Carlos Drummond de Andrade

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    Carlos Drummond de Andrade | Poema Sobre uma Noite de Amor

    'Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem.

    A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, 
    quando, sorrateiramente, te aproximaste. 

    Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! 
    Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.

    Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.

    Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. 
    Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força.
    Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. 
    Só descansarei quando vir sair o sangue quente do teu corpo.

    Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito Filho da Puta! 


    Carlos Drummond de Andrade | O Amor Natural

    Guardados durante anos, os poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade estão reunidos nesta excepcional colectânea.

    O Amor Natural é uma obra inquietante, pois revela uma face nova, mais despojada, porém extremamente fascinante, do poeta. São textos repletos de vida e sensualidade, onde o autor se introverte ao mesmo tempo em que se expõe, desbravando o corpo enquanto busca, na fluidez e sensualidade da linguagem, a própria nudez da alma.


    Quase todos os poemas encontrados aqui são inéditos, à exceção de uns poucos publicados em revistas eróticas durante a década de setenta. Apesar de muitos deles terem servido de base para uma tese sobre o erotismo drummondiano, o autor optou por guardá-los em segredo, confiando aos seus herdeiros a tarefa de publicá-los após a sua morte.

    Embora o senso de humor e a leveza — traços marcantes do estilo do autor — estejam presentes em toda a obra, o elemento mais forte é, sem dúvida, a paixão, a sensualidade à flor da palavra.

    Como define Affonso Romano de Sant’Anna, as palavras às vezes copulam semanticamente, e o que encontramos nestas páginas é o êxtase poético de um autor que, ao mergulhar fundo nas suas próprias sensações, desnuda também o leitor, que se vê frente a frente com as suas próprias contradições ao pensar nos limites entre o erótico e o pornográfico, o sexo e o amor.


    AMOR — POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL

    Amor — pois que é palavra essencial
    comece esta canção e toda a envolva.
    Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
    reúna alma e desejo, membro e vulva.

    Quem ousará dizer que ele é só alma?
    Quem não sente no corpo a alma expandir-se
    até desabrochar em puro grito
    de orgasmo, num instante de infinito?
    O corpo noutro corpo entrelaçado,
    fundido, dissolvido, volta à origem
    dos seres, que Platão viu contemplados:
    é um, perfeito em dois; são dois em um.

    Integração na cama ou já no cosmo?
    Onde termina o quarto e chega aos astros?
    Que força em nossos flancos nos transporta
    a essa extrema região, etérea, eterna?

    Ao delicioso toque do clitóris,
    já tudo se transforma, num relâmpago.
    Em pequenino ponto desse corpo,
    a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

    Vai a penetração rompendo nuvens
    e devassando sóis tão fulgurantes
    que nunca a vista humana os suportara,
    mas, varado de luz, o coito segue.

    E prossegue e se espraia de tal sorte
    que, além de nós, além da própria vida,
    como ativa abstração que se faz carne,
    a idéia de gozar está gozando.

    E num sofrer de gozo entre palavras,
    menos que isto, sons, arquejos, ais,
    um só espasmo em nós atinge o clímax:
    é quando o amor morre de amor, divino.

    Quantas vezes morremos um no outro,
    no úmido subterrâneo da vagina,
    nessa morte mais suave do que o sono:
    a pausa dos sentidos, satisfeita.

    Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
    estendidos na cama, qual estátuas
    vestidas de suor, agradecendo
    o que a um deus acrescenta o amor terrestre.


    A MOÇA MOSTRAVA A COXA
                                              Visu, colloquio  
    Contactu, basio  
    Frui virgo dederat; Sed aberat  
    Linea posterior  Et melior  Amori.  
    (Carmina Burana)

