Manuel Teixeira-Gomes

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    Manuel Teixeira-Gomes | Margareta


    Novelas Eróticas
    Manuel Teixeira-Gomes

    MARGARETA

     Em matéria de viagens fui sempre, por instinto e reflexão, refratário a programas; contudo, na minha primeira ida à Itália, reconhecendo a necessidade de visitar com certo método país tão incomparável e infinitamente variado na paisagem e na arte, delineei um plano que me tolhesse as turbulências juvenis, sopeando-me a irrebatível mania das digressões, e executei-o sem repugnância nem arrependimento.

    Desta vez tendo forçosamente – a obrigação sentimental! – de passar por Sevilha, deliberei tomar ali algum vapor costeiro que me levasse a Barcelona, onde procuraria transporte direto a Génova, seguindo logo para Florença, na resolução de permanecer em território toscano durante a primavera.

    Na minha grande inexperiência afigurava-se-me que, evitando a França, nada interromperia nesse trajeto o carácter essencial e comum à alma neo-latina, e trasladar-me de Espanha a Itália seria apenas continuar em país habitado por gente de igual compleição intelectual, embora diversa na denominação geográfica.

    Grande alcance estético prestava eu a essa peregrinação de Florença, parecendo-me conveniente evitar tudo quanto me desviasse o espírito das linhas progressivas e convergentes à pátria austera de Miguel Ângelo.

    Iluminações formosas (totalmente confirmadas depois) eram as que então me sugeria a miragem da fascinadora cidade!

    Visitados os pontos de mais devoção do meu culto sevilhano meti-me no vapor Gigon, e descido o Guadalquivir de margens planturosas repeti com redobrado gosto o já meu muito conhecido roteiro da costa espanhola, de Cádis a Barcelona.

    Esses vapores só navegam, habitualmente, durante a noite, de forma que os dias inteiros podia-os o passageiro levar em terra, nas numerosas cidades da escala obrigada, cidades de que eu tinha – e ainda hoje tenho – as floridas etiquetas pitorescas, românticas e imarcescíveis: Cádis de especiosos encantos; Algeciras, com o seu nome de arribada em velha crónica, e o panorama da imensa baía que Gibraltar espreita e domina; Málaga das mulheres pérfidas e das ciganas doiradas; Almeria tórrida, escondendo no seu aparente manto de enxofre e esparto a veiga fertilíssima; Cartagena fortificada em cerros naturais, que lhe fecham o porto num círculo perfeito; Alicante árabe, propícia aos palmeirais; Valência das tranças acobreadas, rescendendo a flor de laranjeira e a anis; Tarragona dura e ventosa, ilustrada pela colossal rosácea da sua catedral, os seus presídios e os sólidos vestígios de muito remotas idades...

    Barcelona, nesse tempo, sofria apenas dos pródromos da sua crise demolidora e reconstrutiva; existia ainda intacto o bairro da catedral, com a sua rede de tortuosas ruas estreitas, formando nós em palácios góticos de florente fachada; a «praça real», italiana como a de qualquer burgo perdido nos Apeninos; a graça, a afabilidade hospitaleira da sua população robusta, mourejante, industriosa; e os campos acidentados, ricos em deslumbrantes panoramas, marchetados de jardins e ruínas preciosas.

    No caráter geral da cidade havia mais homogeneidade, de modo que a catedral – a incomparável – com as suas naves tenebrosas, onde se acendem as fulgurações dos vitrais; o claustro composto, deduzido, como sinfonia magistralmente orquestrada na série das suas capelas de retábulos polilhados, entrevistos através de vetustíssimas e imaginosas grades de ferro batido; a sua catedral – a única – não dava ainda essa impressão de flagrante anacronismo que depois foi tomando passo a passo, com a abertura das infinitas avenidas retilíneas, dos esquares geométricos, das vastas praças retangulares.

    Era ainda um ponto de romaria piedosa, para o artista e para o crente, essa catedral e o seu bairro. Ali me entretive dias inteiros, sem me impacientar com o atraso do Orion, grande vapor da companhia Rubatino, vindo de Buenos Aires, no qual resolvera embarcar para Génova, contentando-me com passar diariamente pela agência, que era próxima do meu hotel, a informar-me da sua chegada. No dia em que ele apareceu, comprado o bilhete, fui fazer as minhas despedidas ao templo, onde levara horas de tão puro enlevo. Mas não ia muito senhor de mim: algo enternecido e como que envergonhado de sentir que me faltava a fé...

    Já passava do meio-dia e tudo se encontrava deserto. Dei a volta ritual do claustro, coei-me ao interior do templo, e deliciei-me pela derradeira vez nas perspetivas daquelas grutas de finíssimas estalactites, onde as formas hieráticas traduziam aspirações celestiais, e os rastos de ouro acentuavam nas trevas as curvas elegantes – suplicantes – das altíssimas ogivas.

    Depois, no ponto mais apagado, mais sepultado em escuridão, procurei um banco e sentei-me. Todas aquelas linhas esfuziantes e místicas se impunham ao meu espírito, no silêncio completo em que tudo caíra, e eu deixava a meditação (se é que a não encaminhava) ir manso a manso rebuscando o segredo dos prazeres visionários de uma religião de fausto e renunciamento, compreendendo a sua essência, e invejando quase aqueles que sinceramente os fruíram...

    Nisto soaram passos pelo claustro, com risadas alegres, retinidas, e, abrindo-se a portada que me estava fronteira, um imenso retângulo de luz viva rompeu a quietação tenebrosa da nave e por ele desceu uma série de anjos buliçosos, raparigas de elevada estatura, vestidas de claro, trazendo nas mãos fartos molhos de flores profanas...

    Não eram turistas inglesas, como a princípio supus, quase contrariado, mas criaturas da raça espanhola que, transpostas as portas do templo, mergulharam sem repulsão na sua atmosfera mística, e sem turbulência nem indiferença lhe foram percorrendo as capelas, ajoelhando aqui e além, conforme encontravam alguma santa imagem de mais particular devoção.

    Eram cinco, todas espigadas, flexíveis, airosas, lindas. Depressa lhes reconheci a origem argentina, porque já vira, a miúdo, desde a minha chegada a Espanha, outros tipos afins, inconfundíveis, e sabia que, mercê de condições excecionais de prosperidade, a grande república sul-americana mandava naquele ano à Europa, a pretexto da exposição universal de Paris (isto foi em 1889!) grande número dos seus habitantes mais privilegiados pela fortuna e pela inteligência. Em toda a Espanha causavam sensação!

