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    Clássicos de Literatura Erótica

    De que falamos quando falamos de erotismo? 

    A palavra gera muitas confusões e a primeira está na tentativa de fazer do erotismo um sinónimo de sexualidade. 

    No entanto, de há algum tempo para cá, essa confusão parece ter atingido os media, as redes sociais, a literatura, a opinião pública em geral. 

    De tal forma que um livro como As 50 Sombras de Grey vende milhões sob o epíteto de “erótico” como se não fosse apenas uma versão alargada dos muito estimáveis romances cor-de-rosa da Harlequim Books (em Portugal comercializados pela editora Abril sob os nomes de Bianca, Júlia, Sabrina), os Corin Tellado lidos nos anos 60 e 70. 

    Pior, é como se atrás dele não existissem milénios de literatura Erótica (assim mesmo, com “E” maiúsculo), do bíblico Cântico dos Cânticos aos poemas de Sapho, da Arte de Amar de Ovídio aos livros de Sade, de Sacher-Masoch a Henry Miller onde o erotismo se manifestava na sexualidade mas não só. 


    Manifestava-se na linguagem, nos elementos, na moral, nas verdadeiras transgressões que se faziam aos códigos sociais e religiosos de cada tempo.

    Regra número 1: “não há erotismo sem transgressão”, como explica George Bataille nesse ensaio fundamental chamado, justamente, O Erotismo (ed. Antígona).

    Brigitte Bardot no filme Desprezo (1963) de Jean-Luc Godard, baseado na novela erótica de Alberto Morávia

    Regra número 2: o erotismo, porque ligado à transgressão, está ligado à morte e ao sagrado. Eros não era o deus da sexualidade era o deus das ligações e o seu oposto Tanatos, deus da morte e da desligação. Ora sem Eros e Tanatos não há erotismo.

    Maria Schneider e Marlon Brando no filme Ultimo Tango em Paris de Bernardo Bertolucci, uma balada de sexo e morte

    Regra 3: o erotismo não se resume aos uso dos órgão sexuais. Erotismo é uma forma de ligação impulsionada por um desejo. O que impulsiona o erotismo é a busca de algo que não se tem, o Outro. Logo, o principal veículo do erotismo é a linguagem, verbal e não verbal. Quem tem uma linguagem pobre vai ter sempre um erotismo pobre. 

    Esta relação fundamental entre a palavra e o erotismo está magistralmente tratada por Pascal Quignard no livro Vida Secreta (ed. Notícias) a precisar urgentemente de ser reeditado por cá.

    Quem vai mesmo mais longe, quando um novo conservadorismo triunfa em toda a linha, é Manuel S. Fonseca da editora Guerra&Paz que, depois de ter publicado, num só volume, o bíblico Cântico dos Cânticos e o livro licencioso Manual de Civilidade para Meninas de Pierre-Félix Louÿs, volta agora ao escritor francês libertino, do final do século XIX, início do século XX, para iniciar uma coleção de livros eróticos.

    Três filhas de sua Mãe, de 1910, foi traduzido pelo poeta João Moita, e narra as aventuras de um jovem estudante com as quatro mulheres que lhe aparecem como vizinhas, precisamente uma mãe e as três filhas, cada uma com a sua idade, a sua experiência ou inexperiência, os seus desejos. 

    Os livros de Louÿs foram considerados muito subversivos e uma dessas “subversões” era a importância que ele dava à sexualidade feminina, como celebrava o desejo sexual das mulheres (e o seu direito a ele), mas também as perversões, a capacidade transgressora, impúdica e libertina das mulheres. 

    A Mulher e o Fantoche
     é a sua obra mais aclamada e teve adaptações ao cinema de Josef von Sternberg (com Marlene Dietrich), de Luis Buñuel e de Julien Duvivier. Foi publicada há uns anos pelo Círculo de Leitores.

    Três Filhas de Sua Mãe, ou as mulheres ao poder, neste livro de Pierre Louÿs, que abre a coleção Eróticos Guerra&Paz

    Eróticos Guerra & Paz terá continuidade apenas em 2018 e o responsável editorial, em entrevista ao Observador, prefere não anunciar ainda os títulos seguintes mas afirma que o seu objetivo “é lançar um conjunto de livros clássicos e contemporâneos, de prosa, poesia e ensaio onde o tema seja o erotismo mas não sejam necessariamente aquilo que o tempo e a história da literatura definem como erótico. 

    Não sou um editor convencional e não quero publicar coisas convencionais”. E cita o poema de Herberto Helder, Amor em Visita, como “uma das coisas mais eróticamente grandiosas da literatura portuguesa das últimas décadas”:

    Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
    e seu arbusto de sangue. Com ela
    encantarei a noite.
    Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
    Seus ombros beijarei, a pedra pequena
    do sorriso de um momento.
    Mulher quase incriada, mas com a gravidade
    de dois seios, com o peso lúbrico e triste
    da boca. Seus ombros beijarei.(…)

    Questionamos Manuel S. Fonseca, que além de editor da Guerra & Paz é cronista de cinema no jornal Expresso, sobre se, no tempo das novas tecnologias, quando há uma liberdade sexual impensável há apenas 40 anos, quando basta um click para aceder a conteúdos eróticos e pornográficos na internet, onde a publicidade banalizou os corpos e a sensualidade, se ainda é possível o erotismo?

