Excertos

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    Anais Nin - Diários sobre amor e erotismo (Excerto)

    O texto recuperado de uma publicação de 1978 conduz-nos pelo percurso de vida da escritora Anais Nin e pelas suas ideias a respeito de arte, amor e erotismo, amigos, feminismo. 

    Uma das maiores escritoras e uma das figuras humanas mais interessantes do século XX — Anais Nin — continua praticamente desconhecida do grande público. 

    Mas à pergunta “quem é Anais Nin?", podem ser dadas respostas variadas: é a pessoa que publicou pela primeira vez o "Trópico de Câncer" de Henry Miller, é a assistente de Otto Rank, discípulo de Freud, é alguém que em certa fase de sua vida decide morar num barco no Sena, para transformar um sonho em realidade, é a precursora de novas ideias sobre a mulher, é a amiga e incentivadora dos artistas antes da celebridade, é ela mesma uma artista refinada e profunda? Ela se auto define basicamente como uma anarquista espiritual.

    Sobre amor e erotismo

    "As ideias são um elemento separador. Os universos mentais são isolantes. O amor é a comunhão com outrem. Ele nos faz abraçar todas as raças, o mundo inteiro; todas as formas de criação”.

    "Muitos precisam de mitos para amar, mas quando eles se volatilizam, o seu amor acaba. Eu afirmo que quando o mito fracassa, o amor humano começa. Então nós amamos um ser humano e não um sonho nosso. Um ser humano com todos os seus defeitos”.

    “O amor pode não só descobrir uma personalidade em potência, que dorme enterrada e disfarçada, mas também fazê-la sair até à luz. Ao ser amado mostramos um lado desconhecido dos outros. É o amante que opera a transformação e é a ele que damos nosso Eu mais amplo, nossos dons mais completos. Os observadores de fora não vêem jamais o ser humano acrescido do que surge sob o fogo de um amor intenso (...). Assim, toda a realidade me parece sempre mais subjectiva, co-dependente do olhar do amante, o olho da câmara, o olho do pintor”.

    “A maioria dos cínicos acentua a “comédia” do amor, esquecendo que os instantes de ilusão e de paixão são os maiores momentos da vida, aqueles dos quais a gente se lembra sempre. Fixar-se tão longamente sobre a desintegração da paixão, quando colocada à prova pela realidade humana, é o mesmo que afirmar que a morte acaba por triunfar sobre nosso corpo, o que não significa que, por causa disso, devamos nos recusar a viver ou a amar. O que eles esquecem é que a paixão não é apenas uma fusão sensual intensa, mas um modo de vida, que produz, como entre os místicos, uma consciência mais viva da vida inteira”. 

    “Eros e a sensualidade são o motor que coloca a máquina em movimento; eles são a fonte, a origem, a chave, a Mãe, no sentido que Goethe dá a esse termo. A unidade na multiplicidade, nenhuma dualidade tortuosa e artificial, nenhuma divisão cristã entre corpo e espírito, nenhum divórcio estéril entre emoção e razão, mas razão e emoção unidas inseparavelmente e soldadas juntas como efeito e causa. Instintos, motivações vistos como aquilo que são: as engrenagens que comandam nossa maneira de pensar, mesmo a mais racional; a formidável parte oculta do minúsculo “iceberg” visível sobre a água”.

    “O corpo é um instrumento que só produz sua música quando nos servimos dele como um corpo. Sempre uma orquestra. E da mesma forma que a música atravessa as paredes, a sensualidade atravessa o corpo e chega ao êxtase”.

    “O sexo perde todo o seu poder e toda a sua magia quando se torna explícito, mecânico, exagerado, quando se torna uma obsessão. É um erro não misturá-lo com a emoção, a fome, o desejo, com caprichos, lágrimas, risos, palavras, promessas, histórias, sonhos, fantasias mais profundas que mudam sua cor, perfume ritmo e intensidade. Eis o que lhe dá suas texturas surpreendentes, suas transformações subtis, seus elementos afrodisíacos. Sem isso, restringimos nosso mundo de sensações e o esvaziamos de seu sangue. Só o ritmo uníssono do sexo e do coração pode criar o êxtase”.

    “Se as experiências pudessem passar pelo crivo da arte ela imporia a necessidade da beleza. Ela nos indicaria que o único vício é a torpeza e nos livraria automaticamente dessas caricaturas da sexualidade que querem fazer passar por erotismo. Ela devolveria à sensualidade sua nobreza, que está ligada à qualidade e ao refinamento de sua expressão, refinamento que deve ser o da plenitude”.