    A moça mostrava a coxa,
    a moça mostrava a nádega,
    só não me mostrava aquilo
    — concha, berilo, esmeralda —
    que se entreabre, quatrifólio,
    e encerra o gozo mais lauto,
    aquela zona hiperbórea,
    misto de mel e de asfalto,
    porta hermética nos gonzos
    de zonzos sentidos presos,
    ara sem sangue de ofícios,
    a moça não me mostrava.
    E torturando-me, e virgem
    no desvairado recato
    que sucedia de chofre
    à visão dos seios claros,
    sua pulcra rosa preta
    como que se enovelava,
    crespa, intata, inacessível,
    abre-que-fecha-que-foge,
    e a fêmea, rindo, negava
    o que eu tanto lhe pedia,
    o que devia ser dado
    e mais que dado, comido.
    Ai, que a moça me matava
    tornando-me assim a vida
    esperança consumida
    no que, sombrio, faiscava.
    Roçava-lhe a perna. Os dedos
    descobriam-lhe segredos
    lentos, curvos, animais,
    porém o máximo arcano,
    o todo esquivo, noturno,
    a tríplice chave de urna,
    essa a louca sonegava,
    não me daria nem nada.
    Antes nunca me acenasse.
    Viver não tinha propósito,
    andar perdera o sentido,
    o tempo não desatava
    nem vinha a morte render-me
    ao luzir da estrela-d’alva,
    que nessa hora já primeira,
    violento, subia o enjôo
    de fera presa no Zôo.
    Como lhe sabia a pele,
    em seu côncavo e convexo,
    em seu poro, em seu dourado
    pêlo de ventre! mas sexo
    era segredo de Estado.
    Como a carne lhe sabia
    a campo frio, orvalhado,
    onde uma cobra desperta
    vai traçando seu desenho
    num frêmito, lado a lado!
    Mas que perfume teria
    a gruta invisa? que visgo,
    que estreitura, que doçume,
    que linha prístina, pura,
    me chamava, me fugia?
    Tudo a bela me ofertava,
    e que eu beijasse ou mordesse,
    fizesse sangue: fazia.
    Mas seu púbis recusava.
    Na noite acesa, no dia,
    sua coxa se cerrava.
    Na praia, na ventania,
    quanto mais eu insistia,
    sua coxa se apertava.
    Na mais erma hospedaria
    fechada por dentro a aldrava,
    sua coxa se selava,
    se encerrava, se salvava,
    e quem disse que eu podia
    fazer dela minha escrava?
    De tanto esperar, porfia
    sem vislumbre de vitória,
    já seu corpo se delia,
    já se empana sua glória,
    já sou diverso daquele
    que por dentro se rasgava,
    e não sei agora ao certo
    se minha sede mais brava
    era nela que pousava.
    Outras fontes, outras fomes,
    outros flancos: vasto mundo,
    e o esquecimento no fundo.
    Talvez que a moça hoje em dia…
    Talvez. O certo é que nunca.
    E se tanto se furtara
    com tais fugas e arabescos
    e tão surda teimosia,
    por que hoje se abriria?
    Por que viria ofertar-me
    quando a noite já vai fria,
    sua nívea rosa preta
    nunca por mim visitada,
    inacessível naveta?
    Ou nem teria naveta…


    EM TEU CRESPO JARDIM, ANÊMONAS CASTANHAS

    Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
    detêm a mão ansiosa: Devagar.
    Cada pétala ou sépala seja lentamente
    acariciada, céu; e a vista pouse,
    beijo abstrato, antes do beijo ritual,
    na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.


    A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

    A bunda, que engraçada.
    Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

    Não lhe importa o que vai
    pela frente do corpo. A bunda basta-se.
    Existe algo mais? Talvez os seios.
    Ora — murmura a bunda — esses garotos
    ainda lhes falta muito que estudar.

    A bunda são duas luas gêmeas
    em rotundo meneio. Anda por si
    na cadência mimosa, no milagre
    de ser duas em uma, plenamente.

    A bunda se diverte
    por conta própria. E ama.
    Na cama agita-se. Montanhas
    avolumam-se, descem. Ondas batendo
    numa praia infinita.

    Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
    na carícia de ser e balançar.
    Esferas harmoniosas sobre o caos.

    A bunda é a bunda,
    redunda.


    O CHÃO É CAMA

    O chão é cama para o amor urgente,
    amor que não espera ir para a cama.
    Sobre tapete ou duro piso, a gente
    compõe de corpo e corpo a úmida trama.

    E para repousar do amor, vamos à cama.


