Alberto Moravia

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    Alberto Moravia | Um trovão revelador

    Havia cinco dias que eu fugia em ziguezague, para confundir as minhas próprias pegadas, de Paris a Amsterdão, de Amsterdão a Londres, de Londres a Hamburgo, de Hamburgo a Marselha, de Marselha a Viena, de Viena a Roma, ora de comboio, ora de avião sem dormir ou dormindo pouco e incomodamente; tinha já mais vontade de dormir que de viver, e julgo que teria adormecido até perante esse mesmo pelotão de execução de que procurava escapar com a minha fuga sem fim. 

    Tinha tanto sono à chegada a Roma, que, quando, na estação Termini, o meu filho, conforme o combinado, veio me encontrar, a primeira coisa que lhe perguntei foi se encontrara um lugar onde eu pudesse dormir em segurança. Respondeu‑me que haveria um andar só para mim e que aí poderia dormir à vontade, pois ninguém no mundo conhecia a existência desse apartamento para além dele próprio.

    Entretanto, tirara‑me da mão a mala e caminhava ao meu lado enquanto saíamos da estação. Não pude impedir‑me de olhar para ele: havia quase dois anos que o não via. Pareceu‑me, de tão confuso que estava por causa da extrema fadiga, que ele não mudara em nada, exceto em dois pormenores: a barba, que antes não tinha, e a fixidez inquietante dos olhos, também isso uma novidade. 

    Agradeci‑lhe o ter vindo e arranjado o apartamento; disse‑lhe que a mãe, que ficara em Paris, lhe mandava muitas lembranças; disse‑lhe ainda, com prazer sentido, que estava com ótimo aspecto, melhor do que da última vez, dois anos antes, em que nos víramos. Respondeu‑me que isso dependia da sua satisfação com o trabalho: começara a trabalhar numa empresa de importação‑exportação; ganhava bem; por enquanto vivia numa pensão, mas em breve teria casa sua, tanto mais que estava noivo de uma moça italiana, com quem contava casar dentro em pouco. Enquanto me fornecia, sorrindo, estas informações, chegávamos ao carro. Pôs a minha mala no porta‑bagagens; entrei, ele sentou‑se ao volante e partimos.

    Não conheço lá muito bem a cidade de Roma; mas segui com atenção, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, o percurso do automóvel e fiquei com a impressão de que, um semáforo atrás de outro, atravessáramos todo o centro antigo da cidade; depois, cruzámos uma ponte e passámos para o outro lado do Tibre. O meu filho, enquanto guiava, não parava de falar afetuosamente comigo; dizia como estava contente por me ver após uma separação tão longa; fazia projetos para o meu futuro e o da sua mãe.

    Corríamos agora ao longo do Tibre. Do carro, podia ver a margem oposta, do outro lado do rio, cheia de árvores, cujas densas folhas de prata afloravam as águas amarelas e brilhantes. Por trás das árvores, alinhavam‑se as casas por cima das casas, grandes nuvens de trovoada, negras e ameaçadoras, subiam rapidamente, ocupando a zona ainda azul do céu. O meu filho disse‑me que, sem dúvida, viria aí uma tempestade; era assim, havia já alguns dias: de manhã estava bom tempo, depois o dia estragava‑se e, à noite, infalivelmente, levantava‑se um temporal, com relâmpagos, trovões, vento e chuva.

    O automóvel rodou um pedaço pelo asfalto da rua ao longo do rio, que tinha, de um lado, o dique do Tibre e, do outro lado, uma fila ininterrupta de casas e edifícios; a seguir, o carro parou num lugar sossegado e livre de trânsito atravessado por uma dessas barreiras pintadas de vermelho e branco que fecham as estradas ou ruas intransitáveis. O meu filho explicou‑me que, naquele pedaço, o dique do rio desmoronara; estavam em curso obras de reparação; por esse motivo, não passavam ali carros e, assim, aquilo era um verdadeiro oásis de paz no meio da cidade, apinhada e tumultuosa. Desci do automóvel e olhei à volta: efetivamente, a rua ao longo do Tibre estava ali quase deserta: dois ou três garotos andavam de patins; um par de namorados caminhava lentamente abraçados pela cintura; num carro parado, junto ao parapeito da muralha, um homem e uma mulher ouviam rádio.

    Ergui os olhos para o céu: o temporal adensava‑se cada vez mais; o azul ficara reduzido a um pequeno retângulo, à volta do qual as nuvens se comprimiam agitadamente umas contra as outras, como que com falta de espaço. O meu filho, muito risonho, fez‑me notar uma vez mais a tranquilidade do lugar: “Então, não é um lugar ideal para quem não quer fazer‑se notar?” Quase sem pensar, respondi: “É igualmente um lugar ideal para se assassinar alguém, também sem se ser notado.” O meu filho bateu‑me com a mão nas costas: “Vamos, vamos; de agora em diante, não deves pensar em coisas dessas. De agora em diante, deves confiar em mim; tratarei de te organizar uma vida serena e segura.”

    Tinha extraído do bolso um molho de chaves e aproximara‑se do portão de um palácio; disse‑me que o edifício não tinha porteiro e que, desse modo, podia sair e entrar sempre que quisesse sem ser visto nem observado. Entramos no átrio comum, mas não tivemos que entrar no elevador: o apartamento era no térreo. O meu filho abriu a porta e entrou à minha frente no interior, que me pareceu logo bastante triste, com essa tristeza particular que é fastidiosamente característica das casas há muito sem gente. 

    Os móveis eram completamente neutros, quase mais de escritório do que de casa de habitação, e reduziam‑se ao mínimo necessário: na sala, havia apenas um divã e duas poltronas; no quarto de dormir, apenas a cama, uma cadeira e uma mesa pequena. Havia ainda uma espécie de quarto menor, junto da entrada, com um catre desfeito onde parecia ter dormido alguém há pouco tempo. Passamos diante da cozinha e então vi, de pé junto ao fogão, uma jovem africana. Perguntei ao meu filho quem era aquela mulher e ele respondeu‑me que era uma empregada somaliana, que cozinharia para mim e me faria a limpeza enquanto ali estivesse morando. “Fala a nossa língua”, acrescentou o meu filho, “podes ter absoluta confiança”.

    Fomos nos sentar no quarto, eu em cima da cama e o meu filho na cadeira”. quase de repente, a mulher entrou, trazendo em uma bandeja o jantar, que havia acabado de cozinhar. Enquanto com gestos graciosos, inclinando-se para adiante, dispunha os pratos na mesa, olhei‑a e notei que era alta, flexível e elegante, com ombros largos, braços redondos e fortes, ancas estreitas, uma verdadeira beleza no seu gênero. 

    Dispós bem os pratos na mesa, procedeu a uma leve inclinação, olhando‑me diretamente nos olhos, como se tivesse querido fazer‑me compreender alguma coisa, e depois foi‑se embora. O meu filho convidou‑me a comer; lancei uma olhadela aos pratos e vi que continham comida tradicional do nosso país, cozinhada, segundo parecia, com todo o apuro; mas mal pensei estender a mão e começar a comer alguma coisa, senti uma repugnância tão invencível como misteriosa e disse ao meu filho que não tinha fome, mas apenas sono e que, por isso, o melhor seria que ele me deixasse agora repousar; ver-nos‑íamos no dia seguinte e então eu faria já todas as coisas normais da existência, a começar pelas honras devidas à ótima cozinha nacional preparada pela mulher somaliana.

    O meu filho pareceu contrariado com a minha recusa; insistiu para que eu me alimentasse, comendo pelo menos um pouco; de outro modo, disse, ainda adoecia, uma vez que, segundo a minha própria confissão, não comia havia um dia. Respondi que o medo me tirara todo o apetite; agora queria dormir; dormindo, o medo ir‑se‑ia; quando despertasse, já teria fome e então pensaria em comer. Pouco satisfeito, mas resignado, o meu filho chamou a empregada somaliana pelo nome, ela reapareceu; enquanto voltava a pôr os pratos na bandeja, inclinou‑se de novo para mim, olhando‑me direto nos olhos, antes de sair. O meu filho pusera‑se agora em pé algo bruscamente; atirou‑me os braços ao pescoço, beijando‑me nas duas faces e dizendo‑me que dormisse: encontrar‑nos‑íamos no dia seguinte.

