Resenhas

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    D. H. Lawrence - Filhos e Amantes (resenha)

    DH Lawrence, na íntegra David Herbert Lawrence, (nascido em 11 de setembro de 1885, Eastwood, Nottinghamshire, Inglaterra - morreu em 2 de março de 1930, Vence, França), autor inglês de romances, contos, poemas, peças de teatro, ensaios, livros de viagem, e letras. Os seus romances Filhos e Amantes (1913), O Arco-Íris (1915) e Mulheres Apaixonadas (1920) fizeram dele um dos mais influentes escritores ingleses do século XX.

    Filhos e Amantes

    Os dois primeiros romances de Lawrence, a primeira peça e a maioria de seus primeiros contos, incluindo obras-primas como Odor de Crisântemos e Filhas do Vigário (reunidos em The Prussian Officer e Outras Histórias, 1914), usam a experiência inicial como ponto de partida. 

    Filhos e Amantes leva esse processo ao ponto da quase autobiografia. O livro retrata Eastwood e a Fazenda Haggs, os pólos gémeos do início da vida de Lawrence, com realismo vivido. O personagem central, Paul Morel, é naturalmente identificado como Lawrence; o pai-mineiro que bebe e a mãe poderosa que lhe resiste são claramente modelados nos seus pais; e a devoção dolorosa de Miriam Leivers assemelh-se à de Jessie Chambers, a companheira de Lawrence.

    Um irmão mais velho, William, que morre jovem, é parecido com o irmão de Lawrence, Ernest, que conheceu uma morte prematura. No romance, a mãe volta-se para o seu filho mais velho, William, preenchendo uma lacuna emocional no lugar do seu pai.

    A insidiosa insatisfação do marido – Walter Morel – motivada pela austeridade e alguma altivez da esposa levam-no a procurar outras companhias e distracções: um peddy-papper diário pelas tabernas das redondezas. O egoísmo e desejo de domínio frustrado – pela capacidade intelectual da mulher – de Morel pai, fazem despoletar reacções violentas. Ao mesmo tempo, o mineiro tenta convencer-se não ser, na realidade, ele o culpado da violência que desfere na mulher, facto que o impede de mudar.

    Consequentemente, Mrs. Morel acaba por transferir o afecto do marido para os filhos, quase amantes, ao mesmo tempo que entra em competição de forma inconsciente, com as respectivas namoradas, num quase que excesso de zelo e ciúme. Esta seção do manuscrito original foi muito reduzida por Garnett antes da publicação. 

    A edição de Garnett não apenas eliminou algumas passagens da franqueza sexual, mas também removeu elementos estruturais repetitivos que constituem o estabelecimento de um padrão no comportamento da mãe e que explica os substantivos plurais do título. 

    Quando William morre, o seu irmão mais novo Paul torna-se a missão da mãe e, finalmente, a sua vítima. O amor adolescente de Paul por Miriam é prejudicado pelo domínio da sua mãe; principalmente porque, para ele, a mãe é sempre superior a todas as mulheres. Não tem rival. Tanto na beleza como na inteligência.

    Os dois filhos mais velhos habituaram-se, desde o berço, a terem os pensamentos peneirados pelo crivo da mãe; embora fatalmente atraído por Miriam, Paul não se pode envolver sexualmente com alguém tão parecido com a sua mãe, e o relacionamento sexual que ele lhe impõe demonstra ser um desastre.

    Ele então, em reação, tem um caso apaixonado com uma mulher casada, Clara Dawes, naquela que é a única parte puramente imaginária do romance. O marido de Clara é um trabalhador bêbado que ela minou pela sua superioridade social e intelectual, e a sua situação espelha a dos Morels.

    Embora Clara queira mais dele, Paul só consegue administrar a paixão sexual quando se separa do compromisso; nota-se, desde o início, que a relação entre Clara e Paul não tem futuro. É uma relação baseada exclusivamente na atracção física e nas carências momentâneas de cada um; o caso termina depois que Paul e Dawes discutirem, e Clara regressa ao marido. 

    «Clara fitou o amante de perto. Havia nele qualquer coisa que ela detestava, uma certa atitude crítica e desprendida em relação a ela, uma frieza que fazia a sua alma de mulher endurecer»

    Para Paul:

    «Não era ela quem conseguia aquietar-lhe a alma. Ele quisera que ela fosse algo que ela jamais poderia ser».
    Paul, apesar de toda a sua inteligência, não consegue captar plenamente as suas próprias motivações inconscientes, mas Lawrence transmite-as silenciosamente no padrão da trama. Paul só pode ser libertado pela morte da sua mãe, e no final do livro, ele está finalmente livre para viver a sua própria vida, embora permaneça incerto se ele pode finalmente superar a sua influência.

    Toda a narrativa pode ser vista como o estudo psicanalítico de Lawrence sobre o seu próprio caso, a luta de um jovem para obter o desapego da sua mãe.

    Edgar Allan Poe - William Wilson (Resenha)

    Edgar Allan Poe é sem dúvidas um dos maiores escritores do século XIX. 

    No conto William Wilson, vemos a genialidade de Poe que consegue, de forma poética e envolvente, construir a alegoria da luta do instinto humano, perverso, luxurioso, dominador, ambicioso, contra os valores que nos são passados pelo ensino da Moral religiosa. 

    Ele nos apresenta o clássico embate do Id, regido pelo Princípio do Prazer freudiano, e o Superego, a consciência moral. 

