Como escritora portuguesa de romance histórico, e de entre esses, os que abordam temáticas eróticas com relevo no modo de estar da antiguidade fica aqui esse registo, com enfoque nos seus livros
- Contos Eróticos do Antigo Testamento
- Tentação da Serpente
- Novos Contos Eróticos do Velho Testamento
Fica aqui um excerto de "Contos Eróticos do Antigo Testamento’
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Deus sentira-se de tal modo defraudado por a Sua criação mais auspiciosa - o Homem feito à Sua imagem e a Mulher feita segundo a imagem aperfeiçoada do Homem, para dominarem sobre todos os outros seres do Mundo - ter resultado tão defeituosa e rebelde que, depois de os fazer expulsar do jardim do Éden, apesar da insistência dos anjos, se mostrara inabalável na recusa de uma nova tentativa para criar a Humanidade.Apesar da Sua omnisciência (talvez devido ao cansaço de ter feito aquele imenso Mundo em apenas seis dias), no instante da criação do Homem sentira-se muito orgulhoso e satisfeito com a Sua obra e não lhe achara qualquer defeito ou mácula.
Assim, na euforia que se seguiu, não vendo entre todos os animais desse Mundo uma companheira adequada para oferecer à Sua criatura, caíra na tentação de dar vida a um novo ser, feito à imagem do anterior, mas aperfeiçoando o modelo com a introdução de pequenas mas significativas diferenças.
Como desejava um material mais raro do que o pó utilizado na primeira tentativa, adormeceu profundamente o Homem, nas margens do rio Tigre que limitava a Oriente o jardim do Éden, e tirou-lhe uma das costelas que substituiu por carne, esculpindo a partir do osso uma nova criatura em forma de Mulher.
Ao contemplar a Sua obra, Deus achou-a tão bela que, em vez de lhe soprar a vida pelas narinas como fizera ao Homem, lha insuflou através dos lábios beijando-a e, com surpresa, sentiu pela primeira vez o Seu espírito vibrar de emoção nesse fugaz contato com a matéria. Deus conduziu a Mulher para junto do Homem que despertara e observou cheio de curiosidade a sua reação.
Para Seu espanto, o Homem, ao ver diante de si aquele novo ser em toda a sua esplêndida nudez, não se ergueu do lugar, nem agradeceu a dádiva ao Criador, limitando-se a exclamar: - Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne! Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!
Ouvindo estas frases, Deus admitiu pela primeira vez que talvez a sua melhor criação não fosse afinal tão perfeita no espírito como era na carne e pensou se não seria um risco pôr a árvore da ciência do bem e do mal ao seu alcance. Porém como já era tarde, retirou-se para descansar ao sétimo dia e não voltou a pensar no assunto.
E, um dia, as Suas criaturas eleitas atraiçoaram-No e quando Deus os confrontou com o crime da rebeldia e da desobediência, o Homem culpou a Mulher e a Mulher culpou a Serpente pela tentação de provar o fruto proibido. E Deus, ferido no Seu orgulho e no Seu amor, vestiu-os com túnicas de peles e expulsou-os para sempre do Jardim das Delícias, antes que descobrissem o fruto da árvore da vida e vivessem eternamente.
Apesar do seu arrependimento e das suas súplicas, Deus lançou-lhes terríveis maldições: - Tu, Mulher, por teres desejado ser mais inteligente do que o Homem e igual ao teu Deus, procurarás com paixão o teu marido, a quem serás sujeita. Aumentarei os sofrimentos da tua prenhez e parirás teus filhos com dor, suor e lágrimas. Chamar-te-ás Eva pois serás a mãe de todos os viventes.
A Mulher chorou o Paraíso Perdido e a sua nova condição na terra. Em seguida, Deus amaldiçoou o Homem: - Tu, Homem, que provaste o fruto proibido da inteligência, procurarás o alimento, à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida e comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar! E todo o Homem nascido da tua semente há-de ser tentado e enganado pela Mulher, por toda a Eternidade, como tu foste pela tua.