    Tive ensejo de examinar detidamente as minhas cinco encantadoras importunas, mas sobretudo aquela que quase se me ajoelhou aos pés, tão próximo estava o meu banco de um pequeno altar dedicado a Santa Margarida, o qual se armava na base da mesma coluna a que eu me encostava e parecia objeto de especial devoção por parte da formosa menina.

    Que mimosa carnação, que imensos olhos de veludo, que opulência de cabelo negro, ondeado, macio! E que ritmo nos movimentos, que graciosíssimas proporções desde o busto cheio, invertendo, após a cintura longa e flexível a sua curva harmoniosa na curva dos quadris!

    Apesar da fervorosa prece em que parecia embebida, não lhe escapou a minha muda e ingénua admiração, e duas ou três vezes os nossos olhares se encontraram. Ao levantar-se julguei até que me encarava com simpatia e esboçava um gesto de despedida...

    Pouco se demoraram e completada a volta em redor da igreja desapareceram.

    Soaram duas horas no relógio da torre, lembrando-me que o Orion pouco tardaria em partir, e com um profundíssimo suspiro deixei aquela gruta de enlevo e fui ao hotel buscar as malas.

    Antes das 3 já me encontrava a bordo do Orion, imenso transatlântico deselegante, cujo perfil em forma de abóbora me explicou o motivo da sua demora; era, com efeito, de pouquíssimo andamento, mas em compensação aguentava lindamente o mar, como nesta mesma noite o provou na passagem do golfo de Leão onde, apesar da «tramontana», se dançou até tarde.

    No tombadilho reinava a confusão própria dos paquetes de luxo durante as poucas horas de uma escala interessante, e principalmente quando se aproxima o momento de largar. Os mercadores ambulantes de curiosidades locais davam as últimas investidas aos passageiros a fim de lhes impingir a sua fazenda, que iam enfardando para o regresso à terra; entre o vapor e o cais havia um incessante vaivém de botes com passageiros e provisões; a bordo, as famílias numerosas congregavam-se para verificar se lhes faltava algum dos seus membros, e aquelas a quem eles faltavam, encostadas à amurada, inspecionavam o cais e a Rambla procurando divisar os retardatários.

    Após o indispensável exame do beliche que me designaram, subi à tolda para não perder o espetáculo da partida, e isolado, próximo do governo do barco, sentei-me a fumar. Pouco tardou que não visse aparecer um cavalheiro corpulento, com ares de natural e consciente importância, suíças «sal e pimenta» e volumoso abdómen, trazendo pelo braço uma espigada menina de seus catorze anos, ainda de cabelo solto e anáguas, que se me acercaram buscando assento. As feições da rapariga fizeram-me estremecer, tanto lembravam as da visitante da catedral, devota de Santa Margarida.

    Eram pai e filha, e conversavam em espanhol com o acentuado sotaque americano, que bem corresponde, no elanguescido, ao português do Brasil.

    – Já era tempo de chegarem – dizia o pai em tom entre risonho e severo.

    – E se ficassem em terra, pai? – advertiu a menina. – Teriam de tomar o comboio...

    – E tu não te zangavas?

    – Não sei... – replicou sorrindo; e como que a pedir desculpa da ingénua observação da filha, para mim sorriu também, percebendo que eu os ouvia e entendia. A minha simpatia, já desperta, facilmente correspondeu com outro sorriso próprio para entabular relações. Conversámos enquanto a rapariga corria à amurada, a perscrutar os cais de binóculo, e voltava a dar conta das suas investigações. Soube então que vinha de Buenos Aires; que a sua família era numerosíssima; que três das suas filhas haviam ido a terra com duas amigas e que a sua demora já o inquietava.

    – Ia jurar – observei a fazer-me esperto – que uma das suas filhas que está em terra é muito parecida com esta menina e chama-se Margarida...

    – Ora essa! É verdade... mas como sabe isso?...

    Ia-lhe apontar a minha assombrosa memória de fisionomias, o encontro na catedral, e o provável nome de Margarida, pelo altar que escolhera para as suas devoções, quando a menina exclamou:

    – Olha pai, lá estão elas. Já embarcaram no bote. Anda, vamos à escada esperá-las.

    O pai levantou-se sem aguardar as minhas explicações, mas antes de se afastar fixou-me, como que a recordar as feições de alguém muito remotamente visto, e suspeitosamente perguntou:

    – O senhor já esteve em Buenos Aires?

    – Eu, não – respondi com a tranquilidade e a certeza desafetada de quem diz a verdade.

    Mas a filha puxou por ele, levando-o direito à escada dos passageiros, e a conversa interrompeu-se.

    Eu segui-os e fácil me foi verificar que me não enganara nas minhas conjeturas. No bote que trazia a família do argentino vinham as cinco senhoras que vira na catedral, e como eu me houvesse aproximado da escada, misturando-me com os mais passageiros, fácil foi também certificar-me de que a linda devota se chamava Margareta, por ser esse o nome pelo qual as companheiras a designavam. Sucedeu ainda que ao pisar o tombadilho ela se deteve um instante a falar com o pai, que estava de costas voltadas para mim, e os seus olhos circunvagando distraidamente pararam nos meus, não podendo reprimir uma cintilação de surpresa, e purpurizando-se-lhe o rosto.

    O pai notou a impressão, voltando-se incontinente a ver quem a provocara, e calculando que fosse eu teve um movimento de viva contrariedade. Eu, porém, exultava. Sem dúvida Margareta reconhecera-me e isso enchia-me o peito de confiança, de audácia. E ela era uma dessas figuras, por assim dizer secreta e zelosamente idealizadas e esperadas na mocidade, anos a fio, que, encontradas, a alma só trabalha e anseia por cativar.

    E que formosa, agora, ao ar livre, na luz crua de uma atmosfera empapada de azul, a que dificilmente se sujeitam as mulheres morenas, sem quebra dos seus encantos naturais.

    Morena; eu não sei bem se o mate da sua tez admitia a classificação de morena. Não era loira, mas se o rosto estava levemente queimado da aragem do mar, já no pescoço lhe transparecia a suavidade leitosa das pétalas de açucena. E toda ela tal como a vira na catedral, ou melhor ainda: alta, espigada, ondulosa, seio farto, cintura breve, olhos como dois céus...

    Outro passageiro, que adregou estar ao meu lado, rapaz de maneiras quebradiças, armado de óculos redondos, tipo sul-americano de cor esverdinhada, afectadamente desdenhoso (era secretário do consulado argentino em Barcelona e mirou-me com inspecionadora impertinência antes de responder às minhas perguntas) explicou-me que das cinco senhoras três eram filhas do banqueiro Rodolfi, italiano estabelecido desde rapaz na Argentina e casado com uma nativa indiana, cuja fortuna passava por ser imensa e quase assombroso o luxo do seu passadio; que tinha inúmeros filhos: dois já sócios que, na sua ausência, ficavam gerindo a casa em Buenos Aires, e dois empregados em Génova e Milão nas sucursais da firma, etc.