    William Wilson, ainda na infância, encontra no colégio um seu homónimo, sendo este sendo o único aluno da escola que consegue competir com a superioridade daquele. Não somente compete com William, mas é também o único que não se curva contra a sua dominação. 

    Apesar de inimigos, os dois demonstram um afeto velado um pelo outro. Wilson sente que o seu homónimo tem para com ele uma conduta que chega a parecer proteção, enquanto também sente em si um afeto fraternal pelo seu Outro. 

    Entretanto, Wilson goza do seu colega, por este possuir uma condição que só o permite falar por meio de sussurros, e enquanto seu duplo passa a imitá-lo, não só nas vestimentas como no porte e modo de falar. 

    Wilson, uma noite, fica perturbado ao perceber o quanto o seu inimigo se parece consigo, chegando a ver o seu próprio rosto no rosto do Outro. Assustado, abandona a escola.

    Durante meses, William não vê novamente o inimigo juvenil. Em Eton, desenvolve uma vida desregrada e, no ápice da degradação, o seu antigo companheiro de escola interrompe a sua farra ao sussurrar “William Wilson”. A partir de então, em todos os momentos de degradação moral, o algoz de William reaparece para impedi-lo de continuar a degradar-se.

    A luta aqui mostra-se clara, a natureza de William Wilson leva-o invariavelmente para os caminhos do prazer da carne, do roubo, da mentira, mas no ápice do aviltamento da moral, o seu duplo aparece para protegê-lo da depravação. 

    Esse Duplo é a consciência moral de William que lhe foi inculcada ainda na escola, e pela ótica freudiana este seria o superego. O homónimo só aparece para Wilson na escola, o lugar onde o ser humano é primeiro apresentado à moralidade. 

    Na escola é onde ele entra em contado com a moral religiosa, representada pelo diretor do colégio, o Reverendo Dr. Bransby, que celebra ritos religiosos para os alunos aos domingos. A consciência moral de Wilson, a partir de então, tenta salvá-lo a todo custo de seus instintos naturais, que o levam, continuamente, à devassidão.

    Frustrado por não conseguir satisfazer-se, já que é sempre impedido de realizar os seus desejos naturais devido à sua consciência, personificada num duplo de si mesmo, William passa a dominar a consciência, falando mais alto que ela, já que esta só consegue emitir sussurros. 

    Na cena final, Wilson, sob a influência da bebida, tão contrária aos valores morais cristãos, busca a esposa de seu anfitrião, visando travar com ela uma relação romântica. Impedido pela sua consciência, ele trava com ela um duelo fatal, e acaba por matá-la.

    Na parte final, Wilson percebe que o seu oponente moral não passa de sussurros, enquanto as suas vontades se impõem com uma voz alta e firme, e a sua natureza se opõe aos seus princípios cristãos, influenciada pelo vinho e pelo desejo carnal.

    William mata a sua consciência moral quando está prestes a desobedecer a um dos Dez Mandamentos: não cobiçarás a mulher do próximo. 

    Ao consumar essa indisciplina, William mata não só os seus valores éticos, mas mata também aquela que era a representação de sua alma cristã. 

    No conto, a consciência não passa de sussurros, não podendo competir com a eloquência da natureza humana. É a vitória do instinto sobre a moralidade.

    Alberto Moravia | O Desprezo

    "Durante os primeiros dois anos de casamento o meu relacionamento com a minha mulher foi, por assim dizer, perfeito. (…) Esta história pretende contar como, enquanto eu continuava a amá-la e não a julgá-la, a Emília, por sua vez, descobriu, ou julgou descobrir, alguns dos meus defeitos e passou a julgar-me – e consequentemente a deixar de amar- -me.” 

    Assim se inicia O desprezo (1954), de Alberto Moravia (1907-1990), romance no qual Jean-Luc Godard se inspirou para realizar o célebre Le Mépris (1963), com Michel Piccoli e Brigitte Bardot nos protagonistas.


    Amor e cupidez 
    O desprezo é uma história trágica de desamor. Constrangido a sustentar o apartamento que adquiriu a prestações para agradar à sua mulher, Ricardo aceita um contrato para trabalhar como guionista num filme baseado na Odisseia (O regresso de Ulisses). 

    Na verdade, Ricardo ambiciona dedicar-se à sua carreira de dramaturgo, deixada em suspenso em prol da economia familiar. 

    Entretanto, para evitar um conflito com o produtor do filme (um argentino no romance de Moravia; um americano no filme de Godard), vê-se obrigado a tolerar os sucessivos avanços deste sobre a sua bela mulher. 

    Quem não tolera a indiferença do marido relativamente a esta situação é justamente Emília, que passa a desprezá-lo. Em Capri, durante a rodagem do filme, a ruptura do casal precipita-se e Emília morre, juntamente com o produtor, num desastre de automóvel, ao regressar de Nápoles para Roma.

    Carlos Drummond de Andrade | O Amor Natural

    Guardados durante anos, os poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade estão reunidos nesta excepcional colectânea.

    O Amor Natural é uma obra inquietante, pois revela uma face nova, mais despojada, porém extremamente fascinante, do poeta. São textos repletos de vida e sensualidade, onde o autor se introverte ao mesmo tempo em que se expõe, desbravando o corpo enquanto busca, na fluidez e sensualidade da linguagem, a própria nudez da alma.


