Sou um velho diabo, sim, muito velho, mas nem um bom diabo nem, menos ainda, um pobre diabo. Se se pensar que, nos últimos cem anos, me dediquei sobretudo ao progresso científico e que, os conhecimentos que resultaram da bomba de Hiroshima, fui eu a sugeri‑los, um a um e rapidamente, aos maiores cientistas do século, em troca das suas almas, a começar pela de Albert Einstein ‑ terá que se reconhecer que não sou um diabo menor.
Neste ponto, haverá talvez quem queira saber como é que um homem, sob tantos aspectos, simplesmente angélico como Einstein, pode alguma vez vender a alma àquele que é habitualmente designado como o inimigo da humanidade.
Para responder a essa pergunta, é necessário recorrermos à psicologia característica dos chamados espíritos criadores, sejam eles ou não inspirados pelo diabo. Já ouviram falar de um poeta que tenha renunciado alguma vez a publicar um verso da sua autoria? De um pintor que tenha destruído uma tela que lhe parecia perfeita?
Os cientistas não são diferentes. Nenhum dos que assinou pacto comigo se sentia inclinado a renunciar às descobertas que eu lhe ia proporcionando, embora, sem dúvida, todos eles se dessem lucidamente conta de que eram descobertas absolutamente diabólicas. Einstein não era, de maneira alguma, excepção a esta regra, e sabia muitíssimo bem que as suas invenções conduziam diretamente a qualquer coisa terrível, indizível; mas posso garantir‑vos que essa consciência não pesou para ele um segundo sequer nos pratos da inclinável balança do mal e do bem.
No máximo, procurava não pensar no caso, lançar a responsabilidade das catástrofes previsíveis e previstas para os ombros de cientistas que introduziram desenvolvimentos posteriores nas suas descobertas e dos chefes de Estado que delas se serviram, como se verificou mais tarde.
Nem tudo é límpido, porém, nestes contratos diabólicos. Há os que, chegado o momento, se recusam a pagar a dívida; há outros que pretenderiam um êxito suplementar, mais poder e glória; há, por fim, os que procuram enredar‑me, ou seja: que gostariam de levar a melhor sobre o diabo. Houve, finalmente, o caso único de Gualtieri, a quem eu gostaria de devolver a sua dívida. E esta é a história verídica dessa tentativa.
Gualtieri, quem não o conhece? Quem não o viu já, pelo menos em fotos? Um homem de idade e, ao mesmo tempo, de aspecto juvenil: alto, magro, e elegante; com um rosto sedutor, simultaneamente severo e sorridente: olhos penetrantes à sombra de fartas sobrancelhas negras, cabelos de prata, grande nariz encurvado e impreciso, boca altiva e nobre. E com este aspecto, para dizer pouco, impressionante, tem ainda a voz mais suave e as maneiras mais convincentes que é possível imaginar. Este homem extraordinário, ela já era, quando ainda estudante, me aproximei dele pela primeira vez, no intuito de fazê-lo assinar a carta fatal.
Já o conhecia de nome, através do seu professor de Física, Palmisano, outro sábio que me vendera a sua alma, mas sem qualquer resultado, dada a sua inacreditável preguiça patológica. Quando estava morrendo, Palmisano me dissera: “Tanto pior para mim: condenei‑me para nada. Mas quero recomendar‑te o Gualtieri, o meu melhor aluno, um verdadeiro gênio em potência, que, se decidir-se em fazer o pacto com você, pode ter certeza que vai revolucionar a ciência, pondo a ferro e fogo o seu campo, hoje ainda tão tranquilo.”
Esta recomendação inspirou‑me um ardente desejo de entrar em contato com Gualtieri. Hesitei longamente sobre a melhor maneira de fazê-lo. Que aparência deveria eu assumir para lhe aparecer e me apresentar? A do companheiro de estudos? A do industrial em busca de novos engenhos para o seu laboratório? A da mulher apaixonada? Ative‑me nesta última possibilidade. O disfarce que prefiro é o da figura feminina. Até porque acompanha a tentação do sucesso com a outra, muitas vezes irresistível, a tentação do desejo.
