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    Lolita de Vladimir Nabokov

    Breve História 

    Lolita é um filme de drama franco-americano de 1997 dirigido por Adrian Lyne e escrito por Stephen Schiff. É a segunda adaptação cinematográfica do romance do mesmo nome escrito por Vladimir Nabokov. 

    São actores Jeremy Irons, como Humbert Humbert, e Dominique Swain, como Dolores "Lolita" Haze, com os papéis de apoio por Melanie Griffith, como Charlotte Haze, e Frank Langella, como Clare Quilty. 

    O filme é sobre um professor universitário de meia-idade, Humbert, que aluga um quarto na casa da viúva Charlotte Haze e se torna sexualmente atraído pela sua filha adolescente Dolores, também chamada "Lo" ou "Lolita".

    O filme de Lyne é mais evidente com muito dos elementos mais sombrios do romance comparado com a versão de Stanley Kubrick de 1962, qual utilizou sugestões e insinuações para propósitos cómicos (e cujo roteiro foi feito pelo próprio Nabokov).

    O filme teve considerável dificuldade em encontrar um distribuidor americano e estreou na Europa antes de ser lançado nos Estados Unidos. 

    Enredo

    Em 1947, Humbert Humbert (Jeremy Irons), um professor universitário europeu de meia-idade de literatura francesa, viaja para os Estados Unidos para tomar uma posição de ensino em New Hampshire. Ele aluga um quarto na casa da viúva Charlotte Haze, largamente porque ele está atraído sentimentalmente pela sua filha adolescente Dolores (Dominique Swain), também chamada "Lo", quem ele vê enquanto passeia pela casa. 

    Obcecado desde a meninice com meninas de aproximadamente a idade dela (quem ele chama "ninfetas"), Humbert é imediatamente desbaratado com Lo e casa com Charlotte apenas para estar perto dela.

    Charlotte encontra o diário secreto de Humbert e descobre sua preferência por sua filha. Furiosa, Charlotte corre para fora da casa, quando ela é atingida por um carro e morta. Sua morte liberta Humbert para buscar um relacionamento sexual e sentimental com Lo, quem ele apelida "Lolita". 

    Humbert e Lo então viajam o país, ficando em vários motéis antes de eventualmente se estabelecer na cidade universitária de Beardsley, onde Humbert toma um emprego de ensino e Lo começa a atender uma escola católica só de meninas. 

    Entretanto, o crescente tédio de Lo com Humbert, combinado com seu crescente desejo por independência, abastece uma constante tensão que leva para uma enorme briga entre eles. As desesperadas afeições de Humbert por Lo são também rivalizadas por outro homem, o dramaturgo Clare Quilty (Frank Langella), que tem estado perseguindo Lo desde o início de suas viagens. Lo eventualmente esquema para escapar com Quilty, cujo nome Humbert não sabe, e ele procura por eles sem sucesso.

    Três anos depois, Humbert recebe uma carta de Lo pedindo dinheiro. Humbert visita Lo, que está agora casada e grávida. Humbert pede a ela para fugir longe com ele, mas ela recusa. Ele cede e dá para ela um substancial montante de dinheiro. Lo também revela para Humbert como Quilty na verdade seguia jovens meninas e levava elas para Pavor Manor, sua casa em Parkington, para explorar elas para pornografia infantil. Quilty abandonou ela após ela ter recusado estar em um de seus filmes.

    Após sua visita com Lo, Humbert rastreia Quilty e assassina ele. Após ser perseguido pela polícia, Humbert é preso e enviado para a prisão. Ele morre em novembro de 1950, e Lo morre no próximo mês no dia de Natal de complicações no parto.

    Júlia Lopes de Almeida | A Caolha

    A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados. 

    O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam-lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante. 

    Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda a gente. 

    Morava numa casa pequena, paga pelo filho único, operário numa oficina de alfaiate; ela lavava a roupa para os hospitais e dava conta de todo o serviço da casa inclusive cozinha. O filho, enquanto era pequeno, comia os pobres jantares feitos por ela, às vezes até no mesmo prato; à proporção que ia crescendo, ia-se-lhe a pouco e pouco manifestando na fisionomia a repugnância por essa comida; até que um dia, tendo já um ordenadozinho, declarou à mãe que, por conveniência do negócio, passava a comer fora... 


    Ela fingiu não perceber a verdade, e resignou-se. Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal. Que lhe importava o desprezo dos outros, se o seu filho adorado lhe apagasse com um beijo todas as amarguras da existência? Um beijo dele era melhor que um dia de sol, era a suprema carícia para o seu triste coração de mãe! 

    Mas... os beijos foram escasseando também, com o crescimento do Antonico! Em criança ele apertava-a nos bracinhos e enchia-lhe a cara de beijos; depois, passou a beijá-la só na face direita, aquela onde não havia vestígios de doença; agora, limitava-se a beijar-lhe a mão! Ela compreendia tudo e calava-se. 

    O filho não sofria menos. Quando em criança entrou para a escola pública da freguesia, começaram logo os colegas, que o viam ir e vir com a mãe, a chamá-lo – o filho da caolha. Aquilo exasperava-o; respondia sempre. Os outros riam-se e chacoteavam-no; ele queixava-se aos mestres, os mestres ralhavam com os discípulos, chegavam mesmo a castigá-los – mas a alcunha pegou, já não era só na escola que o chamavam assim. 

    Na rua, muitas vezes, ele ouvia de uma ou de outra janela dizerem: o filho da caolha! Lá vai o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha! Eram as irmãs dos colegas, meninas novas, inocentes e que, industriadas pelos irmãos, feriam o coração do pobre Antonico cada vez que o viam passar! 

    As quitandeiras, onde iam comprar as goiabas ou as bananas para o lunch, aprenderam depressa a denominá-lo como os outros e, muitas vezes, afastando os pequenos que se aglomeravam ao redor delas, diziam, estendendo uma mancheia de araçás, com piedade e simpatia: – Taí, isso é pra o filho da caolha! 

    O Antonico preferia não receber o presente a ouvi-lo acompanhar de tais palavras; tanto mais que os outros, com inveja, rompiam a gritar, cantando em coro, num estribilho já combinado: – Filho da caolha, filho da caolha! O Antonico pediu à mãe que o não fosse buscar à escola; e, muito vermelho, contou-lhe a causa; sempre que o viam aparecer à porta do colégio os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os olhos para o Antonico e faziam caretas de náuseas! 

    A caolha suspirou e nunca mais foi buscar o filho. Aos onze anos o Antonico pediu para sair da escola: levava a brigar com os condiscípulos, que o intrigavam e malqueriam. Pediu para entrar para uma oficina de marceneiro. Mas na oficina de marceneiro aprenderam depressa a chamá-lo – o filho da caolha, a humilhá-lo, como no colégio. 

    Além de tudo, o serviço era pesado e ele começou a ter vertigens e desmaios. Arranjou então um lugar de caixeiro de venda; os seus ex-colegas agrupavam-se à porta, insultando-o, e o vendeiro achou prudente mandar o caixeiro embora, tanto que a rapaziada ia-lhe dando cabo do feijão e do arroz expostos à porta nos sacos abertos! 

    Era uma contínua saraivada de cereais sobre o pobre Antonico! Depois disso passou um tempo em casa, ocioso, magro, amarelo, deitado pelos cantos, dormindo às moscas, sempre zangado e sempre bocejante! Evitava sair de dia e nunca, mas nunca, acompanhava a mãe; esta poupava-o: tinha medo de que o rapaz, num dos desmaios, lhe morresse nos braços, e por isso nem sequer o repreendia! 

    Aos dezesseis anos, vendo-o mais forte, pediu e obteve-lhe, a caolha, um lugar numa oficina de alfaiate. A infeliz mulher contou ao mestre toda a história do filho e suplicou-lhe que não deixasse os aprendizes humilhá-lo; que os fizesse terem caridade! 

    Antonico encontrou na oficina uma certa reserva e silêncio da parte dos companheiros; quando o mestre dizia: Sr. Antonico, ele percebia um sorriso mal oculto nos lábios dos oficiais; mas a pouco e pouco essa suspeita, ou esse sorriso, se foi desvanecendo, até que principiou a sentir-se bem ali. 

    Decorreram alguns anos e chegou a vez de Antonico se apaixonar. Até aí, numa ou outra pretensão de namoro que ele tivera, encontrara sempre uma resistência que o desanimava, e que o fazia retroceder sem grandes mágoas. 

    Agora, porém, a coisa era diversa: ele amava! amava como um louco a linda moreninha da esquina fronteira, uma rapariguinha adorável, de olhos negros como veludo e boca fresca como um botão de rosa. O Antonico voltou a ser assíduo em casa e expandia-se mais carinhosamente com a mãe; um dia, em que viu os olhos da morena fixarem os seus, entrou como um louco no quarto da caolha e beijou-a mesmo na face esquerda, num transbordamento de esquecida ternura! Aquele beijo foi para a infeliz uma inundação de júbilo! tornara a encontrar o seu querido filho! pôs-se a cantar toda a tarde, e nessa noite, ao adormecer, dizia consigo: – Sou muito feliz... o meu filho é um anjo! 

    Entretanto, o Antonico escrevia, num papel fino, a sua declaração de amor à vizinha. No dia seguinte mandou-lhe cedo a carta. A resposta fez-se esperar. Durante muitos dias Antonico perdia-se em amarguradas conjeturas. Ao princípio pensava: – "É o pudor". 

    Depois começou a desconfiar de outra causa; por fim recebeu uma carta em que a bela moreninha confessava consentir em ser sua mulher, se ele se separasse completamente da mãe! Vinham explicações confusas, mal alinhavadas: lembrava a mudança de bairro; ele ali era muito conhecido por filho da caolha, e bem compreendia que ela não se poderia sujeitar a ser alcunhada em breve de – nora da caolha, ou coisa semelhante! 

    O Antonico chorou! Não podia crer que a sua casta e gentil moreninha tivesse pensamentos tão práticos! Depois o seu rancor voltou-se para a mãe. Ela era a causadora de toda a sua desgraça! 

    Aquela mulher perturbara a sua infância, quebrara-lhe todas as carreiras, e agora o seu mais brilhante sonho de futuro sumia-se diante dela! Lamentava-se por ter nascido de mulher tão feia, e resolveu procurar meio de separar-se dela; considerar-se-ia humilhado continuando sob o mesmo teto; havia de protegê-la de longe, vindo de vez em quando vê-la à noite, furtivamente... 

    Salvava assim a responsabilidade de protetor e, ao mesmo tempo, consagraria à sua amada a felicidade que lhe devia em troca do seu consentimento e amor... 

    Passou um dia terrível; à noite, voltando para casa, levava o seu projeto e a decisão de o expor à mãe. A velha, agachada à porta do quintal, lavava umas panelas com um trapo engordurado. O Antonico pensou: "A dizer a verdade eu havia de sujeitar minha mulher a viver em companhia de... uma tal criatura?" Estas últimas palavras foram arrastadas pelo seu espírito com verdadeira dor. A caolha levantou para ele o rosto, e o Antonico, vendo-lhe o pus na face, disse: – Limpe a cara, mãe... Ela sumiu a cabeça no avental; ele continuou: – Afinal nunca me explicou bem a que é devido esse defeito! 