    Acredito que vai continuar a haver pessoas a escreverem e a filmarem o erotismo, ainda que de outra forma. Talvez precisemos de afastar essa ideia de que erotismo tem que ter sexo. Ora o erotismo é também a expressão de um tempo se este tempo é diferente talvez tenhamos que procurar literatura contemporânea erótica que não obedeça ao erotismo como nós nos habituamos a pensá-lo. Penso que agora que as imagens parecem esgotadas talvez os grandes livros eróticos do futuro sejam aqueles onde o principal veiculo de transgressão será a linguagem e não as relações sexuais”.

    Grande literatura erótica, para quem só se contenta com muito:

    “Cântico dos Cânticos”
    “Filosofia de Alcova”, Marquês de Sade
    “Novelas Eróticas”, Manuel Teixeira Gomes
    “Henry & June”, Anaïs Nin
    “A Vida Sexual de Catherine M.”, Catherine Millet
    “O Erotismo”, Georges Bataille
    “Teoria King Kong”, Virginie Despentes
    “Amor em Visita”, Herberto Helder
    “Antologia de Poesia Erótica de Satírica”, org. Natália Correia

    Seja porque as regras morais das sociedades contemporâneas eliminaram muitos interditos em relação à sexualidade e às ligações entre os corpos e o mundo em redor, seja porque as tecnologias criaram formas de proximidade que já não precisam de presença física, seja porque o novo milénio trouxe um novo puritanismo como reação ao excesso de imagens hiper-sexualizadas que circulam no espaço público e os milennial parecem ter substituído o desejo de encontros sexuais por um novo romantismo, a verdade é que a literatura erótica e o cinema erótico que foram pujantes nos anos 60 e 70 e foram declinando nos anos 80 para quase desaparecerem no novo milénio ou surgirem numa versão comercial kitsch que envergonharia a grande dama do romance cor-de-rosa, Barbara Cartland.

    Os homens, que foram os principais produtores de literatura erótica, parecem ter-se recolhido num sofrimento melancólico devido à ascensão social feminina (veja-se o livro de contos de Frederico Pedreira, Um Bárbaro em Casa, ed. Língua Morta que, apesar das inúmeras fragilidades, nos dá um curioso retrato deste mal estar que os homens das novas gerações desenvolveram em relação ao corpo e à sexualidade feminina que sentem como inalcançável). 

    Por outro lado, as mulheres parecem ter trocado a sua emancipação social, sexual, financeira, por um definitivo desejo cristão de amor, casamento e uma casa com piscina. 

    Ou será que, como questiona o filósofo italiano Emmanuele Coccia, a nossa busca do prazer está hoje quase totalmente dirigida aos objectos de consumo? Será que o erotismo do século XXI só se pode encontrar na nova relação erótica com a comida (e veja-se a abundante literatura que se produz sobre o tema e a ascensão mediática dos Chefs tornados alvo do mais puro fascínio erótico), com marcas de ténis ou gadgets tecnológicos.

    Nove Semanas e Meia um dos filmes eróticos que marcaram o imaginário dos anos 80, como Kim Bassinger e Mickey Rourke a darem um uso muito criativo ao frigorífico

    Em Portugal, que já produziu muitos e bons escritores e poetas eróticos, vemos que este tema está hoje reduzido (ainda) aos poetas da Geração 61, como Maria Teresa Horta ou Casimiro de Brito, que pouco dizem a quem cresceu nos anos 80 e viu filmes como Nove Semanas e Meia de Adrian Lyne, Lua de Mel, Lua de Fel, de Polansky, Henry & June de Philip Kaufman, quem leu Al Berto, Luís Miguel Nava ou Herberto Helder, quem não idealizou a revolução sexual mas efectivamente a viveu. 

    Onde estão os novos escritores e poetas eróticos em Portugal? A Douda Correria acaba de fazer sair Caim e Lilith, um diálogo erotizante entre duas figuras bíblicas, escrito pela poeta Sandra Andrade, que pode marcar o renascimento do erotismo na nova lírica portuguesa.

    Eis que um leito acolheu, cúmplice, dois amantes;
    diante das portas fechadas da alcova, ò Musa, sustém o passo!
    Espontaneamente, sem a tua ajuda, palavras mil hão-de ser ditas
    e não se quedará inerte no leito a mão esquerda;
    hão-de os dedos inventar que fazer naqueles sitios
    em que, às escondidas, mergulha as suas setas o Amor…”
    [Ovídio, livro II, Arte de Amar]

    É certo que na nossa tradição os poetas têm feito mais pelo erotismo do que os romancistas: da lírica trovadoresca a Camões — o que é o episódio da Ilha do Amor (e não dos Amores) senão um grande momento de erotismo?– de Bocage a Florbela Espanca, Natália Correia ou, mais recentemente a Fátima Maldonado, Helder Macedo no seu poema longo Romance ou Nuno Júdice na novela O Complexo de Sagitário.

    O romance erótico tem sido pouco cultivado entre nós com algumas exceções, como o erotismo relutante de Eça de Queiroz, em especial no Primo Basílio, as Novelas Eróticas de Manuel Teixeira Gomes, ou O Amor é Fodido de Miguel Esteves Cardoso.

    Depois há toda uma escola de romancistas cuja capacidade de trabalhar o erotismo redunda normalmente em desgraça ou apenas em mau gosto como os casos famosos de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares ou Hans Nurlufts (pseudónimo literário de João Soares).

