois dela, não tivesse existido uma única região do universo, sequer uma cidade, que não nos tivesse dado mulheres nascidas desse tipo de capricho, e de acordo com provas tão cabais, fosse mais razoável acusar a natureza de bizarria do que a essas mulheres de crime contra a natureza, jamais, entretanto, deixou-se de as censurar, e, sem a autoridade imperiosa que sempre teve o nosso sexo, quem sabe se algum Cujas, algum Bartole, algum Luís IX, teriam imaginado criar leis de fagots* , contra essas criaturas, do modo como ousaram promulgar contra os homens que, formando o mesmo gênero singular, e por tão boas razões, sem dúvida, imaginaram, entre eles, poder se bastar a si próprios, e pensaram que a mistura dos sexos, muito útil à propagação, podia muito bem não ter essa mesma importância para os prazeres.

    – Queira Deus que não tomemos nenhum partido sobre isso… Não é, minha cara? – continuava a bela Augustine de Villeblanche, lançando a essa amiga beijos que pareciam, entretanto, no mínimo, suspeitos, mas em vez de fagots, em vez de desprezo, em vez de sarcasmos – essas armas de todos e embotadas em nossos dias -, não seria infinitamente mais simples, num gesto totalmente indiferente à sociedade, tão ao agrado de Deus, e, talvez mais útil à natureza do que se imagina, que se permitisse a cada qual agir segundo a própria vontade … ? O que se pode temer dessa depravação? Aos olhos de todo ser verdadeiramente sábio, parecerá que ela é capaz de exercer influência sobre maiores depravações, mas nunca me convencerão de que ela pode acarretar depravações perigosas… Pelos céus! Receia-se que os caprichos dessas pessoas, de um ou de outro sexo, sejam a causa do fim do mundo; que ponham em risco a valiosa espécie humana, e que seu pretenso crime a aniquile, por não se entregarem à sua multiplicação? Refleti bem sobre isso, e vereis que todas essas perdas quiméricas são inteiramente indiferentes à natureza; que não apenas ela não as condena em absoluto, mas também prova a nós, de mil maneiras, que as quer e deseja; e, contrariassem-na essas perdas, ela haveria de as tolerar em mil casos; permitiria ela, fosse-lhe a progenitura tão essencial, que uma mulher a isso não pudesse servir senão durante um terço de sua vida, e que, ao sair-lhe das mãos metade dos seres que ela gera, estes tivessem inclinações contrárias a essa progênie, exigida, todavia, por ela? Sendo mais preciso: ela permite que as espécies se multipliquem, mas não exige isso de modo algum, e, bem segura de que haverá sempre mais indivíduos do que lhe é necessário, longe está de contrariar Os pendores de quantos não se entregam à reprodução, e que se recusam a conformar-se a isso. Ah! Deixemos que aja essa boa mãe; convençamo-nos de que imensos são os seus recursos, de que nada do que fazemos a ultraja e o crime que atentaria contra as suas leis jamais nos há de sujar as mãos.

    A Srta. Augustine de Villeblanche, de cuja parte da lógica acabamos de tomar conhecimento, tendo se tornado senhora de seus atos aos vinte anos de idade, podendo dispor de trinta mil libras de renda, decidira-se, por gosto, nunca se casar; de boa origem, sem ser ilustre, era ela filha de um homem que enriquecera nas índias, que a tivera como única filha, e morrera sem nunca a poder convencer de se casar. Não devemos dissimulá-lo; essa repugnância que Augustine manifestava pelo casamento em muito se devia a esse tipo de capricho do qual ela acabara de fazer apologia; seja por conselhos, por educação, seja por disposição de órgão ou pelo calor do seu sangue (nascera em Madras), seja por inspiração da natureza, enfim, seja por tudo o que se quiser, a Srta. Villeblanche detestava os homens, e de todo se entregava àquilo que ouvidos castos entenderão com o termo safismo; não encontrava volúpia senão nas pessoas de seu sexo, e só com as Graças se compensava do desprezo que votava ao Amor.