    Não sei porquê a revelação de tão abundante prole e de tão esplêndida opulência deu-me um choque desagradável, como se levantasse insuperável barreira entre mim e Margareta, a qual, positivamente, me fascinava.

    Diligenciei falar-lhe e tive a alegria de perceber que por seu turno ela procurava aproximar-se. Ainda o barco não acabara de levantar ferro e já nós havíamos entabulado conversa, ao abrigo de uma canoa de salvamento, no segundo tombadilho. A hesitação na troca das primeiras palavras, e o enleio da expressão, foram recíprocos; valeu-nos a catedral e as impressões colhidas em terra... Mas a conversa pouco durou, pois logo tocaram para jantar.

    Na sala de jantar a numerosa família Rodolfi ocupava uma vasta mesa oval, e do meu lugar avisto Margareta quase de frente. Namoro franco, descabelado, à portuguesa... A mãe de Margareta, que vejo pela primeira vez, tem, com efeito, todo o tipo indiano: cara larga, malares salientes, cabeleira abundante e crespa, já mais de grisalha, e acabada a refeição retira-se na companhia do marido que lhe dá o braço.

    Logo se armou o baile e eu danço com Margareta; danço ainda, sem folga nem descanso, embriagado com o calor do seu corpo, sentindo-lhe, à pressão do meu peito, os seios duros e livres escorregarem sob a blusa de seda vermelha e finíssima como folha de papoula. De repente a irmã mais nova aparece, chama por ela, segreda-lhe qualquer coisa e Margareta para de dançar a pretexto de fadiga. Eu também não danço mais.

    Às onze horas ainda nos encontramos a palrar em redor de uma mesa onde as irmãs e as duas outras companheiras argentinas escreviam. O secretário consular, despejado que foi o seu saco de pilhérias, senta-se ao piano e toca noturnos de Chopin, com certo sentimento e arte. Isso nos empapa de melancolia.

    – Porque não dançou mais comigo? – perguntei por fim em tom doído.

    Hesitação.

    – Sentia-me cansada... – e logo: – O senhor já esteve em Buenos Aires?

    – Eu?... Nunca estive na América.

    – Ah!...

    Conversamos com mais desafogo, quase com intimidade. Eu devaneio, positivamente:

    – Quanto desejaria possuir uma recordação palpável desta viagem... do nosso encontro...

    Ela ri da lembrança.

    – Recordação?...; nas asas do vento, nas ondas do mar, como já li não sei em que poeta...

    Diz-me então que talvez nos vejamos em Florença, onde ela e uma irmã vão passar dois meses, no convento de Ursulinas onde foram educadas. E enquanto refere pormenores sobre o colégio, no qual viverá com liberdade igual à que teria num hotel, toma uma folha de camélia e nela escreve lentamente algumas palavras, erguendo, de quando em quando, para mim o seu olhar profundo, que um sorriso malicioso ilumina.

    Depois mistura a folha de camélia no monte de folhas caídas, sobre a mesa, da jarra que a orna, e atira tudo para o chão. Ao tempo as outras meninas haviam terminado a correspondência. Levantam-se todas e dadas as boas-noites desaparecem.

    Eu precipito-me sobre as folhas esparsas, buscando febrilmente aquela que me deve assinalar a recordação dessa noite; entretanto o secretário consular executa, a propósito, um scherzo impertinente, escarninho...

    Achei a folha; nada diz mas basta para me transportar ao sétimo céu do embevecimento. Ainda hoje a conservo e, coisa curiosíssima, leêm-se-lhe as palavras tão distintamente como na hora em que foram escritas:

    Nel Orione, 18 de abril – Margareta.

    No meu camarote encontra-se deitado já, mas de luz acesa e entretido a ler, um rapaz que eu vira sentado à mesa dos Rodolfi e supunha ser irmão de Margareta. Encetamos conversa e ele explica-me que nenhum parentesco o liga ao banqueiro, ao qual vinha recomendado com o encargo de o meter num colégio da Suíça.

    Com a entrada em Barcelona dos novos passageiros, tinham-no mudado para aquele camarote, e já familiar (e loquaz) dá-me informações, que não peço, acerca dos seus companheiros; depois dispara-me a pergunta de sempre:

    – O senhor já esteve em Buenos Aires, não é verdade?

    Resposta negativa, enérgica, e em tom aborrecido, mas ele, sem prestar grande atenção ao que lhe digo, observa:

    – Margareta é muito linda, não acha? Ela fez-lhe muita impressão...

    Aqui o meu lirismo trasborda, e num arranco de entusiasmo ponho-me a exaltar os encantos da argentina em termos de pura adoração.

    – Em Buenos Aires não há menina mais formosa... – ia ele comentando, mas de repente estaca e pondo-se de joelhos sobre a cama, para espreitar pela rede que, junto ao teto, separa os camarotes, diz de mansinho: – Oiço vozes e risos... Ah! é Margareta e as irmãs que sem dúvida nos escutam...

    – Pois se escutavam ouviram a verdade – atalho eu, cheio de falsa coragem, para acudir à confusão em que a descoberta me mergulhara.

    Foi uma completa declaração de amor. Como seria recebida? Não tenho ânimo para me deitar (é que estou deveras enamorado) e subo ao tombadilho onde passo quase o resto da noite a fumar e a matutar sobre o caso. Como é que ela me acolheria no dia seguinte? O céu claro e estrelado; toda a costa de França se desenha a pontos luminosos, nos arabescos das estradas e nas rosaças dos povoados; como eu desejaria ir ali procurar nalguma vila ideal o ninho para os nossos eternos amores!...

    Dia seguinte. Margareta cora ao avistar-me e eu sinto igualmente afoguearem-se-me as faces. Bons-dias tímidos. Corresponde com ar amável e franco, os olhos postos nos meus.

    Depois esquiva-se, parecendo querer evitar-me. O pai, que vinha perto, não me fala, nem corresponde ao meu cumprimento, inclinado, humilde, de boné na mão... Isso perturba-me, entristece-me; mas não me irrita nem indigna.