    Os Sonhadores, 2003, o tabu do incesto em versão light por Bernardo Bertolucci

    Como nota Pascal Quignard em
     Vida Secreta, a boca e os olhos são os mais importantes órgãos do erotismo. Os olhos por onde entram as imagens que vão alimentar o nosso imaginário e a boca, que recebe o alimento e a linguagem (curiosamente o latim mostra como estas ligações arcaicas mama (seio e mãe) e ama (a que cuida/amor). 

    Ambas as palavras com vários “a” e “o” redondos como a boca do bebé que recebe a comida e como os primeiros sons que a sua garganta emite antes de dominar a verbalização das palavras.

    Não obstante a escassa produção de romances eróticos em Portugal, há por todo o mundo obras primas que construiram o imaginário sobre o erotismo. Desde o oriental Kamasutra, a outros menos explícitos mas não menos transgressores, como A Arte de Amar, de Ovídio, pai de toda a literatura erótica Ocidental, a obras como Lolita de Nabokov, A Morte em Veneza de Thomas Mann, Pantaleão e as Visitadoras de Mário Vargas Llosa, A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro, Axilas & outras histórias Indecorosas de Rubem Fonseca, As Sobrinhas da Viúva do Coronel , de Guy de Maupassant, A História de O de Pauline Réage, pseudónimo de Anne Desclos… 

    Não há, portanto, desculpa para nos termos tornado analfabetos eróticos. E deixamos sugestões, do romance à biografia, do ensaio à poesia.

    "CÂNTICO DOS CÂNTICOS"


    Cântico dos Cânticos é um momento de apoteose poética, onde o sagrado e o profano convivem na mesma exaltação do encontro erótico entre os corpos. Obra que se tornou símbolo maior do erotismo sexual, religioso e amoroso, onde se evoca a nostalgia do momento em que os corpos não estavam para sempre divididos e entregues a uma solidão ontológica inultrapassável. Onde se evoca o segredo, a busca, a ausência e onde o erotismo é, antes de tudo, a tentativa de encontrar o absoluto no cerne de cada ser.

    "FILOSOFIA DE ALCOVA"
    A Filosofia de Alcova, do Marquês de Sade, uma edição da Antígona
    Filosofia de Alcova, publicado em 1795, não é “p’ra meninos”. Que é como quem diz, não é para quem torce o nariz às pulsões mais violentas, agónicas e mortais que fazem parte do humano. Não é certamente para quem considera, como Rosseau, que o Homem nasce bom e é corrompido pela sociedade. A Filosofia de Alcova, mais do que um livro erótico sobre a educação perversa que recebe a jovem e pura Eugénia, é um livro político que influenciou profundamente autores como Freud, Maurice Blanchot, Pierre Klossowsky. Sobre ele escreveu o poeta Paul Éluard: “Sade quis devolver ao homem civilizado a força dos seus instintos primitivos, quis desembaraçar a imaginação amorosa dos seus próprios objetos. Julgou que daí, e só daí, nasceria a verdadeira igualdade(…)”

    "NOVELAS ERÓTICAS"
    As Novelas Eróticas que o ex- presidente da República Manuel Teixeira Gomes escreveu depois de se exilar na Argélia. Edição Relógio d’ Água
    Uma das coisas mais eróticas destas novelas de Teixeira Gomes é a Língua Portuguesa. A mestria com que ele usa as palavras, o ritmo, faz confluir o mundo interior e exterior, como funde o explícito e o implícito, o manifesto e o latente. Nestas histórias curtas, publicadas pela primeira vez em 1935, encontramos a celebração da beleza e juventude dos corpos masculinos e femininos mas também dos elementos, do cosmos e do caos. O erotismo, e Teixeira Gomes compreendeu-o tão bem como Bataille está intimamente ligado à morte, às festas pagãs, à violência.


    "HENRY-JUNE"
    “Henry & June” retrata a relação da escritora francesa Anaïs Nin com o escritor Henry Miller e a sua mulher June
    Este livro é apenas uma parte dos diários eróticos da escritora francesa Anaïs Nin e retrata o envolvimento amoroso da escritora com Henry Miller, outro autor fundamental da literatura erótica, e com a mulher deste, June. Henry & June, que deu origem ao filme homónimo é maravilhosamente escrito, colocando o enfoque na busca feminina do prazer que se faz na ultrapassagem de interditos vários entre eles a homossexualidade.


    “A Vida Sexual de Catherine M.”


    Em 2001, o entusiasmo de Eduardo Prado Coelho convenceu-nos a ler a biografia sexual da famosa curadora e crítica de arte francesa no livro A Vida Sexual de Catherine M. A obra não é grande coisa, convenhamos, mas serviu para uma geração de jovens provincianos descobrirem como uma mulher pode viver de forma verdadeiramente libertina e sobretudo dos prazeres do sexo em grupo. Foi um bestseller em vários países.


    “O Erotismo”, Georges Bataille

    “O Erotismo”, de George Bataille, escritor, filosofo, antropólogo francês. (Edição ilustrada na Antígona)

    Este ensaio de George Bataille, escritor e filósofo francês, devia ser obrigatório para qualquer pessoa que pense escrever — e não somente um livro, um conto ou um poema erótico, mas quem quer pensar a cultura, a arte, a política. O erotismo é uma viagem histórica, social, antropológica e filosófica às origens do erotismo nas primeiras comuniddaes humanas, na sua relação com o aparecimento no homem de uma consciência simbólica, uma consciência do sagrado, do trabalho, da guerra, etc. Tributário dos estudos de Marcel Mauss mostra como o erotismo está sempre ligado aos interditos e à sua transgressão.