    Para os homens, Augustine era um verdadeiro desperdício; alta, podendo servir de modelo a um pintor, com cabelos castanhos os mais belos, nariz um pouco aquilino, dentes extraordinários, e olhos de uma expressão, de uma vivacidade! Pele tão fina, tão branca, o conjunto, numa palavra, evocando tão ardente lascívia… Que bem certo era que vê-la assim, perfeita para dar amor e tão determinada a não o receber de maneira alguma, poderia arrancar a muitos homens infinitas zombarias contra determinado gosto, por sinal, muito simples, mas privando, contudo, os altares de Pafo* de uma das criaturas do universo mais apropriadas a servi-los, – vê-la assim por força havia de animar os sectários dos templos de Vênus. A srta. Villeblanche ria prazerosamente dessas censuras todas, dessas maledicências, e por isso não se dava menos a seus caprichos.

    – A maior de todas as loucuras – dizia ela – é enrubescer por causa de nossas inclinações naturais; e zombar de qualquer indivíduo que possua gostos singulares é absolutamente tão desumano quanto escarnecer de um homem ou de uma mulher saída zarolha ou coxa do seio de sua mãe; mas convencer os tolos sobre esses princípios racionais é tentar impedir o movimento dos astros. Para o orgulho, há uma espécie de prazer em zombar dos defeitos que se não tem, e essa satisfação é tão doce ao homem e particularmente aos néscios, que é muito raro vê-los renunciar a tal comportamento, este, por sinal, fomenta a malvadez, as frívolas palavras de espírito, os calembures vulgares, e, para a sociedade, isto é, para um grupo de seres que o tédio reúne e a estupidez modifica, é tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer! tão delicioso brilhar às custas dos outros, e proclamar, estigmatizando um vício, que se está bem longe de o possuir… é uma espécie de elogio que se faz tacitamente a si mesmo; por esse preço é lícito inclusive associar-se aos outros, tracejar maquinações secretas a fim de pisar no indivíduo cujo grande erro é não pensar como a maioria dos mortais; e a pessoa volta para casa toda entufada devido à espirituosidade que não lhe faltou, embora com tal conduta só se tenha demonstrado, essencialmente, pedantismo e estupidez.

    Assim pensava a srta. Villeblanche; decidida de maneira muito segura a nunca se reprimir, desdenhando as maledicências e bastante rica para manter-se a si própria acima de sua reputação, visava epicurianamente a uma vida voluptuosa, e de maneira nenhuma a beatices celestiais em que acreditava muito pouco, para não mencionar a idéia de uma imortalidade, por demais quimérica aos seus sentidos; no centro de um pequeno círculo de mulheres que pensavam como ela, a cara Augustine entregava-se inocentemente a todos os prazeres que a deleitavam. Tivera muitos pretendentes, mas todos haviam sido tão maltratados, que quando já se estava prestes a se renunciar a tal conquista, um jovem de nome Franville, de semelhante condição social, ao menos tão rico quanto ela, tendo se apaixonado como louco, não apenas não se revoltou de maneira nenhuma com sua firmeza, como também decidiu com muita seriedade não abandonar o posto enquanto ela não fosse conquistada; comunicou o projeto a seus amigos, que dele zombaram; asseverou-lhes que obteria êxito; eles o desafiaram a obtê-lo, e ele se lançou à empresa. Franville, com dois anos menos que a srta. Villeblanche, quase não tinha barba, mas boa estatura, e feições as mais delicadas, e os cabelos mais bonitos do mundo; quando o trajavam de mulher, ficava tão bem que sempre enganava os dois sexos, e recebia amiúde, fugindo ao assédio de uns, dos que demonstravam segurança em sua ação, uma grande quantidade de declarações tão objetivas que no mesmo dia seria capaz de se tornar o Antínoo de algum Adriano ou o Adônis de alguma Psique. Foi com esse disfarce que Franville imaginou seduzir srta. Villeblanche; veremos como procedeu.

    * Antiga cidade da ilha de Chipre, célebre por seu templo de Afrodite (N.dos T.)

