George Bataille | O Erotismo

Flexslider

» » » » George Bataille | O Erotismo

Georges Bataille  foi um escritor francês, cuja obra se enquadra tanto no domínio da Literatura como no campo da Antropologia, Filosofia, Sociologia e História da Arte. 

O erotismo, a transgressão e o sagrado são temas abordados nos seus escritos. Começou a escrever por sugestão de seu psicanalista, tendo o seu primeiro livro, "História do Olho", sido publicado em 1928, sob o pseudónimo de Lord Auch, que permanecerá até sua morte por vontade do autor, uma vez que o livro, com traços autobiográficos, foi escrito com a intenção de expurgar a sua mente, uma maneira de livrar-se das obsessões atormentadoras ou, como dizia, "Escrevo para apagar o meu nome".

Após a "História do Olho", Bataille prossegue a sua obra erótica, tributária de Sade, e publica em 1937, sob o pseudónimo de Pierre Angélique, "Madame Edwarda". É uma ficção erótica onde encontramos seres angustiados e torturados por conflitos íntimos, que Bataille utiliza para nos mostrar a perda do indivíduo em torno das suas paixões até à morte.


Esse gosto pela literatura levou-o a reunir em a "A Literatura e o Mal" diversos estudos onde analisa a obra de Emily Brontë, Baudelaire, Jules Michelet, William Blake, Sade, Proust, Kafka e Jean Genet, parcialmente publicados na revista "Critique", nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial. 

Eles dão uma ideia do sentido que tinha a literatura para Bataille - a literatura é comunicação, impõe uma lealdade, uma moral rigorosa. Não é inocente. "A literatura é o essencial ou não é nada. O mal - uma forma penetrante do Mal - de que ela é a expressão tem para nós, creio eu, o valor soberano".

Duas obras são fundamentais para compreendermos o pensamento de Bataille. Em "A Parte Maldita", Bataille procurou a elaboração de um pensamento sobre economia partindo da antropologia de Mauss, bastante distinta do liberalismo e do marxismo dominantes na sua época. É o único livro onde ele teria tentado construir sua visão de mundo: filosofia da natureza, filosofia do homem, filosofia da economia, filosofia da história (Jean Piel).

Influenciado pela leitura de "O Ensaio Sobre a Dádiva"*, e a "A Noção de Despesa", que precede e origina o livro, Bataille sustenta que o consumir, e não o produzir, que o despender e não o conservar, que o destruir em vez de construir, constituem as motivações primeiras da sociedade humana. 

Reinvertendo o princípio axiomático da primazia da produção sobre o consumo, Bataille traz para a interpretação da economia as análises que privilegiam as formas de circulação e que não se traduzem em medidas de valor.

Ao sistematizar a sua teoria geral da circulação da energia sobre a terra, sempre numa espiral ascendente que dá o carácter de nossa sociedade, Bataille revela a influência da ideia de dádiva, onde ele nos mostra que existem outros princípios de troca fundadores da sociedade, onde impera a qualidade, como o sacrifício ritual, e que nos vinculam ao que está além do humano. 

Rejeitando as teorias de Keynes, bem como o marxismo de juventude, Bataille construiu o seu pensamento insistindo na hipótese de uma abundância inevitável e inaceitável no mundo, cuja acumulação conduz à morte.


Em "O Erotismo", Bataille continua essa linha de estudos. Ao encontrar no erotismo a chave que desvenda os aspectos fundamentais da natureza humana, o ponto limite entre o natural e o social, o humano e o inumano, Bataille vê-o como a experiência que permite ir além de si mesmo, superar a descontinuidade que condena o ser humano: "Falarei sucessivamente dessas três formas, a saber: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado. Falarei dessas três formas a fim de deixar bem claro que nelas o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda".

Dividida em duas partes, o livro expõe na primeira parte sistematicamente os diferentes aspectos da vida humana sob o ângulo do erotismo e na segunda, estudos independentes que tratam de psicanálise e literatura. 

Estudioso de religiões orientais, experiências místicas e práticas estáticas e sacrificiais, Bataille nos leva a descobrir que "entre todos os problemas, o erotismo é o mais misterioso, o mais geral, o mais à distância". 

Mostrando os efeitos de transgredir as interdições impostas milenáriamente por estes elementos desordenadores, Bataille dá ao erotismo e à violência uma dimensão religiosa, onde explora os meios para se atingir uma experiência mística "sem Deus": "um homem que ignora o erotismo é tão estranho quanto um homem sem experiência interior".

O seu pensamento alimenta teóricos das mais diversas áreas. 

A morte como destino da sociedade de consumo é essencial à doutrina de Jean Baudrillard; Deleuze e Guattari inspiram-se em Bataille para ver o mundo como espaço de várias alternativas possíveis à lógica do mercado, lugar onde desembocam pulsões e desejos, um mundo de novas estratégias não mercantis. 

Ao reconhecer o excesso encarnado no desejo de transgredir os mitos no campo simbólico, Bataille contribuiu para uma geração de intelectuais projectarem da economia à psicanálise uma tonalidade impregnada de culturalismo que não cessa de mostrar-se como alternativa original e criativa de compreender o nosso mundo.

*Ensaio sobre a dádiva, também conhecido como Ensaio sobre o dom é um livro de Marcel Mauss, publicado pela primeira vez em 1925, que versa sobre os métodos de troca nas sociedades tidas como primitivas. É reconhecido como o estudo de caráter etnográficoantropológico e sociológico mais antigo e importante sobre a reciprocidade, o intercâmbio e a origem antropológica do contrato.

Share

You may also like

Sem comentários

Leave a Reply

Feature