    Daí a pouco subo ao segundo tombadilho onde a gente nova se diverte brincando. Margareta vem ao meu encontro e sem mais preâmbulos conta que o pai está persuadido de que eu sou alguém, que esteve em Buenos Aires, de quem amigos seus tiveram sérios motivos de queixa. Ela, porém, não acredita, fiada na minha negativa e zomba e ri do engano. Conversamos confiadamente, já de coração nas mãos, enquanto os outros saltam, jogam e cantam.

    No melhor da conversa surge uma das irmãzinhas (já não sei qual; eram tantas!) e fala-lhe ao ouvido, lançando-me um olhar furtivo e curioso. Compreendo que é emissária do pai, a verificar se estamos juntos. Separo-me sem mais resistência e vou saborear sozinho os sonhos que despontaram do que ela me disse. São imaginações pacatas, burguesas... e deliciosas. Era a mulher que eu sempre ideara para companheira da vida toda... com muitos filhos.

    Ao jantar verifico logo que mudaram os lugares, de modo que Margareta me volte as costas, mas ela (que está bastante pálida) teima e insiste em retomar o lugar da véspera. Por fim o pai cede, irritadíssimo, erguendo as mãos ao céu. Trocamos a furto rápidos mas profundíssimos olhares. À noite não consigo falar-lhe.

    De resto toda a gente recolhe cedo, preparando-se para o desembarque, pois o vapor deve chegar a Génova de madrugada. O meu companheiro conta-me que Margareta e o pai tiveram uma violenta discussão por minha causa, mas ignora os pormenores. Quando acordei, após várias horas de vigília, cortada de fantasias paradisíacas e pesadelos infernais, subo à tolda mas já os não encontro a bordo.

    Vou para o hotel Isotta onde, conforme Margareta me dissera, o banqueiro reservara aposentos. Chego à hora do primeiro almoço e para evitar mais contrariedades, em vez de ir para a grande sala, onde julgo que estariam, entro numa salinha próxima. É precisamente aí que toda a família está já reunida. Foi a aparição do espectro de Banquo. Margareta cerra os olhos e inclina a cabeça, com todo o jeito de quem desmaia; o pai faz-se cor de monco de peru e levanta-se arrebatadamente...

    Eu bato em retirada e vou tomar o meu café, tranquilamente, na galeria Mazzini, escolhendo sítio que permite vigiar entradas e saídas do hotel, e pouco tardou que não visse aparecer Margareta, com uma das irmãs e as duas outras companheiras argentinas. Sigo-as, e já perto da catedral, onde vão dar graças a Deus pela feliz viagem, juntámo-nos.

    O pai está furioso; nada o convence de que eu não seja quem ele imagina; mas ela tem absoluta confiança em mim; lamenta o equívoco esperando que o pai «talvez um dia me venha a estimar muitíssimo». Porém não vale a pena alimentar-lhe a cólera com a minha presença, insistência inútil pois que dentro de duas semanas, como já me dissera, nos poderemos encontrar livremente em Florença.

    O seu olhar mergulha no meu para me sondar; depois como que para repassado de melancolia. Eu prometo-lhe que hoje mesmo deixarei Génova e irei esperá-la a Florença. Ela estende-me as mãos e eu levo demoradamente à boca a que ainda não tem luva. Sinto que todo o corpo lhe estremece, e num impulso irreprimível oferece-me os lábios que beijo sofregamente. Foi um desses beijos que valem por mil promessas formais de casamento...

    Nessa mesma noite me pus a caminho de Florença, mas fazendo estações em várias cidades de modo a chegar quando Margareta já lá estivesse. Ansiava por tornar a vê-la, porém estava tão certo de que a encontraria que me era mais doloroso esperá-la em lugar fixo, e então às portas dum convento...

    O meu primeiro cuidado, naturalmente, foi ir ali procurá-la, apenas larguei o comboio, quando procurava alojamento e tive a tremenda surpresa de saber que as meninas Rodolfi já lá não estavam; dois dias depois de chegarem o pai viera buscá-las...

    Na posta-restante aguardava-me a confirmação da desventura, num bilhete de Margareta participando-me que o pai, por motivos de ordem financeira, fora obrigado a voltar imediatamente para Buenos Aires. E nas suas palavras transluzia o ressentimento pela minha pouca pressa em chegar a Florença.

    Dois meses depois recebi um jornal onde vi, sublinhado a tinta vermelha, que o banqueiro Rodolfi falira; outros exemplares do mesmo vieram sucessivamente dar comigo em Lisboa e no Algarve. Todos vinham sobrescritados com a letra de Margareta.

    Ainda lhe escrevi mas as cartas voltaram-me recambiadas por insuficiência de endereço.

    Esperaria ela que eu a fosse buscar à América? Isso era, precisamente, o que teria feito... se pudesse.

    Pobre Margareta! e pobre de mim, que, sem culpa alguma, ainda hoje a sua lembrança me atormenta como um remorso...

    Bougie, janeiro, 1934

    Manuel Teixeira-Gomes | Cordélia


    Cordélia


    Mais n'est-tu pas toi-même un
    jet d'eau qui s'irise
    Et qui vers l'infini s'élance et
    puis se brise?...

    PHILÉAS LEBESGUE

    As minhas relações com gente da Catalunha datam da infância, graças a uns negociantes de cortiça, de S. Feliú de Guixols que se estabeleceram na minha terra e de que ainda hoje lá existe descendência. Gente honrada, trabalhadora e bastante culta, mas sobretudo orgulhosa das virtudes da sua raça e belezas da sua província, do seu trato me veio o conhecimento dos seus poetas, e a curiosidade de lhe visitar a pátria e ver-lhe os monumentos. 

    Numerosas foram, no decorrer da vida, as minhas excursões pela Catalunha, dando-me ensejo de assistir ao extraordinário desenvolvimento da sua capital a que me afeiçoei e onde repetidas vezes fui embarcar para Itália. 


    Em uma dessas ocasiões, esperando vapor que não aparecia, a minha demora ali foi relativamente grande, permitindo-me penetrar um pouco mais na compreensão do complicado problema catalão, social, religioso e político, ao passo que vagarosamente, e quase sempre a pé, ia explorando os curiosíssimos arredores da grande cidade.

    Ao contrário do que me tem sucedido noutros sítios, dos quais a primeira impressão sobrepuja a quantas me produziram visitas subsequentes, ficou-me desses dias, bem vivo na memória, um quadro completo, que esmorece ou apaga a lembrança de todos os outros, com a agitação tumultuosa do operariado ativo, o antagonismo das raças e das crenças, a propaganda ....Completo aqui

    O discursivo argumentativo em Manuel Teixeira-Gomes

    Breves apontamentos sobre a argumentação

    A importância que a argumentação assume no presente na área da Linguística do Texto é uma recuperação do seu valor na Antiguidade, pois, indissociável da retórica, esta é, inicialmente, “uma «arte de convencer», ligada a situações concretas que representam exclusivamente a necessidade de persuadir um auditório”.