    Um dos maiores prazeres de Augustine era, durante o carnaval, vestir-se de homem, e participar de todos os bailes com esse disfarce, tão análogo a suas inclinações; Franville, que lhe mandava vigiar os passos, e que até aquele momento tivera o cuidado de revelar-se-lhe bem pouco, soube, certa feita, que essa a quem adorava na mesma noite iria a um baile organizado por associados do Ópera, onde todos os mascarados poderiam entrar, e que, segundo costume dessa moça encantadora, ela se apresentaria como capitã dos dragões. Ele se disfarça de mulher, enfeita-se, veste-se com toda elegância e propriedade, carrega a maquiagem, prescindindo da máscara, e, acompanhado por uma de suas irmãs, muito menos bonita do que ele próprio, apresenta-se assim no baile, para onde a amável Augustine se dirigia em busca de aventura.

    Menos de três voltas pelo salão bastaram para que Franville fosse distinguido pelos olhos experientes de Augustine.

    – Quem é aquela bela moça? – diz a srta. Villeblanche a uma amiga que a acompanhava -… Creio nunca tê-la visto; como é possível que tão deliciosa criatura tenha, pois, nos escapado?

    Mal haviam sido pronunciadas essas palavras, e Augustine faz quanto pode para encetar conversa com a falsa senhorita de Franville, que a princípio foge, inquieta-se, esquiva-se, escapa, e tudo isso a fim de fazer com que a desejem com mais ardor; por fim, ela o aborda, frases banais travam inicialmente a conversa a qual, a pouco e pouco, torna-se mais interessante.

    – Está fazendo um calor insuportável no salão diz a srta. Villeblanche -, deixemos nossas companhias juntas, e tomemos um pouco de ar nesses aposentos onde nos divertimos e refrescamos.

    – Ah, senhor – diz Franville à srta. Villeblanche a qual ainda finge confundir com um homem… – na verdade, não ouso fazer isso: estou aqui apenas com minha irmã, mas sei que minha mãe deverá vir com o esposo que me foi destinado, e se ambos me vissem convosco, seria uma grande confusão…

    – Bem, bem, é preciso pôr-se ao abrigo de todo esse medo infantil… Qual a vossa idade, meu anjo?

    – Dezoito anos, senhor.

    – Ah! Digo-vos que aos dezoito já se deve ter adquirido o direito de fazer tudo o que se quiser… Vamos, vamos, acompanhai-me, e não tenhais nenhum medo… – E Franville se deixa levar.

    – É verdade, encantadora criatura – continua Augustine, conduzindo a pessoa a quem ainda toma aposentos contíguos ao salão do baile… – é verdade, realmente vós vos unireis em matrimônio… Como lamento por vós! e quem é ele, essa pessoa a quem vos destinam? Um maçador, decerto… Ah, como será feliz, esse homem, e como eu gostaria de estar no lugar dele! Consentiríeis desposar-me a mim, por exemplo? Dizei-me francamente, jovem celestial.

    – Ai de mim! Senhor, acaso não sabeis que, quando se é jovem, segue-se os impulsos do coração?

    – Pois bem; recusai-o, esse homem vil! tornar-nos-emos ambos mais íntimos, e, se gostarmos… Por que não nos unir-nos? Não preciso, graças a Deus, de permissão nenhuma; embora tenha só vinte anos, sou senhor de minha vida, e se pudésseis persuadir vossos pais em meu favor, antes de oito dias talvez estivésseis, vós e eu, ligados pelos laços eternos.

    Tagarelando, saíram do baile, e a astuta Augustine, que até lá não conduzia sua presa para fugir ao perfeito amor, teve o cuidado de a conduzir a um aposento muito isolado, do qual, por meio de acordos acertados com os organizadores do baile, ela sempre tinha o cuidado de se fazer senhora.

    – Oh Deus! – diz Franville, tão logo vê Augustine fechar a porta desse quarto e envolvê-lo nos seus braços -, oh pelos céus! Que desejais fazer?… O quê? Convosco, frente a frente, senhor, e num lugar tão retirado… Deixai-me, deixai-me, rogo-vos! Ou chamo agora mesmo por socorro.