Com esta idéia na cabeça, comecei a seguir Gualtieri por onde quer que ele andasse, apresentando‑me ora como aluna da universidade onde ele ensinava, ora como mulher casada num dos salões ou grupos que ele costumava frequentar, ora como prostituta à esquina da sua rua. Estas mulheres em quem encarnava eram todas de notável beleza e procuravam de todas as maneiras fazer compreender a Gualtieri que estavam dispostas a satisfazer‑lhe todos os caprichos. Mas Gualtieri, então um homem ainda novo, com cerca de trinta anos, não se dignava sequer a olhá‑las, demonstrando uma indiferença aparentemente fácil e sem esforço: dir‑se‑ia que, do modo mais simples, elas não tinham para ele o mínimo dos interesses.
Já estava desistindo de manter algum contato com ele, quando, um dia, no fim de um verão particularmente abafado, o encontrei no último lugar em que teria pensado vê‑lo: num jardim público. Estava sentado num banco de ripas de madeira, com um livro nas mãos, mas fechado; parecia observar com atenção bem desperta uma coisa à sua frente. Disfarcei‑me de formosa jovem morena, sentei‑me na frente dele, olhei‑o com insistência, até que acabei por me dar conta de que os seus olhos eram para outra coisa que olhavam.
Fitava com ar de profunda atenção um grupo de menininhas, entre os doze e os quinze anos que, um pouco afastadas, se dedicavam ao jogo bem conhecido de pular amarelinha. O diabo, como se sabe, é muito intuitivo. Ver Gualteri com os olhos presos nas menininhas, às quais o jogo a todo o momento descobria as pernas bem acima dos joelhos, e decidir que encontrara não só o disfarce adequado, mas também a maneira de fazê-lo assinar imediatamente a carta do pacto infernal, foi fácil.
Levantei-me do banco, entrei num bosquezinho do jardim, e aí mudei de aparência (o diabo pode fazer tudo o que quiser neste gênero de coisas!) transformando-me em uma menina com cerca de doze anos, cabeça coberta por abundantes cabelos, busto delgado, pernas esguias e musculosas. Então, em seguida entrei no jogo e a puxei para cima as saias para melhor saltar.
Sou o diabo e reconheço que os meus processos são muitas vezes brutais, grosseiros; os hesitações e as ambiguidades não são coisas para mim. Assim, não é de espantar que, para saltar, levantasse a saia muito mais do que o necessário; além disso, não estava usando nada por baixo do vestido, estando portanto sem calcinha. O olhar de Gualtieri descobriu rapidamente esse nada; percebi‑o pela pressa com que subitamente mergulhou na leitura do livro que tinha nas mãos. Pouco depois, separei‑me do grupo e fui ao encontro dele. Estava muito seguro do que fizera; sabia ter acertado de primeira no centro do seu alvo mais íntimo.
Aproximo‑me dele; tenho na mão um caderno escolar qualquer, no qual, na primeira página, se encontra escrito em letra gótica (infelizmente, não me desfiz ainda dos meus velhos hábitos de diabo de origem alemã) o texto do contrato habitual. Digo‑lhe com a voz típica de uma menininha petulante: “estou fazendo uma coleção de autógrafos. Não quer assinar o meu caderno?” ‑ e, ao mesmo tempo, ponho‑lhe o pacto debaixo dos olhos.
Ele ergueu o rosto, fitando primeiro as minhas pernas nuas, depois a minha cara. Olhou‑me diretamente, como para se certificar das minhas intenções, e depois perguntou: “Queridinha, o que você quer de mim?”
“Coleciono assinaturas: Quero que ponha a sua neste caderno.”
“Mostre-me.”
Dei‑lhe o caderno aberto na página do pacto. Ele pegou nas folhas e eu, entretanto, como para lhe explicar o que queria, fingi ter comichão no púbis e cocei‑me através do vestido. Ele deitou‑me uma olhadela penetrante e, depois, voltou a examinar o caderno. As letras do texto do contrato deviam, nesse momento, flamejar‑lhe diante dos olhos; mas tenho que reconhecer que nem um músculo do seu rosto se moveu. Leu e releu aquelas poucas palavras e finalmente disse: Então você quer a minha assinatura?”
“Sim, você me faz esse favor.”
“E o que você me dará em troca?”

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