    – Foi uma doença, – respondeu sufocadamente a mãe – é melhor não lembrar isso! 

    – E é sempre a sua resposta: é melhor não lembrar isso! Por quê? 

    – Porque não vale a pena; nada se remedeia... 

    – Bem! agora escute: trago-lhe uma novidade: o patrão exige que eu vá dormir na vizinhança da loja... já aluguei um quarto: a senhora fica aqui e eu virei todos os dias a saber da sua saúde ou se tem necessidade de alguma coisa... É por força maior; não temos remédio senão sujeitar-nos!... 

    Ele, magrinho, curvado pelo hábito de costurar sobre os joelhos, delgado e amarelo como todos os rapazes criados à sombra das oficinas, onde o trabalho começa cedo e o serão acaba tarde, tinha lançado naquelas palavras toda a sua energia, e espreitava agora a mãe com um olho desconfiado e medroso. 

    A caolha levantou-se e, fixando o filho com uma expressão terrível, respondeu com doloroso desdém: 

    – Embusteiro! o que você tem é vergonha de ser meu filho! Saia! Que eu também já sinto vergonha de ser mãe de semelhante ingrato! 

    O rapaz saiu cabisbaixo, humilde, surpreso da atitude que assumira a mãe, até então sempre paciente e cordata; ia com medo, maquinalmente, obedecendo à ordem que tão feroz e imperativamente lhe dera a caolha. Ela acompanhou-o, fechou com estrondo a porta, e vendo-se só, encostou-se cambaleante à parede do corredor e desabafou em soluços. O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia. Na manhã seguinte o seu primeiro desejo foi voltar à casa; mas não teve coragem; via o rosto colérico da mãe, faces contraídas, lábios adelgaçados pelo ódio, narinas dilatadas, o olho direito saliente, a penetrar-lhe até o fundo do coração, o olho esquerdo arrepanhado, murcho – e sujo de pus; via a sua atitude altiva, o seu dedo ossudo, de falanges salientes, apontando-lhe com energia a porta da rua; sentia-lhe ainda o som cavernoso da voz, e o grande fôlego que ela tomara para dizer as verdadeiras e amargas palavras que lhe atirara no rosto; via toda a cena da véspera e não se animava a arrostar com o perigo de outra semelhante. 

    Providencialmente, lembrou-se da madrinha, única amiga da caolha, mas que, entretanto, raramente a procurava. Foi pedir-lhe que interviesse, e contou-lhe sinceramente tudo que houvera. 

    A madrinha escutou-o comovida; depois disse: – Eu previa isso mesmo, quando aconselhava tua mãe a que te dissesse a verdade inteira; ela não quis, aí está! 

    – Que verdade, madrinha? 

    – Hei de dizer-te perto dela; anda, vamos lá! 

    Encontraram a caolha a tirar umas nódoas do fraque do filho – queria mandar-lhe a roupa limpinha. A infeliz arrependera-se das palavras que dissera e tinha passado toda a noite à janela, esperando que o Antonico voltasse ou passasse apenas... 

    Via o porvir negro e vazio e já se queixava de si! Quando a amiga e o filho entraram, ela ficou imóvel: a surpresa e a alegria amarraram-lhe toda a ação. 

    A madrinha do Antonico começou logo: 

    – O teu rapaz foi suplicar-me que te viesse pedir perdão pelo que houve aqui ontem e eu aproveito a ocasião para, à tua vista, contar-lhe o que já deverias ter-lhe dito! 

    – Cala-te! – murmurou com voz apagada a caolha. 

    – Não me calo! Essa pieguice é que te tem prejudicado! Olha! Rapaz, quem cegou tua mãe foste tu! 

    O afilhado tornou-se lívido; e ela concluiu: 

    – Ah, não tiveste culpa! eras muito pequeno quando, um dia, ao almoço, levantaste na mãozinha um garfo; ela estava distraída, e antes que eu pudesse evitar a catástrofe, tu enterraste-lho pelo olho esquerdo! Ainda tenho no ouvido o grito de dor que ela deu! 

    O Antonico caiu pesadamente de bruços, com um desmaio; a mãe acercou-se rapidamente dele, murmurando trémula:

     – Pobre filho! vês? era por isto que eu não lhe queria dizer nada! 

    Retirado de “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século” , Organização, Introdução e Referências Bibliográficas de Italo Moriconi

    Edgar Allan Poe | Silêncio

    Escuta – disse o demônio, pousando a mão sobre a minha cabeça. – O país de que te falo é um país lúgubre, na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali não há repouso nem silêncio. As águas do rio, amarelas e insalubres, não correm para o mar, mas palpitam sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de gigantescos nenúfares, que suspiram na solidão, erguendo para o céu os longos pescoços espectrais e meneando tristemente as cabeças sempiternas. E do meio deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murmúrio de uma torrente subterrânea. E os nenúfares, voltados uns para os outros, suspiram na solidão.

    E o seu império tem por limite uma floresta alta, cerrada, medonha! Lá, – como as vagas em torno das Híbridas, pequenos arbustos agitam-se sem repouso, contudo não há vento no céu! – e as grandes árvores primitivas oscilam continuamente, com um estrépito enorme. E dos seus cumes elevados filtra, gota a gota, um orvalho eterno. A seus pés contorcem-se num sono agitado, flores desconhecidas – venenosas. E por cima das suas cabeças, com um ruge-ruge retumbante, precipitam-se as nuvens negras a caminho do ocidente, até rolarem as cataratas para trás da muralha abrasada do horizonte. E nas margens do rio Zaire há repouso nem silêncio.

    Era noite e a chuva caía enquanto caía, era água mas quando chegava ao chão era sangue! E eu estava na planície lodosa, por entre os nenúfares, vendo a chuva que caía sobre mim. E os nenúfares voltados uns para os outros suspira na solenidade da sua desolação.

    De repente apareceu a lua através do nevoeiro fúnebre vinha toda carmesim! e o meu olhar caiu sobre um rochedo enorme, sombrio, que se erguia a borda do Zaire, refletindo a claridade da lua; era um rochedo sombrio sinistro de uma altura descomunal!

    Sobre o seu cume estavam gravadas algumas letras. Caminhei através dos pântanos de nenúfares, até a margem para ler as letras gravadas na pedra; mas não pude decifrá-las. Ia voltar quando a lua brilhou mais viva e mais vermelha; olhando outra vez para o rochedo distingui só caracteres. E esses caracteres diziam: desolação.

    Levantei os olhos; na crista do rochedo estava um homem de figura majestosa. Pendia-lhe dos ombros a antiga toga romana, cobrindo-se até aos pés. Os contornos da sua pessoa não se distinguiam, mas as feições eram as da divindade porque brilhavam através da escuridão da noite a do nevoeiro. Tinha a fronte alta e pensativa, os olhos profundos e melancólicos. Nas rugas do semblante, liam-se as legendas da desgraça e da fadiga o aborrecimento da humanidade e o amor da solidão. Escondi-me no meio dos nenúfares para ver o que aquele homem fazia ali.

    E o homem assentou-se no rochedo, deixou pender a cabeça sobre a mão e espraiou a vista pela soledade, contemplou os arbustos buliçosos e as grandes árvores primitivas; depois, ergueu os olhos para a céu a para a lua carmesim. Eu observava as ações do homem escondido no meio dos nenúfares e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

    Então o homem desviou os olhos do céu para o rio lúgubre para as águas amarelas do Zaire, e para as legiões sinistras dos nenúfares; escutou-lhes os suspiros melancólicos e as oscilações murmurantes E eu o espreitava sempre, do meu esconderijo e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

    Embrenhei-me na profundezas longínquas do pântano, caminhei sobre e as flores dos nenúfares e chamei os hipopótamos que habitavam a espessura do bosque. E os hipopótamos ouviram o meu chamado e vieram os Behemothes até o pé do rochedo e soltaram um rugido medonho. E eu, escondido por entre os nenúfares, espreitava os movimentos do homem e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

    Então invoquei os elementos e uma tempestade horrorosa rosa sobreveio. E o céu tornou-se lívido pela violência da tempestade e a chuva caía em torrente sobre a cabeça do homem e as ondas do rio transbordavam e o rio espumava enfurecido e os nenúfares suspiravam com mais força, e a floresta debatia-se com o vento, e o trovão ribombava e os raios flamejavam, e o rochedo estremecia.

    Irritei-me e amaldiçoei a tempestade, o rio e os nenúfares, o vento e as floresta, o céu e o trovão. E na minha maldição os elementos emudeceram e a lua parou na sua carreira, e o trovão expirou e o raio deixou de faiscar, e as nuvens ficaram imóveis e as águas tornaram n repousar no seu imenso leito, e as árvores cessaram de se agitar, e os nenúfares não suspiraram mais e na floresta não se tornou a ouvir o mínimo murmúrio, nem a sombra de um som no vasto deserto sem limites. Olhei para os caracteres escritos no rochedo e os caracteres diziam agora: Silêncio.

    Volvi outra vez os olhos para o homem, e o seu rosto estava pálido de terror. De repente, levantou a cabeça, ergueu-se sobre o rochedo e pôs o ouvido à escuta. Mas não se ouviu nem uma voz no deserto ilimitado. E os caracteres gravados no rochedo diziam sempre: Silêncio. E o homem estremeceu e fugiu e para tão longe fugiu que jamais o tornei a ver.

    Ora, os livros dos magos, os melancólicos livros dos magos encerram belos contos, esplêndidas histórias do céu, da terra e do mar poderosos; dos gênios que têm reinado sobre a terra, sobre o mar e sobre o céu sublime. Há muita ciência na palavra das Sibilas. E das florestas sombrias de Dodona saíam outrora oráculos profundos.

    Mas jamais se ouviu uma história tão espantosa como esta! Foi o demônio que ma contou, assentado ao um lado, na solidão do túmulo. Quando acabou de falar, desatou a rir e como não pudesse rir com ele, amaldiçoou-me. Então o lince, que vive eternamente no túmulo, saiu do seu esconderijo e veio deitar-se aos pés do demônio, olhando-o fixamente nas pupilas.

    Edgar Allan Poe

    Edgar Allan Poe | O Barril de Amontillado

    Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza de meu caráter, não havereis de supor, no entanto, que eu tenha proferido qualquer ameaça. No fim, eu seria vingado. Este era um ponto definitivamente assentado, mas a própria decisão com que eu assim decidira excluía qualquer idéia de perigo. Assim devia apenas castigar, mas castigar impunemente. Uma injúria permanece irreparada, quando o castigo alcança aquele que se vinga. Permanece, igualmente, sem reparado, quando o vingador deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que e ele quem se vinga.