    Não sei por que, apesar do tormento daquela terrível vontade de dormir, mal o meu filho saiu da sala, refleti que, enquanto me abraçava, sentira a sua mão tocar‑me não só os ombros, o que seria normal, mas também ao longo dos flancos até a base da coluna, um gesto insólito e improvável da sua parte: é desse modo que se tocam as pessoas suspeitas, para ver se não estarão armadas. A este reparo seguiu‑se em mim um desejo súbito de observar de novo o meu filho. Corri à janela, abri as portadas e olhei lá para fora.

    Precisamente naquele momento, estava ele saindo de casa e entrando no automóvel. Uma vez mais sem motivo, demorei‑me à janela, para seguir com os olhos o automóvel que se afastava. Mas o carro não foi muito longe. Na barreira vermelha e branca, deteve‑se. Um homem que estava sentado numa atitude ociosa, com as pernas a balançar, no parapeito do dique, desceu do seu pouso e dirigiu‑se ao automóvel. O meu filho abriu a porta do carro e, depois, voltou a partir.

    Não pensei coisa nenhuma. O meu espírito estava ocupado pelo sono, à maneira de uma névoa espessa que ocupa uma paisagem, impedindo‑nos de ver tal como é. Fechei a janela, atirei‑me para cima da cama, completamente vestido, tal como estava, e fiquei um pedaço de costas, com os olhos abertos. A porta do quarto estava entreaberta; disse para comigo que deveria tê‑la fechado à chave; mas não o fiz. A mulher devia estar ainda na cozinha; ouvia‑a cantar em surdina não sei que canção do seu país. Embalado por essa toada que parecia, como os olhares de havia pouco, destinar‑se a mim, exclusivamente, adormeci.

    Dormi violentamente, como se protestasse contra qualquer coisa, talvez contra o próprio sono. Durante todo o tempo, senti que cerrava os dentes com força e os punhos com raiva. Em certo momento da noite, ouvi o trovão ribombar, pesado e clamoroso, e depois, nos intervalos dos trovões, ouvi o murmúrio da chuva se espalhando. Então, embora adormecido, pareceu‑me ver o asfalto da rua ao longo do rio inundado pela água abundante que caía; em seguida, relampejava com força e eu vi um homem sentado na muralha numa atitude ociosa, que, subitamente, descia do seu lugar e se dirigia a um automóvel parado na chuva, enquanto me dava conta de que lá dentro estava o meu filho. Revi esta cena várias vezes: o homem estava sentado, depois descia da muralha e corria para o automóvel, e, ei‑lo de novo sentado, voltando a descer e a correr e assim sucessivamente, uma e outra vez.

    Finalmente, contudo ainda dentro do sono, à força de ouvir os trovões e a chuva, formou‑se no meu espírito esta pergunta: “Onde e quando ouvi estes trovões, esta chuva?”

    Sempre dormindo, dei‑me a seguinte resposta: na infância. Estou mais perto dos sessenta anos que dos cinquenta; a recordação fazia‑me recuar meio século. Era na casa dos meus pais; acordava sobressaltado no escuro, sentia a queda da chuva e o ruído do trovão; então levantava‑me da cama e corria para refugiar‑me no quarto do lado, entre os braços seguros e quentes da minha mãe. Como agora. Levantei‑me de repente, por um impulso instintivo, irresistível, atravessei o quarto e saí para o corredor.

    A porta do quartinho onde a somaliana dormia estava mal fechada. Entre a escuridão de pez e a luz violenta e efêmera dos relâmpagos, cheguei à entrada do quarto. Não quis acender a luz; pensava que me bastaria entrever a mulher no intervalo de dois relâmpagos, como entrevira a minha mãe naquela noite, há cinquenta anos. E assim foi. Relampejou e vi a mulher, que dormia profundamente, com a face apoiada na palma da mão, o corpo envolvido no lençol, o braço nu e dobrado. Observei‑a assim, entre relâmpagos, demoradamente; recordava agora o seu olhar direto no meu enquanto me servia e levantava os pratos depois do jantar; e perguntava‑me o que teria querido então dizer‑me e se, na verdade, era ela quem me queria dizer alguma coisa ou eu quem desejava que me fosse dita alguma coisa. Por fim, senti‑me mais calmo e senhor dos meus nervos. Retirei‑me, fechando a porta atrás de mim e voltei para o meu quarto. Na realidade, enquanto contemplava a mulher adormecida, tomara uma decisão e agora não me restava mais do que pô‑la em prática.

    Esperei, deitado de costas, na cama, mais umas duas horas; depois, ao primeiro alvor da manhã, levantei‑me, peguei na minha pequena mala e saí na ponta dos pés do quarto. No corredor, detive‑me um momento diante da porta dela e escutei, sabe‑se lá por que. Mas não me chegou o menor rumor: estava adormecida. Abri a porta de fora, atravessei a entrada do edifício e saí para a rua ao longo do Tibre. Era de madrugada, todas as árvores estavam encharcadas de chuva; o asfalto brilhava em poças de água esparsas; o céu estava mesclado, entre o branco e o cinzento. No momento em que fechei a porta do edifício para a rua, os candeeiros ainda acesos no passeio apagaram‑se todos ao mesmo tempo. Comecei a caminhar a passo rápido em direção à ponte vizinha.

    Alberto Moravia | O diabo não pode salvar o mundo

    Sou um velho diabo, sim, muito velho, mas nem um bom diabo nem, menos ainda, um pobre diabo. Se se pensar que, nos últimos cem anos, me dediquei sobretudo ao progresso científico e que, os conhecimentos que resultaram da bomba de Hiroshima, fui eu a sugeri‑los, um a um e rapidamente, aos maiores cientistas do século, em troca das suas almas, a começar pela de Albert Einstein ‑ terá que se reconhecer que não sou um diabo menor.

    Neste ponto, haverá talvez quem queira saber como é que um homem, sob tantos aspectos, simplesmente angélico como Einstein, pode alguma vez vender a alma àquele que é habitualmente designado como o inimigo da humanidade. 


    Para responder a essa pergunta, é necessário recorrermos à psicologia característica dos chamados espíritos criadores, sejam eles ou não inspirados pelo diabo. Já ouviram falar de um poeta que tenha renunciado alguma vez a publicar um verso da sua autoria? De um pintor que tenha destruído uma tela que lhe parecia perfeita? 

    Os cientistas não são diferentes. Nenhum dos que assinou pacto comigo se sentia inclinado a renunciar às descobertas que eu lhe ia proporcionando, embora, sem dúvida, todos eles se dessem lucidamente conta de que eram descobertas absolutamente diabólicas. Einstein não era, de maneira alguma, excepção a esta regra, e sabia muitíssimo bem que as suas invenções conduziam diretamente a qualquer coisa terrível, indizível; mas posso garantir‑vos que essa consciência não pesou para ele um segundo sequer nos pratos da inclinável balança do mal e do bem. 

    No máximo, procurava não pensar no caso, lançar a responsabilidade das catástrofes previsíveis e previstas para os ombros de cientistas que introduziram desenvolvimentos posteriores nas suas descobertas e dos chefes de Estado que delas se serviram, como se verificou mais tarde.

    Nem tudo é límpido, porém, nestes contratos diabólicos. Há os que, chegado o momento, se recusam a pagar a dívida; há outros que pretenderiam um êxito suplementar, mais poder e glória; há, por fim, os que procuram enredar‑me, ou seja: que gostariam de levar a melhor sobre o diabo. Houve, finalmente, o caso único de Gualtieri, a quem eu gostaria de devolver a sua dívida. E esta é a história verídica dessa tentativa.

    Gualtieri, quem não o conhece? Quem não o viu já, pelo menos em fotos? Um homem de idade e, ao mesmo tempo, de aspecto juvenil: alto, magro, e elegante; com um rosto sedutor, simultaneamente severo e sorridente: olhos penetrantes à sombra de fartas sobrancelhas negras, cabelos de prata, grande nariz encurvado e impreciso, boca altiva e nobre. E com este aspecto, para dizer pouco, impressionante, tem ainda a voz mais suave e as maneiras mais convincentes que é possível imaginar. Este homem extraordinário, ela já era, quando ainda estudante, me aproximei dele pela primeira vez, no intuito de fazê-lo assinar a carta fatal.

    Já o conhecia de nome, através do seu professor de Física, Palmisano, outro sábio que me vendera a sua alma, mas sem qualquer resultado, dada a sua inacreditável preguiça patológica. Quando estava morrendo, Palmisano me dissera: “Tanto pior para mim: condenei‑me para nada. Mas quero recomendar‑te o Gualtieri, o meu melhor aluno, um verdadeiro gênio em potência, que, se decidir-se em fazer o pacto com você, pode ter certeza que vai revolucionar a ciência, pondo a ferro e fogo o seu campo, hoje ainda tão tranquilo.”