    Georges Bataille - História do Olho (Excerto)

    “A linguagem erótica de Sade não tem outra conotação que a de seu século, ela é uma escritura; a de Bataille é conotada pelo próprio ser de Bataille, ela é um estilo; entre as duas, algo de novo nasceu, que transforma toda experiência em linguagem extraviada e que é a literatura.” Roland Barthes

    O olho de gato

    "Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo. Tinha quase dezasseis anos quando encontrei uma garota da minha idade, Simone, na praia x. 

    As nossas famílias descobriram um parentesco longínquo e nossas relações logo se precipitaram. 

    Três dias depois do nosso primeiro encontro, Simone e eu estávamos a sós na sua casa de campo. Ela vestia um avental preto e usava uma gola engomada. 

    Comecei a dar-me conta de que ela partilhava a minha angústia, bem mais forte naquele dia em que ela parecia estar nua sob o avental.

    As suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até ao cu (esse nome, que eu sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que, levantando o avental, contemplaria o seu rabo pelado.

    Havia no corredor um prato de leite para o gato.

    ― Os pratos foram feitos para a gente sentar – disse Simone. ― Quer apostar que eu me sento no prato?

    ― Duvido que você se atreva – respondi, ofegante.

    Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou o rabo no leite. 

    Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava o meu pau a erguer-se nas calças. Deitei-me a seus pés. 

    Ela não se mexia; pela primeira vez, vi a sua ‘carne rosa e negra’ banhada em leite branco. 

    Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.

    De repente, ela levantou-se: o leite escorreu pelas suas coxas até às meias. Enxugou-se com um lenço, por cima da minha cabeça, com um pé no banquinho. 

    Eu esfregava o pau, remexendo-me no assoalho. Gozamos no mesmo instante, sem nos tocarmos. 

    Porém, quando a sua mãe retornou, sentando-me numa poltrona baixa, aproveitei um momento em que a menina se aninhou nos braços maternos: sem ser visto, levantei o avental e enfiei a mão por entre as suas coxas quentes.

    Voltei para casa a correr, louco para bater uma punheta de novo. No dia seguinte, amanheci de olheiras. 

    A Simone olhou-me de frente, escondeu a cabeça contra o meu ombro e disse: ‘Não quero mais que tu batas punheta sem mim.’"

    Luís Fernando Veríssimo - Trisexual (Conto)

    As amigas se contavam tudo, tudo, do mais banal ao mais íntimo. Eram amigas desde pequenas e não passavam um dia sem se falar. 

    Quando não se encontravam, se telefonavam. Cada uma fazia um relatório do seu dia e do seu estado, e não escapava uma ida ao super, um corrimento, uma indagação filosófica ou uma fofoca nova. 

    Deus e todo o mundo, literalmente. Jacine, Marília e Branca. Branca era a mais nova, mas já casara e já enviuvara, o que despertara um certo pânico protetor nas outras duas. 

    Tudo acontecia rápido demais para a Branquinha, que precisava ser protegida da sua vida precipitada, da sua vida vertiginosa. Por isso Janice telefonou para Marília quando soube que a Branquinha estava namorando um homem chamado Futre, Amado Futre, Rosimar Amado Futre, e que, como se não bastasse isto, ele declarara à Branquinha que era trisexual. – Marília de Deus – disse a Janice – o que é trisexual?! 

    – Bom… Bi é quando transa com os dois sexos. 

    – Isso eu sei. 

    – Tri deve ser quando transa com dois sexos e com bicho. Janice teve uma visão da Branquinha na cama com Rosimar Amado Futre, o porteiro do prédio e uma cabra. Ou um cabrito? 

    – Bichos dos dois sexos? 

    – E eu vou saber?! – gritou a Marília. Era preciso proteger a Branquinha. Mas do quê, exatamente? 

    – O que é trisexual? – perguntou a Janice ao seu marido Rubião. 

    – Ahn? – disse Rubião, acordando. Rubião dominara o truque de segurar um jornal na frente do rosto e dormir sem que a mulher notasse, Janice não entendia como um homem que lia tanto jornal podia ser tão mal informado. 

    – O que é trisexual? 

    – É… é… – Volta pro teu jornal, Rubião. 