    É preciso que se saiba que, nem por meio de palavras, nem de qualquer ato, dei a Fortunato motivo para que duvidasse de minha boa vontade. Continuei, como de costume, a sorrir em sua presença, e ele não percebia que o meu sorriso, agora, tinha como origem a idéia da sua imolação.

    Esse tal Fortunato tinha um ponto fraco, embora, sob outros aspectos, fosse um homem digno de ser respeitado e, até mesmo, temido. Vangloriava-se sempre de ser entendido em vinhos. Poucos italianos possuem verdadeiro talento para isso. Na maioria das vezes, seu entusiasmo se adapta aquilo que a ocasião e a oportunidade exigem, tendo em vista enganar os milionários ingleses e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunado, como todos os seus compatriotas, era um intrujão; mas, com respeito a vinhos antigos, era sincero. Sob este aspecto, não havia grande diferença entre nós – pois que eu também era hábil conhecedor de vinhos italianos, comprando-os sempre em grande quantidade, sempre que podia. Uma tarde, quase ao anoitecer, em plena loucura do carnaval, encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessiva cordialidade, pois que havia bebido muito. Usava um traje de truão, muito justo e listrado, tendo à cabeça um chapéu cônico, guarnecido de gizos.

    Fiquei tão contente de encontrá-lo, que julguei que jamais estreitaria a sua mão como naquele momento.

    – Meu caro Fortunato – disse-lhe eu -, foi uma sorte encontrá-lo. Mas, que bom aspecto tem você hoje! Recebi um barril como sendo de Amontillado, mas tenho minhas duvidas.

    – Como? – disse ele. – Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno carnaval!

    – Tenho minhas dúvidas – repeti – e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consultá-lo sobre o assunto. Não conseguia encontrá-lo em parte alguma, e receava perder um bom negócio.

    – Amontillado!

    – Tenho minhas dúvidas.

    – Amontillado!

    – E preciso efetuar o pagamento.

    – Amontillado!

    – Mas, como você esta ocupado, irei à procura de Luchesi. Se existe alguém que conheça o assunto, esse alguém é ele. Ele me dirá …

    – Luchesi é incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez.

    – Não obstante, há alguns imbecis que acham que o paladar de Luchesi pode competir com o seu.

    -Vamos, vamos embora.

    – Para onde?

    – Para as suas adegas.

    – Não, meu amigo. Não quero abusar de sua bondade. Penso que você deve ter algum compromisso. Luchesi…

    – Não tenho compromisso algum. Vamos.

    – Não, meu amigo. Embora você não tenha compromisso algum, vejo que esta com muito frio. E as adegas são insuportavelmente úmidas. Estão recobertas de salitre.

    – Apesar de tudo, vamos. Não importa o frio. Amontillado! Você foi enganado. Quanto a Luchesi, não sabe distinguir entre Xerez e Amontillado.

    Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo.

    Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma seqüência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega.

    Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor.

    O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos.

    – E o barril? – perguntou.

    – Está mais adiante – respondi. – Mas observe as brancas teias de aranha que brilham nas paredes dessas cavernas.

    Voltou-se para mim e olhou-me com suas nubladas pupilas, que destilavam as lágrimas da embriaguez.

    – Salitre? – perguntou, por fim.

    – Salitre – respondi. – Há quanto tempo você tem essa tosse?

    Meu pobre amigo pôs-se a tossir sem cessar e, durante muitos minutos, não lhe foi possível responder.

    – Não é nada – disse afinal.

    – Vamos – disse-lhe com decisão. – Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não impor-ta. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi . . .

    – Basta – exclamou ele. – Esta tosse não tem importância; não me matará. Não morrerei por causa de uma simples tosse.

    -É verdade, é verdade – respondi. – E eu, de fato, não tenho intenção alguma de alarmá-lo sem motivo. Mas você deve tomar precauções. Um gole deste Medoc nos defenderá da umidade.

    E, dizendo isto, parti o gargalo de uma garrafa que se achava numa longa

    fila de muitas outras iguais, sobre o chão úmido.

    – Beba – disse, oferecendo-lhe o vinho.

    Levou a garrafa aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e saudou-me com familiaridade, enquanto seus guizos soavam.

    – Bebo – disse ele – à saúde dos que repousam enterrados, em torno de nós.

    – E eu para que você tenha vida longa. Tomou-me de novo o braço e prosseguimos. – Estas cavernas – disse-me – são extensas.

    – Os Montresor – respondi – formavam uma família grande e numerosa.

    – Esqueci qual o seu brasão.

    – Um grande pé de ouro, em campo azul. O pé esmaga uma serpente ameaçadora, cujas presas se acham cravadas no salto.

    – E a divisa?

    – Nemo me impune lacessit.

    – Muito bem! – exclamou.

    O vinho brilhava em seus olhos e os guizos retiniam. Minha própria imaginação se animou, devido ao Medoc. Através de paredes de ossos empilhados, entremeados de barris e tonéis, penetramos nos recintos mais profundos das catacumbas. Detive-me de novo e, essa vez, me atrevi a segurar Fortunato pelo braço, acima do cotovelo.

    – O salitre! – exclamei. – Veja como aumenta. Prende-se, como musgo, nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade filtram-se por entre os ossos. Vamos. Voltemos, antes que seja tarde demais. Sua tosse…

    – Não é nada – respondeu ele. – Prossigamos. Mas, antes, tomemos outro gole do Medoc.

    Parti o gargalo de uma garrafa de vinho De Grâve a dei-a a Fortunato. Ele a esvaziou de um trago. Seus olhos cintilaram com brilho ardente. Pôs-se a rir e atirou a garrafa para o ar, com gesticulação que não compreendi.

    Olhei-o, surpreso. Repetiu o movimento, um movimento grotesco.

    – Você não compreende? – perguntou.

    – Não, não compreendo – respondi.

    – Então é porque você não pertence à irmandade.

    – Como?

    – Não pertence à maçonaria.

    – Sim, sim. Pertenço.

    – Você? Impossível! Um maçom?

    – Um maçom – respondi.

    – Prove-o – disse ele.

    – Eis aqui – respondi, tirando de debaixo das dobras de meu roquelaire uma colher de pedreiro.

    – Você está gracejando! – exclamou recuando alguns passos. – Mas prossigamos: vamos ao Amontillado.

    – Está bem – disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso caminho, em busca do Amontillado. Passamos através de uma série de baixas abóbadas, descemos, avançamos ainda, tornamos a descer e chegamos, afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas bruxuleassem, ao invés de arder normalmente.

    Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espaçosa. Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, até o alto das abóbadas, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três dos lados dessa cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido retirados e jaziam espalhados pelo chão, formando, num dos cantos, um monte de certa altura. Dentro da parede, que, com a remoção dos ossos, ficara exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia haver sido construída para qualquer uso determinado, mas constituir apenas um intervalo entre os dois enormes pilares que sustinham a cúpula das catacumbas, tendo por fundo uma das paredes circundantes de sólido granito.

    Foi em vão que Fortunato, erguendo sua vela bruxuleante, procurou divisar a profundidade daquele recinto. A luz, fraca, não nos permitia ver o fundo.

    – Continue – disse-lhe eu. – O Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi. . .

    – É um ignorante – interrompeu o meu amigo, enquanto avançava com passo vacilante, seguido imediatamente por mim.

    Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo o caminho interrompido pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento após, eu já o havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superfície, havia duas argolas de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espaço de cerca de dois pés. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lançar a corrente em torno de sua cintura, para prendê-lo, foi coisa de segundos. Ele estava demasiado atônito para oferecer qualquer resistência.

    Retirando a chave, recuei alguns passos.

    – Passe a mão pela parede – disse-lhe eu. – Não poderá deixar de sentir o salitre. Está, com efeito, muito úmida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe implore para voltar. Não? Então, positivamente, tenho de deixá-lo. Mas, primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obséquios ao meu alcance.

    – O Amontillado! – exclamou o meu amigo, que ainda não se refizera de seu assombro.

    – É verdade – respondi -, o Amontillado.

    E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que já me referi. Jogando-os para o lado, deparei logo com uma certa quantidade de pedras de construção e argamassa. Com este material e com a ajuda de minha colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho.

    Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O primeiro indício que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho. Não era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e obstinado silêncio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi, então, as furiosas sacudidas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ruído cessou, apanhei de novo a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrupção, a quinta, a sexta e a sétima fileiras. A parede me chegava, agora, até a altura do peito. Fiz uma nova pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca luz sobre a figura que se achava no interior.

    Uma sucessão de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para trás. Durante breve instante, hesitei… tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no interior do nicho; mas um momento de reflexão bastou para tranqüilizar-me. Coloquei a mão sobre a parede maciça da catacumba e senti-me satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em força. Fiz isso, e o que gritava acabou por silenciar.

    Já era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona e a décima fileiras. Havia terminado quase toda a décima primeira – e restava apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com grande esforço, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posição a que se destinava. Mas, então, saiu do nicho um riso abafado que me pôs os cabelos em pé. Seguiu-se-lhe uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia:

    – Ah! ah! ah! . . . eh! eh! eh! . . . Esta é uma boa piada… uma excelente piada! Vamos rir muito no palazzo por causa disso . . . ah! ah! ah! . . . por causa do nosso vinho… ah! ah! ah!

    – O Amontillado! – disse eu.

    – Ah! ah! ah! . . . sim, sim . . . o Amontillado. Mas não está ficando tarde? Não estarão nos esperando no palácio. . . a Sra. Fortunato e os outros? Vamos embora.

    – Sim – respondi -, vamos embora.

    – Pelo amor de Deus, Montresor!

    – Sim – respondi -, pelo amor de Deus!

    Mas esperei em vão qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me.

    Gritei, alto:

    – Fortunato!

    Nenhuma resposta.

    Tornei a gritar:

    – Fortunato!

    Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orifício que restava e deixei-a cair dentro do nicho. Chegou até mim, como resposta, apenas um tilintar de guizos. Senti o coração opresso, sem dúvida devido à umidade das catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esforço, coloquei em seu lugar a última pedra – e cobri-a com argamassa. De encontro à nova parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio século, mortal algum os perturbou.

    Edgar Allan Poe. Histórias Extraordinárias.

    Edgar Allan Poe | O poço e o pêndulo

    Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença – a terrível sentença de morte – foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a idéia de rotação, talvez devido à sua associação, em minha mente, com o ruído característico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi.