    “Teoria King Kong”, Virginie Despentes

    “Teoria King Kong” é um ensaio polémico sobre a sexualidade (Editora: Orfeu Negro)
    Embora seja um livro que em grande parte revisita as teorias de Bataille, este ensaio da polémica cineasta francesa Virginie Despentes, saiu recentemente em Portugal na Orfeu Negro, é já um marco nos estudos de género, e apesar da má fama da sua autora não é um livro siderado pela histeria feminista. Virginie aborda a sexualidade feminina e masculina e a construção de interditos e preconceitos que impossibilitam que homens e mulheres tenham uma vivência livre do seu erotismo. Um dos pontos de partida do livro está nas vivências tidas pela autora durante os anos em que trabalhou como prostituta.

    “Amor em Visita”, Herberto Helder


    “O Amor em Visita”, primeiro livro de Herberto Helder pode ser lido no seu “Ou o Poema Contínuo”
    É provável que a tribo cada vez maior de “donos” de Herberto Helder fique chocada por esta poesia ser considerada erótica. Mas certamente só quem tem uma visão exígua do erotismo e da poesia do autor pode recusar-lhe esta dimensão. O corpo, o órgão sexual feminino, o sangue menstrual e a sua relação com os astros, as constelações, os ritmos da natureza formam uma grande tessitura erótica, no sentido de Eros, como deus tutelar das ligações cósmicas. Se no Amor em Visita esse fulgor erótico é claro e pujante, noutros poemas da sua obra encontramos de novo esta expressão profunda de vida e morte, da religiosidade através da sexualidade. É a própria linguagem que transgride os seus códigos e o corpo da língua portuguesa é levado aos limites.


    “Antologia de Poesia Erótica de Satírica”, org. Natália Correia

    Antologia organizada pela poeta Natália Correia e que a levou ao banco dos réus. (Uma edição Antígona/Frenesi)
    Esta antologia que atravessa toda a história literária portuguesa é também um marco na resistência e luta contra o fascismo. Publicada pela primeira vez em 1966, levou Nátalia Correia e o seu editor Ribeiro de Mello, da Afrodite, a um processo em tribunal que resultaria na sua condenação. Começando no século XIII vai até ao século XX e engloba autores inesperados como Antéro de Quental ou Fernando Pessoa. Esta antologia tem ainda um cultíssimo prefácio de Natália Correia precisamente sobre o erotismo.

    (Excerto de um artigo do observador neste link https://observador.pt/2017/08/27/a-literatura-erotica-ainda-e-possivel-no-seculo-xxi/ que poderão ler mais desenvolvido.

    O discursivo argumentativo em Manuel Teixeira-Gomes

    Breves apontamentos sobre a argumentação

    A importância que a argumentação assume no presente na área da Linguística do Texto é uma recuperação do seu valor na Antiguidade, pois, indissociável da retórica, esta é, inicialmente, “uma «arte de convencer», ligada a situações concretas que representam exclusivamente a necessidade de persuadir um auditório”.

    Está associada à invenção grega da democracia e das suas instituições: o tribunal com júris populares numerosos onde escutam os litigantes, ou o ágora, a assembleia de cidadãos, que também “ouve os oradores, delibera e toma decisões respeitantes à cidade, os ajuntamentos onde se pronunciam os elogios, por exemplo fúnebres, que permitem exaltar e enriquecer os valores da cidade”.

    A este tempo pertencem os dois primeiros períodos da retórica judicial ou argumentativa, segundo Breton e Gauthier, os períodos fundador e de maturidade. Depois, verifica-se progressivamente a separação entre a componente da argumentação retórica e a componente da argumentação mais “literária” da retórica, interessada nas figuras de estilo e modalidades de expressão: a componente argumentativa vê reduzida a sua importância, na medida proporcionalmente inversa ao êxito da demonstração e das ciências exactas e experimentais, sucesso esse que conhece o seu apogeu com Descartes.

    Historicamente, depois de Cícero, a soberania dos auditórios é transferida para o imperador, o que também promove a estética do discurso mais do que o seu carácter convincente. É o período do declínio, em finais do Império até meados do século XX, sendo, de acordo com os mesmos autores, este o momento do período da renovação: a retórica, na sua acepção da argumentação ou a “nova retórica”, assim designada pelo jurista e filósofo belga Chaïm Pereleman em Traité de l’argumentation: la rhétorique; deste estudioso e de Lucie Olbrechts-Tyteca renasce a retórica em 1958, juntamente com a investigação anglo-saxónica de Stephen Toulmin, materializada em The Uses of Argument.

    Hoje em dia, “retórica” é uma palavra polissémica, com sentido pejorativo em alguns contextos: se um discurso for apelidado de “retórico” o intuito é “anunciar o seu carácter superficial, artificial ou dissimulador”.

    Tendo em consideração o percurso da retórica até aos nossos dias, esta hoje recupera o seu primeiro sentido enquanto discurso argumentativo construído em função de um fim, e ultrapassa-o, na medida em que se reconhece em qualquer momento de comunicação a difusão de uma tese, cuja complexidade dependerá das características do discurso em que se insere.