    Apesar de ser a mais moça das três, Branquinha fora a primeira a perder a virgindade. Já fizera tudo que pode ser feito sobre uma cama. Ou, no caso dela, sobre uma cama, sobre uma mesa de cozinha, jantar ou ping-pong, sobre um estrado, na praia, no meio do campo, uma vez até no último banco de um ônibus intermunicipal – e sempre contando tudo, tudo, às outras duas. 

    Que também contavam tudo que lhes acontecia, só não tinha tanto para contar. 

    A Janice contava sua vida com o Rubião, que só transava nos sábados e vésperas de feriado. A Marília, que ainda não se casara e namorava um dentista chamado João, inventava, para não pensarem que ela também não tinha uma vida sexual. 

    Mas nem as invenções mais criativas da Marília se igualavam às experiência da Branquinha. E agora um trisexual chamado Amado Futre! 

    Branquinha talvez estivesse indo longe demais. Era preciso proteger a Branquinha. Mas apesar de vários avisos (“Olhe lá, hein Branquinha?”) a Branquinha concordou em passar um fim de semana na serra com o Rosimar Amado Futre. 

    E na volta, não telefonou para contar tudo, como ficara combinado. Teria lhe acontecido alguma coisa? Ela estaria num hospital, com um deslocamento, depois do que o Futre lhe fizera? Mordida por algum animal, nos arroubos da paixão? 

    Janice e Marília não se contiveram, invadiram o apartamento de Branquinha e exigiram um relato completo. Mas cada pergunta sobre o fim de semana, Branquinha respondia “Nem te conto”. E não contou mesmo. Depois da experiência com Rosimar Amado Futre, estava tão na frente das outras que não tinham mais o que conversar. 

    Não tinham mais pontos de referência, era isso. Marília perguntou ao namorado João, o dentista, o que era trisexual. 

    – Tri?! 

    – É. Tri em vez de bi. 

    – Bi?! – Esquece, João. 

    Fernando Sabino - O Homem Nu (Conto)

    Ao acordar, disse para a mulher: 

    — Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum. 

    — Explique isso ao homem — ponderou a mulher. 

    — Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago. 

    Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. 

    Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento. 

    Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos: 

    — Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa. 

    Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro. 

    Enquanto isso, ouvia lá em baixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares… Desta vez, era o homem da televisão! 

    Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão: 

    — Maria, por favor! Sou eu! 

    Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo… 

    Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. 

    Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão. 

    Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer. 

    — Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado. 

    E agora? Alguém lá em baixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido… 

    Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror! 

    — Isso é que não — repetiu, furioso. 

    Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. 

    Lá em baixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: “Emergência: parar”. Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu. 

    — Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. 

    Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho: 

    — Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu… 

    A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito: 

    — Valha-me Deus! O padeiro está nu! 

    E correu ao telefone para chamar a radio-patrulha: 

    — Tem um homem pelado aqui na porta! 

    Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava: 

    — É um tarado! 

    — Olha, que horror! 

    — Não olha não! Já pra dentro, minha filha! 

    Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta. 

    — Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir. 

    Não era: era o cobrador da televisão. 

    Aluizio Azevedo - O Cortiço (Excerto (1890)

    Sensualidade, perversão, remorso, reincidência.

    Ingredientes perfeitos para uma das cenas mais eróticas da literatura universal.

    1. Vou reproduzir aqui o trecho, antes contextualizando-o na narrativa.

    O Miranda era um comerciante português que casara com a “levada da breca” Estela, cujo dote garantia-lhe a prosperidade nos negócios. 

    Tendo apanhado em flagrante a mulher em adultério com um dos seus caixeiros (o que se repetiria ao longo dos anos com outros empregados), Miranda, acovardado diante da possibilidade de escândalo e perda de status social, decide simplesmente pela separação de corpos, dormindo desde então em quartos separados, mas mantendo as aparências do casamento. 

    Viviam na mesma casa sem trocarem palavra ou olhar, odiando-se mutuamente.

    Até que um belo dia, ou melhor dizendo, uma negra noite, “sentindo-se em insuportável estado de lubricidade”, o sujeito, se remoendo de dúvidas e vacilações, vai ao quarto da mulher, que se tornara, para ele, uma espécie de fruto proibido desde que se impusera o dever moral de desprezá-la.

    Para resumir, Estela, fazendo que dormia, deixou-se penetrar pelo marido. No dia seguinte, cruzam-se constrangidos pela casa, comportando-se como se nada houvera acontecido. Miranda afoga-se em culpas e promete a si mesmo nunca mais cair em tentação.