E Deus enviou querubins armados de espadas flamejantes expulsá-los do Paraíso, pela porta do Oriente, para as terras desérticas da futura Babilônia, entre os rios Tigre e Eufrates que Adão, o primeiro homem, deveria tornar férteis pelo esforço do seu lavor e castigo. Quando Deus acalmou a Sua ira e pôde pensar com serenidade nas duas criaturas caídas em desgraça, viu que dispunha apenas do casal primordial, Adão e Eva, para povoar o mundo e, como não queria voltar com a palavra atrás, criando novos seres, foi forçado a prolongar as suas vidas miseráveis assim como a dos seus descendentes, tornando-as férteis durante séculos para que a Humanidade pudesse crescer e multiplicar-se com algum sucesso.
Mesmo assim o processo era tão lento que os Filhos de Deus, contrariando os desígnios do Pai, decidiram sair da esfera celeste e contribuir para o acréscimo da Humanidade, escolhendo entre as mais belas filhas dos Homens as que bem quiseram para mulheres e da sua união nasceram os gigantes e os famosos heróis dos tempos remotos, paridos em grande dor pelas filhas dos Homens, pois a maldição divina jamais fora levantada.
Deus, tomando conhecimento da desobediência das forças celestes e da desordem cósmica que isso implicava, arrependeu-se mais uma vez de ter criado o Homem e a Mulher e, sofrendo amargamente, castigou de novo as Suas criaturas: - Não quero que o meu espírito permaneça indefinidamente no homem, pois o homem é carne, por isso, os seus dias não ultrapassarão os cento e vinte anos.
E Deus enviou o Dilúvio e destruiu as terras da Mesopotâmia e todos os seres vivos, permitindo que apenas Noé com a sua família - a nona geração de Adão - e um casal de todos os animais em vias de extinção se salvassem numa arca, abrindo assim o caminho para uma nova Humanidade, num processo quase idêntico ao anterior. Deus contava com a efemeridade da vida a que havia condenado os homens e com a sua lentidão em crescer e se multiplicar, para tão cedo não ser importunado pelos seus erros e desacatos, nem ter de os vigiar, punir ou premiar pelos seus atos.
E então Deus deixou os homens entregues a si próprios e esqueceu-se deles. Porém, contrariando os desígnios divinos, as forças celestes interessaram-se de novo pela Humanidade e, para acelerar o seu crescimento, concederam aos descendentes de Noé, tal como haviam feito aos de Adão, uma esperança de vida de mais de novecentos anos nos homens e uma juventude e fertilidade quase eternas nas mulheres, segundo consta nos registos do livro das gerações nascidas de Adão, de todos os Patriarcas de antes e depois do Dilúvio, no Livro do Génesis, que não enunciaremos aqui, por ser demasiado extenso e não servir os propósitos deste nosso conto.
Os Cuidados de Abraão
Pela vez primeira a nómada contemplara o corpo nu de um homem na força da juventude, moldado no exercício das armas e no requinte da corte, feito à imagem dos deuses, uma escultura de carne e osso, com músculos e tendões movendo-se como pequenas cobras irrequietas sob a pele macia e lisa, cor de cobre, brilhante de óleos perfumados.Sarai recordara com desgosto o corpo velho de Abraão, mole e enrugado, o hálito fétido dos dentes podres, o cheiro azedo a suor e a bedum de carneiro. A água era um bem demasiado precioso para ser desperdiçado em banhos e não havia erva defumadora que lograsse afastar das tendas e da própria pele dos pastores nómadas o fedor da urina quente e do sebo dos rebanhos a que todos acabavam por se habituar. Ela só se apercebera do seu cheiro depois de ter entrado no sumptuoso harém do Faraó.
Quando Sebekhotep se deitara sobre o seu corpo para lhe tomar a flor da virgindade, enroscara-se nele como a hera no tronco firme da árvore que a sustenta, sentindo-o deslizar para dentro de si, com a dureza do bronze e a maciez de uma lâmina oleada. Fizera-lhe as carícias que Meryt lhe ensinara como sendo as mais doces ao seu prazer, percorrendo com os lábios e os dedos os caminhos secretos do seu corpo, até o sentir vibrar dentro de si. O ventre de Sarai latejara, quente e húmido, e eclodira por fim em ondas de êxtase quase dolorosas, como jamais experimentara no leito de Abraão.