    – Impedir-te-ei de fazê-lo, anjo divino – diz Augustine, apertando a bela boca contra os lábios de Franville – grita agora, grita se podes, e o puro sopro de teu hálito de rosas abrasará ainda mais cedo o meu coração.

    Franville defendia-se com bastante tibieza: é difícil encolerizar-se muito quando se recebe de maneira tão terna o primeiro beijo de quem se adora. Augustine, encorajada, investia com mais força, nisso pondo essa veemência que só com efeito conhecem as mulheres deliciosas, arrebatadas por essa fantasia. Em breve as mãos se desgarram; Franville faz o papel da mulher que cede, igualmente deixa que suas mãos explorem o corpo. Todas as vestes são retiradas, e os dedos se dirigem quase ao mesmo tempo para onde cada um crê encontrar o que lhe convém… Então, Franville muda imediatamente de papel:

    – Oh! Pelos céus – exclama ele -, o quê? Sois uma mulher…

    – Horrível criatura – diz Augustine, pondo a mão em partes do corpo que não dão margem à dúvida -, tanto trabalho para encontrar um mísero homem… é preciso ter azar demais.

    – Na verdade, não mais do que eu – diz FranviIle, recompondo-se, e dando mostras do mais profundo desprezo -, uso esse disfarce para seduzir os homens; eu os amo, corro atrás deles, e só encontro uma p…

    – Oh, p…. Não – diz Augustine, com rancor nunca o fui em minha vida; não é por se detestar os homens que se pode ser tratada dessa maneira…

    – Como, sois mulher, e detestais os homens?

    – Sim, e isso pela mesma razão de serdes homem e detestardes mulheres.

    – Um encontro singular – eis tudo o que se pode dizer.

    – E para mim muito triste – acrescenta Augustine, revelando todos os sintomas de descontentamento mais acentuado.

    – Em verdade, senhorita, tal encontro é ainda mais fastidioso para mim – diz asperamente Franville -, desonrado por três semanas: sabeis que em nossa ordem fazemos voto de nunca tocar em mulheres?

    – Parece-me que, sem se desonrar, é possível tocar numa como eu.

    – Com efeito, minha bela – continua Franville não vejo grande motivo para a exceção, e não compreendo que um vício para vós valha um mérito adicional.

    – Um vício? Mas caberia a vós censurar-me pelos meus, quando partilhais da mesma infâmia?

    – Escutai – diz Franville -, não continuemos discutindo; o melhor é nos separarmos e nunca mais nos vermos.

    E, dizendo isso, Franville prepara-se para abrir a porta.

    – Um momento, um momento – diz Augustine impedindo-o de fazer isso -, ides espalhar nossa aventura pelo mundo todo, aposto.

    – Talvez venha a me divertir com isso.

    – Que me importa, de resto, estou, graças a Deus, acima da maledicência; retirai-vos, e dizei tudo o que vos aprouver… – e impedindo-o de sair mais uma vez – sabei – diz ela sorrindo – que essa história é extraordinária… Nós dois nos enganávamos.

    – Ah! o erro é muito mais intolerável – diz Franville – a pessoas de meu gosto, do que a pessoas do vosso… E esse vazio nos repugna…

    – Por minha fé, meu caro! Sabei que o que nos ofereceis desagrada ao menos tanto quanto a vós! Ora, o desencanto é igual em cada um, mas a aventura é muito engraçada; não deixemos de concordar com isso. Voltareis ao baile?

    – Não sei.

    – No que me diz respeito, não volto mais lá – diz Augustine -… Vós me fizestes experimentar coisas… Contrariedade… Vou me deitar.

    – Perfeito.

    – Mas vejamos se sereis bastante cortês para dardes o braço até minha casa; minha residência fica a dois passos daqui; não estou com minha carruagem; ireis me deixar aqui…

    – Não, eu vos acompanharei de bom grado – diz Franville -, nossas inclinações não nos impedem de sermos polidos… Quereis minha mão?… Ei-la.