    Está associada à invenção grega da democracia e das suas instituições: o tribunal com júris populares numerosos onde escutam os litigantes, ou o ágora, a assembleia de cidadãos, que também “ouve os oradores, delibera e toma decisões respeitantes à cidade, os ajuntamentos onde se pronunciam os elogios, por exemplo fúnebres, que permitem exaltar e enriquecer os valores da cidade”.

    A este tempo pertencem os dois primeiros períodos da retórica judicial ou argumentativa, segundo Breton e Gauthier, os períodos fundador e de maturidade. Depois, verifica-se progressivamente a separação entre a componente da argumentação retórica e a componente da argumentação mais “literária” da retórica, interessada nas figuras de estilo e modalidades de expressão: a componente argumentativa vê reduzida a sua importância, na medida proporcionalmente inversa ao êxito da demonstração e das ciências exactas e experimentais, sucesso esse que conhece o seu apogeu com Descartes.

    Historicamente, depois de Cícero, a soberania dos auditórios é transferida para o imperador, o que também promove a estética do discurso mais do que o seu carácter convincente. É o período do declínio, em finais do Império até meados do século XX, sendo, de acordo com os mesmos autores, este o momento do período da renovação: a retórica, na sua acepção da argumentação ou a “nova retórica”, assim designada pelo jurista e filósofo belga Chaïm Pereleman em Traité de l’argumentation: la rhétorique; deste estudioso e de Lucie Olbrechts-Tyteca renasce a retórica em 1958, juntamente com a investigação anglo-saxónica de Stephen Toulmin, materializada em The Uses of Argument.

    Hoje em dia, “retórica” é uma palavra polissémica, com sentido pejorativo em alguns contextos: se um discurso for apelidado de “retórico” o intuito é “anunciar o seu carácter superficial, artificial ou dissimulador”.

    Tendo em consideração o percurso da retórica até aos nossos dias, esta hoje recupera o seu primeiro sentido enquanto discurso argumentativo construído em função de um fim, e ultrapassa-o, na medida em que se reconhece em qualquer momento de comunicação a difusão de uma tese, cuja complexidade dependerá das características do discurso em que se insere.

    Ao considerar-se que a concepção de qualquer discurso tem um objectivo final, considera-se, igualmente, a necessidade de este ser um texto de relativa homogeneidade que tem em conta os conceitos (enunciados por van Dijk) de coesão (relações estabelecidas entre elementos) e coerência (boa formação textual). De um modo geral, pode associar-se as características macro-estruturais à coerência, e as características micro-estruturais à coesão. Num contexto de análise argumentativa, o objectivo poderá então consistir em assinalar: em termos de coerência, uma intenção discursiva argumentativa global no(s) texto(s); e, consequentemente, para efeitos de coesão, a sua articulação entre argumentos e conclusões.

    Por intenção argumentativa global entende-se a ideia ou objectivo final que o locutor pretende transmitir, que poderá ser explicitada no seu discurso, ou comunicada de modo mais ou menos disseminado, pois a argumentação é uma potencialidade intrínseca da língua.

    Perspectivas de estudo da argumentação

    Uma perspectiva de estudo da argumentação é a da Argumentation Dans la Langue de Ducrot, conjugada com um fenómeno anteriormente assinalado por Bakhtine, a polifonia, e que tem por base o conceito musical referente à sobreposição de diferentes partituras, derivando, depois, para a literatura e, finalmente, para linguística.

    Como termo linguístico, polifonia é a adaptação da teoria de Bakhtine à análise linguística de pequenos enunciados do discurso, pondo em causa o axioma da unicidade do sujeito falante, ou seja, uma única pessoa que fala por detrás de um enunciado.

    Ducrot acredita que “el autor de un enunciado no se expresa nunca directamente, sino que pone en escena en el mismo enunciado un cierto número de personajes. (...) el sentido del enunciado no es más que el resultado de las diferentes voces que allí aparecen”, e que estas vozes reflectem que “en un mismo enunciado hay presentes varios sujetos con status lingüísticos diferentes”.

    Desta forma, Ducrot define três categorias de pessoas ou funções que falam num enunciado: o sujeito falante: o ser empírico, real, o autor (portanto, exterior à produção linguística, e como tal, a sua identificação, não sendo um problema desta ordem, não é relevante do ponto de vista linguístico); o locutor: aquele que fala no texto e a quem se atribui a responsabilidade enunciativa; é uma entidade inerente ao cotexto linguístico (num contexto ficcional, poderá ser o narrador ou as personagens, alguém que revela pontos de vista ou dá entrada e saída às mesmas); e o(s) enunciador(es): é (são) o(s) ponto(s) de vista abstracto(s) apresentado(s) e que pode(m) ser identificado(s) com o do locutor.

    Na mesma linha de pensamento segue Grize, para quem é possível “concevoir l’argumentation d’un point de vue plus large [que não restrito a uma situação jurídica] comme une démarche qui vise à intervenir sur l’opinion, l’attitude, voire le comportement de quelqu’un”; por isso, na opinião deste autor, o leitorespectador é também actor, na medida em que se pode distinguir três momentos da sua actividade: receber (a disposição de reconstruir a esquematização de quem produziu o enunciado, e ter condições reais de o fazer), concordar (não ter objecções a apresentar à esquematização), e aderir (assimilar a esquematização do Outro).

    Os enunciadores são parcelas do locutor, perfazendo-o na sua totalidade. Ou, como afirma Jean-Blaise Grize, são imagens de quem fala, pois a partir do discurso de um emissor-A, é possível inferir a imagem que A pensa que o seu receptor-B tem de si próprio, e que pode, ou não, ser (re)construída por B no momento de descodificação do discurso. Somos, então, B que reconhece as imagens projectadas de A, no momento da descodificação e análise do texto.

    Note-se, então, que qualquer enunciado apela ao discurso do próprio locutor, mas também a pontos de vista ou perspectivas de outros sobre o tema ou assunto em questão. A noção do Outro é, assim, duplamente redimensionada: não só este está sempre presente, no sentido de que se fala sempre para alguém, como o seu ponto de vista de vista e de outros está incorporado no discurso do locutor.

    A teoria polifónica da enunciação de Ducrot está associada a uma perspectiva de argumentação na língua, na medida em que “plantea que las argumentaciones realizadas en el discurso están determinadas por las frases de la lengua y que esta argumentación es independiente, al menos parcialmente, de los hechos expresados en los enunciados.”

