Edgar Allan Poe - William Wilson (Resenha)

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Edgar Allan Poe é sem dúvidas um dos maiores escritores do século XIX. 

No conto William Wilson, vemos a genialidade de Poe que consegue, de forma poética e envolvente, construir a alegoria da luta do instinto humano, perverso, luxurioso, dominador, ambicioso, contra os valores que nos são passados pelo ensino da Moral religiosa. 

Ele nos apresenta o clássico embate do Id, regido pelo Princípio do Prazer freudiano, e o Superego, a consciência moral. 

William Wilson, ainda na infância, encontra no colégio um seu homónimo, sendo este sendo o único aluno da escola que consegue competir com a superioridade daquele. Não somente compete com William, mas é também o único que não se curva contra a sua dominação. 

Apesar de inimigos, os dois demonstram um afeto velado um pelo outro. Wilson sente que o seu homónimo tem para com ele uma conduta que chega a parecer proteção, enquanto também sente em si um afeto fraternal pelo seu Outro. 

Entretanto, Wilson goza do seu colega, por este possuir uma condição que só o permite falar por meio de sussurros, e enquanto seu duplo passa a imitá-lo, não só nas vestimentas como no porte e modo de falar. 

Wilson, uma noite, fica perturbado ao perceber o quanto o seu inimigo se parece consigo, chegando a ver o seu próprio rosto no rosto do Outro. Assustado, abandona a escola.

Durante meses, William não vê novamente o inimigo juvenil. Em Eton, desenvolve uma vida desregrada e, no ápice da degradação, o seu antigo companheiro de escola interrompe a sua farra ao sussurrar “William Wilson”. A partir de então, em todos os momentos de degradação moral, o algoz de William reaparece para impedi-lo de continuar a degradar-se.

A luta aqui mostra-se clara, a natureza de William Wilson leva-o invariavelmente para os caminhos do prazer da carne, do roubo, da mentira, mas no ápice do aviltamento da moral, o seu duplo aparece para protegê-lo da depravação. 

Esse Duplo é a consciência moral de William que lhe foi inculcada ainda na escola, e pela ótica freudiana este seria o superego. O homónimo só aparece para Wilson na escola, o lugar onde o ser humano é primeiro apresentado à moralidade. 

Na escola é onde ele entra em contado com a moral religiosa, representada pelo diretor do colégio, o Reverendo Dr. Bransby, que celebra ritos religiosos para os alunos aos domingos. A consciência moral de Wilson, a partir de então, tenta salvá-lo a todo custo de seus instintos naturais, que o levam, continuamente, à devassidão.

Frustrado por não conseguir satisfazer-se, já que é sempre impedido de realizar os seus desejos naturais devido à sua consciência, personificada num duplo de si mesmo, William passa a dominar a consciência, falando mais alto que ela, já que esta só consegue emitir sussurros. 

Na cena final, Wilson, sob a influência da bebida, tão contrária aos valores morais cristãos, busca a esposa de seu anfitrião, visando travar com ela uma relação romântica. Impedido pela sua consciência, ele trava com ela um duelo fatal, e acaba por matá-la.

Na parte final, Wilson percebe que o seu oponente moral não passa de sussurros, enquanto as suas vontades se impõem com uma voz alta e firme, e a sua natureza se opõe aos seus princípios cristãos, influenciada pelo vinho e pelo desejo carnal.

William mata a sua consciência moral quando está prestes a desobedecer a um dos Dez Mandamentos: não cobiçarás a mulher do próximo. 

Ao consumar essa indisciplina, William mata não só os seus valores éticos, mas mata também aquela que era a representação de sua alma cristã. 

No conto, a consciência não passa de sussurros, não podendo competir com a eloquência da natureza humana. É a vitória do instinto sobre a moralidade.

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