    – Só me sirvo dela porque não encontro coisa melhor, pelo menos.

    – Ficai tranqüila; para mim, só vô-la ofereço por honestidade.

    Chegam à porta da casa de Augustine, e Franville apresta-se a se despedir.

    – Em verdade, sois delicioso – diz a srta. Villeblanche -, o quê? Deixar-me-eis na rua?

    – Com mil desculpas – diz Franville -… Eu não pretendia…

    – Ah, como são rudes esses homens que não amam as mulheres!

    – É que – diz Franville, dando, todavia, o braço à srta. Villeblanche até sua residência -, vede, senhorita, eu gostaria de retornar bem rápido ao baile e nele tentar reparar minha estupidez.

    – Vossa estupidez? Estais, pois, bem irritado por ter-me encontrado?

    – Eu não disse isso; mas não é verdade que podíamos os dois ter um encontro infinitamente melhor?

    – Sim, tendes razão – diz Augustine, entrando enfim eu seu apartamento – tendes razão, senhor, eu, sobretudo… pois temo que esse funesto encontro não me custe a felicidade de minha vida.

    – De que modo? Não estais, Portanto, bem segura de vossos sentimentos?

    – Ainda ontem estava.

    – Ah! Não sustentais vossas tácitas afirmações.

    – Não sustento coisa alguma; vós me impacientais.

    – Pois bem, eu me retiro, senhorita, me retiro… Deus me livre de vos incomodar por mais tempo.

    – Não! Permanecer, ordeno-vos! Seríeis capaz de vos esforçar a fim de obedecer a uma mulher pelo menos uma vez em vossa vida?

    – Nada há que eu não faça – diz Franville, sentando-se por complacência – já vos disse; sou honesto.

    – Sabeis que, na vossa, é muito decente ter gostos tão singulares?

    – Oh! isso é muito diferente! no nosso caso, trata-se de discrição, pudor… até mesmo orgulho, se quiserdes; medo de entregar-se a um sexo que nos seduz somente para subjugar-nos… Entretanto, os sentidos não mentem, e encontramos alívio entre nós; conseguimos ocultar-nos muito bem, e disso resulta um verniz de sabedoria que freqüentes vezes engana; assim, a natureza se satisfaz, a decência é observada e os costumes não são ultrajados.

    – Eis o que se costuma chamar um bom e belo sofisma; procedendo dessa maneira, justificar-se-ia tudo; e o que dizeis em tudo isso que também não possamos alegar em favor nosso?

    – De maneira alguma! Com preconceitos muito diferentes, não deveis ter medo que tais; vosso triunfo está em nossa derrota… Mais multiplicais vossas conquistas, mais acrescentais à vossa glória, e não vos podeis abster dos sentimentos que em vós despertamos, senão pelo vício ou pela depravação.

    – Na verdade, creio que me hás de converter.

    – Eu o desejaria.

    – O que ganharíeis com isso, enquanto vós mesma continuaríeis em erro?

    – É uma necessidade imposta pelo meu sexo, e, tal como as mulheres, fico bem contente de trabalhar para elas.

    – Se o milagre se realizasse, seus efeitos não seriam tão gerais quanto imaginais; eu só desejaria me converter para uma única mulher para pelo menos… Tentar.

    – O que dizeis é justo.

    – O que é bem certo é que há certo preconceito, acredito, a tomar partido antes de ter experimentado tudo.

    – Como? Nunca tivestes uma mulher?

    – Nunca; e vós… Possuiríeis por acaso primícias tão seguras?

    – Oh, primícias, não… as mulheres que nós vemos são tão hábeis e tão ciumentas que nada nos permitem… Mas nunca conheci um homem em minha vida.

    – E fizestes um juramento?

    – Sim, jamais quero ver um, ou, pelo menos tão singular quanto eu.

    – Lamento não ter feito o mesmo voto.

    – Não creio que seja possível ser mais impertinente…

    E dizendo essas palavras, a srta. Villeblanche levanta-se e diz a Franville que ele pode se retirar. Nosso jovem amante, sempre frívolo, faz uma profunda reverência e se prepara para sair.