    Ou seja, apesar do significado do enunciado dar indicações sobre qual a conclusão (o mesmo é dizer “que ejerce una especie de coacción para imponer lo que debe ser la conclusión” ou uma intenção argumentativa global), o sentido de um enunciado consiste na descodificação dos pontos de vista (ou possíveis enunciadores) e nas origens dos mesmos, que compõem o potencial argumentativo do enunciado, sendo que as conclusões daí retiradas podem ser implícitas e assumidas ou não pelo enunciador.

    Deixando de lado a função argumentativa inerente a unidades lexicais demonstrada por Ducrot, o estudo da argumentação tem-se centrado em aspectos de coesão, nomeadamente sobre a função dos advérbios, conjunções e locuções conjuntivas que “jouent un rôle de connexion entre unités du discours“, considerando Adam que a intenção argumentativa de um discurso poderá também depender do uso destas palavras, dividindo os diferentes tipos de conectores de acordo com a sua função: os conectores que estabelecem uma simples função de conexão, os conectores que marcam enunciativamente o discurso, e os conectores argumentativos.

    Os conectores que estabelecem uma simples função de conexão são igualmente chamados de organizadores, pois “jouent un rôle important dans le balisage des plans de texte”, estabelecendo uma conexão simples, entendida como segmentar e religar. Visto que “ordonnent les éléments de la représentation discursive sur les deux axes majeurs du temps et de l’espace“, podem  subdividir-se em organizadores espaciais (ex.: à esquerda, à direita, à frente, atrás, um ao lado do outro…), organizadores temporais (ex.: então, de seguida, [e] depois, a véspera, agora…), e ainda em organizadores enumerativos que segmentam e ordenam o discurso (ex.: e, ou, também, primeiro, por último…).

    O segundo tipo de conectores, também designados conectores de reformulação que reflectem uma retoma metalinguística (ex.: quer dizer, dito de outra forma, em uma palavra…), podem associar a essa retoma metalinguística uma marca comparável àquela dos marcadores de integração linear conclusivos (ex.: em suma, finalmente, em conclusão…).

    Por fim, os conectores argumentativos reúnem as funções de segmentação dos enunciados e de responsabilidade enunciativa:

    Ils orientent argumentativement la chaîne verbale en déclenchant un retraitement d’un contenu propositionnel comme un argument, soit comme une conclusion, soit comme un argument chargé d’étayer ou de renforcer une inférence ou encore comme un contre-argument.

    O autor considera que desta última categoria fazem parte os organizadores argumentativos e concessivos (ex.: mas, no entanto…); os introdutores de explicação e de justificação (ex.: porque, visto que…), o se hipotético, e os simples marcadores de um argumento (ex.: mesmo, não somente…).


    Análise de textos

    Pela sua natureza reflexiva, como excelentes exemplos de produção de enunciados premeditados, serão objecto de análise textos do domínio discursivo literário: exemplos de «A Cigana» e «Margareta», da colecção Novelas Eróticas, de Manuel Teixeira-Gomes.

    Nos exemplos, o(s) locutor(es) (aqui entendido segundo Ducrot, apresenta(m) alguma homogeneidade de texto para texto, que deverá(ão) ser categorizado como personagem complexa, principalmente considerando o conjunto das novelas: uma personagem que mascara a vaidade pessoal de se ter relacionado com algumas belas mulheres, e de cujo término de relação se descompromete, ao atribuir a responsabilidade a terceiros, amplificando o efeito narcisista, na medida em que se considera especial pelas experiências vividas.

    Recorde-se que Ducrot defende que a tentativa de convencer o Outro é uma capacidade intrínseca da língua, bem como a característica de algumas palavras possuírem um conteúdo argumentativo inerente, os conectores. A teoria polifónica da enunciação parte do conceito de polifonia discursiva de Ducrot, que considera a presença de diferentes sujeitos com estatutos linguísticos distintos num enunciado, representando pontos de vista diferentes partilhados por um locutor.

    «A Cigana», uma novela composta por uma carta que antecede a narrativa propriamente dita (os envolvimentos românticos do locutor com três jovens na Andaluzia), pode ser analisada de acordo com os princípios enunciados por Ducrot, sendo distinguíveis as seguintes vozes: do autor empírico, aquele cujo nome figura na capa, Manuel Teixeira-Gomes, personagem de carne e osso, e que escreve uma carta (ou que escreve uma narrativa) para António Patrício, personagem também real; do locutor, aquele que fala no Presente do Indicativo e revela as suas experiências passadas a um destinatário; e ainda de enunciadores diversos, como por exemplo, os ecos de uma personagem amiga do locutor chamada Pepe Cuadrado.

    Tendo em conta alguns dos enunciados de «A Cigana», podemos constatar que no enunciado “Os meus amigos, a fina flor da estúrdia sevilhana, já troçam da minha indecisão.” subsistem vozes de diferentes origens: para além do locutor (que coincide com a figura de um enunciador), existe um enunciador que corresponde a quem fala na parte do enunciado considerada sintacticamente o aposto, que especifica quem são os amigos do locutor e representa o discurso de uma consciência cívica e moral sevilhana (“a fina flor da estúrdia sevilhana”); é apresentado também um terceiro enunciador que constata o eco dos discursos gozadores dos amigos do locutor condensados numa só frase (“já troçam da minha indecisão”).

    Um outro exemplo onde existem mais de dois locutores diferentes é “Esa mujer – observa ele – no pasa de una vulgar criminal. Goza con tus sufrimientos.”, divisível num primeiro enunciado da autoria do locutor, “observa ele”, e num conjunto de outros enunciados “-Esa mujer no pasa de una vulgar criminal. Goza con tus sufrimientos”.

    Este último tem como locutor Pepe Cuadrado e diversos enunciadores cuja identificação é mais complexa que os enunciados anteriores: um primeiro enunciador que corresponde àquele que reproduz a expressão “criminosa vulgar” utilizada para descrever aqueles que tenham cometido algum acto ilícito de pequena monta; um segundo que reflecte o uso da mesma expressão utilizada normalmente para “criminosos de segunda” associada a pessoas de má índole e que, por isso, deveriam receber qualquer tipo de castigo como os delinquentes; um outro enunciador que utiliza a expressão “criminoso vulgar” no campo amoroso para quem não respeita os sentimentos do outro, devendo também ser castigado; e por fim, um quarto enunciador que faz o mesmo uso da expressão que o terceiro enunciador, mas que também lhe atribui um contexto, visto que se refere à noiva do amigo, e que acrescenta que esta não o respeita, partilhando a responsabilidade de também ser o locutor destes enunciados e contribuindo para a formação de auréola de simpatia em torno do amigo, apresentando-o com uma atitude subserviente perante a noiva.