    Ao considerar-se que a concepção de qualquer discurso tem um objectivo final, considera-se, igualmente, a necessidade de este ser um texto de relativa homogeneidade que tem em conta os conceitos (enunciados por van Dijk) de coesão (relações estabelecidas entre elementos) e coerência (boa formação textual). De um modo geral, pode associar-se as características macro-estruturais à coerência, e as características micro-estruturais à coesão. Num contexto de análise argumentativa, o objectivo poderá então consistir em assinalar: em termos de coerência, uma intenção discursiva argumentativa global no(s) texto(s); e, consequentemente, para efeitos de coesão, a sua articulação entre argumentos e conclusões.

    Por intenção argumentativa global entende-se a ideia ou objectivo final que o locutor pretende transmitir, que poderá ser explicitada no seu discurso, ou comunicada de modo mais ou menos disseminado, pois a argumentação é uma potencialidade intrínseca da língua.

    Perspectivas de estudo da argumentação

    Uma perspectiva de estudo da argumentação é a da Argumentation Dans la Langue de Ducrot, conjugada com um fenómeno anteriormente assinalado por Bakhtine, a polifonia, e que tem por base o conceito musical referente à sobreposição de diferentes partituras, derivando, depois, para a literatura e, finalmente, para linguística.

    Como termo linguístico, polifonia é a adaptação da teoria de Bakhtine à análise linguística de pequenos enunciados do discurso, pondo em causa o axioma da unicidade do sujeito falante, ou seja, uma única pessoa que fala por detrás de um enunciado.

    Ducrot acredita que “el autor de un enunciado no se expresa nunca directamente, sino que pone en escena en el mismo enunciado un cierto número de personajes. (...) el sentido del enunciado no es más que el resultado de las diferentes voces que allí aparecen”, e que estas vozes reflectem que “en un mismo enunciado hay presentes varios sujetos con status lingüísticos diferentes”.

    Desta forma, Ducrot define três categorias de pessoas ou funções que falam num enunciado: o sujeito falante: o ser empírico, real, o autor (portanto, exterior à produção linguística, e como tal, a sua identificação, não sendo um problema desta ordem, não é relevante do ponto de vista linguístico); o locutor: aquele que fala no texto e a quem se atribui a responsabilidade enunciativa; é uma entidade inerente ao cotexto linguístico (num contexto ficcional, poderá ser o narrador ou as personagens, alguém que revela pontos de vista ou dá entrada e saída às mesmas); e o(s) enunciador(es): é (são) o(s) ponto(s) de vista abstracto(s) apresentado(s) e que pode(m) ser identificado(s) com o do locutor.

    Na mesma linha de pensamento segue Grize, para quem é possível “concevoir l’argumentation d’un point de vue plus large [que não restrito a uma situação jurídica] comme une démarche qui vise à intervenir sur l’opinion, l’attitude, voire le comportement de quelqu’un”; por isso, na opinião deste autor, o leitorespectador é também actor, na medida em que se pode distinguir três momentos da sua actividade: receber (a disposição de reconstruir a esquematização de quem produziu o enunciado, e ter condições reais de o fazer), concordar (não ter objecções a apresentar à esquematização), e aderir (assimilar a esquematização do Outro).

    Os enunciadores são parcelas do locutor, perfazendo-o na sua totalidade. Ou, como afirma Jean-Blaise Grize, são imagens de quem fala, pois a partir do discurso de um emissor-A, é possível inferir a imagem que A pensa que o seu receptor-B tem de si próprio, e que pode, ou não, ser (re)construída por B no momento de descodificação do discurso. Somos, então, B que reconhece as imagens projectadas de A, no momento da descodificação e análise do texto.

    Note-se, então, que qualquer enunciado apela ao discurso do próprio locutor, mas também a pontos de vista ou perspectivas de outros sobre o tema ou assunto em questão. A noção do Outro é, assim, duplamente redimensionada: não só este está sempre presente, no sentido de que se fala sempre para alguém, como o seu ponto de vista de vista e de outros está incorporado no discurso do locutor.

    A teoria polifónica da enunciação de Ducrot está associada a uma perspectiva de argumentação na língua, na medida em que “plantea que las argumentaciones realizadas en el discurso están determinadas por las frases de la lengua y que esta argumentación es independiente, al menos parcialmente, de los hechos expresados en los enunciados.”

    Ou seja, apesar do significado do enunciado dar indicações sobre qual a conclusão (o mesmo é dizer “que ejerce una especie de coacción para imponer lo que debe ser la conclusión” ou uma intenção argumentativa global), o sentido de um enunciado consiste na descodificação dos pontos de vista (ou possíveis enunciadores) e nas origens dos mesmos, que compõem o potencial argumentativo do enunciado, sendo que as conclusões daí retiradas podem ser implícitas e assumidas ou não pelo enunciador.

    Deixando de lado a função argumentativa inerente a unidades lexicais demonstrada por Ducrot, o estudo da argumentação tem-se centrado em aspectos de coesão, nomeadamente sobre a função dos advérbios, conjunções e locuções conjuntivas que “jouent un rôle de connexion entre unités du discours“, considerando Adam que a intenção argumentativa de um discurso poderá também depender do uso destas palavras, dividindo os diferentes tipos de conectores de acordo com a sua função: os conectores que estabelecem uma simples função de conexão, os conectores que marcam enunciativamente o discurso, e os conectores argumentativos.