    2. Passemos agora a palavra diretamente ao romancista:

    “Mas, daí a um mês, o pobre homem, acometido de novo acesso de luxúria, voltou ao quarto da mulher.

    Estela recebeu-o desta vez como da primeira, fingindo que não acordava; na ocasião, porém, em que ele se apoderava dela febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. 

    O pobre-diabo desnorteou, deveras escandalizado, soerguendo-se, brusco, num estremunhamento de sonâmbulo acordado com violência.

    A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir; passou-lhe rápido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o com uma metralhada de beijos. Não se falaram.

    Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer. Estranhou-a. 

    Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada: descobriu nela o capitoso encanto com que nos embebedam as cortesãs amestradas na ciência do gozo venéreo. 

    Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos cabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delírio, com verdadeira satisfação de animal no cio.

    E ela também, ela também gozou, estimulada por aquela circunstância picante do ressentimento que os desunia; gozou a desonestidade daquele ato que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo daquele seu inimigo odiado, achando-o também agora, como homem, melhor que nunca, sufocando-o nos seus braços nus, metendo-lhe pela boca a língua úmida e em brasa. 

    Depois, um arranco de corpo inteiro, com um gemido gutural e estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se num abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e chorosos, toda ela agonizante, como se a tivessem crucificado na cama.”


    Henry Miller | O Mundo do Sexo

    Henry Miller (1891-1980) foi um escritor norte-americano, autor de obras consideradas pornográficas e subversivas, entre eles: "Trópico de Câncer" e "Trópico de Capricórnio".

    Em 1934, publicou “Trópico de Câncer”, mas a obra foi considerada “literatura pornográfica e subversiva”, tendo a sua distribuição sido proibida em alguns países da Europa e também nos Estados Unidos. Foi rotulado como “escritor maldito”.

    "Com esse novo amor, a batalha dos sexos teve início sob um clima de grande ansiedade. O talento musical da moça, que foi o elemento de atracção inicial, passou logo a segundo plano. 

    Ela era uma puta lasciva, histérica e puritana, cuja vagina estava escondida sob um monte de pêlos encrespados que, juro, lembravam os pêlos de uma vassoura. (...).

    Passados uns dias, porém, lá estava eu outra vez. Ela tornou a recostar-se no aparelho de aquecimento usando a mesma camisa de seda sobre o corpo nu. Dessa vez fui mais cauteloso. Assim como quem não quer nada, deixei escorregar a mão direita pela camisa macia. O tal monte de pêlos emaranhados que tanto me impressionara, parecia cheio de electricidade; os pêlos eriçavam -se ao meu toque e a sensação que tive foi a de estar acariciando uma escova de fios de aço. 

    Foi necessário, durante esse pequeno ataque, não parar de falar — sobre música e outros assuntos elevados. Enquanto isso continuava a acariciá-la como se estivesse distraído. Usando desse estratagema, consegui convencê-la, creio eu, que não havia nada de errado naquele modo de proceder. 

    Mais tarde, na cozinha, ela fez-me uma demonstração de certas acrobacias que aprendera no colégio; essas proezas serviram, é claro, para me mostrar o seu corpo sob os ângulos mais vantajosos possíveis. Cada vez que aquela camisa de seda se abria, aparecia o tal monte de pelos eriçados, que era o seu grande orgulho. Para mim, tudo aquilo, foi um grande suplício. 

    A situação continuou nesse pé durante algumas semanas, tempo necessário para ela esquecer os seus preconceitos e, finalmente, ceder. Mesmo assim, não conseguiu entregar-se completamente a mim. 

    Na primeira vez que fomos para a cama, insistiu em ficar de camisola. Queria que eu fizesse tudo por cima da sua camisola. Tinha um medo terrível de ser maltratada e queria experimentar-me. Caso eu cedesse aos seus caprichos e fantasias, então seria capaz de confiar em mim. Essa era a sua lógica.

    Pouco a pouco — muito aos poucos mesmo — ela começou a reagir como um ser humano normal. De vez em quando eu aparecia de repente, à tarde. Tinha que repetir sempre a mesma desculpa: viera para ouvi-la tocar música. 

    Não adiantava chegar e querer resolver logo o assunto. Se eu me sentasse com calma e ouvisse com atenção o que estava a tocar, ela era capaz de interromper alguma sonata e aproximar-se de mim, sentindo-se então à vontade. 