    Desta forma, é possível percepcionar que em «A Cigana» existe um locutor que relata um acontecimento, e que ao reproduzir em discurso directo ou no seu próprio discurso o que outras personagens e outras vozes disseram parece crer tornar a história mais verosímil ou credível, mais fácil de lhe ser atribuível crédito por quem leia o discurso do locutor, na medida em que existem várias vozes que expressam ideias como as suas, tratando-se também de uma partilha da responsabilidade enunciativa, como é o caso de alguns discursos de Pepe Cuadrado sugerindo um castigo para a noiva do amigo (telepatia do que Cigana havia dito na noite anterior, quando se relacionava com o locutor, levando a noiva a ter uma síncope), o que contribui para uma leitura final dos acontecimentos.

    Depende, então, do leitor deixar-se seduzir pela argumentação do seu locutor: ou ingénuo, acredita nas suas palavras e não valoriza o desenlace inverosímil: o ataque da noite provocado pela telepatia da noite anterior.

    Portanto, no caso de «A Cigana», de acordo com Grize, ou recebe, concorda e adere ao relato; ou alerta da intenção persuasiva inerente a toda a produção linguística, põe em causa o contrato implícito entre o locutor e o seu interlocutor, e recebe, mas não concorda nem adere ao discurso do Outro.

    Admitindo-se que num texto literário se manifeste a intenção de convencer o leitor da conclusão a que deve chegar ou aderir, esse objectivo poderá ser dissimulado ao longo do texto; no entanto, tendo em conta que o final da narrativa é a última oportunidade para persuadir o leitor do ponto de vista do locutor, tomar-se-á em conta alguns dos parágrafos finais.

    Em «Margareta», quer-se fazer crer que o Destino interveio e não quis que o locutor e Margareta se reencontrassem, pois o este tinha-se demorado em várias cidades no seu caminho até ao local combinado. Este facto, juntamente com a parecença física constantemente notada pela comitiva da jovem com alguém que prejudicaria o seu pai nos negócios, deverá ser contabilizado como mais uma adversidade.

    Apesar de se isentar de qualquer responsabilidade em relação aos acontecimentos, a lembrança de Margareta no presente, marcada pelo marcador temporal “ainda hoje”, é agri-doce, e precursora da frase contraditória na qual o locutor afirma, apesar de não ter qualquer tipo de culpa (repare-se na expressão “sem culpa alguma” destacada entre vírgulas), recordar-se de Margareta com remorso.

    Ainda lhe escrevi mas as cartas voltaram-me recambiadas por insuficiência de endereço. Esperaria ela que eu a fosse buscar à América? Isso era, precisamente, o que teria feito… se pudesse. Pobre Margareta! e pobre de mim, que, sem culpa alguma, ainda hoje a sualembrança me atormenta como um remorso…

    Atente-se no uso do conector organizador “mas” (opõe dois argumentos orientados para conclusões diferentes, enfatizando a segunda), iniciando a frase na qual o locutor se isenta de toda e eventual culpa por não se ter dado o reencontro, apesar de ele ter tentado reatar a comunicação entre ambos através do expediente ao seu alcance.

    A hipótese de procurá-la na sua terra é assim descartada, por falta de meios próprios, resumida na expressão pronominal anafórica “isso” e enfatizada pelo advérbio de modo “precisamente”, que confirma o ponto de vista enunciativo do locutor, ou seja, a acção que teria sido empreendida caso tivesse disponibilidade para tal.

    Conclusão

    No início, foi assinalado o facto da argumentação ter sido primeiramente encarada como um fenómeno exclusivamente retórico. Hoje é objecto de estudo dos pontos de vista discursivo e linguístico através, por exemplo, da análise da intenção do locutor, obediente aos princípios da boa coerência textual, alicerçada na escolha lexical em geral, e dos conectores em particular, para além de atribuir um papel activo a todos os enunciadores discursivos e ao próprio leitor na descodificação do conteúdo.

    Ducrot e a sua teoria Argumentation dans la Langue (a argumentação no seu sentido lato), na qual a tentativa de convencer o Outro é uma capacidade intrínseca da língua, bem como a característica de algumas palavras possuírem um conteúdo argumentativo intrínseco, os conectores, são exemplos de enquadramentos teóricos de estudo, tal como Grize que não restringe a argumentação a situações jurídicas, concebe-a como “une démarche qui vise à intervenir sur l’opinion, l’attitude, voire le comportement de quelqu’un”; por isso, na opinião deste autor, o leitor-espectador é também actor, na medida em que se pode distinguir três momentos da sua actividade: receber (a disposição de reconstruir a esquematização de quem produziu o enunciado, e ter condições reais para o fazer), concordar (não ter objecções a apresentar à esquematização), e aderir (assimilar a esquematização do Outro).

    A tese argumentativa defendida implicitamente pelo locutor destes exemplos foi a de que outrora se relacionou acidentalmente com mulheres belíssimas cujo desfecho de relação tem sempre algo de curioso, e do qual se demarca em termos de responsabilidade.

    A sua desresponsabilização pode ser disseminada pela interferência de outras personagens, seja através da presença do Destino sugerida na narrativa, pelo encaixe subtil do discurso de outrem ou visível através do desdobramento de vários enunciadores de acordo com a polifonia discursiva, o que permite estabelecer um padrão narrativo ou assinalar a composição de uma estratégia argumentativa.

    Em suma, tendo por objecto os exemplos em estudo neste trabalho, esta apresentação dedicou-se a abordar a temática da argumentação como elemento intrínseco ao discurso humano.


    Excerto do artigo "O discursivo argumentativo em algumas novelas de Manuel Teixeira-Gomes" de Carla Teixeira
    Investigadora do Centro de Linguística da Universidade NOVA de Lisboa
    http://jiclunl.fcsh.unl.pt/wp-content/uploads/sites/43/2018/02/IFPL_Carla-Teixeira.pdf

    Manuel Teixeira-Gomes | Biografia (1860-1941)

    Nascido em Portimão, a 27 de Maio de 1860, numa casa com janela para o rio Arade, cedo apreendeu a beleza do azul do mar do Algarve. O movimento dos veleiros e dos vapores que demandavam o porto era um permanente desafio à viagem que o levaria a percorrer o Mediterrâneo, de Marrocos à Turquia. 

    Descendente de homens familiarizados com os países do Norte – Bélgica, Holanda e Inglaterra e também a França, foi criado num ambiente cultural cosmopolita. A cultura francesa chegava regularmente a sua casa, através de jornais e revistas.