    Esta recomendação inspirou‑me um ardente desejo de entrar em contato com Gualtieri. Hesitei longamente sobre a melhor maneira de fazê-lo. Que aparência deveria eu assumir para lhe aparecer e me apresentar? A do companheiro de estudos? A do industrial em busca de novos engenhos para o seu laboratório? A da mulher apaixonada? Ative‑me nesta última possibilidade. O disfarce que prefiro é o da figura feminina. Até porque acompanha a tentação do sucesso com a outra, muitas vezes irresistível, a tentação do desejo.

    Com esta idéia na cabeça, comecei a seguir Gualtieri por onde quer que ele andasse, apresentando‑me ora como aluna da universidade onde ele ensinava, ora como mulher casada num dos salões ou grupos que ele costumava frequentar, ora como prostituta à esquina da sua rua. Estas mulheres em quem encarnava eram todas de notável beleza e procuravam de todas as maneiras fazer compreender a Gualtieri que estavam dispostas a satisfazer‑lhe todos os caprichos. Mas Gualtieri, então um homem ainda novo, com cerca de trinta anos, não se dignava sequer a olhá‑las, demonstrando uma indiferença aparentemente fácil e sem esforço: dir‑se‑ia que, do modo mais simples, elas não tinham para ele o mínimo dos interesses.

    Já estava desistindo de manter algum contato com ele, quando, um dia, no fim de um verão particularmente abafado, o encontrei no último lugar em que teria pensado vê‑lo: num jardim público. Estava sentado num banco de ripas de madeira, com um livro nas mãos, mas fechado; parecia observar com atenção bem desperta uma coisa à sua frente. Disfarcei‑me de formosa jovem morena, sentei‑me na frente dele, olhei‑o com insistência, até que acabei por me dar conta de que os seus olhos eram para outra coisa que olhavam. 

    Fitava com ar de profunda atenção um grupo de menininhas, entre os doze e os quinze anos que, um pouco afastadas, se dedicavam ao jogo bem conhecido de pular amarelinha. O diabo, como se sabe, é muito intuitivo. Ver Gualteri com os olhos presos nas menininhas, às quais o jogo a todo o momento descobria as pernas bem acima dos joelhos, e decidir que encontrara não só o disfarce adequado, mas também a maneira de fazê-lo assinar imediatamente a carta do pacto infernal, foi fácil.

    Levantei-me do banco, entrei num bosquezinho do jardim, e aí mudei de aparência (o diabo pode fazer tudo o que quiser neste gênero de coisas!) transformando-me em uma menina com cerca de doze anos, cabeça coberta por abundantes cabelos, busto delgado, pernas esguias e musculosas. Então, em seguida entrei no jogo e a puxei para cima as saias para melhor saltar. 

    Sou o diabo e reconheço que os meus processos são muitas vezes brutais, grosseiros; os hesitações e as ambiguidades não são coisas para mim. Assim, não é de espantar que, para saltar, levantasse a saia muito mais do que o necessário; além disso, não estava usando nada por baixo do vestido, estando portanto sem calcinha. O olhar de Gualtieri descobriu rapidamente esse nada; percebi‑o pela pressa com que subitamente mergulhou na leitura do livro que tinha nas mãos. Pouco depois, separei‑me do grupo e fui ao encontro dele. Estava muito seguro do que fizera; sabia ter acertado de primeira no centro do seu alvo mais íntimo.

    Aproximo‑me dele; tenho na mão um caderno escolar qualquer, no qual, na primeira página, se encontra escrito em letra gótica (infelizmente, não me desfiz ainda dos meus velhos hábitos de diabo de origem alemã) o texto do contrato habitual. Digo‑lhe com a voz típica de uma menininha petulante: “estou fazendo uma coleção de autógrafos. Não quer assinar o meu caderno?” ‑ e, ao mesmo tempo, ponho‑lhe o pacto debaixo dos olhos.

    Ele ergueu o rosto, fitando primeiro as minhas pernas nuas, depois a minha cara. Olhou‑me diretamente, como para se certificar das minhas intenções, e depois perguntou: “Queridinha, o que você quer de mim?”

    “Coleciono assinaturas: Quero que ponha a sua neste caderno.”

    “Mostre-me.”

    Dei‑lhe o caderno aberto na página do pacto. Ele pegou nas folhas e eu, entretanto, como para lhe explicar o que queria, fingi ter comichão no púbis e cocei‑me através do vestido. Ele deitou‑me uma olhadela penetrante e, depois, voltou a examinar o caderno. As letras do texto do contrato deviam, nesse momento, flamejar‑lhe diante dos olhos; mas tenho que reconhecer que nem um músculo do seu rosto se moveu. Leu e releu aquelas poucas palavras e finalmente disse: Então você quer a minha assinatura?”

    “Sim, você me faz esse favor.”

    “E o que você me dará em troca?”

    Alberto Moravia | Uma mulher na casa do guarda alfandegário


    Sou um homem de ordem, não só psicológica, mas profissionalmente também: presto serviço como guarda alfandegário no aeroporto. Como todos os homens de ordem, todavia, gosto de, por vezes, esquecer a ordem e deixar passar a mercadoria de contrabando da imaginação. O sábado e o domingo dedico‑os, justamente, às minhas fantasias. Tiro o uniforme, estendo‑me na cama e fixo o pensamento em qualquer coisa que recentemente me tenha impressionado de maneira particular. Hoje, depois de me deitar na cama, no silêncio da casa deserta, não tardei muito a descobrir o objeto que recentemente mais me ferira a imaginação.

    Era a mala de uma viajante já madura, que devia ter sido linda na sua juventude. Fizera‑me desconfiar dela o jeito embaraçado, de uma pressa excessiva para ser sincera. Perguntei‑lhe, como de costume faço, se nada tinha a declarar, e ela estremeceu, como se eu lhe tivesse pousado acusadoramente a mão no ombro; apressou‑se a repetir que não tinha nada, absolutamente nada, só peças de roupa. 

    Olhei‑a com atenção: tinha um rosto magro, de traços finos e bem desenhados, mas insignificantes, nos quais era, sobretudo, notável o esforço para, artificialmente, esconder a idade: cabelos apanhados e cheios por cima da testa e dos ouvidos; sombras nas pálpebras e por baixo dos olhos; lábios pintados; cara empoada. Além disso, uma expressão ‑ como direi? ‑ pateticamente, atormentadamente, frívola e aduladora. Trazia uma tal quantidade de roupa vestida, que era difícil distinguir peça a peça; confusamente, notei um lenço de pescoço, uma espécie de sobretudo de veludo, um casaco de lã, uma camisola, uma blusa, um corpete; tudo isso de corte e cores diferentes. 

    Talvez por esta sua maneira complicada de vestir, talvez pela sua insegurança, pensei que fosse uma dessas chamadas “aventureiras”, figuras literárias, mas ainda atuais, e isso poderia significar sabe‑se lá o quê, da droga à espionagem. Ordenei‑lhe secamente, indicando a mala elegante, de couro flexível: “abra.” Ela objetou logo: “mas se estou dizendo que não tenho nada a declarar.”

    “Abra, por favor.”

    Suspirou, tirou da bolsa um molho de chaves, deu a volta à chave. Eu abri a mala com uma espécie de violência sádica, enterrei as mãos no seu interior. Continha um amontoado de panos, sedas e não sei quantos outros tecidos, todos muito leves e esvoaçantes, numa confusão, segundo pensei, tipicamente feminina, já que não passaria pela cabeça de um homem meter a roupa na mala de maneira tão promíscua.

    Continuava com as mãos metidas entre todos aqueles tecidos moles, vagamente perfumados e, entretanto, pensava que as mulheres, mais do que vestir‑se, como os homens fazem, tendem, por assim dizer, a enfeitar‑se; e na realidade, os vestidos que põem não aderem ao corpo, mas envolvem‑no de modo sedutor e misterioso, escondendo o que têm e simulando o que não têm. E que dizer, pensei ainda, continuando a busca, do fato de os vestidos das mulheres não assentarem no corpo, como as roupas dos homens, mas se agitarem, moverem, incharem ou desfazerem e assim por diante? 