    Não obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras, e grotescamente finos – finos pela intensidade de sua expressão de firmeza, pela sua inflexível resolução, pelo severo desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim representava o destino saíam ainda daqueles lábios. Vi-os contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as sílabas de meu nome – e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos. Vi, também, durante alguns momentos de delírio e terror, a suave e quase imperceptível. ondulação das negras tapeçarias que cobriam as paredes da sala, e o meu olhar caiu então sobre as sete grandes velas que estavam em cima da mesa. A princípio, tiveram para mim o aspecto de uma claridade, e pareceram-me anjos brancos e esguios que deveriam salvar-me. Mas, de repente, uma náusea mortal invadiu-me a alma, e senti que cada fibra de meu corpo estremecia como se houvesse tocado os fios de uma bateria galvânica. As formas angélicas se converteram em inexpressivos espectros com cabeças de chama, e vi que não poderia esperar delas auxílio algum. Então, como magnífica nota musical, insinuou-se em minha imaginação a idéia do doce repouso que me aguardava no túmulo. Chegou suave, furtivamente – e penso que precisei de muito tempo para apreciá-la devidamente. Mas, no instante preciso em que meu espírito começava a sentir e alimentar essa idéia, as figuras dos juízes se dissiparam, como por arte de mágica, ante os meus olhos. As grandes velas reduziram-se a nada; suas chamas se apagaram por completo e sobreveio o negror das trevas; todas as sensações pareceram desaparecer como numa queda louca da alma até o Hades. E o universo transformou-se em noite, silêncio, imobilidade.

    Eu desmaiara; mas, não obstante, não posso dizer que houvesse perdido de todo a consciência. Não procurarei definir, nem descrever sequer, o que dela me restava. Nem tudo, porém, estava perdido. Em meio do mais profundo sono… não! Em meio do delírio… não! Em meio do desfalecimento. . . não! Em meio da morte… não! Nem mesmo na morte tudo está perdido. Do contrário, não haveria imortalidade para o homem. Quando despertamos do mais profundo sono, desfazemos as teias de aranha de algum sonho. E, não obstante, um segundo depois não nos lembramos de haver sonhado, por mais delicada que tenha sido a teia. Na volta a vida, depois do desmaio, há duas fases: o sentimento da existência moral ou espiritual e o da existência física. Parece provável que, se ao chegar à segunda fase tivéssemos de evocar as impressões da primeira, tornaríamos a encontrar todas as lembranças eloqüentes do abismo do outro mundo. E qual é esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras das do túmulo?

    Mas, se as impressões do que chamamos primeira fase não nos acodem de novo ao chamado da vontade, acaso não nos aparecem depois de longo intervalo, sem ser solicitadas, enquanto, maravilhados, perguntamos a nós mesmos de onde provêm? Quem nunca perdeu os sentidos não descobrirá jamais estranhos palácios e rostos singularmente familiares entre as chamas ardentes; não contemplará, flutuante no ar, as melancólicas visões que muitos talvez jamais contemplem; não meditará nunca sobre o perfume de alguma flor desconhecida, nem mergulhará no mistério de alguma melodia que jamais lhe chamou antes a atenção.

    Em meio de meus freqüentes e profundos esforços para recordar, em meio de minha luta tenaz para apreender algum vestígio desse estado de vácuo aparente em que minha alma mergulhara, houve breves, brevíssimos instan-tes em que julguei triunfar, momentos fugidios em que cheguei a reunir lembranças que, em ocasiões posteriores, meu raciocínio, lúcido, me afirmou não poderem referir-se senão a esse estado em que a consciência parece aniquilada. Essas sombras de lembranças apresentavam, indistintamente, grandes figuras que me carregavam, transportando-me, silenciosamente, para baixo… para baixo… ainda mais para baixo… até que uma vertigem horrível me oprimia, ante a idéia de que não tinha mais fim tal descida. Também me lembro de que despertavam um vago horror no fundo de meu coração, devido precisamente à tranqüilidade sobrenatural desse mesmo coração. Depois, o sentimento de uma súbita imobilidade em tudo o que me cercava, como se aqueles que me carregavam (espantosa comitiva!) ultrapassassem, em sua descida, os limites do ilimitado, e fizessem uma pausa, vencidos pelo cansaço de seu esforço. Depois disso, lembro-me de uma sensação de monotonia e de umidade. Depois, tudo é loucura – a loucura da memória que se agita entre coisas proibidas.

    Súbito, voltam à minha alma o movimento e o som – o movimento tumultuoso do coração e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que tudo é vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como uma sensação vibrante que penetra em meu ser. Logo após, a simples consciência da minha existência, sem pensamento – estado que durou muito tempo. Depois, de maneira extremamente súbita, o pensamento, e um trêmulo terror – o esforço enorme para compreender o meu verdadeiro estado. Logo após, vivo desejo de mergulhar na insensibilidade. Depois, um brusco renascer da alma e um esforço bem sucedido para mover-me. E, então, a lembrança completa do que acontecera, dos juízes, das tapeçarias negras, da sentença, da fraqueza, do desmaio. Esquecimento completo de tudo o que acontecera – e que somente mais tarde, graças aos mais vivos esforços, consegui recordar vagamente.

    Até então, não abrira ainda os olhos. Sentia que me achava deitado de costas, sem que estivesse atado. Estendi a mão e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei que ela lá ficasse durante muitos minutos, enquanto me esforçava por imaginar onde é que eu estava e o que é que poderia ter acontecido comigo. Desejava, mas não me atrevia a fazer uso dos olhos. Receava o primeiro olhar sobre as coisas que me cercavam. Não que me aterrorizasse contemplar coisas terríveis, mas tinha medo de que não houvesse nada para ver. Por fim, experimentando horrível desespero em meu coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. Envolviam-me as trevas da noite eterna. Esforcei-me por respirar. A intensidade da escuridão parecia oprimir-me, asfixiar-me. O ar era intoleravelmente pesado. Continuei ainda imóvel, e esforcei-me por fazer uso da razão. Lembrei-me dos procedimentos inquisitoriais e, partindo daí, procurei deduzir qual a minha situação real.

    A sentença fora proferida, e parecia-me que, desde então, transcorrera longo espaço de tempo. Não obstante, não imaginei um momento sequer que estivesse realmente morto. Tal suposição, pese o que lemos nos livros de fic-ção, é absolutamente incompatível com a existência real. Mas onde me encontrava e qual era o meu estado? Sabia que os condenados à morte pereciam, com freqüência, nos autos-de-fé – e um desses autos havia-se realizado na noite do dia em que eu fora julgado. Teria eu permanecido em meu calabouço, à espera do sacrifício seguinte, que não se realizaria senão dentro de muitos meses? Vi, imediatamente, que iss

    o não poderia ser. As vítimas eram exigidas sem cessar. Além disso, meu calabouço, bem como as celas de todos os candenados, em Toledo, tinha piso de pedra e a luz não era inteiramente excluída.

    De repente, uma idéia terrível acelerou violentamente o sangue em meu coração e, durante breve espaço, mergulhei de novo na insensibilidade. Ao recobrar os sentidos, pus-me logo de pé, a tremer convulsivamente. Alucinado, estendi os braços para o alto e em torno de mim, em todas as direções. Não senti nada. Não obstante, receava dar um passo, com medo de ver os meus movimentos impedidos pelos muros de um túmulo. O suor brotava-me de todos os poros e grossas gotas frias me salpicavam a testa. A angústia da incerteza tornou-se, por fim, insuportável e avancei com cautela, os braços estendidos, os olhos a saltar-me das órbitas, na esperança de descobrir algum tênue raio de luz. Dei muitos passos, mas, não obstante, tudo era treva e vácuo. Sentia a respiração mais livre. Parecia-me evidente que o meu destino não era, afinal de contas, o mais espantoso de todos.

    Continuei a avançar cautelosamente e, enquanto isso, me vieram à memória mil vagos rumores dos horrores de Toledo. Sobre calabouços, contavam-se coisas estranhas – fábulas, como eu sempre as considerara; coisas, contudo, estranhas, e demasiado horríveis para que a gente as narrasse a não ser num sussurro. Acaso fora eu ali deixado para morrer de fome naquele subterrâneo mundo de trevas, ou quem sabe um destino ainda mais terrível me aguardava? Conhecia demasiado bem o caráter de meus juízes para duvidar de que o resultado de tudo aquilo seria a morte, e uma morte mais amarga do que a habitual. Como seria ela e a hora de sua execução eram os únicos pensa-mentos que me ocupavam o espírito, causando-me angústia.

    Minhas mãos estendidas encontraram, afinal, um obstáculo sólido. Era uma parede que parecia de pedra, muito lisa, úmida e fria. Segui junto a ela, caminhando com a cautelosa desconfiança que certas narrações antigas me haviam inspirado. Porém, essa operação não me proporcionava meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; podia dar a volta e tornar ao ponto de partida sem perceber exatamente o lugar em que me encontrava, pois a parede me parecia perfeitamente uniforme. Por isso, procurei um canivete que tinha num dos bolsos quando fui levado ao tribunal, mas havia desaparecido. Minhas roupas tinham sido substituídas por uma vestimenta de sarja grosseira. A fim de identificar o ponto de partida, pensara em enfiar a lâmina em alguma minúscula fenda da parede. A dificuldade, apesar de tudo, não era insuperável, embora, em meio à desordem de meus pensamentos, me parecesse, a princípio, uma coisa insuperável. Rasguei uma tira da barra de minha roupa e coloquei-a ao comprido no chão. formando um ângulo reto com a parede. Percorrendo as palpadelas o caminho em torno de meu calabouço, ao terminar o circuito teria de encontrar o pedaço de fazenda. Foi, pelo menos, o que pensei; mas não levara em conta as dimensões do calabouço, nem a minha fraqueza. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleante, dei alguns passos, quando, de repente, tropecei e caí. Meu grande cansaço fez com que permanecesse caído e, naquela posição, o sono não tardou em apoderar-se de mim.

    Ao acordar e estender o braço, encontrei ao meu lado um pedaço de pão e um púcaro com água. Estava demasiado exausto para pensar em tais circunstâncias, e bebi e comi avidamente. Pouco depois, reiniciei minha viagem em torno do calabouço e, com muito esforço, consegui chegar ao pedaço de sarja. Até o momento em que caí, já havia contado cinqüenta e dois passos e, ao recomeçar a andar até chegar ao pedaço de pano, mais quarenta e oito. Portanto, havia ao todo cem passos e, supondo que dois deles fossem uma jarda, calculei em cerca de cinqüenta jardas a circunferência de meu calabouço. No entanto, deparara com numerosos ângulos na parede, e isso me impedia de conjeturar qual a forma da caverna, pois não havia dúvida alguma de que se tratava de uma caverna.

    Tais pesquisas não tinham objetivo algum e, certamente, eu não alimentava nenhuma esperança; mas uma vaga curiosidade me Ievava a continuá-las. Deixando a parede, resolvi atravessar a área de minha prisão. A princípio, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente revestido de material sólido, era traiçoeiro, devido ao limo. Por fim, ganhei coragem e não hesitei em pisar com firmeza, procurando seguir cm linha tão reta quanto possível. Avancei, dessa maneira, uns dez ou doze passos, quando o que restava da barra de minhas vestes se emaranhou em minhas pernas. Pisei num pedaço da fazenda e caí violentamente de bruços.