    Quase todos os poemas encontrados aqui são inéditos, à exceção de uns poucos publicados em revistas eróticas durante a década de setenta. Apesar de muitos deles terem servido de base para uma tese sobre o erotismo drummondiano, o autor optou por guardá-los em segredo, confiando aos seus herdeiros a tarefa de publicá-los após a sua morte.

    Embora o senso de humor e a leveza — traços marcantes do estilo do autor — estejam presentes em toda a obra, o elemento mais forte é, sem dúvida, a paixão, a sensualidade à flor da palavra.

    Como define Affonso Romano de Sant’Anna, as palavras às vezes copulam semanticamente, e o que encontramos nestas páginas é o êxtase poético de um autor que, ao mergulhar fundo nas suas próprias sensações, desnuda também o leitor, que se vê frente a frente com as suas próprias contradições ao pensar nos limites entre o erótico e o pornográfico, o sexo e o amor.


    AMOR — POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL

    Amor — pois que é palavra essencial
    comece esta canção e toda a envolva.
    Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
    reúna alma e desejo, membro e vulva.

    Quem ousará dizer que ele é só alma?
    Quem não sente no corpo a alma expandir-se
    até desabrochar em puro grito
    de orgasmo, num instante de infinito?
    O corpo noutro corpo entrelaçado,
    fundido, dissolvido, volta à origem
    dos seres, que Platão viu contemplados:
    é um, perfeito em dois; são dois em um.

    Integração na cama ou já no cosmo?
    Onde termina o quarto e chega aos astros?
    Que força em nossos flancos nos transporta
    a essa extrema região, etérea, eterna?

    Ao delicioso toque do clitóris,
    já tudo se transforma, num relâmpago.
    Em pequenino ponto desse corpo,
    a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

    Vai a penetração rompendo nuvens
    e devassando sóis tão fulgurantes
    que nunca a vista humana os suportara,
    mas, varado de luz, o coito segue.

    E prossegue e se espraia de tal sorte
    que, além de nós, além da própria vida,
    como ativa abstração que se faz carne,
    a idéia de gozar está gozando.

    E num sofrer de gozo entre palavras,
    menos que isto, sons, arquejos, ais,
    um só espasmo em nós atinge o clímax:
    é quando o amor morre de amor, divino.

    Quantas vezes morremos um no outro,
    no úmido subterrâneo da vagina,
    nessa morte mais suave do que o sono:
    a pausa dos sentidos, satisfeita.

    Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
    estendidos na cama, qual estátuas
    vestidas de suor, agradecendo
    o que a um deus acrescenta o amor terrestre.


    A MOÇA MOSTRAVA A COXA
                                              Visu, colloquio  
    Contactu, basio  
    Frui virgo dederat; Sed aberat  
    Linea posterior  Et melior  Amori.  
    (Carmina Burana)

    A moça mostrava a coxa,
    a moça mostrava a nádega,
    só não me mostrava aquilo
    — concha, berilo, esmeralda —
    que se entreabre, quatrifólio,
    e encerra o gozo mais lauto,
    aquela zona hiperbórea,
    misto de mel e de asfalto,
    porta hermética nos gonzos
    de zonzos sentidos presos,
    ara sem sangue de ofícios,
    a moça não me mostrava.
    E torturando-me, e virgem
    no desvairado recato
    que sucedia de chofre
    à visão dos seios claros,
    sua pulcra rosa preta
    como que se enovelava,
    crespa, intata, inacessível,
    abre-que-fecha-que-foge,
    e a fêmea, rindo, negava
    o que eu tanto lhe pedia,
    o que devia ser dado
    e mais que dado, comido.
    Ai, que a moça me matava
    tornando-me assim a vida
    esperança consumida
    no que, sombrio, faiscava.
    Roçava-lhe a perna. Os dedos
    descobriam-lhe segredos
    lentos, curvos, animais,
    porém o máximo arcano,
    o todo esquivo, noturno,
    a tríplice chave de urna,
    essa a louca sonegava,
    não me daria nem nada.
    Antes nunca me acenasse.
    Viver não tinha propósito,
    andar perdera o sentido,
    o tempo não desatava
    nem vinha a morte render-me
    ao luzir da estrela-d’alva,
    que nessa hora já primeira,
    violento, subia o enjôo
    de fera presa no Zôo.
    Como lhe sabia a pele,
    em seu côncavo e convexo,
    em seu poro, em seu dourado
    pêlo de ventre! mas sexo
    era segredo de Estado.
    Como a carne lhe sabia
    a campo frio, orvalhado,
    onde uma cobra desperta
    vai traçando seu desenho
    num frêmito, lado a lado!
    Mas que perfume teria
    a gruta invisa? que visgo,
    que estreitura, que doçume,
    que linha prístina, pura,
    me chamava, me fugia?
    Tudo a bela me ofertava,
    e que eu beijasse ou mordesse,
    fizesse sangue: fazia.
    Mas seu púbis recusava.
    Na noite acesa, no dia,
    sua coxa se cerrava.
    Na praia, na ventania,
    quanto mais eu insistia,
    sua coxa se apertava.
    Na mais erma hospedaria
    fechada por dentro a aldrava,
    sua coxa se selava,
    se encerrava, se salvava,
    e quem disse que eu podia
    fazer dela minha escrava?
    De tanto esperar, porfia
    sem vislumbre de vitória,
    já seu corpo se delia,
    já se empana sua glória,
    já sou diverso daquele
    que por dentro se rasgava,
    e não sei agora ao certo
    se minha sede mais brava
    era nela que pousava.
    Outras fontes, outras fomes,
    outros flancos: vasto mundo,
    e o esquecimento no fundo.
    Talvez que a moça hoje em dia…
    Talvez. O certo é que nunca.
    E se tanto se furtara
    com tais fugas e arabescos
    e tão surda teimosia,
    por que hoje se abriria?
    Por que viria ofertar-me
    quando a noite já vai fria,
    sua nívea rosa preta
    nunca por mim visitada,
    inacessível naveta?
    Ou nem teria naveta…


    EM TEU CRESPO JARDIM, ANÊMONAS CASTANHAS

    Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
    detêm a mão ansiosa: Devagar.
    Cada pétala ou sépala seja lentamente
    acariciada, céu; e a vista pouse,
    beijo abstrato, antes do beijo ritual,
    na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.


