Clarice Lispector

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    Clarice Lispector - Biografia (1920-1977)

    A Vida:

    Haya Pinkhasovna Lispector nasceu no dia 10 de dezembro de 1920 na cidade ucraniana de Tchetchelnik.

    Descendente de judeus, os seus pais Pinkhas Lispector e Mania Krimgold Lispector, passaram os primeiros momentos de vida de Clarice fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1920).

    Diante disso, chegam ao Brasil em 1921 e vivem nas cidades de Maceió, Recife e Rio de Janeiro onde passaram algumas dificuldades financeiras.

    Desde pequena, Clarice estudou várias línguas (português, francês, hebraico, inglês, iídiche) e teve aulas de piano. Era boa aluna na escola e gostava de escrever poemas.

    Após a morte de sua mãe em 1930, Clarice termina o terceiro ano primário no Collegio Hebreo-Idisch-Brasileiro.

    Mais tarde, a sua família vai viver para o Rio de Janeiro. Em 1939, com 19 anos, ingressa na Escola de Direito da Universidade do Brasil e começa a dedicar-se totalmente à sua grande paixão: a literatura.

    Fez cursos de antropologia e psicologia e, em 1940, publica seu primeiro conto, intitulado “Triunfo”.

    Após a morte de seu pai, em 1940, Clarice começa a sua carreira de jornalista. Nos anos seguintes, trabalha como redatora e repórter na Agência Nacional, no Correio da Manhã e no Diário da Noite.

    Em 1943, casa-se com o Diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos. O seu primogénito, Pedro, foi diagnosticado com esquizofrenia e o seu segundo filho, Paulo, foi afilhado do escritor Érico Veríssimo.

    Devido à profissão de seu marido, Clarice viveu em muitos países do mundo, desde Itália, Inglaterra, Suíça e Estados Unidos. O relacionamento durou até 1959, e quando resolveram separar-se, Clarice regressa ao Rio com os seus filhos.

    Clarice apaixonou-se por quem viria a ser p seu grande amigo confidente, o escritor Lúcio Cardoso (1912-1968), contudo, não ficaram juntos porque Lúcio era homossexual. 

    Um episódio marcante de sua vida foi o incêndio que ocorreu na sua casa, em 1966, provocado por um cigarro. Como consequência, ficou hospitalizada durante meses e quase teve de amputar a mão.

    A escritora foi naturalizada brasileira e se declarava pernambucana. Seu nome, Clarice, foi uma das formas que o pai encontrou de esconder toda sua família quando chegaram ao Brasil.

    Clarice falece no dia 09 de dezembro de 1977, na véspera de seu aniversário de 57 anos, na cidade do Rio de Janeiro, vítima de cancro de ovário.

    A Obra

    Conhecida como uma das melhores escritoras brasileiras, Clarice escreveu romances, contos, crónicas e literatura infantil.

    De personalidade singular e forte, pouco se importava com as críticas e, segundo ela:
    “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...

    Algumas de suas obras: 

    Perto do coração selvagem (1942) 
    O Lustre (1946) 
    A Cidade Sitiada (1949) 
    Laços de Família (1960) 
    A Maçã no Escuro (1961) 
    A Legião Estrangeira (1964) 
    A Paixão Segundo G. H (1964) 
    O Mistério do Coelho Pensante (1967) 
    A Mulher que Matou os Peixes (1968) 
    Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969) 
    Felicidade Clandestina (1971) 
    Água Viva (1973) 
    A Imitação da Rosa (1973) 
    Via Crucis do Corpo (1974) 
    Onde Estivestes de Noite? (1974) 
    Visão do Esplendor (1975) 
    A Hora da Estrela (1977) 

    Frases de Clarice Lispector 

    “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” 
    “Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio.” 
    “Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas.” 
    “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” 
    “Mas quero ter a liberdade de dizer coisas sem nexo como profunda forma de te atingir. Só o errado me atrai, e amo o pecado, a flor do pecado.” 
    “O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado.” 
    “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.” 
    “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

    Clarice Lispector | A Língua do P

    Maria Aparecida – Cidinha, como a chamavam em casa – era professora de inglês. Nem rica nem pobre: remediada. Mas vestia-se com apuro. Parecia rica. Até suas malas eram de boa qualidade.

    Morava em Minas Gerais e iria de trem para o Rio, onde passaria três dias, e em seguida tomaria o avião para Nova Iorque.

    Era muito procurada como professora. Gostava da perfeição e era afetuosa, embora severa. Queria aperfeiçoar-se nos Estados Unidos. 

    Tomou o trem das sete horas para o Rio. Frio que fazia. Ela com casaco de camurça e três maletas. O vagão estava vazio, só uma velhinha dormindo num canto sob o seu xale.