    Ou, na alternativa, o extremo oposto: aderem de mais, e então o corpo feminino surge prisioneiro de uma quantidade de tecidos elásticos, ligas,cintas e outras cadeias semelhantes? Portanto, ou o tecido esvoaçante e lisonjeiro ou a bainha estreita, hermética. Entre estes pensamentos, acabei a busca sem nada achar e, então, tirei as mãos do interior da mala, fechei‑a eu mesmo e fiz com um giz uma cruz no couro, indicando que a bagagem podia passar. A mulher agradeceu‑me, talvez algo excessivamente, com um sorriso rasgado e brilhante; e depois desapareceu empurrando o porta‑bagagem.

    Agora, pensando neste incidente mínimo, ocupo‑me de novo da diferença entre as roupas das mulheres e as dos homens. Por que tal diferença? O que leva as mulheres a vestirem‑se desse modo? Porque é que as suas roupas são cortadas de forma a pôr em relevo as linhas curvas enquanto as dos homens tendem a definir linhas retas? Que significa a preferência da mulher pelos tecidos leves, transparentes, moles, acariciantes, esvoaçantes? Ponho‑me estas perguntas e, por fim, sempre às voltas com elas, acabo por adormecer.

    Durmo talvez meia hora; depois, o som da campainha da porta, um ruído estridente que, vivendo sozinho, quis que fosse muito forte, faz‑me sobressaltar na cama. Fico um momento à escuta, perguntando‑me quem poderá vir procurar‑me a esta horas, numa tarde de domingo; por fim, ponho a camisa e o casaco e, descalço, dirijo‑me à entrada e espreito para o patamar.

    Ora, uma mulher! Uma mulher com cerca de quarenta anos, com um rosto magro e fino que, não sei por que, tenho a impressão de já ter visto. Depois, o casaco comprido de veludo aberto, os pequenos adereços que lhe enquadram o rosto, o lenço do pescoço mal atado, fazem‑me descobrir de repente onde foi que a vi já: há dias, no aeroporto, à chegada de um vôo – deixe-me ver… ‑ de Madri. O meu olhar desce e, então, confirmando a minha memória, avisto a mala que remexi tão demoradamente e em vão. Ponho o fecho de segurança, entreabro apenas a porta e pergunto: “Sim, o que quer?”

    Ela responde com uma familiaridade, desconcertante: “A você, justamente, simpático.”

    “Desculpe‑me, mas não a conheço, é a primeira vez que a vejo e…” “Vamos, vamos, pouca conversa, abre a porta e deixe‑me entrar.” Fascinado por tanta segurança, tiro o fecho e abro. Ela entra e logo uma vaga de perfume me envolve, um perfume adocicado, pesado e, contudo, penetrante e, de algum modo, também apimentado. Ao entrar impetuosamente, com um movimento vivo da saia plissada, ela diz com uma voz vibrante: “Justamente a você, Athos Canestrini, justamente a você.”

    “Mas repito: não a conheço.”

    “Realmente não me conhece, ou melhor: não quer conhecer‑me. Isso não me impede de te procurar”

    “O que quer dizer”?

    “Ora, já explico. Entretanto, mostre‑me o caminho para o quarto.” Não seria melhor irmos para a sala?”

    “Eh, não, não! Temos que ir para o quarto.”

    “Mas, por quê?”

    “Já vais ver.”

    Dirijo‑me à frente dela para o quarto. É uma divisão grande, com duas janelas; há uma cama de casal, um armário, uma cômoda, cadeiras: os móveis de costume. Ela diz prontamente ao entrar: “Que quarto frio, austero e, sobretudo… mentiroso.”

    “Mentiroso, essa é boa, e por quê?”

    “Porque, na realidade, gostaria de ter um quarto muito diferente.”

    “Como?”

    Um quarto, assim, mais feminino. Mas agora eu vou arrumar-lhe o quarto, olha.”

    Pois a mala em cima de uma cadeira e começa a tirar de dentro dela uma quantidade de objetos de toilette que vai pondo no tampo de mármore da cômoda: escovas, escovinhas, pentes, frascos, caixinhas, estojos, recipientes pequenos, enfeites e assim por diante. Dispõe tudo aquilo em boa ordem, em volta do espelho. A mala parece inexaurível; quanto mais coisas tira, mais coisas parece haver ainda lá dentro. Por fim, me diz: “pronto. Agora já não está tão triste.”

    Não digo nada, limito‑me a observá‑la. Ei‑la a extrair da mala uma longa camisa recamada, uma combinação de seda, outras peças de vestuário íntimo que vai pendurar nos cabides. Entretanto, no seu vaivém, fez as coisas de modo a deixar pelas cadeiras calças, combinações, camisetas, saias e não sei quantas outras peças de roupa diferentes. Agora, além disso, salta da mala mágica um pijama negro, uns chinelos verdes, um roupão cor‑de‑rosa. Diz, voltando‑se para mim, finalmente satisfeita:

    “Que achas, não está melhor assim?”

    Olho para ela, estupefato. Depois que acrescenta de súbito: “vem cá”.

    Aproximo‑me. Estamos ambos, um ao lado do outro, diante do espelho do toucador. Ela diz: “Olha, olha bem, não acha que somos parecidos?”

    Olho e reconheço que tem razão. Temos os mesmos traços, os mesmos olhos, o mesmo nariz, a mesma boca. Seríamos ainda mais parecidos se não fosse, no seu rosto, aquela expressão frívola e patética que, por sorte, se encontra plenamente ausente do meu. Ela diz, porém, calmamente: “Compreende agora? Eu sou você e você sou eu. Ou seja, eu sou a versão feminina e você a versão masculina do mesmo indivíduo, do mesmo Athos Canestrini. Bem, agora vou deitar‑me, estender‑me na cama e descansar um pouco. E você, o que vai fazer?”

    Aturdido, balbucio: “Mas estou em minha casa, tenciono fazer o que sempre fiz, até ao dia de ontem: repousar, ler, refletir, fantasiar…”

    “Fantasiar o quê? Que eu tomo o seu lugar? Já não é preciso: está feito. De agora em diante, no aeroporto, estará a versão masculina de Athos Canestrini e, em casa, a versão feminina. E agora, adeus, tens que ir para o aeroporto; voltamos a ver‑nos logo à noite.”

    “Mas que vais fazer aqui na minha casa?”

    “Fico cuidando das coisas à minha maneira, não há nenhuma razão para ter que te explicar isso tudo. De qualquer modo, vou pôr a casa mais alegre, mais acolhedora, mais frívola.”

    Entretanto, sem outras explicações, despe‑se, não se envergonha de me mostrar um corpo no qual, como no rosto, o artifício, em vez de esconder, sublinha os sinais da idade. Penso que não me resta nada a fazer; saio do quarto, seguido pela voz dela que recomenda: “fecha bem a porta.”, e eis‑me na entrada. Ao abrir a porta, quase esbarro num tipo enorme de estilo ultra‑vulgar: moreno, cabelos desgrenhados, feições grosseiras e sensuais, envergadura atlética, o qual, com uma voz que exibe bem as inflexões não sei de que dialeto, me inquire: A senhora Canestrini”

    “Aqui não há senhora nenhuma…”, e… desperto.

    Assim era tudo um sonho: aquela senhora da mala, no aeroporto, deve ter realmente me impressionado bastante! Olhei o meu quarto frio e triste de celibatário e disse para comigo que, talvez no meu sonho, houvesse alguma coisa de verdadeiro: a aspiração inconsciente de ter uma casa mais habitada e mais habitável. Comecei a pensar nos melhoramentos que gostaria de introduzir: flores, quadros, ninharias nas paredes, tapetes, almofadas, estofos e por aí fora. E foi no meio destas imagens prazerosas que voltei a adormecer.

    Fim

    Alberto Moravia | Chuva de Maio

    Um dia desses voltarei a Monte Mario, na Taverna dos Caçadores, mas irei com amigos, aqueles do domingo, que tocam acordeão e, na falta de moças, dançam entre si. Sozinho, nunca teria coragem. 

    De noite, às vezes, sonho com as mesas da taverna, com a chuva quente de maio caindo em cima da gente, as árvores encrespadas que gotejam sobre as mesas, e entre as árvores, no fundo, as nuvens brancas passando e, sob as nuvens, o panorama das casas de Roma. E parece que estou ouvindo a voz do taverneiro, Antonio Tocchi, como a ouvi naquela manhã, chamando da adega, uriosa: -Dirce, Dirce.

    – E parece que o revejo me lançando um olhar de cumplicidade, antes de descer à adega, com aquele seu passo duro que ressoa nos degraus.

    Fora parar ali por acaso, vindo do interior; e quando me ofeceram para fazer as vezes de empregado, sem me pagar, pensei:

    -Dinheiro não vou ter, mas pelo menos estarei em família.