    A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

    A bunda, que engraçada.
    Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

    Não lhe importa o que vai
    pela frente do corpo. A bunda basta-se.
    Existe algo mais? Talvez os seios.
    Ora — murmura a bunda — esses garotos
    ainda lhes falta muito que estudar.

    A bunda são duas luas gêmeas
    em rotundo meneio. Anda por si
    na cadência mimosa, no milagre
    de ser duas em uma, plenamente.

    A bunda se diverte
    por conta própria. E ama.
    Na cama agita-se. Montanhas
    avolumam-se, descem. Ondas batendo
    numa praia infinita.

    Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
    na carícia de ser e balançar.
    Esferas harmoniosas sobre o caos.

    A bunda é a bunda,
    redunda.


    O CHÃO É CAMA

    O chão é cama para o amor urgente,
    amor que não espera ir para a cama.
    Sobre tapete ou duro piso, a gente
    compõe de corpo e corpo a úmida trama.

    E para repousar do amor, vamos à cama.


    A LÍNGUA LAMBE

    A língua lambe as pétalas vermelhas
    da rosa pluriaberta; a língua lavra
    certo oculto botão, e vai tecendo
    lépidas variações de leves ritmos.

    E lambe, lambilonga, lambilenta,
    a licorina gruta cabeluda,
    e, quanto mais lambente, mais ativa,
    atinge o céu do céu, entre gemidos,

    entre gritos, balidos e rugidos
    de leões na floresta, enfurecidos.


    MIMOSA BOCA ERRANTE

    Mimosa boca errante
    à superfície até achar o ponto
    em que te apraz colher o fruto em fogo
    que não será comido mas fruído
    até se lhe esgotar o sumo cálido
    e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
    mas rorejando a baba de delícias
    que fruto e boca se permitem, dádiva.

    Boca mimosa e sábia,
    impaciente de sugar e clausurar
    inteiro, em ti, o talo rígido
    mas varado de gozo ao confinar-se
    no limitado espaço que ofereces
    a seu volume e jato apaixonados,
    como podes tornar-te, assim aberta,
    recurvo céu infindo e sepultura?

    Mimosa boca e santa,
    que devagar vais desfolhando a líquida
    espuma do prazer em rito mudo,
    lenta-lambente-lambilusamente
    ligada à forma ereta qual se fossem
    a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
    oh chega, chega, chega de beber-me,
    de matar-me, e, na morte, de viver-me.

    Já sei a eternidade: é puro orgasmo.


    BUNDAMEL BUNDALISBUNDACOR BUNDAMOR

    Bundamel bundalis bundacor bundamor
    bundalei bundalor bundanil bundapão
    bunda de mil versões, pluribunda unibunda
                          bunda em flor, bunda em al
                          bunda lunar e sol
                          bundarrabil

    Bunda maga e plural, bunda além do irreal
    arquibunda selada em pauta de hermetismo
                            opalescente bun
                            incandescente bun
    meigo favo escondido em tufos tenebrosos
    a que não chega o enxofre da lascívia
    e onde
    a global palidez de zonas hiperbóreas
    concentra a música incessante
    do girabundo cósmico.

    Bundaril bundilim bunda mais do que bunda
    bunda mutante/renovante
    que ao número acrescenta uma nova harmonia.
    Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo
    o arco de triunfo, a ponte de suspiros
    a torre de suicídio, a morte do Arpoador
                      bunditálix, bundífoda
    bundamor bundamor bundamor bundamor.


    QUANDO DESEJOS OUTROS É QUE FALAM

    Quando desejos outros é que falam
    e o rigor do apetite mais se aguça,
    despetalam-se as pétalas do ânus
    à lenta introdução do membro longo.
    Ele avança, recua, e a via estreita
    vai transformando em dúlcida paragem.

    Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
    ocultas melodias ovidianas.


    A CARNE É TRISTE DEPOIS DA FELAÇÃO

    A carne é triste depois da felação.
    Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
    É areia, o prazer? Não há mais nada
    após esse tremor? Só esperar
    outra convulsão, outro prazer
    tão fundo na aparência mas tão raso
    na eletricidade do minuto?
    Já se dilui o orgasmo na lembrança
    e gosma
    escorre lentamente de tua vida.


    A OUTRA PORTA DO PRAZER

    A outra porta do prazer,
    porta a que se bate suavemente,
    seu convite é um prazer ferido a fogo
    e, com isso, muito mais prazer.

    Amor não é completo se não sabe
    coisas que só amor pode inventar.
    Procura o estreito átrio do cubículo
    aonde não chega a luz, e chega o ardor
    de insofrida, mordente
    fome de conhecimento pelo gozo.