    Deixava que eu a acariciasse, começando pelas pernas e subindo lentamente. Depois cedia de todo e montava em cima de mim. Muitas vezes, com o orgasmo, tinha um acesso de choro. 

    Sentia-se culpada por estar a ter relações sexuais comigo em plena luz do dia. (Ela explicava que, de certa forma, o ato sexual prejudicava a sua técnica musical.).

    O fato é que, quanto melhor a foda, mais culpada ela se sentia depois. 'Você não gosta mesmo de mim', ela costumava dizer. 'Só pensa em sexo.' Tendo ouvido a desgraçada repetir mil vezes a mesma frase, acabei por acreditar mesmo e a afirmativa se tornou uma verdade. Eu já estava farto quando legalizamos a nossa situação.

    (...)"


    Deana Barroqueiro | Contos Eróticos do Antigo Testamento

    Como escritora portuguesa de romance histórico, e de entre esses, os que abordam temáticas eróticas com relevo no modo de estar da antiguidade fica aqui esse registo, com enfoque nos seus livros 
    • Contos Eróticos do Antigo Testamento
    • Tentação da Serpente
    • Novos Contos Eróticos do Velho Testamento
    Fica aqui um excerto de "Contos Eróticos do Antigo Testamento’

    No Inicio ...... 

    Deus sentira-se de tal modo defraudado por a Sua criação mais auspiciosa - o Homem feito à Sua imagem e a Mulher feita segundo a imagem aperfeiçoada do Homem, para dominarem sobre todos os outros seres do Mundo - ter resultado tão defeituosa e rebelde que, depois de os fazer expulsar do jardim do Éden, apesar da insistência dos anjos, se mostrara inabalável na recusa de uma nova tentativa para criar a Humanidade.

    Apesar da Sua omnisciência (talvez devido ao cansaço de ter feito aquele imenso Mundo em apenas seis dias), no instante da criação do Homem sentira-se muito orgulhoso e satisfeito com a Sua obra e não lhe achara qualquer defeito ou mácula.

    Assim, na euforia que se seguiu, não vendo entre todos os animais desse Mundo uma companheira adequada para oferecer à Sua criatura, caíra na tentação de dar vida a um novo ser, feito à imagem do anterior, mas aperfeiçoando o modelo com a introdução de pequenas mas significativas diferenças.

    Como desejava um material mais raro do que o pó utilizado na primeira tentativa, adormeceu profundamente o Homem, nas margens do rio Tigre que limitava a Oriente o jardim do Éden, e tirou-lhe uma das costelas que substituiu por carne, esculpindo a partir do osso uma nova criatura em forma de Mulher.

    Ao contemplar a Sua obra, Deus achou-a tão bela que, em vez de lhe soprar a vida pelas narinas como fizera ao Homem, lha insuflou através dos lábios beijando-a e, com surpresa, sentiu pela primeira vez o Seu espírito vibrar de emoção nesse fugaz contato com a matéria. Deus conduziu a Mulher para junto do Homem que despertara e observou cheio de curiosidade a sua reação.

    Para Seu espanto, o Homem, ao ver diante de si aquele novo ser em toda a sua esplêndida nudez, não se ergueu do lugar, nem agradeceu a dádiva ao Criador, limitando-se a exclamar: - Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne! Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!

    Ouvindo estas frases, Deus admitiu pela primeira vez que talvez a sua melhor criação não fosse afinal tão perfeita no espírito como era na carne e pensou se não seria um risco pôr a árvore da ciência do bem e do mal ao seu alcance. Porém como já era tarde, retirou-se para descansar ao sétimo dia e não voltou a pensar no assunto.

    E, um dia, as Suas criaturas eleitas atraiçoaram-No e quando Deus os confrontou com o crime da rebeldia e da desobediência, o Homem culpou a Mulher e a Mulher culpou a Serpente pela tentação de provar o fruto proibido. E Deus, ferido no Seu orgulho e no Seu amor, vestiu-os com túnicas de peles e expulsou-os para sempre do Jardim das Delícias, antes que descobrissem o fruto da árvore da vida e vivessem eternamente.

    Apesar do seu arrependimento e das suas súplicas, Deus lançou-lhes terríveis maldições: - Tu, Mulher, por teres desejado ser mais inteligente do que o Homem e igual ao teu Deus, procurarás com paixão o teu marido, a quem serás sujeita. Aumentarei os sofrimentos da tua prenhez e parirás teus filhos com dor, suor e lágrimas. Chamar-te-ás Eva pois serás a mãe de todos os viventes.