    A LÍNGUA LAMBE

    A língua lambe as pétalas vermelhas
    da rosa pluriaberta; a língua lavra
    certo oculto botão, e vai tecendo
    lépidas variações de leves ritmos.

    E lambe, lambilonga, lambilenta,
    a licorina gruta cabeluda,
    e, quanto mais lambente, mais ativa,
    atinge o céu do céu, entre gemidos,

    entre gritos, balidos e rugidos
    de leões na floresta, enfurecidos.


    MIMOSA BOCA ERRANTE

    Mimosa boca errante
    à superfície até achar o ponto
    em que te apraz colher o fruto em fogo
    que não será comido mas fruído
    até se lhe esgotar o sumo cálido
    e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
    mas rorejando a baba de delícias
    que fruto e boca se permitem, dádiva.

    Boca mimosa e sábia,
    impaciente de sugar e clausurar
    inteiro, em ti, o talo rígido
    mas varado de gozo ao confinar-se
    no limitado espaço que ofereces
    a seu volume e jato apaixonados,
    como podes tornar-te, assim aberta,
    recurvo céu infindo e sepultura?

    Mimosa boca e santa,
    que devagar vais desfolhando a líquida
    espuma do prazer em rito mudo,
    lenta-lambente-lambilusamente
    ligada à forma ereta qual se fossem
    a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
    oh chega, chega, chega de beber-me,
    de matar-me, e, na morte, de viver-me.

    Já sei a eternidade: é puro orgasmo.


    BUNDAMEL BUNDALISBUNDACOR BUNDAMOR

    Bundamel bundalis bundacor bundamor
    bundalei bundalor bundanil bundapão
    bunda de mil versões, pluribunda unibunda
                          bunda em flor, bunda em al
                          bunda lunar e sol
                          bundarrabil

    Bunda maga e plural, bunda além do irreal
    arquibunda selada em pauta de hermetismo
                            opalescente bun
                            incandescente bun
    meigo favo escondido em tufos tenebrosos
    a que não chega o enxofre da lascívia
    e onde
    a global palidez de zonas hiperbóreas
    concentra a música incessante
    do girabundo cósmico.

    Bundaril bundilim bunda mais do que bunda
    bunda mutante/renovante
    que ao número acrescenta uma nova harmonia.
    Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo
    o arco de triunfo, a ponte de suspiros
    a torre de suicídio, a morte do Arpoador
                      bunditálix, bundífoda
    bundamor bundamor bundamor bundamor.


    QUANDO DESEJOS OUTROS É QUE FALAM

    Quando desejos outros é que falam
    e o rigor do apetite mais se aguça,
    despetalam-se as pétalas do ânus
    à lenta introdução do membro longo.
    Ele avança, recua, e a via estreita
    vai transformando em dúlcida paragem.

    Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
    ocultas melodias ovidianas.


    A CARNE É TRISTE DEPOIS DA FELAÇÃO

    A carne é triste depois da felação.
    Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
    É areia, o prazer? Não há mais nada
    após esse tremor? Só esperar
    outra convulsão, outro prazer
    tão fundo na aparência mas tão raso
    na eletricidade do minuto?
    Já se dilui o orgasmo na lembrança
    e gosma
    escorre lentamente de tua vida.


    A OUTRA PORTA DO PRAZER

    A outra porta do prazer,
    porta a que se bate suavemente,
    seu convite é um prazer ferido a fogo
    e, com isso, muito mais prazer.

    Amor não é completo se não sabe
    coisas que só amor pode inventar.
    Procura o estreito átrio do cubículo
    aonde não chega a luz, e chega o ardor
    de insofrida, mordente
    fome de conhecimento pelo gozo.


    ESTA FACA

    “Esta faca
    foi roubada no Savóia”
    “Esta colher
    foi roubada no Savóia”
    “Este garfo…”

    Nada foi roubado no Savóia.
    Nem tua virgindade: restou quase perfeita
    entre manchas de vinho (era vinho?) na toalha,
    talvez no chão, talvez no teu vestido.

    O reservado de paredes finas
    forradas de ouvidos
    e de línguas
    era antes prisão que mal cabia
    um desejo, dois corpos.