    Na confusão causada pela minha queda, não reparei imediatamente numa circunstância um tanto surpreendente, a qual, no entanto, decorridos alguns instantes, enquanto me encontrava ainda estirado, me chamou a atenção. Era que o meu queixo estava apoiado sobre o chão da prisão, mas os meus lábios e a parte superior de minha cabeça, embora me parecessem colocados numa posição menos elevada do que o queixo, não tocavam em nada. Por outro lado, minha testa parecia banhada por um vapor pegajoso, e um cheiro característico de cogumelos em decomposição me chegou às narinas. Estendi o braço para a frente e tive um estremecimento, ao verificar que caíra bem junto às bordas de um poço circular cuja circunferência, naturalmente, não me era possível verificar no momento. Apalpando os tijolos, pouco abaixo da boca do poço, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento aos seus ruídos, enquanto, na queda, batia de encontro às paredes do poço; por fim, ouvi um mergulho surdo na água, seguido de ecos fortes. No mesmo momento, ouvi um som que se assemelhava a um abrir e fechar de porta. acima de minha cabeça, enquanto um débil raio de luz irrompeu subitamente através da escuridão e se extinguiu de pronto.

    Percebi claramente a armadilha que me estava prepa-rada, e congratulei-me comigo mesmo pelo oportuno acidente que me fizera escapar de tal destino. Outro passo antes de minha queda, e o mundo jamais me veria de novo. E a morte de que escapara por pouco era daquelas que eu sempre considerara como fabulosas e frívolas nas narrações que diziam respeito à Inquisição. Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha entre a morte com as suas angústias físicas imediatas e a morte com os seus espantosos horrores morais. Eu estava destinado a esta última. Devido aos longos sofrimentos, meus nervos estavam à flor da pele, a ponto de tremer ao som de minha própria voz, de modo que era, sob todos os aspectos, uma vítima adequada para a espécie de tortura que me aguardava.

    Tremendo dos pés à cabeça, voltei, às apalpadelas, até a parede, resolvido antes a ali perecer do que a arrostar os terrores dos poços, que a minha imaginação agora pintava. em vários lugares do calabouço. Em outras condições de espírito, poderia ter tido a coragem de acabar de vez com a minha miséria, mergulhando num daqueles poços; mas eu era, então, o maior dos covardes. Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles poços: que a súbita extinção da vida não fazia parte dos planos de meus algozes.

    A agitação em que se debatia o meu espírito fez-me permanecer acordado durante longas horas; contudo, acabei por adormecer de novo. Ao acordar, encontrei ao meu lado, como antes, um pão e um púcaro com água. Consumia-me uma sede abrasadora, e esvaziei o recipiente de um gole só. A água devia conter alguma droga, pois, mal acabara de beber, tornei-me irresistivelmente sonolento. Invadiu-me profundo sono – um sono como o da morte. Quanto tempo aquilo durou, certamente, não posso dizer; mas, quando tornei a abrir os olhos, os objetos em torno eram visíveis. Um forte clarão cor de enxofre, cuja origem não pude a princípio determinar, permitia-me ver a extensão e o aspecto da prisão.

    Quanto ao seu tamanho, enganara-me completamente. A extensão das paredes, em toda a sua. volta, não passava. de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, tal fato me causou um mundo de preocupações inúteis. Inúteis, de fato, pois o que poderia ser menos importante, nas circunstâncias em que me encontrava, do que as simples dimensões de minha cela? Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus cálculos. Por fim, a verdade fez-se-me subitamente clara. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinqüenta e dois passos até o momento em que caí; devia estar, então, a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, havia quase completado toda a volta do calabouço. Nessa altura, adormeci e, ao despertar, devo ter voltado sobre meus próprios passos – supondo, assim, que o circuito do calabouço era quase o dobro do que realmente era. A confusão de espírito em que me encontrava impediu-me de notar que começara a volta seguindo a parede pela esquerda, e que a terminara seguindo-a para a direita.

    Enganara-me, também, quanto ao formato da cela. Ao seguir o meu caminho, deparara com muitos ângulos, o que me deu idéia de grande irregularidade, tão poderoso é o efeito da escuridão total sobre alguém que desperta do sono ou de um estado de torpor! Os ângulos não passavam de umas poucas reentrâncias, ou nichos, situadas em intervalos iguais. A forma geral da prisão era retangular. O que me parecera alvenaria, parecia-me, agora, ferro, ou algum outro metal, disposto em enormes pranchas, cujas suturas ou juntas produziam as depressões. Toda a superfície daquela construção metálica era revestida grosseiramente de vários emblemas horrorosos e repulsivos nascidos das superstições sepulcrais dos monges. Figuras de demônios de aspectos ameaçadores, com formas de esqueleto, bem como outras imagens ainda mais terríveis, enchiam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos de tais monstruosidades eram bastante nítidos, mas que as cores pareciam desbotadas e apagadas, como por efeito da umidade. Notei, então, que o piso era de pedra. Ao centro, abria-se o poço circular de cujas fauces eu escapara – mas era o único existente no calabouço.

    Vi tudo isso confusamente e com muito esforço, pois minha condição física mudara bastante durante o sono. Estava agora estendido de costas numa espécie de andaime de madeira muito baixo, ao qual me achava fortemente atado por uma longa tira de couro. Esta dava muitas voltas em torno de meus membros e de meu corpo, deixando apenas livre a minha cabeça e o meu braço esquerdo, de modo a permitir que eu, com muito esforço, me servisse do aumento que se achava sobre um prato de barro, colocado no chão. Vi, horrorizado, que o púcaro havia sido retirado, pois uma sede intolerável me consumia. Pareceu-me que a intenção de meus verdugos era exasperar essa sede, já que o alimento que o prato continha consistia de carne muita salgada.

    Levantei os olhos e examinei o teto de minha prisão. Tinha de nove a doze metros de altura e o material de sua construção assemelhava-se ao das paredes laterais. Chamou-me a atenção uma de suas figuras, bastante singular. Era a figura do Tempo, tal como é comumente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava algo que me pareceu ser, ao primeiro olhar, um imenso pêndulo, como esses que vemos nos relógios antigos. Havia alguma coisa, porém, na aparência desse objeto, que me fez olhá-lo com mais atenção.

    Enquanto a observava diretamente, olhando para cima, pois se achava colocada exatamente sobre minha cabeça, tive a impressão de que o pêndulo se movia. Um instante depois, vi que minha impressão se confirmava. Seu oscilar era curto e, por conseguinte, lento. Observei-o, durante alguns minutos, com certo receio, mas, principalmente, com espanto. Cansado, por fim, de observar o seu monótono movimento, voltei o olhar para outros objetos existentes na cela.

    Um ligeiro ruído atraiu-me a atenção e, olhando para o chão, vi que enormes ratos o atravessavam. Tinham saído do poço, que ficava a direita. bem diante de meus olhos. Enquanto os olhava, saíam do poço em grande número, apressadamente, com olhos vorazes, atraídos pelo cheiro da carne. Foi preciso muito esforço e atenção de minha parte para afugentá-los.

    Talvez houvesse transcorrido meia hora, ou mesmo uma hora – pois não me era possível perceber bem a passa-gem do tempo -, quando levantei de novo os olhos para o teto. O que então vi me deixou atônito, perplexo. O oscilar do pêndulo havia aumentado muito, chegando quase a uma jarda. Como conseqüência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que me perturbou, principal-mente, foi a idéia de que havia, imperceptivelmente, descido. Observei, então – tomado de um horror que bem se pode imaginar -, que a sua extremidade inferior era formada de uma lua crescente feita de aço brilhante, de cerca de um pé de comprimento de ponta a ponta. As pontas estavam voltadas pura cima e o fio inferior era, evidentemente, afiado como uma navalha. Também como uma navalha, parecia pesada e maciça, alargando-se, desde o fio, numa estrutura larga e sólida. Presa a cela havia um grosso cano de cobre, e tudo isso assobiava, ao mover-se no ar.

    Já não me era possível alimentar qualquer dúvida quanto à sorte que me reservara o terrível engenho monacal de torturas. Os agentes da Inquisição tinham conhecimento de que eu descobrira o poço – o poço cujos horrores haviam sido destinados a um herege tão temerário quanto eu -, o poço, imagem do inferno, considerado como a Última Tule de todos os seus castigos. Um simples acaso me impedira de cair no poço, e eu sabia que a surpresa, ou uma armadilha que levasse ao suplício constituíam uma parte importante de tudo o que havia de grotesco naqueles calabouços de morte. Ao que parecia, tendo fracassado a minha queda no poço, não fazia parte do plano demoníaco o meu lançamento no abismo e, assim, não havendo outra alternativa, aguardava-me uma forma mais suave de destruição. Mais suave! Em minha angústia, esbocei um sorriso ao pensar no emprego dessas palavras.

    Para que falar das longas, longas horas de horror mais do que mortal, durante as quais contei as rápidas oscilações do aço? Polegada a polegada, linha a linha, descia aos poucos, de um modo só perceptível a intervalos que para mim pareciam séculos. E cada vez descia mais, descia mais!…

    Passaram-se dias, talvez muitos dias, antes que chegasse a oscilar tão perto de mim a ponto de me ser possível sentir o ar acre que deslocava. Penetrava-me as narinas o cheiro do aço afiado. Rezei – cansando o céu com as minhas preces – para que a sua descida fosse mais rápida. Tomado de frenética loucura, esforcei-me para erguer o corpo e ir ao encontro daquela espantosa e oscilante cimitarra. Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma criança diante de um brinquedo raro.

    Seguiu-se outro intervalo de completa insensibilidade -um intervalo muito curto, pois, ao voltar de novo à vida, não me pareceu que o pêndulo houvesse descido de maneira perceptível. Mas é possível que haja decorrido muito tempo; sabia que existiam seres infernais que tomavam nota de meus desfalecimentos e podiam deter, à vontade, o movimento do pêndulo. Ao voltar a mim, senti um mal-estar é uma fraqueza indescritíveis, como se estivesse a morrer de inanição. Mesmo entre todas as angústias por que esta-va passando, a natureza humana ansiava por alimento. Com penoso esforço, estendi o braço esquerdo tanto quanto me permitiam as ataduras e apanhei um resto de comida que conseguira evitar que os ratos comessem. Ao levar um bocado à boca, passou-me pelo espírito um vago pensamento de alegria… de esperança. Não obstante, .que é que tinha com a ver com a esperança? Era, como digo, um pensamento vago – desses que ocorrem a todos com freqüência, mas que não se completam. Mas senti que era de alegria, de esperança. Como senti, também, que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em vão por completá-lo… por reconquistá-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado todas as Faculdades de meu espírito. Eu era um imbecil, um idiota.