    – Retornais ao baile – diz-lhe secamente a srta. Villeblanche, observando-o com um despeito aliado ao mais ardente amor.

    – Mas sim, eu vos disse; é o que me parece.

    – Pelo visto, não sois capaz do sacrifício que vos faço.

    – Que sacrifício me haveis feito?

    – Só voltei para casa a fim de nada mais ver depois de ter tido a infelicidade de vos conhecer.

    – Infelicidade?

    – Sois vós que me forçais a empregar essa expressão; só de vós dependeria que eu lançasse mão de uma bem diferente .

    – E como haveríeis de conciliar isso com vossos gostos?

    – O que não se abandona quando se ama!

    – É verdade; mas ser-vos-ia impossível amar-me.

    – Concordo com isso; se conservásseis hábitos tão detestáveis quanto esses que descobri em vós.

    – E se eu renunciasse a eles?

    – No mesmo instante, havia de imolar os meus nos altares do amor… Ah! Criatura pérfida!, Que essa confissão custe a minha glória, a qual acabas de arrancar-me – diz Augustine em lágrimas -, deixando-se cair sobre uma poltrona.

    – Da mais bonita boca do universo obtive a confissão mais lisonjeira que me seria dado ouvir – diz Franville, lançando-se aos joelhos de Augustine -… Ah! Caro objeto de meu mais terno amor! Reconhecer meu ardil e condescender em não puni-lo de modo algum; é aos vossos pés que vos imploro graça; permanecerei aqui até obter meu perdão. Vedes próximo a vós, senhorita, o amante mais constante e mais apaixonado; imaginei necessário esse estratagema para sobrepujar um coração cujos obstáculos eu conhecia. Obtive êxito, bela Augustine? Recusareis, ao amor sem máculas, o que haveis condescendido em dizer ao amante culpado… Culpado, eu… Culpado do que haveis acreditado… Ah! Podíeis supor que uma paixão impura pudesse existir na alma daquele que nunca ardeu de paixão senão por vós.

    – Traidor, tu me enganastes… Mas te perdôo… Contudo, nada terás que me sacrificar, pérfido; e meu orgulho sentir-se-á até mesmo lisonjeado por isso; pois bem, não importa; quanto a mim, tudo te sacrifico… Está certo, renuncio com alegria para te satisfazer as torpezas a que a vaidade nos arrasta quase tão amiúde quanto nossos gostos. Sei que a natureza acaba por triunfar, eu sufocava por desvios que agora abomino de todo meu coração; não resistimos de modo nenhum a seu império; ela não nos criou senão para vós; não vos formou senão para nós; sigamos as leis dela, é pelo intermédio do próprio amor que ela hoje mos inspira; elas se tornarão para mim mais sagradas. Eis minha mão, senhor; eu vos tenho por homem de palavra, e feito para aspirar a mim. Se eu por um instante fiz por merecer perder vossa estima, por força de cuidados e ternura talvez venha a recuperar minhas faltas, e forçar-vos-ei a reconhecer que aquelas da imaginação nem sempre degradam uma alma boa.

    Franville, no cúmulo de seus votos, inundando de lágrimas de sua alegria as belas mãos que as mantém coladas à sua boca, levanta-se e precipitando-se nos braços que se lhe abrem:

    – Oh, dia mais feliz de minha vida – ele exclama existe algo de comparável a meu triunfo? Trago de volta ao seio das virtudes o coração em que vou reinar para sempre.

    Franville beija mil vezes o divino objeto de seu amor e dele se separa; comunica, no dia seguinte, sua felicidade a todos os seus amigos; a srta. Villeblanche era muito bom partido para que seus pais lho recusassem; ele a desposa na mesma semana. A ternura, a confiança, a discrição mais estrita, a modéstia mais severa, coroaram seu casamento, e se tornando o mais feliz dos homens, foi bastante hábil para fazer da mais libertina das moças a mais sábia e a mais virtuosa das mulheres.

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