    ESTA FACA

    “Esta faca
    foi roubada no Savóia”
    “Esta colher
    foi roubada no Savóia”
    “Este garfo…”

    Nada foi roubado no Savóia.
    Nem tua virgindade: restou quase perfeita
    entre manchas de vinho (era vinho?) na toalha,
    talvez no chão, talvez no teu vestido.

    O reservado de paredes finas
    forradas de ouvidos
    e de línguas
    era antes prisão que mal cabia
    um desejo, dois corpos.

    O amor falava baixo. Os gestos
    falavam baixo. Falavam baixíssimo
    os copos, os talheres. Tua pele
    entre cristais luzia branca.

    A penugem rala
    na gruta rósea
    era quase silêncio.
    Saíamos alucinados.

    No Savóia nada foi roubado.


    NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL

    No pequeno museu sentimental
    os fios de cabelos religados
    por laços mínimos de fita
    são tudo que dos montes hoje resta,
    visitados por mim, montes de Vênus.

    Apalpo, acaricio a flora negra,
    e negra continua, nesse branco
    total do tempo extinto
    em que eu, pastor felante, apascentava
    caracóis perfumados, anéis negros,
    cobrinhas passionais, junto do espelho
    que com elas rimava, num clarão.

    Os movimentos vivos no pretérito
    enroscavam-se nos fios que me falam
    de perdidos arquejos renascentes
    em beijos que da boca deslizavam
    para o abismo de flores e resinas.

    Vou beijando a memória desses beijos.


    O QUE O BAIRRO PEIXOTO

    O que o Bairro Peixoto
    sabe de nós, e esqueceu!

    Rua Anita Garibaldi
    e Rua Siqueira Campos.
    (Francisco Braga,
    Décio Vilares
    nos espiando,
    fingem que não?)

    O calçadão na penumbra
    andança que vai e volta
    voltivai
    a derivar para o túnel
    em busca do hímen?
    Volta:
    banco de praça. Bambus.
    Bambuzal de brisa em ais.

    O bardo e a garota amavam-se
    nas guerras da Dependência.
    Seria brinco de amor
    ou era somente brinco.

    5 de Julho (fronteira
    do reino escuro)
    à face
    de casas desprevinidas
    jogávamos nos jardins
    e nas caixas de correio
    volumes indesculpáveis
    de alheias dedicatórias
    pedacinhos.

    Se salta o cachorro? Credo.
    Saltam quinhentos mastins.
    Ganem a traça
    de amor sem regulamento.
    Prende mata esfola queima.
    Viu? É dentro de mim, é dentro
    do bardo que estão ganindo.

    Bobeira de bobo besta.
    Passa de nove mil horas,
    urge voltar ao sacrário
    de virgem.
    Só mais um tiquinho. Não.
    Sou eu, rei sábio, que ordeno.
    Ri. Rimos de mim. Ficamos.

    Dedos entrelaçados
    e desejos geminados
    no parque tão pueril.
    Praça Edmundo, olá,
    Bittencourt de berros brabos.
    Se acaso nos visse aos beijos
    babados, reincidentes,
    protestava no jornal?

    Menina mais sem juízo
    rindo riso sem motivo
    no jogo de diminutivos,
    sabe o que estamos fazendo?
    Amor.
    Não é nada disso. Apenas
    primícias cálidas. Calo-me.

    Viajar nos seios. Embaixo.
    Por trás.
    Se vou mais longe, quem vai
    me segurar?
    Se fico por aqui mesmo,
    quem vem
    me resserenar?

    Passo vinte anos depois
    no mesmo Bairro Peixoto.
    Ele que a tudo assistia,
    nada lembra, no sol posto,
    deste episódio canhoto.


    AS MULHERES GULOSAS

    As mulheres gulosas
    que chupam picolé
    — diz um sábio que sabe —
    são mulheres carentes
    e o chupam lentamente
    qual se vara chupassem,
    e ao chupá-lo já sabem
    que presto se desfaz
    na falácia do gozo
    o picolé fuginte
    como se esfaz na mente
    o imaginário pênis.


    PARA O SEXO A EXPIRAR

    Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
    Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
    Amor, amor, amor — o braseiro radiante
    que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

    Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
    a minha se rebela ante a morte anunciada.
    Quero sempre invadir essa vereda estreita
    onde o gozo maior me propicia a amada.

    Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
    enregela-se o nervo, eisvai-se-me o prazer
    antes que, deliciosa, a exploração acabe.

    Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
    e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
    de sêmen aljofrando o irreparável ermo.


    Michel Leiris | Espelho da Tauromaquia

    Dos 90 anos que viveu, Michel Leiris passou mais da metade a escrever a sua autobiografia. Iniciado em 1930 quando começou a redigir "L'Âge d'Homme", incitado por um tratamento psicanalítico, o seu projecto autobiográfico prevaleceu até mesmo sobre a vocação de etnólogo.

    Resultado de uma longa expedição pela África, o livro "L'Afrique Fantôme" é sobretudo um diário pessoal do viajante que, ao conhecer o outro, empreende a descoberta de si. 

    Foi, porém, com a publicação dos quatro volumes de "La Règle du Jeu" que o escritor renovou definitivamente as convenções da autobiografia, dando ao género uma contribuição equivalente à que "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, representa para o romance.

    Projeto arriscado, sem dúvida, à medida que colocava o autor no centro do texto, desfazendo as fronteiras entre vida e obra. Para realizá-lo, Leiris transformou-se em personagem da sua literatura, mas sem ceder à composição de uma narrativa linear cujo herói seria construído à sua imagem. 