    A oscilação do pêndulo se processava num plano que tormava um ângulo reto com o meu corpo. Vi que a lâmina fora colocada de modo a atravessar-me a região do coração. Rasgaria a ininha roupa, voltaria e repetiria a operação… de novo, de novo. Apesar da grande extensâo do espaço percorrido – uns trinta pés, mais ou menos – e da sibilante energia de sua oscilação, suficiente para partir ao meio aquelas próprias paredes de ferro, tudo o que podia fazer, durante vários minutos, seria apenas rasgar as minhas roupas. E, ao pensar nisso, detive-me. Não ousava ir além de tal reflexão. Insisti sobre ela com toda atenção, como se com essa insistência pudesse parar ali a descida da lâmina. Comecei a pensar no som que produziria ao passar pelas minhas róupas, bem como na estranha e arrepiante sensação que o rasgar de uma fazenda produz sobre os nervos. Pensei em todas essas coisas fazendo os dentes rangerem, de tão contraídos.

    Descia… cada vez descia mais a lâmina. Sentia um prazer frenético ao comparar sua velocidade de cima a baixo com a sua velocidade lateral. Para a direita… para a esquerda… num amplo oscilar… com o grito agudo de uma alma penada; para o meu coração, com o passo furtivo de um tigre! Eu ora ria, ora uivava, quando esta ou aquela idéia se tornava predominante.

    Sempre para baixo… certa e inevitavelmente! Movia-se, agora, a três polegadas do meu peito! Eu lutava violentamente, furiosamente. para livrar o braço esquerdo. Este estava livre apenas desde o cotovelo até a mão. Podia mover a mão, com grande esforço, apenas desde o prato, que haviam colocado ao meu lado, até a boca. Nada mais. Se houvesse podido romper as ligaduras acima do cotovelo, teria apanhado o pêndulo e tentado detê-lo. Mas isso seria o mesmo que tentar deter uma avalancha!

    Sempre mais baixo, incessantemente, inevitavelmente mais baixo! Arquejava e me debatia a cada vibração. Encolhia-me convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos seguiam as subidas e descidas da lâmina com a ansiedade do mais completo desespero; fechavam-se espasmodicamente a cada descida, como se a morte houvesse sido um alívio… oh, que alívio indizível! Não obstante, todos os meus nervos tremiam. à idéia de que bastaria que a máquina descesse um pouco mais para que aquele machado afiado e reluzente se precipitasse sobre o meu peito. Era a esperança que fazia com que meus nervos estremecessem, com que todo o meu corpo se encolhesse. Era a esperança – a esperança que triunfa mesmo sobre o suplício -, a que sussurrava aos ouvidos dos condenados à morte, mesmo nos calabouços da Inquisição.

    Vi que mais umas dez ou doze oscilações poriam o aço em contato imediato com as minhas roupas e, com essa observação, invadiu-me o espírito toda a calma condensada e viva do desespero. Pela primeira vez durante muitas horas – ou, talvez dias – consegui pensar. Ocorreu-me, então, que a tira ou correia que me envolvia o corpo era inteiriça. Não estava amarrada por meio de cordas isoladas.

    O primeiro golpe da lâmina em forma. de meia lua sobre qualquer lugar da correia a desataria, de modo a permitir que minha mão a desenrolasse de meu corpo. Mas como era terrível, nesse caso, a sua proximidade. O resultado do mais leve movimento, de minha parte, seria mortal! Por outro lado, acaso os sequazes do verdugo não teriam previsto e impedido tal possibilidade? E seria provável que a correia que me atava atravessasse o meu peito justamente no lugar em. que o pêndulo passaria? Temendo ver frustrada essa minha fraca e, ao que parecia, última esperança, levantei a cabeça o bastante par ver bem o meu peito. A correia, envolvia-me os membros e o corpo fortemente em todas as direções, menos no lugar em que deveria passar a lâmina assassina.

    Mal deixei cair a cabeça em sua posição anterior, quando senti brilhar em meu espírito algo que só poderia descrever proximadamente, dizendo que era como que a metade não formada da idéia de liberdade a que aludi anteriormente, e da qual apenas uma parte flutuou vaga-mente em meu espírito quando levei o alimento aos meus lábios febris. Agora, todo o pensamento estava ali presente – débil, quase insensato, quase indefinido -, mas, de qualquer maneira, completo. Procurei imediatamente, com toda a energia nervosa do desespero, pô-lo em execução.

    Havia várias horas, um número enorme de ratos se agitava junto do catre em que me achava estendido. Eram temerários, ousados, vorazes; fitavam sobre mim os olhos vermelhos, como se esperassem apenas minha imobilidade para fazer-me sua presa. “A que espécie de alimento”, pensei, “estão eles habituados no poço?” Haviam devorado, apesar de todos os meus esforços para o impedir, quase tudo o alimento que se encontrava no prato, salvo uma pequena parte. Minha mão se acostumara a um movimento oscilatório sobre o prato e, no fim, a uniformidade inconsciente de tal movimento deixou de produzir efeito. Em sua veracidade, cravavam freqüentemente em meus dedos os dentes agudos. Com o resto da carne oleosa e picante que ainda sobrava. esfreguei fortemente, até o ponto em que podia alcançá-la, a correia com que me haviam atado. Depois, erguendo a mão do chão, permaneci imóvel, quase sem respirar.

    A princípio, os vorazes animais ficaram surpresos c aterrorizados com a mudança verificada – com a cessação de qualquer movimento. Mas isso apenas durante um momento. Não fora em vão que eu contara com a sua voracidade. Vendo que eu permanecia imóvel, dois ou três dos mais ousados soltaram sobre o catre e puseram-se a cheirar a correia. Dir-se-ia que isso foi o sinal para a investida geral. Vindos da parede, arremeteram em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam. as centenas sobre o meu corpo. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se à correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se sobre meu pescoço; seus focinhos, frios. procuravam meus lábios. Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual não existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade, o coração. Mais um minuto, e percebia que a operação estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que, em mais de um lugar, já devia estar completamente partida. Com uma determinação sobre-humana continuei imóvel.

    Não errei em meus cálculos; todos esses sofrimentos não foram em vão. Senti, afinal, que estava livre. A correia pendia, em pedaços, de meu corpo. Mas o movimento do pêndulo já se realizava sobre o meu peito. Tanto a sarja da minha roupa, como a camisa que vestia já haviam sido cortadas. O pêndulo oscilou ainda por duas vezes, e uma dor aguda me penetrou todos os nervos. Mas chegara o momento da salvação. A um gesto de minha mão, meus libertadores fugiram tumultuosamente. Com um movimento decidido, mas cauteloso, deslizei encolhido, lentamente, para o lado, livrando-me das correias e da lâmina da cimi-tarra. Pelo menos naquele momento, estava livre.

    Livre! E nas garras da Inquisição! Mal havia escapado daquele meu leito de horror e dado uns passos pelo piso de pedra da prisão, quando cessou o movimento da má-quina infernal e eu a vi subir, como que atraída por alguma força invisível, para o teto. Aquela foi uma lição que guardei desesperadamente no coração. Não havia dúvida de que os meus menores gestos eram observados. Livre! Escapara por pouco à morte numa determinada forma de agonia, apenas para ser entregue a uma outra, pior do que a morte. Com este pensamento, volvi os olhos, nervosa

    mente, para as paredes de ferro que me cercavam. Algo estranho – uma mudança que, a princípio, não pude apreciar claramente – havia ocorrido, evidentemente, em minha cela. Durante muitos minutos de trêmula abstração, perdi-me em conjeturas vãs e incoerentes. Pela primeira vez percebi a origem da luz sulfurosa que alumiava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura, que se estendia em torno do calabouço, junto a base das paredes, que pareciam, assim, e, na verdade estavam, completamente separadas do solo. Procurei, inutilmente, olhar através dessa abertura.

    Ao levantar-me, depois dessa tentativa, o mistério da modificação verificada tornou-se-me, subitamente, claro. Já observara que, embora os contornos dos desenhos das paredes fossem bastante nítidos, suas cores, não obstante, pareciam apagadas e indefinidas. Essas cores, agora, haviam adquirido, e estavam ainda adquirindo, um brilho intenso e surpreendente, que dava às imagens fantásticas e diabólicas um aspecto que teria arrepiado nervos mais firmes do que os meus. Olhos demoníacos, de uma vivacidade sinistra e feroz, cravavam-se em mim de todos os lados, de lugares onde antes nenhum deles era visível, com um brilho ameaçador que eu, em vão, procurei considerar como irreal.

    Irreal! Bastava-me respirar para que me chegasse às narinas o vapor de ferros em brasa! Um cheiro sufocante invadia a prisão! Um brilho cada vez mais profundo se fixava nos olhos cravados em minha agonia! Um vermelho mais vivo estendia-se sobre aquelas pinturas horrorosas e sangrentas. Eu arquejava. Respirava com dificuldade. Não poderia haver dúvida quanto à intenção de meus verdugos, os mais implacáveis, os mais demoníacos de todos os ho-mens! Afastei-me do metal incandescente,colocando-me ao centro da cela. Ante a perspectiva da morte pelo fogo,que me aguardava, a idéia da frescura do poço chegou à minha alma como um bálsamo. Precipitei-me para as suas bordas mortais. Lancei o olhar para o fundo. O resplendor da abóbada iluminava as suas cavidades mais profundas. Não obstante, durante um minuto de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado daquilo que eu via. Por fim, aquilo penetrou, à força, em minha alma, gravando-se a fogo em minha trêmula razão. Oh, indescritível! Oh, horror dos horrores! Com um grito, afastei-me do poço e afundei o rosto nas mãos, a soluçar amargamente.

    O calor aumentava rapidamente e, mais uma vez, olhei para cima, sentindo um calafrio. Operara-se uma grande mudança na cela – e, dessa vez, a mudança era, evidentemente, de forma. Como acontecera antes, procurei inutilmente apreciar ou compreender o que ocorria. Mas não me deixaram muito tempo em dúvida. A vingança da Inquisição se exacerbara por eu a haver frustrado por duas vezes – e não mais permitiria que zombasse dela! A cela, antes, era quadrada. Notava, agora, que dois de seus ângulos de ferro eram agudos, sendo os dois outros, por conseguinte, obtusos. Com um ruído surdo, gemente, aumentava rapidamente o terrível contraste. Num instante, a cela adquirira a forma de um losango. Mas a modificação não parou aí – nem eu esperava ou desejava que parasse. Poderia haver apertado as paredes incandescentes de encontro ao peito, como se fossem uma vestimenta de eterna paz. “A morte”, disse de mim para comigo. “Qualquer morte, menos a do poço!” Insensato! Como não pude compreender que era para o poço que o ferro em brasa me conduzia? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse, suporturia sua pressão? E cada vez o losango se aproximava mais, com uma rapidez que não me deixava tempo para pensar. Seu centro e, naturalmente, a sua parte mais larga chegaram até bem junto do abismo aberto. Recuei, mas as paredes, que avançavam, me empurravam, irresistivelmente, para a frente. Por fim, já não existia, para o meu corpo chamuscado e contorcido, senão um exíguo lugar para firmar os pés, no solo da prisão. Deixei de lutar, mas a angústia de minha alma se extravasou em forte e prolongado grito de desespero. Senti que vacilava à boca do poço, e desviei os olhos… Mas ouvi, então, um ruído confuso de vozes humanas! O som vibrante de muitas trombetas! E um rugido poderoso, como de mil trovões, atroou os ares! As paredes de fogo recuaram precipitadamente! Um braço estendido agarrou o meu, quando eu, já quase desfalecido, caía no abismo. Era o braço do General Lassalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição estava nas mãos de seus inimigos.