    O amor falava baixo. Os gestos
    falavam baixo. Falavam baixíssimo
    os copos, os talheres. Tua pele
    entre cristais luzia branca.

    A penugem rala
    na gruta rósea
    era quase silêncio.
    Saíamos alucinados.

    No Savóia nada foi roubado.


    NO PEQUENO MUSEU SENTIMENTAL

    No pequeno museu sentimental
    os fios de cabelos religados
    por laços mínimos de fita
    são tudo que dos montes hoje resta,
    visitados por mim, montes de Vênus.

    Apalpo, acaricio a flora negra,
    e negra continua, nesse branco
    total do tempo extinto
    em que eu, pastor felante, apascentava
    caracóis perfumados, anéis negros,
    cobrinhas passionais, junto do espelho
    que com elas rimava, num clarão.

    Os movimentos vivos no pretérito
    enroscavam-se nos fios que me falam
    de perdidos arquejos renascentes
    em beijos que da boca deslizavam
    para o abismo de flores e resinas.

    Vou beijando a memória desses beijos.


    O QUE O BAIRRO PEIXOTO

    O que o Bairro Peixoto
    sabe de nós, e esqueceu!

    Rua Anita Garibaldi
    e Rua Siqueira Campos.
    (Francisco Braga,
    Décio Vilares
    nos espiando,
    fingem que não?)

    O calçadão na penumbra
    andança que vai e volta
    voltivai
    a derivar para o túnel
    em busca do hímen?
    Volta:
    banco de praça. Bambus.
    Bambuzal de brisa em ais.

    O bardo e a garota amavam-se
    nas guerras da Dependência.
    Seria brinco de amor
    ou era somente brinco.

    5 de Julho (fronteira
    do reino escuro)
    à face
    de casas desprevinidas
    jogávamos nos jardins
    e nas caixas de correio
    volumes indesculpáveis
    de alheias dedicatórias
    pedacinhos.

    Se salta o cachorro? Credo.
    Saltam quinhentos mastins.
    Ganem a traça
    de amor sem regulamento.
    Prende mata esfola queima.
    Viu? É dentro de mim, é dentro
    do bardo que estão ganindo.

    Bobeira de bobo besta.
    Passa de nove mil horas,
    urge voltar ao sacrário
    de virgem.
    Só mais um tiquinho. Não.
    Sou eu, rei sábio, que ordeno.
    Ri. Rimos de mim. Ficamos.

    Dedos entrelaçados
    e desejos geminados
    no parque tão pueril.
    Praça Edmundo, olá,
    Bittencourt de berros brabos.
    Se acaso nos visse aos beijos
    babados, reincidentes,
    protestava no jornal?

    Menina mais sem juízo
    rindo riso sem motivo
    no jogo de diminutivos,
    sabe o que estamos fazendo?
    Amor.
    Não é nada disso. Apenas
    primícias cálidas. Calo-me.

    Viajar nos seios. Embaixo.
    Por trás.
    Se vou mais longe, quem vai
    me segurar?
    Se fico por aqui mesmo,
    quem vem
    me resserenar?

    Passo vinte anos depois
    no mesmo Bairro Peixoto.
    Ele que a tudo assistia,
    nada lembra, no sol posto,
    deste episódio canhoto.


    AS MULHERES GULOSAS

    As mulheres gulosas
    que chupam picolé
    — diz um sábio que sabe —
    são mulheres carentes
    e o chupam lentamente
    qual se vara chupassem,
    e ao chupá-lo já sabem
    que presto se desfaz
    na falácia do gozo
    o picolé fuginte
    como se esfaz na mente
    o imaginário pênis.


    PARA O SEXO A EXPIRAR

    Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
    Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
    Amor, amor, amor — o braseiro radiante
    que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

    Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
    a minha se rebela ante a morte anunciada.
    Quero sempre invadir essa vereda estreita
    onde o gozo maior me propicia a amada.

    Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
    enregela-se o nervo, eisvai-se-me o prazer
    antes que, deliciosa, a exploração acabe.

    Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
    e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
    de sêmen aljofrando o irreparável ermo.


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