    – Mas que família qual nada, ao invés de família,encontrei o inferno. O taverneiro era gordo e redondo como uma bola de manteiga, mas de uma gordura má, ácida. Tinha uma cara larga, cinzenta, com muitas rugas finas em volta do rosto por causa da gordura e dois olhinhos pequenos, pontiagudos, iguais aos das cobras: sempre de jaleco e em mangas de camisa, com um bonb de pala cinza enterrado até os olhos.

    A filha Dirce, quanto ao caráter, não era melhor que o pai, dura ela também,maldosa, áspera; porbm bonita: daquelas mulheres pequenas e musculosas, bem feitas, que caminham mexendo os quadris e batendo os pés, como que dizendo:

    -Esta terra é minha.

    – Tinha uma cara larga, de olhos negros e cabelos negros, pálida que parecia uma morta. Apenas a mãe,naquela casa, talvez fosse boa: uma mulher que devia ter uns

    quarenta anos e aparentava sessenta, magra, com um nariz de velha e os cabelos escorridos de velha, mas talvez fosse apenas abobada, pelo menos era a impressão que dava vê-la de pé diante do fogão com a cara toda repuxada num riso mudo; se se virava, a gente via que tinha um dente ou dois e só. A taverna se debruçava com uma tabuleta em arco,vermelho-sangue, com a inscrição: “Taverna dos Caçadores, proprietário Antonio Tocchi” em letras amarelas. 

    Depois, por uma alameda, chegava-se às mesas, debaixo das árvores, diante do panorama de Roma. A casa era rústica, só paredes e quase sem janelas, coberta de telhas. No verão era a melhor época,vinha gente de manhã até à meia-noite: famílias com crianças,casais de namorados, grupos de homens, e sentavam às mesas,bebiam vinho e comiam a comida dos Tocchi, admirando o panorama. 

    Não tínhamos tempo de respirar: nós homens sempre servindo, as duas mulhéres sempre cozinhando e lavando, e à noite estávamos arrebentados e íamos para a cama sem sequer nos olharmos. Mas no inverno, ou mesmo no verão, se chovia,começavam os problemas. Pai e filha se odiavam, mas odiar é dizer pouco, se matariam. O pai era autoritário, avarento, estúpido, e por um nadinha já ia avançando com as mãos, a filha era dura como uma pedra, fechada, sempre ela a dar a última palavra, arrogante. 

    Odiavam-se, talvez, sobretudo,porque eram do mesmo sangue e, como se sabe, não há nada como o mesmo sangue para se odiar; mas se odiavam também por questões de interesse. A filha era ambiciosa: dizia que eles com aquele panorama de Roma tinham um capital a ser aproveitado e que o deixavam, ao contrário, entregue aos cachorros. Dizia que o pai deveria construir uma pista de cimento para dançar, contratar uma orquestra e pendurar balõezinhos venezianos, e transformar a casa em restaurante moderno e chamá-lo de Restaurante Panorama. 

    Mas o pai não se atrevia, um pouco porque era avarento e inimigo das novidades,outro, porque era a filha que estava propondo, e ele preferia se deixar degolar que dar o braço a torcer à filha. Os choques entre pai e filha ocorriam sempre à mesa: ela implicava, com maldade, ofendendo, contra alguma coisa de pessoal, contra o fato de que o pai, comendo, soltava um arroto, por exemplo,ele respondia com palavrões e xingos; a filha insistia; o pai dava-lhe um tapa. 

    É preciso dizer que devia sentir algum prazer em esbofeteá-la, porque fazia uma certa cara, prendendo o lábio inferior com os dentes e piscando os olhos. Mas para a,filha aquele tapa era como água fresca numa flor: ficava verde de ódio e de maldade. Então o pai a agarrava pelos cabelos e lá vinha pancadaria. Caíam pratos e copos, sobrava também para a mãe que, de boba, ficava no meio, com aquele riso eterno na boca desdentada e eu, o coração cheio de veneno, saía e ia dar uma volta pela rua que leva a Camillucia.

    Teria ido embora há tempo se não tivesse me apaixonado pela Dirce.

    Não sou do tipo que se apaixona com facilidade, porque sou positivo e as palavras e os olhares não me encantam.

    Porém, quando uma mulher, em lugar de palavras e olhares, oferece a si mesma, inteirinha, em carne e osso e, ainda por cima, de surpresa, então o sujeito fica preso como numa armadilha, e quanto mais esforço faz para se soltar, mais se afundam os dentes da armadilha na carne. 

    Dirce devia ter a intenção antes mesmo de me conhecer, eu ou outro qualquer para ela era a mesma coisa, porque, no dia de minha chegada, entrou de noite no meu quarto quando eu já dormia; e assim, entre o sono e a vigília, que quase eu não entendia se era sonho ou realidade, me fez passar repentinamente da indiferença à paixão. 

    Não houve entre nós nem conversas, nem olhares, nem toques de mão, nem todos os demais subterfugios a que recorrem os namorados para dizer que se amam; ao contrário, foi como com uma mulher de rua, das baratas. Só que a Dirce não era uma mulher de rua e até passava por virtuosa e cheia de orgulho, e essa diferença foi para mim, justamente, a armadilha em que fiquei preso.

    Tenho gênio paciente, razoável, mas também sou violento e, se me espicaçam, o sangue me sobe à cabeça facilmente. Dá para ver pelo físico: loiro, com o rosto pálido, mas basta um nada para que se torne escarlate. Ora, Dirce vivia me espicaçando e logo entendi por que: queria que me pusesse contra seu pai.

    Dizia que eu era um patife por tolerar que em minha presença seu pai a esbofeteasse e depois a agarrasse pelos cabelos e até, como aconteceu uma vez, a jogasse no chão e lhe desse pontapés. E não digo que não tivesse razão: éramos amantes e devia defendê-la. Mas eu sabia que seu objetivo era outro e entre a raiva que me dava aquele insulto de patife e a raiva de saber que dizia de propósito, eu não dava mais conta.

    Depois, um belo dia mudou de conversa: como seria bonito se pudéssemos nos casar e montar o Restaurante Panorama, eu e ela, sozinhos. Tornara-se boazinha, gentil, amorosa, doce. Foi essa a melhor época do nosso amor; mas eu não mais a reconhecia e pensava: aqui tem coisa. E de fato, de repente, mudou a toada pela terceira vez e disse que, casados ou não casados, não podíamos esperar nada enquanto existisse o pai, e, resumindo, me disse abertamente: devíamos matá-lo. Foi como na primeira noite que entrou no meu quarto, sem preparo nem fingimentos: jogou a proposta ali e foi embora para eu pensar nela sozinho.

    No dia seguinte disse-lhe que estava enganada se achava que ia ajudá-la numa coisa como aquela e ela me respondeu que nesse caso eu fosse tratando de ir logo embora porque para ela eu não existia mais. E manteve a palavra porque desde aquele dia nem sequer me olhava. Quase não nos falávamos e por tabela comecei a odiar o pai porque achava que a culpa era dele.

    Por coincidência, naquela época, o pai aprontava uma todos os dias e parecia que aprontava de propósito para se fazer odiar. Era maio que é a boa estação e as pessoas vêm à taverna para tomar vinho e comer fava fresca; mas, ao contrário, só dava pancada de chuva naquele campo verde e denso , à taverna nem cachorro vinha e ele ficava sempre de mau humor.

    Uma manhã, à mesa, ele afastou o prato, dizendo:

    -É de propósito que você me dá esta nojeira de sopa grudenta.

    E ela:

    -Se fosse de propósito, teria posto veneno nela.

    Ele olha para ela e dá-Ihe um tapa, que faz seu pente saltar longe. Estávamos quase no escuro por causa da chuva e o rosto da Dirce naquele escuro era branco e duro como o mármore, com os cabelos que de um dos lados, onde se soltara o pente, se desmanchavam bem devagarinho, iguais a serpentes acordando.

    Eu disse ao Tocchi:

    -Quer parar com isso de uma vez?

    Ele respondeu:

    -Não se meta, mas estarrecido porque era a primeira vez que eu intervinha. Eu tive, então, quase que uma sensação de vaidade, como se defendesse um ser frágil, que não era bem o caso, e achei que assim eu a recuperaria e que era o único modo de recuperá-la e disse com força:

    -Pare, entendeu, não permito isso.