    Antes, ele preferiu dialogar com uma série de mitos, antigos ou modernos, que atuavam como pontos de identificação, oferecendo-lhe espelhos nos quais se podia contemplar. Entre as referências dessa mitologia pessoal, a tauromaquia ocupa um lugar especial.

    Já na versão original de "L'Âge d'Homme", o autor atentava para o impacto que os espectáculos das touradas lhe produziam: "Quando assisto a uma corrida, tenho a tendência de me identificar ora com o touro, no instante em que a espada é enterrada no seu corpo, ora com o toureiro, que corre o risco de ser morto (talvez emasculado?) por um golpe de chifre, no momento em que ele afirma o mais categoricamente a sua virilidade".

    Foi justamente esse golpe de chifre, e os perigos a ele subjacentes, que Leiris analisou a fundo num ensaio notável, em que investiga a tauromaquia como "um esquema análogo ao da tragédia antiga". 

    Escrito em 1938 é um livro no qual o escritor assume o "parti pris" do toureiro desde a composição do texto, avançando engenhosamente sobre o tema, numa reflexão que se torna, a cada passe, mais e mais arrojada.


    A ideia de sagrado percorre todo o ensaio. Leiris parte de um diagnóstico sombrio da sua época, ao aludir à incapacidade moderna de dar respostas às exigências de certos espectáculos violentos que, na qualidade de "lugares onde o homem tangencia o mundo e a si mesmo", colocam em jogo a totalidade da existência humana. 

    Na ordem geral das coisas, tais espectáculos teriam a função de "nos pôr em contato com o que há em cada qual de mais profundamente íntimo, de mais quotidianamente turvo e mesmo de mais impenetravelmente oculto".

    Percebem-se aí ecos de Nietszche, de quem Leiris foi leitor assíduo, já que o livro evoca o espírito da tragédia, em declínio num mundo marcado pela racionalização da crueldade. Tal evocação está na base das concepções de alguns dos mais lúcidos pensadores da sua geração, todos eles empenhados em interrogar a violência humana fora dos discursos humanistas que, desgastados na afirmação de um bem universal e abstrato, se revelavam mera retórica diante das evidências históricas de que o mal dizia respeito a toda a humanidade. 

    Entre eles estava Artaud, que Leiris conheceu na década de 20 quando ambos se aproximaram do surrealismo, e o amigo Georges Bataille, com quem fundou o Colégio de Sociologia, dedicado aos estudos de "antropologia mística".

    Contudo, embora compartilhasse dessa nostalgia do sagrado - que buscava conferir um sentido religioso à violência, vinculando o mal ao rito -, a visada de Leiris não era a mesma que a dos seus contemporâneos. 

    Menos apocalíptico que Artaud e menos enfático que Bataille, o discreto autor de "O Espelho da Tauromaquia" não se propôs fundar um espaço próprio, como foi o teatro da crueldade para o primeiro e a sociedade secreta "Acéphale"* para o segundo. Antes, preferiu valorizar as manifestações trágicas ainda vivas no mundo em que habitava.

    Se, no plano individual, reconhecia as faíscas do sagrado em certos rituais da infância - como expôs num texto capital, "Le Sacré dans la Vie Quotidienne", em que recorda as suas brincadeiras de criança -, no plano coletivo só a tauromaquia era capaz de lhe provocar tal revelação. 

    Com efeito, a instituição da corrida representa para Leiris o único rito moderno a assumir o aspecto de um desses "fatos reveladores que esclarecem partes obscuras de nós mesmos", na condição de "espelhos" que guardam a imagem de nossa emoção.

    À medida que contém um princípio trágico, diz o autor, a tauromaquia não é apenas um desporto, mas uma arte. Como tal, ela se estrutura sobre uma disciplina rígida em que as noções de ritmo, harmonia e equilíbrio são fundamentais. 

    Porém, diversamente de outras manifestações estéticas, a corrida comporta um risco que macula a própria ideia de beleza da arte, introduzindo um elemento acidental que "arranca o belo da sua estagnação glacial". 

    Por manter em contínua tensão esses dois pólos - regra e exceção -, a tourada abriga um jogo violento de contrastes, cujos equivalentes só se encontram nos atos humanos que desencadeiam experiências passionais.


    Não é por outra razão que Leiris aproxima a tauromaquia do transe religioso e da vertigem erótica: o contato do matador com o perigo exterior condensado nos chifres do touro sugere, por um curto espaço de tempo, o mesmo desejo de fusão entre sujeito e objeto que caracteriza os estados de êxtase. 

    O passe do toureiro é um movimento rumo à plenitude que, chegando a um paroxismo, tangencia o contato fatal, do qual o homem só consegue escapar por um triz. Diante dessa implacável ameaça de morte, a tauromaquia intervém com o elemento sagrado do sacrifício, oferecendo ao público extasiado um espelho no qual a imagem da finitude humana pode enfim ser contemplada.

    Mais que um aficionado, Michel Leiris não só se projetou nesse espelho como fez dele o arquétipo sagrado de sua própria atividade literária. 

    Em 1946, ele incluiu um prefácio em "L'Âge d'Homme", intitulado "De la Littérature Considerée comme une Tauromachie", no qual comparava o seu texto a uma arena, em que o exercício da arte implicava um risco de vida. 

    Estando então comprometido por inteiro com o projeto de escrever sobre si mesmo, aceitou o desafio de se colocar no centro da arena, expondo-se ao perigo de morte que repousa no horizonte de toda a obra autobiográfica.