    Os conectores que estabelecem uma simples função de conexão são igualmente chamados de organizadores, pois “jouent un rôle important dans le balisage des plans de texte”, estabelecendo uma conexão simples, entendida como segmentar e religar. Visto que “ordonnent les éléments de la représentation discursive sur les deux axes majeurs du temps et de l’espace“, podem  subdividir-se em organizadores espaciais (ex.: à esquerda, à direita, à frente, atrás, um ao lado do outro…), organizadores temporais (ex.: então, de seguida, [e] depois, a véspera, agora…), e ainda em organizadores enumerativos que segmentam e ordenam o discurso (ex.: e, ou, também, primeiro, por último…).

    O segundo tipo de conectores, também designados conectores de reformulação que reflectem uma retoma metalinguística (ex.: quer dizer, dito de outra forma, em uma palavra…), podem associar a essa retoma metalinguística uma marca comparável àquela dos marcadores de integração linear conclusivos (ex.: em suma, finalmente, em conclusão…).

    Por fim, os conectores argumentativos reúnem as funções de segmentação dos enunciados e de responsabilidade enunciativa:

    Ils orientent argumentativement la chaîne verbale en déclenchant un retraitement d’un contenu propositionnel comme un argument, soit comme une conclusion, soit comme un argument chargé d’étayer ou de renforcer une inférence ou encore comme un contre-argument.

    O autor considera que desta última categoria fazem parte os organizadores argumentativos e concessivos (ex.: mas, no entanto…); os introdutores de explicação e de justificação (ex.: porque, visto que…), o se hipotético, e os simples marcadores de um argumento (ex.: mesmo, não somente…).


    Análise de textos

    Pela sua natureza reflexiva, como excelentes exemplos de produção de enunciados premeditados, serão objecto de análise textos do domínio discursivo literário: exemplos de «A Cigana» e «Margareta», da colecção Novelas Eróticas, de Manuel Teixeira-Gomes.

    Nos exemplos, o(s) locutor(es) (aqui entendido segundo Ducrot, apresenta(m) alguma homogeneidade de texto para texto, que deverá(ão) ser categorizado como personagem complexa, principalmente considerando o conjunto das novelas: uma personagem que mascara a vaidade pessoal de se ter relacionado com algumas belas mulheres, e de cujo término de relação se descompromete, ao atribuir a responsabilidade a terceiros, amplificando o efeito narcisista, na medida em que se considera especial pelas experiências vividas.

    Recorde-se que Ducrot defende que a tentativa de convencer o Outro é uma capacidade intrínseca da língua, bem como a característica de algumas palavras possuírem um conteúdo argumentativo inerente, os conectores. A teoria polifónica da enunciação parte do conceito de polifonia discursiva de Ducrot, que considera a presença de diferentes sujeitos com estatutos linguísticos distintos num enunciado, representando pontos de vista diferentes partilhados por um locutor.

    «A Cigana», uma novela composta por uma carta que antecede a narrativa propriamente dita (os envolvimentos românticos do locutor com três jovens na Andaluzia), pode ser analisada de acordo com os princípios enunciados por Ducrot, sendo distinguíveis as seguintes vozes: do autor empírico, aquele cujo nome figura na capa, Manuel Teixeira-Gomes, personagem de carne e osso, e que escreve uma carta (ou que escreve uma narrativa) para António Patrício, personagem também real; do locutor, aquele que fala no Presente do Indicativo e revela as suas experiências passadas a um destinatário; e ainda de enunciadores diversos, como por exemplo, os ecos de uma personagem amiga do locutor chamada Pepe Cuadrado.

    Tendo em conta alguns dos enunciados de «A Cigana», podemos constatar que no enunciado “Os meus amigos, a fina flor da estúrdia sevilhana, já troçam da minha indecisão.” subsistem vozes de diferentes origens: para além do locutor (que coincide com a figura de um enunciador), existe um enunciador que corresponde a quem fala na parte do enunciado considerada sintacticamente o aposto, que especifica quem são os amigos do locutor e representa o discurso de uma consciência cívica e moral sevilhana (“a fina flor da estúrdia sevilhana”); é apresentado também um terceiro enunciador que constata o eco dos discursos gozadores dos amigos do locutor condensados numa só frase (“já troçam da minha indecisão”).

    Um outro exemplo onde existem mais de dois locutores diferentes é “Esa mujer – observa ele – no pasa de una vulgar criminal. Goza con tus sufrimientos.”, divisível num primeiro enunciado da autoria do locutor, “observa ele”, e num conjunto de outros enunciados “-Esa mujer no pasa de una vulgar criminal. Goza con tus sufrimientos”.

    Este último tem como locutor Pepe Cuadrado e diversos enunciadores cuja identificação é mais complexa que os enunciados anteriores: um primeiro enunciador que corresponde àquele que reproduz a expressão “criminosa vulgar” utilizada para descrever aqueles que tenham cometido algum acto ilícito de pequena monta; um segundo que reflecte o uso da mesma expressão utilizada normalmente para “criminosos de segunda” associada a pessoas de má índole e que, por isso, deveriam receber qualquer tipo de castigo como os delinquentes; um outro enunciador que utiliza a expressão “criminoso vulgar” no campo amoroso para quem não respeita os sentimentos do outro, devendo também ser castigado; e por fim, um quarto enunciador que faz o mesmo uso da expressão que o terceiro enunciador, mas que também lhe atribui um contexto, visto que se refere à noiva do amigo, e que acrescenta que esta não o respeita, partilhando a responsabilidade de também ser o locutor destes enunciados e contribuindo para a formação de auréola de simpatia em torno do amigo, apresentando-o com uma atitude subserviente perante a noiva.