    Estava vermelho feito fogo, com o sangue nos olhos, e a Dirce por baixo da mesa pegou minha mão e vi que tinha caído, mas então já era tarde demais. Ele se levantou e disse:

    -Está querendo levar o seu também?

    Pegou na bochecha, meio de atravessado, e eu agarrei um copo e atirei todo o vinho na cara dele. No copo e no vinho, pode-se dizer que já vinha pensando neles há um mês, tanto me agradava o gesto quanto odiava o Tocchi. E agora ele estava com o vinho na cara e eu tinha feito o gesto e dava o fora pela escada.

    Ouvi ele gritar:

    -Eu te mato, viu, vagabundo, mendigo, então,fechei a porta do meu quarto e fui até a janela olhar a chuva caindo e de raiva peguei uma Chuva de maio faca que eu tinha na gaveta e a finquei no peitoril com tanta força que a lâmina partiu.

    Chega, estávamos lá em cima, no topo do Monte Mario do mau agouro, e talvez, se estivesse em Roma, não teria aceito, mas ali tudo se tornava natural e o que no dia anterior era impossível, no dia seguintejá estava decidido. Assim, eu e a Dirce combinamos e estabelecemos juntos o modo, o dia e a hora. Tocchi, de manhã, descia à adega para pegar o vinho do dia, junto com a Dirce que lhe trazia o garrafão. 

    A adega era subterrânea e para descer havia uma escadinha montada em cima de um tear e apoiada na parede: seriam sete degraus. Decidimos que eu os alcançaria e, enquanto Tocchi se abaixava para espichar o vinho, eu lhe bateria na cabeça com uma barra curta, de ferro, que servia para atiçar carvões. Em seguida, retiraríamos a escadinha e diríamos que ele tinha caído e ferido a cabeça. Eu queria e não queria; e de raiva disse:

    -Estou fazendo isso para te mostrar que eu não tenho medo. . .mas depois eu vou embora e não volto mais.

    E ela:

    -Então é melhor que você não faça nada e vá indo depressa… eu gosto de você e não quero te perder.

    – Sabia quando queria, simular a paixão: e assim eu disse que faria e depois ficaria e abriríamos o restaurante.

    No dia marcado Tocchi disse à Dirce que pegasse o garrafão e dirigiu-se à porta da adega, no fundo da taverna. Chovia, o de sempre, e a taverna estava quase às escuras. Dirce pegou o garrafão e seguiu o pai; mas, antes de descer, virou-se e me fez um gesto de cumplicidade, às claras. A mãe, que estava diante do fogão, viu o gesto e ficou de boca aberta, olhando a gente. Eu me ergui da mesa, fui até o fogão e peguei o atiçador em cima da chaminé, passando na frente da mãe. Essa, então, me olhava, olhava a Dirce, ficava olhando, olhando, mas via-se que não iria falar. O pai berrou da adega:

    -Dirce, Dirce, e ela respondeu –

    -Estou indo.

    Lembro que me agradou fisicamente pela última vez, enquanto descia a escada, com aquele seu andar duro e sensual, dobrando o pescoço branco e roliço sob a viga mestra.

    Naquele instante, a porta que dava para o jardim se abriu e entrou um homem com um saco molhado nas costas: um carroceiro.

    Sem me olhar, disse:

    -Moço, me dá uma mãozinha?, e eu, maquinalmente, com o ferro na mão, o acompanhei. Ali ao lado, numa chácara, estavam construindo uma cocheira, e a carroça carregada de pedras ficara atolada na passagem da porteira e o carvão não conseguia sair. 

    O carroceiro parecia fora de si, um homem torto e feio, quase um animal. Pousei o ferro em cima de uma das pilastras da porteira, pus duas pedras embaixo das rodas e empurrei o carroceiro puxava o cavalo pelo cabresto. Chovia a cântaros sobre as sebes de sabugueiro verdes e cerradas e sobre as acácias floridas que cheiravam forte; a carroça não se movia e o carroceiro praguejava.

    Pegou o chicote e bateu no cavalo com o cabo, depois, enfurecido, agarrou o ferro que eu deixara em cima da pilastra. Dava para ver que estava fora de si não pela carroça, mas pela vida inteira, e que odiava o cavalo como uma pessoa.

    Pensei:

    -Agora vai matá-lo e quase gritei:

    -Não, largue esse ferro.

    Mas depois pensei que se ele matasse o cavalo, eu estava salvo. Achava que toda minha raiva estava passando para o corpo daquele carroceiro que parecia um possesso, e de fato, ele se atirou sobre os varais, empurrou de novo e depois bateu na cabeça do cavalo, com o ferro. 

    Eu,ante o golpe, fechei os olhos, e ouvi que ele continuava batendo, e ao mesmo tempo eu me esvaziava e quase desmaiava, e depois voltei a abrir os olhos e vi que o cavalo tinha caído de joelhos e que ele continuava batendo, agora não para fazê-lo levantar, mas para matá-lo. 

    O cavalo arreou de costas,escoiceou o ar, mas debilmente e aí largou a cabeça na lama. O carroceiro arquejante, a cara transtornada, jogou o ferro e deu um safanão no cavalo, porém sem convicção: sabia que o tinha matado.

    Eu passei a seu lado, sem sequer tocá-lo, e pus-me a caminhar pela estrada. Passou o bonde que ia para Roma, eu o peguei na corrida e depois olhei para trás e vi pela última vez a tabuleta:

    -Taverna dos Caçadores, proprietário Antonio Tocchi, entre a folhagem de maio, lavada pela chuva.

    Alberto Morávia – Contos Romanos

    Alberto Moravia | O Desprezo

    "Durante os primeiros dois anos de casamento o meu relacionamento com a minha mulher foi, por assim dizer, perfeito. (…) Esta história pretende contar como, enquanto eu continuava a amá-la e não a julgá-la, a Emília, por sua vez, descobriu, ou julgou descobrir, alguns dos meus defeitos e passou a julgar-me – e consequentemente a deixar de amar- -me.” 

    Assim se inicia O desprezo (1954), de Alberto Moravia (1907-1990), romance no qual Jean-Luc Godard se inspirou para realizar o célebre Le Mépris (1963), com Michel Piccoli e Brigitte Bardot nos protagonistas.


    Amor e cupidez 
    O desprezo é uma história trágica de desamor. Constrangido a sustentar o apartamento que adquiriu a prestações para agradar à sua mulher, Ricardo aceita um contrato para trabalhar como guionista num filme baseado na Odisseia (O regresso de Ulisses). 

    Na verdade, Ricardo ambiciona dedicar-se à sua carreira de dramaturgo, deixada em suspenso em prol da economia familiar. 

    Entretanto, para evitar um conflito com o produtor do filme (um argentino no romance de Moravia; um americano no filme de Godard), vê-se obrigado a tolerar os sucessivos avanços deste sobre a sua bela mulher. 

    Quem não tolera a indiferença do marido relativamente a esta situação é justamente Emília, que passa a desprezá-lo. Em Capri, durante a rodagem do filme, a ruptura do casal precipita-se e Emília morre, juntamente com o produtor, num desastre de automóvel, ao regressar de Nápoles para Roma.

    Alberto Moravia | Entrevista com Madeleine Chapsal

    Entrevista conduzida por Madeleine Chapsal, publicada no seu livro Os escritores e a literatura Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1967.

    As entrevistas embora tenham muito de preparado num jeito de antecipação calculada trazem sempre consigo aspectos inesperados, genuínos, que reflectem pelo menos, num dado momento, as preocupações e a alma do escritor, daí serem tão importantes.


    - Há muito tempo que não vinha a Paris?

    Desde 1951. Nessa época tinha acabado o argumento para um filme mal encaminhado. Foi um período triste... Desta vez, porém, estou completamente livre.

    - Para um escritor, que diferença existe entre a vida em Paris e a vida em Roma?

    Em Paris pode dizer-se que os escritores mais integrados na sua personalidade de escritores, são personagens sociais. Em Roma, os escritores deixam-se estar tranquilos. E Roma não passa, claro, de uma cidade da Itália, enquanto em Paris se concentra noventa por cento da vida intelectual.

    - Escreve algum romance neste momento?

    Sim, como sempre.

    - Interrompeu-o para vir a Paris?

    Não, escrevo de manhã no hotel. Esta manhã já escrevi. Trago sempre o meu manuscrito. Encontro-me muito bem aqui, porque posso escrever. E isso depende muito do quarto, da disposição da mesa...

    - Qual é o tema do seu romance?

    O herói é um pintor que não pinta ou não pintará mais.

    - Um impotente?