    Na próxima estação subiram dois homens que se sentaram no banco em frente ao banco de Cidinha. 

    O trem em marcha. Um homem era alto, magro, e bigodinho e olhar frio, o outro era baixo, barrigudo e careca. Eles olharam para Cidinha. Esta desviou o olhar, olhou pela janela do trem. Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta.

    Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade?

    Então os dois homens começaram a falar um com o outro. No começo Cidinha não entendeu palavra. Parecia brincadeira. Falavam depressa demais. E a linguagem parecia-lhe vagamente familiar. Que língua era aquela?

    De repente percebeu: eles falavam com perfeição a língua do “p”. Assim:

    – Vopocê reperaparoupou napa mopoçapa boponipitapa?

    – Jápá vipi tupudopo. Épé linpindapa. Espestápá nopo papapopo.

    Queriam dizer: você reparou na moça bonita? Já vi tudo. É linda. Está no papo.

    Cidinha fingiu não entender: entender seria perigoso demais. A linguagem era aquela que usava, quando criança, para se defender dos adultos. Os dois continuaram:

    – Queperopo cupurrapar apa mopoçapa. Epe vopocêpê ?

    – Tampambémpém. Vapaipi serper nopo tupunelpel.

    Queriam dizer que iam currá-la no túnel…O que fazer? Cidinha não sabia e tremia de medo. Ela mal se conhecia. Aliás nunca se conhecera por dentro. Quanto a conhecer os outros, aí é que piorava. Me socorre, Virgem Maria! Me socorre! Me socorre!

    – Sepe repesispis tirpir popodepemospos mapatarpar epelapa.

    Se resistisse podiam matá-la. Era assim então.

    – Compom umpum pupunhalpal. Epe roupoubarpar epelapa.

    Matá-la com um punhal. E podiam roubá-la.

    Como lhes dizer que não era rica? Que era frágil, qualquer gesto a mataria. Tirou um cigarro da bolsa para fumar e acalmar-se. Não adiantou. Quando seria o próximo túnel? Tinha que pensar depressa, depressa, depressa.

    Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.

    Então levantou a saia, fez trejeitos sensuais - nem sabia que sabia fazê-los, tão desconhecida era de si mesma – abriu os botões do decote, deixou os seios meio à mostra. Os homens de súbito espantados.

    – Tápá dopoipidapa.

    Está doida, queriam dizer.

    E ela a se requebrar que nem sambista do morro. Tirou da bolsa o batom e pintou-se exageradamente. E começou a cantarolar.

    Então os homens começaram a rir dela. Achavam graça na doideira de Cidinha. Estava desesperada. E o túnel?

    Apareceu o bilheteiro. Viu tudo. Não disse nada. Mas foi ao maquinista e contou. Este disse:

    – Vamos dar um jeito, vou entregar ela pra polícia na primeira estação.

    E a próxima estação veio.

    O maquinista desceu, falou com um soldado por nome José Lindalvo. José Lindalvo não era de brincadeira. Subiu no vagão, viu Cidinha, agarrou-a com brutalidade pelo braço, segurou como pôde as três maletas, e ambos desceram.

    Os dois homens às gargalhadas.

    Na pequena estação pintada de azul e rosa estava uma jovem com uma maleta. Olhou para Cidinha com desprezo. Subiu no trem e este partiu.

    Cidinha não sabia como se explicar ao polícia. A língua do “p” não tinha explicação. Foi levada ao xadrez e lá fichada. Chamaram-na dos piores nomes. E ficou na cela por três dias. Deixavam-na fumar. Fumava como uma louca, tragando, pisando o cigarro no chão de cimento. Tinha uma barata gorda se arrastando no chão.

    Afinal deixaram-na partir. Tomou o próximo trem para o Rio. Tinha lavado a cara não era mais prostituta. O que a preocupava era o seguinte: quando os dois homens haviam falado em currá-la, tinha tido vontade de ser currada. Era uma descarada. Epe sopoupu upumapa puputapa. Era o que descobrira. Cabisbaixa.

    Chegou ao Rio exausta. Foi para um hotel barato. Viu logo que havia perdido o avião. No aeroporto comprou a passagem. 

    E andava pelas ruas de Copacabana, desgraçada ela, desgraçada Copacabana.
    Pois foi na esquina da rua Figueiredo Magalhães que viu a banca de jornal. E pendurado ali o jornal “O Dia”. Não saberia dizer por que comprou.

    Em manchete negra estava escrito: “Moça currada e assassinada no trem”.
    Tremeu toda. Acontecera, então. E com a moça que a desprezara.
    Pôs-se a chorar na rua. Jogou fora o maldito jornal. 

    Não queria saber dos detalhes. Pensou:

    – Épé. Opo despestipinopo épé impimplaplacápávelpel. O destino é implacável. 

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