O virgo postiço rebentara e o sangue correra pelas coxas de Sarai quando Sebekhotep se retirara de dentro dela, sorrindo por vê-la perturbada. Porém, a vergonha da nómada não era devida à perda da virgindade, mas ao ardil usado para o enganar e que contara com a cumplicidade de Meryt, sempre desejosa de lhe satisfazer os mais ocultos desejos.
A Governanta do Real Harém soubera desde o primeiro dia que a nómada já fora tocada por homem, mas Sarai confiara-lhe uma triste história de infância e ganhara a sua simpatia ou talvez a mulher não gostasse das favoritas Tadukhipa e Ahmose e tivesse visto na nova concubina uma rival capaz de as derrubar.
Para o conseguir, teria de guardar segredo e proceder de modo a Sarai poder passar por virgem no leito de Sebekhotep, o que não era difícil de fazer, bastando um pequeno artifício muito comum entre as alcoviteiras de qualquer lugar do mundo e algum fingimento da parte da falsa virgem. Assim, antes de a conduzir à câmara do Faraó, Meryt dera-lhe um minúsculo saco de pele com sangue de galinha e ela introduzira-o na vagina. O embuste surtira o efeito desejado, todavia Sarai, enquanto se limpava
do sangue impuro, chorara de humilhação e pejo.
Arrancou-se à penosa lembrança para seguir com o olhar os movimentos da ruidosa cáfila, que rumava a leste e se perdia lentamente no horizonte, e o seu coração alegrou-se por não ter de partir com ela ao encontro de Abraão.
Arrastada no torvelinho da paixão de Sebekhotep, aqueles últimos dias haviam sido para Sarai um tempo de turvação e encantamento. Tudo começara quando Meryt a viera buscar para a conduzir de novo ao harém e lhe vira na cabeça a coroa de flores de lótus com que o Divino Senhor a coroara graciosamente, beijando-a com ardor e ternura, antes de sair da câmara.
– A coroa de lótus para uma filha do povo das areias?! – espantara-se a Governanta do Real Harém. – E logo na primeira noite? Terá Sarai poderes ocultos de feiticeira que Meryt desconhece?
Sem parar de falar, passara revista aos aposentos, bisbilhotando tudo, e sorrira de aprovação ao descobrir as manchas de sangue no leito. Vendo o embaraço e a incompreensão da nómada, explicou:
– A coroa de flores de lótus mostra que o Bom Deus te escolheu para sua favorita e isso é admirável, pois as concubinas reais são damas de sangue nobre, esposas, filhas ou irmãs dos grandes senhores da corte, jamais mulheres do povo e estrangeiras. Como conseguiste tal feito?
Foram interrompidas por um mensageiro do Faraó, com um recado para a Governanta, que o ouviu, com um misto de agrado e espanto, chamando as servas que aguardavam na antecâmara.
– Sebekhotep deu ordens para ocupares estes aposentos, com estas escravas para te servirem, guarda-roupa e jóias dignas de uma princesa.
Se quiseres manter estes privilégios, trata de servir bem o Divino Senhor, pois vais fazer muitas inimigas no harém. Tadukhipa e Ahmose hão-de recorrer a toda a sua perfídia para tramar intrigas e causar a tua desgraça.
Sarai passou a gozar da posição e privilégios de uma princesa da Casa Real de Tebas, a quem o poderoso Faraó do Egipto vinha visitar todos os dias, para lhe mostrar um mundo de coisas novas e admiráveis, ensinando-lhe os requintes de uma corte que fazia do luxo e do prazer uma arte. A pastora nómada de Ur surpreendera-se a ansiar por essas visitas, cada vez com maior inquietação e deleite, para se oferecer como cera macia às mãos divinas e, deslumbrada, deixar-se moldar segundo o desejo e a imaginação do mestre, tomando a forma das suas fantasias.


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