    A atmosfera muçulmana, que o envolvia no Algarve e na Andaluzia, seduziu-o e fê-lo viajante nómada em terras da moirama – o espaço magrebino bem conhecido dos portugueses e marcado por uma relação colonial com a França.


    A educação em casa dos pais completou-a no colégio particular S. Luís Gonzaga, em Portimão, frequentado pelas elites locais, e no Seminário de Coimbra. A cultura clássica, a filosofia, a literatura e a arte moldaram-lhe uma sensibilidade rara para a estética e para a interiorização do mundo cuja legibilidade o tornou um homem singular. 

    Não concluiu os estudos em Medicina, contrariando a vontade dos pais, preferindo a boémia literária nos cafés e círculos culturais de Lisboa e do Porto. Relacionou-se com escritores, jornalistas, pintores e futuros políticos republicanos.

    José Libânio Gomes, seu pai, era um abastado comerciante com recursos bastantes para garantir uma boa formação aos seus quatro filhos. O espírito rebelde do filho mais velho e a recusa do academismo obrigou-o a intervir no seu futuro, exigindo o regresso a casa. Com pouco mais de vinte anos, desolado, desterrado no “buraco do mundo”, o jovem Manuel Teixeira Gomes procurou lenitivo para o seu isolamento na contemplação das paisagens, na leitura, na escrita e na viagem. 

    Viagens de negócios para os países frios e sombrios do Norte, viagens de ócio para o Sul luminoso – Andaluzia, Catalunha, Norte de África, Itália, Grécia, Ásia Menor. Conciliava a sua vida de “lavrador abastado” com a escrita. Foi um período frutuoso, sob o ponto de vista literário pois publicou cinco livros até ao advento da República: Inventário de Junho (1899), Cartas sem moral nenhuma (1903), Agosto azul (1904), Sabina Freire (1905) e Gente Singular (1909), além de artigos em jornais e revistas.

    Em 1910, muitos dos seus amigos, companheiros do Seminário ou da boémia lisboeta e portuense, envolveram-se na revolução republicana. Ele estava em Portimão, onde desenvolvia intensa actividade política, e logo foi chamado para servir a República. Ministro plenipotenciário em Londres, por nomeação de Bernardino Machado em 1911, teve uma acção decisiva no reconhecimento do novo regime republicano pela monarquia britânica e na participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, ao abrigo da aliança luso-britânica. Chefiou a delegação portuguesa à Sociedade das Nações (1922) que o elegeu vice-presidente. 

    Em 5 de Outubro de 1923 tomou posse como 7º presidente da República Portuguesa, cargo que desempenhou até 11 de Dezembro de 1925. Renunciou ao cargo que desempenhara com ética e fidelidade às instituições democráticas, incapaz de resolver as gravíssimas dissensões políticas que minavam a vida parlamentar e impediam a governabilidade do país.


    Partiu para descansar, a bordo do cargueiro Zeus, em 17 de Dezembro de 1925, sem que deliberadamente renunciasse definitivamente ao seu país. Viajante nómada, recuperou a liberdade que perdera nos últimos 15 anos ao serviço da República. Revisitou todos os lugares que conhecera até 1910. 

    A sua terra de eleição era Florença, mas a ditadura fascista do “façanhudo” Mussolini criara um ambiente hostil à pura e descontraída fruição da arte. Optou por ficar no Magrebe, repartindo-se entre a Argélia e a Tunísia donde facilmente ia a Paris, cidade emblemática da cultura que o moldara. Como Nietzsche, “professava” uma espécie de “fé no Sul”, preferindo a margem magrebina à europeia.

    A escrita era o elo de ligação com o seu país. Dominado pela “febre epistolar”, escreveu milhares de cartas, correspondendo-se regularmente com mais de setenta pessoas, quase todas ligadas ao mundo das artes e das letras. 


    Do exílio, geriu a reedição das suas primeiras obras e a edição de seis novos livros: Cartas a Columbano (1932), Novelas eróticas (1935), Regressos (1935), Miscelânea (1937), Maria Adelaide (1938) e Carnaval Literário (1939). Londres Maravilhosa seria publicada em 1942, um ano após a sua morte, graças ao seu amigo Castelo Branco Chaves que preparou também a edição de uma selecção de Cartas a Políticos e diplomatas (1960).

    Era doente do coração, fruto da escarlatina que tivera na infância, e sofria de um glaucoma congénito que lhe provocava cegueira progressiva. Adoeceu em Bougie, cidade na costa argelina, que lhe lembrava Sintra pelo recorte das montanhas da Cabília e Portimão, pelo mar fronteiro. Em 5 de Setembro de 1931, instalou-se no Hotel l’Étoile e o quarto nº 13 foi a sua casa durante uma década. 

    Aí morreu, em 18 de Outubro de 1941, sem nunca mais ter visto a família. Os seus restos mortais trasladados para o cemitério de Portimão em 1951.

    Manuel Teixeira-Gomes | O sitio da mulher morta

    "O SÍTIO DA MULHER MORTA"

    Já totalmente impossibilitados de trabalhar, os Elisiários, meus velhos caseiros dos Pegos Verdes, tinham abandonado a propriedade recolhendo-se a um casebre que possuíam na povoação vizinha, a Figueira. 

    Mas como eu lhes desse uma pensão, que embora insignificante os ajudava a viver, mostravam-se-me gratos, e iam amiúde ao Convento (era assim designada a propriedade, desde tempos imemoriais, por encerrar o único convento que existia léguas em redor), não para fazer as suas devoções, mas para observar o que lá se passava e dar-me conta do que espiolhavam se alguma vez adregava encontrarem-se comigo. 

    Tinham sido eles que me indicaram para sucessor o António Sagreira, dono de duas courelas minhas estremenhas, rendeiro de várias várzeas que me ficavam fora de mão, e habitual e principal empreiteiro do serviço das belgas que transformam os matos em terras de semear.


    A indicação surpreendera-me bastante, porque havia entre eles uma antiga rixa que não admitia tréguas, porém depressa compreendi as razões que a motivaram: o Sagreira era implicativo e pechoso, e tinha três filhos valentões que lhe reforçavam a argumentação, mesmo quando sofística; assim os meus velhos caseiros se vingavam dos vizinhos com quem haviam andado às bilhardas, e ao mesmo tempo impingiam-me um sucessor que pelas suas malas-artes me faria lamentar a ausência dos reformados.

    Com efeito a entrada em funções do Sagreira iniciou uma era de revolução ......Continua aqui




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