    Desta forma, é possível percepcionar que em «A Cigana» existe um locutor que relata um acontecimento, e que ao reproduzir em discurso directo ou no seu próprio discurso o que outras personagens e outras vozes disseram parece crer tornar a história mais verosímil ou credível, mais fácil de lhe ser atribuível crédito por quem leia o discurso do locutor, na medida em que existem várias vozes que expressam ideias como as suas, tratando-se também de uma partilha da responsabilidade enunciativa, como é o caso de alguns discursos de Pepe Cuadrado sugerindo um castigo para a noiva do amigo (telepatia do que Cigana havia dito na noite anterior, quando se relacionava com o locutor, levando a noiva a ter uma síncope), o que contribui para uma leitura final dos acontecimentos.

    Depende, então, do leitor deixar-se seduzir pela argumentação do seu locutor: ou ingénuo, acredita nas suas palavras e não valoriza o desenlace inverosímil: o ataque da noite provocado pela telepatia da noite anterior.

    Portanto, no caso de «A Cigana», de acordo com Grize, ou recebe, concorda e adere ao relato; ou alerta da intenção persuasiva inerente a toda a produção linguística, põe em causa o contrato implícito entre o locutor e o seu interlocutor, e recebe, mas não concorda nem adere ao discurso do Outro.

    Admitindo-se que num texto literário se manifeste a intenção de convencer o leitor da conclusão a que deve chegar ou aderir, esse objectivo poderá ser dissimulado ao longo do texto; no entanto, tendo em conta que o final da narrativa é a última oportunidade para persuadir o leitor do ponto de vista do locutor, tomar-se-á em conta alguns dos parágrafos finais.

    Em «Margareta», quer-se fazer crer que o Destino interveio e não quis que o locutor e Margareta se reencontrassem, pois o este tinha-se demorado em várias cidades no seu caminho até ao local combinado. Este facto, juntamente com a parecença física constantemente notada pela comitiva da jovem com alguém que prejudicaria o seu pai nos negócios, deverá ser contabilizado como mais uma adversidade.

    Apesar de se isentar de qualquer responsabilidade em relação aos acontecimentos, a lembrança de Margareta no presente, marcada pelo marcador temporal “ainda hoje”, é agri-doce, e precursora da frase contraditória na qual o locutor afirma, apesar de não ter qualquer tipo de culpa (repare-se na expressão “sem culpa alguma” destacada entre vírgulas), recordar-se de Margareta com remorso.

    Ainda lhe escrevi mas as cartas voltaram-me recambiadas por insuficiência de endereço. Esperaria ela que eu a fosse buscar à América? Isso era, precisamente, o que teria feito… se pudesse. Pobre Margareta! e pobre de mim, que, sem culpa alguma, ainda hoje a sualembrança me atormenta como um remorso…

    Atente-se no uso do conector organizador “mas” (opõe dois argumentos orientados para conclusões diferentes, enfatizando a segunda), iniciando a frase na qual o locutor se isenta de toda e eventual culpa por não se ter dado o reencontro, apesar de ele ter tentado reatar a comunicação entre ambos através do expediente ao seu alcance.

    A hipótese de procurá-la na sua terra é assim descartada, por falta de meios próprios, resumida na expressão pronominal anafórica “isso” e enfatizada pelo advérbio de modo “precisamente”, que confirma o ponto de vista enunciativo do locutor, ou seja, a acção que teria sido empreendida caso tivesse disponibilidade para tal.

    Conclusão

    No início, foi assinalado o facto da argumentação ter sido primeiramente encarada como um fenómeno exclusivamente retórico. Hoje é objecto de estudo dos pontos de vista discursivo e linguístico através, por exemplo, da análise da intenção do locutor, obediente aos princípios da boa coerência textual, alicerçada na escolha lexical em geral, e dos conectores em particular, para além de atribuir um papel activo a todos os enunciadores discursivos e ao próprio leitor na descodificação do conteúdo.

    Ducrot e a sua teoria Argumentation dans la Langue (a argumentação no seu sentido lato), na qual a tentativa de convencer o Outro é uma capacidade intrínseca da língua, bem como a característica de algumas palavras possuírem um conteúdo argumentativo intrínseco, os conectores, são exemplos de enquadramentos teóricos de estudo, tal como Grize que não restringe a argumentação a situações jurídicas, concebe-a como “une démarche qui vise à intervenir sur l’opinion, l’attitude, voire le comportement de quelqu’un”; por isso, na opinião deste autor, o leitor-espectador é também actor, na medida em que se pode distinguir três momentos da sua actividade: receber (a disposição de reconstruir a esquematização de quem produziu o enunciado, e ter condições reais para o fazer), concordar (não ter objecções a apresentar à esquematização), e aderir (assimilar a esquematização do Outro).

    A tese argumentativa defendida implicitamente pelo locutor destes exemplos foi a de que outrora se relacionou acidentalmente com mulheres belíssimas cujo desfecho de relação tem sempre algo de curioso, e do qual se demarca em termos de responsabilidade.

    A sua desresponsabilização pode ser disseminada pela interferência de outras personagens, seja através da presença do Destino sugerida na narrativa, pelo encaixe subtil do discurso de outrem ou visível através do desdobramento de vários enunciadores de acordo com a polifonia discursiva, o que permite estabelecer um padrão narrativo ou assinalar a composição de uma estratégia argumentativa.

    Em suma, tendo por objecto os exemplos em estudo neste trabalho, esta apresentação dedicou-se a abordar a temática da argumentação como elemento intrínseco ao discurso humano.