    Créditos de: Eliane Robert Moraes, professora de estética e literatura na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e autora, entre outros livros, de "Sade - A Felicidade Libertina" (Imago).

    *Acéphale (sem cabeça derivado do grego) é o nome de uma revista pública criada por Georges Bataille (que contou com cinco edições, de 1936 a 1939) e uma sociedade secreta formada por Bataille e outros que haviam jurado ficar em silêncio.

    D. H. Lawrence | O Amante de Lady Chatterley

    O enredo de “O Amante de Lady Chatterley” atraiu a atenção da sociedade britânica mais conversadora – e consequentemente puritana -, acabando por ser proibido durante décadas. Publicado em 1928, foi proibido na Inglaterra durante 32 anos por ter sido considerado imoral e pornográfico pela crítica inglesa. 

    Foi graças a esta história que D. H. Lawrence conheceu a fama ao longo dos tempos – foi a proposta de um novo mito de erotismo, dando à sensualidade “tudo o que, até aqui, era dado ao amor: de fazer dele o meio da nossa própria revelação”.


    Apesar de ser inglês, o autor não conseguiu ver a sua obra publicada no seu país, pois veio a falecer em 1930 com apenas 44 anos, vitimado pela tuberculose que o acompanhou por quase toda a vida.

    Sobre a obra:

    Constance, a Lady Chatterley, casou-se com Clifford Chatterley, em 1917, e conheceu-o por inteiro por apenas um mês. 

    Ao ser enviado para a Grande Guerra, Clifford acabou por regressar com a metade do corpo inferior completamente paraplégico e volta, com a sua jovem esposa, para o casa da família: Wragby Hall.

    Para Constance Chatterley “deixou de haver um caminho ameno para o futuro”, e há que viver “por mais que os céus tenham desabado sobre nós”. 

    Constance e a sua irmã Hilda tiveram uma “educação esteticamente não convencional” por terem sido levadas para Paris e Roma para respirarem arte e em direcção a outros interesses, ao serem colocadas em grandes convenções socialistas em Haia e em Berlim. 

    Imune à intimidação da arte ou das ideologias políticas, Constance acaba por se ver fechada nas paredes de Wragby no seu papel de enfermeira e cuidadora do marido. Uma rotina que se revela, a cada dia que passa, cada vez mais monótona e desinteressante.

    Com Clifford a depender cada vez mais da esposa, apesar de demonstrar o seu poder “sinistro” sobre todos os outros elementos da sociedade, Connie (Constance) acaba por encontrar um refúgio em Mellors, o guarda de caça de Wragby. 

    Atormentado pela falta de ingenuidade devido à caótica sociedade em que vive, Mellors acaba por se ligar, aos poucos, a Constance. O amor que os une nasce de uma relação sexualmente satisfatória, em que ambos se querem saciar e explorar os seus corpos. 

    Sobre os personagens:

    A obra gira quase por inteiro em torno dos quatro principais personagens. O autor procura descrevê-los de acordo com o papel que vão representar na obra.

    Constance é descrita de forma a mostrar o que era antes e depois do casamento, e posteriormente o que veio a ser após o encontro com Mellors. Além disso, é importantíssima a origem abastardada, a educação livre e o sexo antes do casamento. 

    Teve uma intimidade maior antes do casamento do que com o esposo. Apesar de se sentir infeliz sexualmente no casamento, é uma mulher segura de si mesma. É importante notar que ela modifica-se sensivelmente ao longo da narrativa. Até se envolver com Mellors, ela não tivera um relacionamento pleno com um homem; e quando o tem, afasta-se progressivamente do marido até abandoná-lo para ficar com o amante.

    Mellors difere de todas as outras personagens masculinas. Levou uma vida errante, casou-se, teve uma filha e separou-se partindo para as colónias. Ao regressar, empregou-se como guarda-caça de Clifford. 

    É um homem solitário, avesso ao convívio social e procura levar uma vida tranquila junto da natureza. Não se importa com o dinheiro e também não pretende envolver-se com nenhuma mulher; por isso deseja ficar só e desliga-se completamente do mundo exterior, refugiando-se na floresta. Não era um homem bonito, mas atraente. Além disso, era sincero, pouco exigente em matéria de amor e, apesar de dominar o inglês, prefere usar um dialeto vulgar.

    Clifford é um homem rico e poderoso. Dono de Wragby, da mina e da vila, casou-se com Constance e logo depois foi para a guerra; regressou mutilado e impotente, obrigado a viver numa cadeira de rodas. Por isso, não tem ligação sexual alguma com a esposa. 

    Depois de curar-se dos ferimentos, passa a dedicar-se à literatura. Incentivado, porém, pela enfermeira, ele abandona a literatura e entrega-se à administração da sua mina. Apesar de tradicionalista e aristocrático, é capaz de aceitar que a esposa tenha um filho de outro homem para continuar a sua linhagem. Contudo, o seu status social não o impede de ter um comportamento infantil do início ao fim da obra.

    Sra. Bolton é a enfermeira contratada para cuidar de Clifford. É uma viúva e tem duas filhas adultas. Ela acredita que todos os homens não passam de bebés. E é com esse comportamento que ela vai influenciar o paciente. 

    Logo de início, ela conquista a confiança e a atenção do patrão. Apesar de ser uma mulher de grande bom senso e dona de certo cepticismo, é uma mulher que também gosta de fazer intriga sobre a intimidade de todos os moradores da vila. Inclusive é ela quem espalha pela vila a notícia de que Constance está grávida e que o filho provavelmente não era do esposo. 