    Do ponto de vista da criação artística, sim. Um problema interessante a descrever será o que se refere ao fim da arte, que, aliás, tem sido previsto por diversos filósofos. O mundo moderno já não tem necessidade das artes e substitui-as por alguns ersatzs (sucedâneo) artísticos. 

    Por exemplo, no domínio da literatura, cria-se a máquina para ler. Diversas revistas americanas, como a Time, são já máquinas de leitura, como as casas de Le Corbusier são máquinas de habitar - a Time é composta de frases ajustadas umas às outras, de uma maneira completamente mecânica. É isso a industrialização da cultura.

    - Parece, pois, que nunca se escreveu tanto.

    Sim, mas a maior parte das coisas que se redigem não são escritas. Os jornais, por exemplo, são mais impressos do que escritos.

    - Será uma questão de inspiração?

    É um problema de civilização. As artes poderão morrer por uma razão simples: a arte não é mais do que uma alta, muito alta, forma de artesanato. No mundo inteiro, assistimos ao fim do artesanato. 

    Ora, o homem reflete-se naquilo que produz: pois que, se se fabrica para tudo objetos em série, não se poderá também impedir de criar homens em série - e o homem em série é o contrário do artista.

    - Haverá sempre homens que resistirão à sociedade?

    Um artista é um belo ser independente, mas quando se trata de assuntos para uma sociedade restrita como a de Luís XIV, ou vasta como a atual sociedade francesa, põem-se problemas diferentes. Há sempre uma pressão.

    - Que representa para si o público?

    Isso pergunto a mim mesmo! Não existe público italiano. A nossa crítica, por vezes excelente, funciona em ciclo fechado: são algumas conversas privadas que vão para a tipografia. Como saber o que isso representa? 

    Devo parecer, pois, como um senhor que fabrica regularmente alguns objetos de qualidade satisfatória, numa fábrica em que a produção é conhecida por ser honesta... Então, se ele inspira confiança, muita confiança, não deverá ir mais longe...

    - Quando começou a escrever?

    Aos nove anos! De fato, aos dezasseis anos já escrevia muito seriamente. Não poderá imaginar o que foi o sucesso do meu primeiro livro! Gli indifferenti, publicado em 1929. 

    Tinha pouco mais de vinte anos. Apesar, claro, de a tiragem ser de início muito frouxa: 6000 exemplares. Depois sobreveio o fascismo, que não permitiu a reimpressão. Agora, é necessário multiplicar por dez essa primeira cifra.

    - Como explica esse sucesso?

    Não existia, então, nem romances nem romancistas na Itália, exceto Italo Svevo. 

    Com exceção dele, era necessário recuar até 1910 - quase vinte anos antes - para encontrar D'Annunzio, que apresentava os burgueses transfigurados em heróis. Sim, na obra de D'Annunzio, todos os burgueses eram heróis! E foi isso que fez o sucesso de Gli Indifferenti: eu tinha mostrado a burguesia tal como ela era, muito pouco heróica.

    - Não tem ultimamente procurado atingir um público mais vasto? La Provinziale, A Ciociara, não parecem ter um estilo mais popular, quase «folhetinesco»?

    Não me interessa nada o público. Hoje, lança-se um livro como uma lata de sardinhas ou um maço de cigarros...

    - Mas, apesar disso, não há atualmente uma nova fase na sua obra?

    Absolutamente! Com efeito, eis o que se passa: após uma evolução formal muito complicada, tentei duas experiências paralelas: de uma vez escrevi um romance sobre as «massas», de outra vez sobre os intelectuais. 

    Costumo alternar. Escrevi A Romana e, em seguida, A Desobediência. Depois escrevi L'amore conjugale, seguindo-se Il conformista. Ultimamente escrevi A Ciociara, a história de uma prostituta, e agora estou a escrever um romance em que o herói é um pintor.

    - E não sofre quaisquer dificuldades ao passar de um tom para outro?

    Nada. E digo-lhe porquê: nasci de uma família bastante burguesa, em 1907. Gli indifferenti, o meu primeiro romance, é a descrição crítica desse ambiente social. Logo após ter escrito esse romance senti que me desligava da burguesia e me aproximava com mais simpatia e atração das classes populares. 

    De qualquer modo, quando realizo um romance sobre a burguesia não é esta que mais me interessa enquanto classe do dinheiro. A meu ver, o verdadeiro drama da burguesia é o drama dos intelectuais. 

    Apenas eles têm consciência desta situação de nivelamento como burgueses em face das classes populares, de que tentam, aliás, separar-se. O único herói burguês possível é o intelectual.

    - Em que medida Michel, o jovem herói burguês de Gli indifferenti, é o que se chama um intelectual?

    Michel encontra-se perante um problema moral, atormenta-se, pensa, e isso faz dele uma espécie de intelectual. Mas também Il confomista. Interessam-me as classes populares, porque somente nelas se pode encontrar ainda o sentido do carácter e da moral que não existe nos burgueses. 

    Nestes, claro,o carácter é destruído e corrompido. Encontra-se em decadência como a própria burguesia, Na minha opinião, não existem hoje mais do que duas formas de romances possíveis: o romance de ideias e o romance popular.

    - E porque entende praticar estas duas formas?

    Julgo mostrar duas espécies de herói: de um lado, o intelectual, o herói da dúvida, atormentado pela sua consciência e a sua lucidez - note que não digo que o inventei -, e, do outro lado, algumas personagens picaras como aquelas que mostrei nos meus contos romanos. 

    A personagem pícara tem apenas necessidades económicas. A sua única preocupação é o estômago. 

    De fato, não há nela qualquer outra aspiração, mesmo o amor a deixa indiferente. Necessita de comer para não morrer, e daí o seu comportamento tantas vezes grosseiro, cúpido e até manhoso.

    - Tem-se reprovado os seus livros por tratar neles muitas vezes problemas do sexo. Que pensa disso?

    Antes de mais, há um problema de designação: o que antes se afirmava por “amor” é agora designado por “sexo”. Mas não é essa a única razão: a verdadeira é que no mundo moderno não existem muitos valores seguros e sólidos, sendo o sexo um desses valores. 

    Ora, o escritor tem necessidade de se basear naquilo que, a seus olhos, represente uma certa realidade. Outros escritores apoiam-se sobre o dinheiro; em Stendhal, por exemplo, existe a missão social. Para mim, talvez seja o sexo.

    - Porque continua a escrever romances? Não se tem dito muitas vezes que o romance clássico é hoje um género literário ultrapassado, fora de moda?

    Ah!, pretende falar-me de Robbe-Grillet? Objetivo, desumanizado, apoiando-se principalmente no olhar. Mas a própria escolha pelo olhar julga e decide logo que isto ou aquilo lhe interessa. Se quisesse descrever exaustivamente sei lá o quê... uma mosca, por exemplo, seriam necessárias dez mil páginas...

    - Mas não se tem aplicado muito para ser uma espécie de romancista integral do mundo?

    Talvez, mas em mim não acontece por tema. Isso deriva do fato de acreditar sempre que as coisas me escapam.

    - Sofreu algumas influências?

    Sim, quando era jovem. Mais tarde, não sofri já qualquer influência. Ou, então, não se é de fato um bom escritor. Aos dezassete ou dezoito anos, li muito Joyce e Dostoievski. Depois, gostei bastante de Stendhal.

    - E Maupassant?

    Não, e não é por causa de Maupassant que eu escrevo contos, mas devido a um grande poeta italiano do século XVIII, Giuseppe Gioacchino Belli, que escreveu três mil sonetos sobre a vida do seu tempo. Foi isso que me inspirou na realização de algumas novelas sobre Roma: já escrevi cento e trinta, que, muito brevemente, aparecerão em volume.

    - Por que sobre Roma?

    Porque é a minha cidade. Sou romano e passei em Roma alguns anos, por vezes mesmo longos períodos. Tenho, pois, uma grande experiência de Roma... Os meus contos apareceram antes no Corriere della Sera. É muito interessante escrever tendo em conta um espaço previamente limitado - duas colunas do jornal -, o que nos obriga a restringir e a encurtar.

    - Como é que escreve?

    Trabalho de manhã, todos os dias, das nove horas à uma, e depois ao fim do dia. Faço sempre isto, mesmo ao domingo, desde os meus dezasseis anos. E escrevo diversas vezes cada romance. Como os pintores da Idade Média, passo algumas demãos de tinta. Escrevi duas vezes A romana e três vezes Il conformista. Mas também acabei o Agostinho num mês.

    - Sente-se mal com esse ritmo de trabalho?