    Edgar Allan Poe

    H.P. Lovecraft | O Festival


    Efficiut Daemones, ut quae non sunt, sic tamen quasi sint, conspicienda bominibus exhibeant.

    Lactantius

    EU ESTAVA LONGE de casa, e o feitiço do mar oriental havia caído sobre mim. Ao crepúsculo, eu o ouvia batendo nas rochas e sabia que ele ficava logo depois do monte onde os salgueiros se contorciam contra o céu claro e as primeiras estrelas da noite. E como meus pais haviam me chamado para a velha cidade mais adiante, atravessei a neve rasa e necém-caída ao longo da estrada que subia até onde Aldebarã bailava por entre as árvores; na direção da cidade muito antiga, que eu nunca tinha visto, mas com a qual várias vezes sonhara.

    Era o Yuletide, que os homens chamam de Natal, embora saibam em seus corações que é mais antigo que Belém e a Babilônia, mais velho que Mênfis e a Humanidade. Era o Yuletide, e eu havia vindo finalmente à antiga cidade costeira onde minha gente havia habitado e mantido a festividade mesmo nos velhos tempos, quando ela era proibida; onde eles também haviam instruído seus filhos a manterem o festival uma vez a cada século, para que a memória dos segredos primais não fosse esquecida. Minha gente era antiga, e já eram antigos mesmo quando esta terra foi colonizada, três séculos atrás. E eles eram estranhos, porque tinham vindo como um povo furtivo e obscuro dos jardins de papoulas narcóticas do sul, e falavam outra língua antes de aprenderem a língua dos pescadores de olhos azuis. E eles estavam dispersos, e compartilhavam apenas os rituais de mistérios que nenhum vivente poderia entender. Eu era o único que tinha voltado aquela noite à velha cidade pesqueira, como rezava a lenda que apenas os pobres e solitários lembravam.

    Então, além do cume da colina, vi Kingsport com seus moinhos e campanários, telhados e chaminés, cais e pequenas pontes, salgueiros e cemitérios; intermináveis labirintos de ruas íngremes, estreitas e tortas, vertiginosas torres de igrejas que o tempo não ousou tocar; uma confusão incessante de casas coloniais amontoadas e espalhadas em todos os ângulos e níveis como os blocos desordenados dos folguedos de ulna criança; antigüidades pairando com asas cinzentas abertas em telhados duplos embranquecidos pelo inverno; janelas cortinadas, uma a uma piscando na escuridão fria para se juntar a Orion e as estrelas arcaicas. E contra os cais apodrecidos o mar se chocava; o mar, imemorial e cheio de segredos, do qual as pessoas tinham vindo nos tempos antigos.

    Ao lado do topo da rua, uma elevação ainda mais alta começava, desolada e exposta ao vento, e vi que era um campo santo, onde lápides negras fincavam-se fantasmagoricamente através da neve, como as unhas apodrecidas do cadáver de um gigante. A rua era vazia e solitária, e às vezes eu pensava ouvir, no vento, um horrível e distante gemido, como um enforcamento. Eles haviam enforcado quatro parentes meus por bruxaria em 1692, mas eu não sabia exatamente onde.

    No cruzamento da rua com a ladeira voltada para o mar, fiquei atento aos sons alegres de um entardecer de aldeia, mas não os escutei. Então lembrei da época, e achei que esse velho povo puritano possivelmente tinha costumes natalinos estranhos a mim, cheios de orações silenciosas. Então, depois que eu não ouvi sons alegres nem vi peregrinos, fiquei observando as casas silenciosamente iluminadas, e os muros sombrios de pedras, onde as placas de velhas lojas e tavernas batiam à brisa salgada, e as aidravas grotescas penduradas nas portas cintilavam ao longo das ruas sem pavimento, à luz de pequenas janelas cortinadas.

    Eu havia visto mapas da cidade, e sabia onde encontrar a casa da minha gente. Foi dito que eu seria reconhecido e bem-vindo, pelas velhas tradições da aldeia; então me apressei pela Back Street até a Cicle Court, e atravessei a neve fresca sobre toda a laje que pavimentava a cidade, até onde a Green Lane levava aos fundos da Market House. Os velhos mapas ainda serviam bem, e eu não tive nenhum problema; embora em Arkham, devem ter mentido quando disseram que passavam bondes por ali, já que não vi um único fio no alto. A neve teria coberto os trilhos, de qualquer modo. Estava satisfeito por ter preferido andar, pois a aldeia branca tinha parecido muito bonita da colina; e agora eu estava ansioso em bater à porta da minha gente, a sétima casa à esquerda na Green Lane, com um antigo telhado pontudo e segundo andar ressaltado, tudo construído antes del650.

    Havia luzes dentro da casa quando me dirigi a ela, e vi pelas janelas de grades cruzadas que deveria estar muito próxima de seu estado antigo. A parte superior sobressaia à rua estreita e coberta de grama e quase encontrava a parte que sobressaia da casa em frente, de forma que me encontrava quase num túnel, com o degrau de pedra da porta totalmente coberto de neve. Não havia calçada, mas muitas casas tinham portas altas que eram alcançadas por degraus duplos com corrimãos de ferro. Era uma cena estranha, e como eu era um estranho à Nova Inglaterra, nunca havia visto algo assim antes. Embora isso tenha me agradado, eu teria saboreado melhor se houvesse pegadas na neve, pessoas nas ruas e algumas janelas fechadas sem cortinas.

    Quando sondei a antiga aldrava de ferro, fiquei com um pouco de medo. Algum temor havia se acumulado em mim, talvez por causa da estranheza da minha herança, a falta de movimento e o silêncio estranho da manhã naquela velha cidade de costumes bizarros. E quando minha batida foi respondida, fiquei completamente amedrontado, porque não havia ouvido nenhum passo antes da porta abrir com um rangido. Mas não fiquei com medo por muito tempo, pois o homem idoso de pijama e chinelos na entrada tinha um rosto brando que me tranqüilizou; e apesar de ter feito sinais de que era surdo, escreveu uma curiosa e antiga saudação com o estilete e a tabuleta de cera que carregava.

    Acenou para que o seguisse até uma sala baixa, iluminada por velas, com caibros expostos e móveis escuros, rijos e esparsos, do século XVII. O passado estava vivo ali, nenhum atributo tinha sido perdido. Havia uma lareira cavernosa e uma máquina de fiar próxima na qual uma mulher idosa, usando um manto e uma touca comprida, sentava-se na minha direção, fiando silenciosamente, apesar da época festiva. Um desalento indefinido parecia pairar sobre o lugar, e eu estava bestificado pelo fogo não estar aceso. O quarto em frente às janelas cortinadas parecia estar ocupado, embora eu não tivesse certeza. Eu não gostei de tudo o que vi, e senti o temor novamente. Este temor ficou mais forte do que estava antes de ser abrandado. Quanto mais olhava para o rosto brando do velho, mais a sua brandura excessiva me aterrorizava. Os olhos nunca se moviam, e a pele assemelhava-se à cera. Finalmente fiquei convencido de que não era realmente um rosto, mas uma habilidosa máscara demoníaca. Suas mãos fantásticas, curiosamente enluvadas, escreveram na tabuleta com impressionante habilidade e me disseram que eu deveria esperar um pouco para ser levado ao local da festividade.

    Apontando uma cadeira, uma mesa e uma pilha de livros, o velho agora deixou a sala; e quando me sentei para ler, vi que os livros estavam esbranquiçados e bolorentos, e que incluíam o velho Maravilhas da Ciência, de Morryster, o terrível Saducismus Triumpharus, de Joseph Glanvil, publicado em 1681, o chocante Daemonolarreia, de Remigius, impresso em 1681 em Lyons, e o pior de todos, o impronunciável Necronomicon, do árabe louco Abdul Al-hazred, na tradução latina proibida de Olaus Wormius; um livro que eu nunca tinha visto, mas do qual ouvira sussurrarem coisas monstruosas. Ninguém falou comigo, mas eu podia ouvir o bater das placas ao vento no lado de fora, e o zumbido da máquina de fiar enquanto a velha de touca continuava silenciosamente a fiar e fiar. Achei a sala, os livros e as pessoas, muito mórbidas e inquietantes, mas por causa de uma velha tradição de festividades estranhas que meus pais tinham me intimado a seguir, resolvi esperar coisas esquisitas. Então tentei ler, e logo comecei a tremer, absorvido por algo que descobri ser o malfadado Necronomicon, um pensamento e uma lenda muito hedionda para sanidade ou consciência, mas eu me distraí dele quando supus ouvir o fechar de uma das janelas que ficava em frente à lareira, como se ela tivesse sido aberta furtivamente. Pareceu seguir-se um zumbido que não era da máquina de fiar da velha. Não pude ouvir bem, no entanto, pois a velha estava fiando vigorosamente, e o relógio antigo soara as horas. Depois disso, perdi a sensação de que haviam pessoas no local, e estava lendo intensa e tremulante quando o velho voltou, calçado de botas e vestido numa roupa folgada antiga, e sentou no mesmo banco, de forma que eu não podia vê-lo. Era certamente uma espera nervosa, e o livro blasfemo nas minhas mãos a fazia duas vezes maior. Quando soaram onze horas, entretanto, o velho se levantou, deslizou até uma arca maciça esculpida que estava a um canto, e pegou dois mantos encapuzados; um dos quais colocou, e com o outro cobriu a velha, que tinha parado seu fiar monótono. Então os dois se dirigiram à porta exterior; a mulher se arrastou, coxeando, e o velho, depois de pegar o mesmo livro que eu estava lendo, acenou para mim enquanto colocava o capuz sobre o rosto imóvel ou máscara.

    Saímos para as ruas tortuosas e escuras daquela cidade incrivelmente antiga; saímos enquanto as luzes nas janelas cortinadas desapareciam uma a uma, e a estrela do Cão espreitava a turba de figuras cobertas e encapuzadas que safam silenciosamente de cada porta e formavam uma procissão monstruosa rua acima, passando pelas placas ruidosas, pelos frontões antediluvianos, pelos telhados emaranhados e pelas janelas de grades cruzadas; atravessando ruas precipituosas, onde casas decadentes cobriam-se e desagregavam-se, deslizando por pátios abertos e cemitérios de igrejas, onde postes de luz faziam as constelações parecerem medonhamente bêbadas.