    Esses personagens, na verdade, formam dois pares: Constance/Mellors, o casal saudável e Sra. Bolton/Clifford, o casal doentio.

    Além desses personagens, há os personagens secundários como: Sir Malcolm, pai de Constance, que é um homem sensual e aberto, e responsável pela educação liberal da filha; Michaelis, o primeiro amante de Constance, é um homem atirado, cínico e dissimulado que não conseguia satisfazer sexualmente a parceira por ter ejaculação precoce; Tommy Dukes, amigo de Clifford, é um homem culto, valoriza mais a contemplação do que a especulação filosófica e admite que o sexo é importante nas relações entre homens e mulheres; Leslie Winter, o padrinho de Clifford, é um velho aristocrata conservador que acredita nas teorias racistas em voga no início do século; Hilda, a irmã mais velha de Constance, que não admite relacionamento entre pessoas de classes diferentes e, mesmo assim, ajuda a irmã a encontrar-se com Mellors.

    O Tempo e o Espaço

    O tempo é rigorosamente cronológico, cobrindo um período de mais ou menos um ano. Começa com o casamento de Clifford e Constance em 1917 e vai até a carta que Mellors escreve para a amante, na primavera seguinte.

    A vida das personagens está condicionada aos ciclos naturais. Apesar da ausência específica de datas, é possível concluir que a narrativa é linear.

    O espaço é aberto. Essa parece ser uma preocupação do autor, pois há uma clara distinção entre espaço social e natural e que chega a ser quase uma oposição. Enquanto o primeiro é sempre pesado, feio, deprimente e opressivo, o segundo é belo, saudável e agradável.

    Apesar de que não haver quase sempre uma descrição detalhada dos ambientes fechados, sente-se a preocupação de eles reflectirem a personalidade dos seus habitantes. Além disso, o autor adota sempre uma perspectiva realista em relação ao espaço social e as suas mudanças não passam despercebidas ao narrador.

    O livro é narrado em terceira pessoa, em que o narrador demonstra saber tudo do começo ao fim da obra. Ele, por sua vez, adota uma posição favorável às mulheres. Em alguns momentos, ele partilha as mesmas sensações e os mesmos ideais que os das personagens.

    A Mensagem

    A obra faz uma clara distinção entre os dois tipos de relacionamento, dando a impressão de que a intenção do autor foi justamente levar-nos a optar entre um e o outro. Ou seja, poderá optar entre o relacionamento Constance/Mellors ou pelo do Sra. Bolton/Clifford.

    No primeiro caso, está o relacionamento saudável, representado pelos Amantes. A união entre os dois rompe com todas as convenções sociais. Constance e Mellors são, a bem da verdade, apenas um homem e uma mulher que desejam levar ao limite todas as possibilidades da sua união. Isso é confirmado pela plena satisfação sexual que obtêm nos contatos físicos. E é justamente essa satisfação que mantém estável emocionalmente o relacionamento entre os dois.

    No segundo caso, está o relacionamento doentio entre o paciente e a sua enfermeira. Isso fica evidente pelo tratamento que ela dispensa a Clifford, tratando-o como um bebé e por optar pela intimidade doentia com ele, do que se casar com outro homem.

    Diante de tantas evidências apresentadas no romance, é possível afirmar que a ligação entre o primeiro casal é fruto das suas inclinações naturais, enquanto a ligação do segundo casal é resultado dos seus desvios emocionais que podem ser entendidos como uma regressão.

    Isso leva-nos a entender o porquê da preocupação do autor na caracterização psicológica dos personagens. Essa caracterização não é nada mais nada menos que uma forma de mostrar a afinidade associativa. Afinidade essa que faz com que pessoas semelhantes no comportamento psicológico tendem a aproximar-se uma da outra.

    Acreditando nessa afinidade, o autor quis mostrar que nenhuma convenção social é capaz de impedir que duas pessoas semelhantes se aproximem. Mesmo quando essas duas pessoas são de classes, nível cultural e estilo de vida tão diferente.

    Sabendo-se que Lawrence era um homem culto, ele pode ter sido influenciado pelas teorias de Freud ao escrever este romance; uma vez que a ênfase dada ao sexo na construção da personalidade é produto das teorias freudianas.

    Acabando:

    A conclusão que se chega ao final da história é que o livro é uma obra que se aproxima do Realismo.

    Isso pode ser afirmado pelo tratamento dispensado ao espaço social e à traição. Este último, porém, não tem a importância na obra como teve no Realismo. Outra coisa que a diferencia um pouco do realismo é a conduta dos personagens em relação à raça e ao meio. Aqui o que importa são as necessidades sexuais do casal Constance/Mellors e não os outros detalhes.

    Outra coisa importantíssima é se o livro é uma obra pornográfica ou não. Essa é uma controvérsia difícil de resolver; mas, se analisarmos bem a obra e todo o conjunto das obras do autor, é possível chegar a conclusão de que não. 

    O livro apesar das descrições de atos sexuais, não é uma obra pornográfica. Isso fica evidente na diferenciação que o autor faz ao descrever o sexo antes e depois do início do relacionamento entre Mellors e Constance. 

    Ao verificarmos, fica evidente a diferença entre o ato físico e o sentimento que o envolve. Ou seja, o autor quis mostrar que fazer sexo sem amor é uma coisa e fazer amor é outra totalmente diferente.

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