    Não. Levanto-me e coloco-me à mesa para trabalhar. Escrevo diretamente à maquina. É o gesto e o movimento que conta. No início da minha carreira, escrevia três ou quatro linhas por dia e sentia-me esgotado. Agora, tudo isso se tornou mecânico: logo de manhã sinto que devo sentar-me à minha mesa de trabalho. É assim a minha maneira de ser.

    - E nunca trabalha além das quatro horas?

    Sei que certos escritores franceses trabalham durante todo o dia. Isso parece-me prejudicial. Deve esquecer-se durante uma boa parte do dia de que se é escritor. Em arte, o tempo é, de resto, uma medida convencional: pode-se em dez minutos recuperar alguns anos de preguiça ou de obscuridade, 

    A inspiração não se importa com o tempo. Verifica-se isso, verdadeira e fisicamente, nos momentos de inspiração: a inteligência executa, então, operações com uma rapidez extraordinária. Não é de espantar que Stendhal tenha escrito A Cartuxa de Parma em quarenta dias.

    - O que é para si a função de escrever?

    Obedecer a uma certa música. Sentir uma simpatia e caminhar para ela. Trabalha-se pelo ouvido.

    - Que encontra de mais difícil no ato de escrever?

    A incompreensão do escritor em frente do seu tema. É preciso muito tempo para compreender bem o que queremos. Descobrir os temas... Deve-se escrever um romance durante alguns anos.

    - O que pretendeu mostrar em Il conformista?

    Aquilo que me parece um ato humano típico: como um indivíduo pode transformar uma situação negativa do ponto de vista sexual numa situação positiva do ponto de vista social. 

    Il conformista é um rapaz que, sendo pederasta, procura salvar-se e escapar ao seu sentimento de culpabilidade, entrando para a policia. Você pensa certamente que ele não deixa de permanecer numa situação negativa. É isso o fascismo.

    - E como explica O desprezo?

    Em O desprezo procurei mostrar como o dinheiro, num mundo capitalista, determina não apenas as relações de negócios, mas também as relações afetivas. Está igualmente fixado sobre a dúvida: a mulher começa a desprezar o seu marido porque desconfia que ele a quer pôr nos braços, do realizador, do qual depende o seu futuro como cenógrafo. O livro decorre em Roma e em Capri, no mundo do cinema. onde o dinheiro tudo corrompe.

    - Os seus romances apresentam uma imagem muito cruel e amarga do mundo.

    Eu diria violenta, mas não amarga.

    - Mas os seus heróis não parecem ter qualquer momento de bom humor.

    Não procuro mostrar o bom humor. Os heróis de romance não têm de ser felizes. Devem, pelo contrário, ser durante todo o tempo aquilo que as pessoas são num instante no auge dos seus conflitos. Enquanto na vida se esquecem à vontade os seus problemas, as pessoas são desse modo mais felizes.

    - A sua atividade de romancista ocupa-o inteiramente?

    Num mês há trinta dias. Quatro dias por mês são consagrados à critica de cinema, que, durante dez anos, todas as semanas, faço no Espresso... 

    Escrevo as minhas novelas numa média de duas por mês e preciso sempre de quase quatro dias para cada uma... Depois, claro, é preciso contar com as doenças... e as viagens... De uma maneira geral, restam-me quinze dias por mês para trabalhar no romance. O que, aliás, não é muito.

    - Interessa-se muito de perto pelo cinema?

    É a forma de espectáculo que, na Itália, tem hoje mais vitalidade. Nela se encontra tudo: o dinheiro, o talento, a cultura. É, de resto, uma arte perigosa para o escritor: arrisca-se a esta contínua procura de processos. E, depois, a máquina necessita permanentemente de material novo. O cinema e a televisão são monstros que devoram todo o material.

    Encontramo-nos numa época de indústria cultural. Onde vai o tempo em que o escritor não sabia a quem confiar os seus manuscritos? Quando se pensa que a Idade Média viveu apenas do único Roman de Renart*...

    - Há quantos anos é crítico de cinema?

    Há dez anos. Falar de filmes é um pretexto que me permite falar de hábitos, de literatura, enfim, de tudo o que quero. Reconheço assim que a atividade crítica é a que mais convém a um artista. E mais: a atividade crítica é-lhe necessária. Um bom escritor é sempre um crítico.

    - A que chama você, um «bom escritor»?

    Isso não é uma questão de técnica ou de qualquer outra coisa: o bom escritor - como o bom cientista ou o bom pintor - é aquele que tem mais temperamento que os outros. 

    Veja uma página de um bom escritor: é de fato uma página bastante rica. Vê-se isso em todas as linhas, na invenção, na novidade do estilo, na originalidade da linguagem. É um tecido fechado, brilhante..

    - Não acabou de ser eleito presidente do Pen Club ?

    Sim. Não era membro, mas aceitei, porque penso na utilidade de uma associação como esta: multiplicar os encontros fora da Europa. Os congressos do Pen Clube têm lugar uma vez por ano e prolongam-se durante sete dias. Parece-me que o congresso teve mais um forte interesse que o de Frankfurt. E eu pretendo criar um prémio literário.

    - Disse-me que uma parte do seu tempo era consagrada às viagens. Aonde tem ido?

    No tempo do fascismo, a gente aborrecia-se muito e isso levava-nos a partir! Estive em Londres, na China, em Paris, no México. Depois da guerra, fui aos Estados Unidos em 1955, à Rússia em 1956, à Pérsia, ao Próximo Oriente e, ultimamente, ao Japão.

    - Como escritor, nunca encontrou quaisquer obstáculos?

    Tive dois obstáculos para superar. Primeiro, foi a minha doença - tuberculose óssea. De cinco em cinco anos ia à cama, o que me deprimiu bastante. E depois, claro, houve o fascismo. No entanto, não acredito muito nos obstáculos exteriores. O olhar do homem moderno é demasiado forte para tudo conseguir anular, mesmo a doença. Há somente para ele alguns obstáculos interiores.

    - Para toda a gente?

    O homem comum tem certamente os mesmos problemas do artista, mas este possui sobre ele uma vantagem incalculável: pode exprimir-se. O artista liberta-se criando, e isso dá-lhe um equilíbrio, nem sempre feliz, mas de qualquer modo um equilíbrio. 

    Para o homem vulgar, que não tem outro meio de defesa, só lhe resta sofrer ou, então, torna-se doido, ladrão, mata a mulher, etc.

    - Inclui nos seus livros muitos aspectos da sua personalidade?

    Os meus livros não são absolutamente autobiográficos. Tendo a repetir-me. Ou melhor, mete-se sempre muito do que é nosso naquilo que se escreve. Ora, eu sou um homem como os outros. Não quero ser diferente, mas por outro lado sei bem que o artista é diferente, porque possui um poder de contemplação. 

    Poderia mesmo dizer-se que é uma testemunha, «a testemunha» no verdadeiro sentido da palavra. Em certas circunstâncias, ele é a única pessoa que «viu» o que se passou. Os outros agem, sentem, mas o artista viu e pode recordar.

    - Em seu entender, o artista será, pois, um homem superior?

    Não, necessariamente. Acredito que a criação humana é universal. Sim, penso que qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.

    *O Roman de Renart (Romance de Renart) é o mais famoso conjunto de histórias de animais produzido na Idade Média. Não é uma história, mas uma coleção de 26 capítulos composta por vários copistas e menestréis por volta do final do século XII e início do XIII. Ele foi inspirado nas Fábulas do antigo escritor grego Ésopo, e no poema épico de escárnio em latim de Nivardus, escrito em Gante por volta de 1150, chamado Ysengrin. Sob o pretexto da guerra interminável entre Renart, a raposa e Ysengrin, o lobo, a obra ilustra a natureza animal do homem e oferece uma crítica à sociedade cavaleiresca do mundo feudal. Este manuscrito bastante ilustrado, criado na primeira metade do século XIV, é uma cópia do raro manuscrito do romance. Miniaturas de estilo ingénuo celebram as façanhas da raposa, o mais astuto dos animais. Elas também ilustram as histórias, como o funeral de Lady Coppée, a galinha (f. 4r); a partida de Renart para as Cruzadas (f. 12v); o ataque ao castelo de Maupertuis (o covil do herói) por Tibert, o Gato; Noble, o Leão; Tardif, o caracol e Ysengrin, o Lobo, enquanto Reinart e seus filhos jantavam descontraídos (f. 14v); e a violação de Hersent, a esposa de Ysengrin (f. 16r).

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