    Em meio à multidão, segui meus dois guias silenciosos; empurrado por cotovelos que pareciam extraordinariamente macios, e pressionado por peitos e estômagos que pareciam anormalmente felpudos; mas sem nunca ver um rosto e nunca ouvir uma palavra. Em frente, as colunas sinistras se arrastavam, e eu vi que todos os peregrinos convergiam a uma espécie de povo de becos loucos no topo de uma colina alta no centro da cidade, onde se elevava uma grande igreja branca. Eu a tinha visto do alto da estrada quando olhei a noite caindo em Kingsport, e ela me tinha feito tremer, porque Aldebara havia parecido balançar-se por um momento na torre fantasmagórica.

    Havia um espaço aberto ao redor da igreja; uma parte era um cemitério com lápides espectrais, e a outra era uma quadra semipavimentada, que tinha sido praticamente toda varrida da neve pelo vento, e enfileirada com casas antigas e mal-conservadas, com telhados pontudos e frontões protuberantes. Fogos-fátuos dançavam sobre as tumbas, revelando alamedas repugnantes, embora estranhamente não fizessem sombra. Depois do cemitério, onde não havia casas, podia ver acima do cume da colina e observar o cintilar das estrelas no porto, pois a cidade era invisível no escuro. Vez por outra, uma lanterna meneava horrivelmente através de becos tortuosos, em seu caminho para juntar-se à turba, que agora estava entrando furtiva e silenciosamente na igreja. Eu esperei até que a multidão houvesse penetrado pela porta negra, e até que todos os que ali se acotovelavam os tivessem seguido. O velho estava puxando minha manga, mas eu estava determinado a ser o último. Atravessando a soleira em direção ao templo de escuridão desconhecida e cheio como uma colméia, virei-me uma vez para olhar o mundo exterior, onde uma fosforescência no cemitério fazia um brilho doentio no pavimento da colina, e ao fazer isso, estremeci. Pois embora o vento não houvesse deixado muita neve, tinham sobrado umas poucas porções no terreno perto da porta; e naquela olhada para trás, pareceu aos meus olhos confusos que não havia nenhuma marca de pegadas, nem mesmo as minhas.

    A igreja estava escassamente iluminada por todas as lanternas que haviam sido trazidas pelos fiéis, e a maior parte da turba já havia desaparecido. Eles tinham afluído para a nave entre os bancos altos e as portas sem retorno das criptas, que se abriram repulsiva e largamente, logo depois do púlpito, e estavam agora se contorcendo ruidosamente. Eu segui, calado, os degraus gastos até a cripta escura e sufocante. O séquito daquela fila silenciosa em marcha noturna me parecia muito horrível, e eu os vi movendo-se sinuosamente ao interior de uma tumba de veneração que parecia mais horrível ainda. Então notei que o chão da tumba tinha uma fresta na qual a multidão se esgueirava, e em um momento, todos nós estávamos descendo uma escadaria agourenta de pedra bruta cortada; uma escadaria em espiral estreita, úmida e peculiarmente perfumada, que perfurava interminavelmente em direção às entranhas da colina, passando por paredes monótonas de blocos de pedras gotejantes e argamassa esmigalhada. Foi uma descida traumatizante e silenciosa, e depois de um intervalo horrível, percebi que as paredes e degraus estavam mudando sua natureza, como se fossem cinzeladas da rocha sólida. O que me perturbou principalmente foi que as miríades de passos não faziam sons e não produziam ecos. Depois de uma descida que parecia durar eras, vi algumas passagens laterais ou covas, que conduziam de recantos desconhecidos de escuridão a esta trilha de mistério noturno. Logo elas ficaram excessivamente numerosas, como catacumbas ímpias de ameaças inomináveis; e seu odor pungente de decadência aumentava quase insuportavelmente. Eu sabia que nós devíamos ter atravessado a montanha e estávamos agora abaixo da própria Kingsport, e eu estremeci ao pensar que uma cidade poderia ser tão velha e possuir subterrâneos tão diabólicos.

    Então vi o bruxulear lívido de uma luz pálida, e ouvi o marulho insidioso de águas escuras. Novamente estremeci, porque eu não havia gostado das coisas que a noite tinha trazido, e desejava amargamente que nenhum antepassado tivesse me obrigado a este rito primitivo. À medida que os degraus e a passagem ficavam mais largos, eu ouvi outro som, o lamento agudo de uma flauta débil; e de repente surgiu na minha frente a paisagem ampla de um mundo interior: uma costa fungosa e vasta, iluminada por uma coluna que vomitava uma doentia chama esverdeada, e banhada por um largo rio oleoso que fluía dos abismos assustadores e desconhecidos para se juntar à baía negra do oceano antiqüíssimo.

    Ofegando, à beira de desmaiar, olhei para o jardim profano de imensos cogumelos, fogo leproso e água viscosa, e vi a turba encapada formando um semicírculo ao redor do pilar em chamas Era o rito do Yule, mais antigo do que o Homem, e fadado a sobreviver a ele; o rito primitivo do solstício e a promessa de primavera após a neve; o rito do fogo e das plantações, luz e música. E nas grutas estígias, eu os vi fazer o rito, adorar o pilar doentio de chamas, e atirar na água punhados da vegetação que reluziam verdes ao brilho clórico. Vi isso e algo agachado amorficamente, distante da luz, tocando ruidosamente uma flauta; e enquanto a coisa tocava, pensei ouvir sibilos nocivos e abafados na escuridão inimiga onde eu não podia ver. Mas o que mais me aterrorizou foi a coluna de chamas; brotando vulcanicamente das profundezas inconcebíveis, sem produzir nenhuma sombra, como uma chama deveria fazer, e agasalhando a rocha nitrosa com um azinhavre sórdido e venenoso. Toda aquela combustão fervente não fazia nenhum calor, mas apenas umidade de morte e decomposição.

    O homem que tinha me trazido agora até um ponto diretamente ao lado da chama odienta, fez passes cerimoniais rígidos para o semicírculo, à sua frente. Em certos estágios do ritual, faziam reverências em que tinham de se agachar, especialmente quando ele segurou acima de sua cabeça aquele detestável Necronomicon que trouxera consigo; e eu compartilhei todas as reverências, porque eu tinha sido convocado a este festival pelos escritos de meus ancestrais. Então o velho fez um sinal ao flautista semi-oculto nas trevas, cujo toque logo mudou de um zumbido fraco para um zumbido escasso mais alto em outra escala; precipitando um horror inimaginável e inesperado. Com tal horror, quase afundei na terra coberta de liquens, trespassado por um temor que não pertencia a este ou a nenhum outro mundo, mas apenas aos espaços enlouquecedores entre as estrelas.

    Vindas da inimaginável escuridão além do fulgor gangrenoso da chama fria, das léguas tartáricas pelas quais o rio oleoso corria sobrenatural, oculta e obscuramente surgiu uma horda de seres alados e híbridos domesticados, que nenhum olho são jamais poderia captar ou nenhum cérebro normal jamais poderia recordar, batendo ritmicamente suas asas. Eles não eram propriamente nem toupeiras, nem abutres, nem formigas, nem morcegos vampiros, nem seres humanos decompostos, mas alguma coisa que eu não posso e não devo recordar. Eles sacudiam um pouco seus pés cobertos de teias e um pouco suas asas membranosas; e quando alcançaram a turba de celebrantes, as figuras cobertas as pegaram e montaram, e saíram, uma a uma, cavalgando ao longo da extensão daquele rio mal-iluminado, em direção a poços e galerias de pânico onde nascentes venenosas mantinham cataratas ocultas.

    A velha fiandeira tinha ido com a turba, e o velho só ficara porque eu tinha recusado quando ele tentou me motivar a pegar um animal e cavalgá-lo como o resto. Eu vi, quando cambaleei sobre meus pés, que o flautista amorfo havia desaparecido, mas aqueles dois monstros estavam esperando pacientemente. Quando recuperei o equilíbrio, o velho tirou seu estilete e a tabuleta e escreveu que ele era o representante dos meus ancestrais que tinham fundado o culto do Yale neste local antigo; que tinha sido decretado que eu voltaria, e que os mistérios mais secretos ainda estavam para ser apresentados. Ele escreveu isso com mão muito velha, e como eu ainda hesitava, puxou de sua túnica folgada um anel e um relógio, ambos com os símbolos da minha família, para provar que ele era o que dizia ser. Mas era uma prova revoltante, porque eu sabia por papéis velhos, que o relógio tinha sido enterrado com meu tatatataravo em 1698.

    Em seguida, o velho tirou o capuz e apontou para a semelhança da família em seu rosto, mas eu apenas estremeci, porque estava certo de que aquele rosto era apenas uma máscara demoníaca. Os animais alados estavam agora arranhando impacientemente os liquens, e eu vi que o velho estava ele mesmo quase impaciente. Quando uma das coisas começou a se mexer para ir embora, ele se virou rapidamente para detê-la; então seu movimento repentino desalojou a máscara de cera de que outrora deve ter sido sua cabeça. E então, porque aquela posição de pesadelo me barrava à escada de pedra de onde tínhamos vindo, eu me joguei no rio oleoso que borbulhava de algum lugar das cavernas até o mar; me joguei naquele suco putrefato dos horrores do interior da Terra, antes que a loucura de meus gritos trouxesse toda aquela legião mortuária que esses abismos pestilentos ocultavam.

    No hospital, disseram-me que eu havia sido encontrado semicongelado no porto de Kingsport ao alvorecer, agarrado ao tronco flutuante que o acaso mandou para me salvar. Eles me disseram que eu tinha pego a bifurcação errada na estrada da colina na noite anterior e caído dos penhascos no Ponto Laranja; uma coisa que deduziram das pegadas encontradas na neve. Não havia nada que eu pudesse dizer, porque tudo estava errado. Tudo estava errado, com as janelas largas mostrando um mar de telhados nos quais apenas um em cinco era antigo, e o som de bondes e motores nas ruas abaixo. Eles insistiram que esta era Kingsport, e eu não podia negar. Quando fiquei delirante ao ouvir que o hospital ficava perto do velho cemitério da igreja na colina central, eles me mandaram ao Hospital Santa Maria, em Arkham, onde eu poderia ser mais bem tratado. Gostei de lá, pois os médicos tinham mentes abertas, e até me emprestaram sua influência para obter a cópia cuidadosamente guardada de contestáveis Necronomicon de Al-hazred, da biblioteca da Universidade de Miskatonic. Eles disseram alguma coisa sobre uma “psicose”, e concordei que eu deveria tirar todas as obsessões mórbidas de minha mente.

    Lendo o hediondo capítulo, estremeci duplamente porque não era realmente novo para mim. Eu o tinha visto antes, deixe as pegadas dizerem o que eles quiserem; e seria melhor esquecer onde eu o tinha visto. Não havia ninguém – nas horas diurnas – que poderia me lembrar disso; mas meus sonhos eram cheios de terror, devido às frases que não devo citar. Ouso citar apenas um parágrafo, traduzido em nossa língua como posso, do estranho Baixo Latim.

    As cavernas mais inferiores, escreveu o árabe louco, não são para a compreensão dos olhos que vêem; pois suas maravilhas são estranhas e terríveis. Amaldiçoado o chão onde pensamentos mortos.

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