    Excerto do artigo "O discursivo argumentativo em algumas novelas de Manuel Teixeira-Gomes" de Carla Teixeira
    Investigadora do Centro de Linguística da Universidade NOVA de Lisboa
    http://jiclunl.fcsh.unl.pt/wp-content/uploads/sites/43/2018/02/IFPL_Carla-Teixeira.pdf

    Os livros eróticos e a Teoria Literária?

    Na escrita erótica existe um recurso que o melhor romance policial ou a mais incrível ficção científica podem não apresentar: a ambiguidade das palavras. Segundo o crítico literário Viktor Chklovski em A arte como procedimento (1917), é essa capacidade de descrever as coisas de forma diversa do comum, presente na literatura erótica, que constitui a chave da escrita literária.


    Os objetos se tornam únicos, através do que Chklovski chama de processo de singularização. Onde as cenas, os sentimentos, os desejos e as ações para que possam ser compreendidas pelo leitor, exigem uma interpretação do que se encontra nas entrelinhas. Um lento percurso descritivo, o uso da comparações entre itens diversos como as hastes de uma ratoeira e as pernas de uma mulher durante o prazer, compõe o método ideal para aprender a fazer Literatura!

    Ela continuou fingindo que estava dormindo e eu lancei-me com maior avidez sobre o meu alimento de amor, sem abrandar senão quando as coxas dela se apertaram convulsivamente no meu rosto, como a mordedura de uma ratoeira de fresca e musculosa carne jovem. (‘A Coisa | Contos Eróticos’ de Alberto Moravia)


    5 Passos da Teoria Literária para quem se quer tornar escritor ou um bom leitor:

    Chklovski ensina que se deve dar atenção ao seguinte:

    • Aprenda a diferença entre a língua falada e as palavras utilizadas na literatura.
    • Entenda a Lei da Economia das Energias Criativas (para não a usar na escrita literária!).
    • Compreenda a ambiguidade como algo bom!
    • Perceba a obscenidade como método de uma escrita viva e impactante.
    • Mais que tudo, saiba que a arte é pensar por imagens!

    A língua falada versus as palavras utilizadas na literatura

    Existem diferenças entre as palavras utilizadas no quotidiano e aquelas que são empregadas pela literatura.

    Quando conversamos com alguém, a nossa intenção é transmitir uma mensagem que seja clara e objetiva. Ninguém, ao contar sobre um encontro que teve com quem se tem uma atracção, diz ao colega: “A pele do meu amado era ardente como o fogo do desejo, e a sua boca, um pêssego aveludado que acariciava o meu corpo nu”. 

    Perdoada a aventura dessa escritora em produzir erotismo, o mais correto é que se diga “Ele tem um beijo maneiro e é muito gostoso”. Na primeira frase modificamos os usos comuns das palavras para atribuir um significado ampliado, que exige que façamos conexões entre os diversos sentidos das palavras (é preciso associar frutas e sensualidade, a pele com o fogo, etc.).

    Temos palavras que poderiam não se relacionar, mas que através da escrita literária (especialmente a escrita erótica) se conectam para construir um significado totalmente novo.

    O objeto artístico ou estético nasce a partir do significado autêntico que determinada palavra ganha na produção literária. A invenção de uma imagem através da arte dá-se de acordo com a leitura de cada pessoa, num processo em que a escrita ganha formas e resultados diferentes.

    Lei da economia das energias criativas

    Na construção de conceitos da Teoria Literária, Chklovski identificou um pensamento muito recorrente: o de que a escrita perfeita se dá com o uso do menor número possível de signos.

    A lei da economia das energias criativas, como é chamada essa ideia, defende a utilização reduzida de palavras para expressar uma mensagem. A capacidade de síntese e objetividade é o que irá determinar a qualidade do texto. Isso é ótimo, mas não para a literatura. Na criação do texto poético torna-se preciso abandonar qualquer influência da lei da economia das energias criativas.

    A ambiguidade como algo bom

    Uma das características da literatura erótica é nunca dizer as coisas como elas realmente são. As palavras têm significados duvidosos e ao mesmo tempo em que se descreve um convite para uma bebida, a depender da narrativa, o significado pode ser completamente outro.

    A obscenidade contra a mecanização das coisas

    A partir da demonstração do obsceno e da sensualidade enquanto lugares criados pela transformação das palavras, Chklovski apresenta a escrita erótica na sua contribuição para a Teoria Literária. Onde as imagens, quando produzidas durante a leitura, transcendem os significados usuais dos signos e proporcionam ao leitor um exercício de percepção das coisas de forma livre e não mecanizada.

    Essa liberdade de visão sobre os objetos do mundo choca-se com o processo de automatização a que estamos submetidos. A nossa percepção dos objetos costuma ser superficial, diz Chklovski, vemos as coisas como se estivessem embrulhadas em papel de presente.

    Quotidianamente, não analisamos ou vemos os objetos à fundo. E diz, em referência à Tolstoi, aquele que vive sem consciência das coisas, não vive.

    A Arte é pensar por imagens

    Se a arte é pensar por imagens, na escrita literária, o melhor método para a produção das imagens é aquele utilizado na escrita erótica. A subversão dos sentidos, a ida até o fundo dos objetos, a saída do conforto, indo de encontro ao choque e ao espanto. A criação literária depende do esforço de erotização do mundo.

    Créditos a Amanda Lima em medium.com/

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