    A Mulher chorou o Paraíso Perdido e a sua nova condição na terra. Em seguida, Deus amaldiçoou o Homem: - Tu, Homem, que provaste o fruto proibido da inteligência, procurarás o alimento, à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida e comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar! E todo o Homem nascido da tua semente há-de ser tentado e enganado pela Mulher, por toda a Eternidade, como tu foste pela tua.

    E Deus enviou querubins armados de espadas flamejantes expulsá-los do Paraíso, pela porta do Oriente, para as terras desérticas da futura Babilônia, entre os rios Tigre e Eufrates que Adão, o primeiro homem, deveria tornar férteis pelo esforço do seu lavor e castigo. Quando Deus acalmou a Sua ira e pôde pensar com serenidade nas duas criaturas caídas em desgraça, viu que dispunha apenas do casal primordial, Adão e Eva, para povoar o mundo e, como não queria voltar com a palavra atrás, criando novos seres, foi forçado a prolongar as suas vidas miseráveis assim como a dos seus descendentes, tornando-as férteis durante séculos para que a Humanidade pudesse crescer e multiplicar-se com algum sucesso.

    Mesmo assim o processo era tão lento que os Filhos de Deus, contrariando os desígnios do Pai, decidiram sair da esfera celeste e contribuir para o acréscimo da Humanidade, escolhendo entre as mais belas filhas dos Homens as que bem quiseram para mulheres e da sua união nasceram os gigantes e os famosos heróis dos tempos remotos, paridos em grande dor pelas filhas dos Homens, pois a maldição divina jamais fora levantada.

    Deus, tomando conhecimento da desobediência das forças celestes e da desordem cósmica que isso implicava, arrependeu-se mais uma vez de ter criado o Homem e a Mulher e, sofrendo amargamente, castigou de novo as Suas criaturas: - Não quero que o meu espírito permaneça indefinidamente no homem, pois o homem é carne, por isso, os seus dias não ultrapassarão os cento e vinte anos.

    E Deus enviou o Dilúvio e destruiu as terras da Mesopotâmia e todos os seres vivos, permitindo que apenas Noé com a sua família - a nona geração de Adão - e um casal de todos os animais em vias de extinção se salvassem numa arca, abrindo assim o caminho para uma nova Humanidade, num processo quase idêntico ao anterior. Deus contava com a efemeridade da vida a que havia condenado os homens e com a sua lentidão em crescer e se multiplicar, para tão cedo não ser importunado pelos seus erros e desacatos, nem ter de os vigiar, punir ou premiar pelos seus atos.

    E então Deus deixou os homens entregues a si próprios e esqueceu-se deles. Porém, contrariando os desígnios divinos, as forças celestes interessaram-se de novo pela Humanidade e, para acelerar o seu crescimento, concederam aos descendentes de Noé, tal como haviam feito aos de Adão, uma esperança de vida de mais de novecentos anos nos homens e uma juventude e fertilidade quase eternas nas mulheres, segundo consta nos registos do livro das gerações nascidas de Adão, de todos os Patriarcas de antes e depois do Dilúvio, no Livro do Génesis, que não enunciaremos aqui, por ser demasiado extenso e não servir os propósitos deste nosso conto.

    Os Cuidados de Abraão

    Pela vez primeira a nómada contemplara o corpo nu de um homem na força da juventude, moldado no exercício das armas e no requinte da corte, feito à imagem dos deuses, uma escultura de carne e osso, com músculos e tendões movendo-se como pequenas cobras irrequietas sob a pele macia e lisa, cor de cobre, brilhante de óleos perfumados.

    Sarai recordara com desgosto o corpo velho de Abraão, mole e enrugado, o hálito fétido dos dentes podres, o cheiro azedo a suor e a bedum de carneiro. A água era um bem demasiado precioso para ser desperdiçado em banhos e não havia erva defumadora que lograsse afastar das tendas e da própria pele dos pastores nómadas o fedor da urina quente e do sebo dos rebanhos a que todos acabavam por se habituar. Ela só se apercebera do seu cheiro depois de ter entrado no sumptuoso harém do Faraó.

    Quando Sebekhotep se deitara sobre o seu corpo para lhe tomar a flor da virgindade, enroscara-se nele como a hera no tronco firme da árvore que a sustenta, sentindo-o deslizar para dentro de si, com a dureza do bronze e a maciez de uma lâmina oleada. Fizera-lhe as carícias que Meryt lhe ensinara como sendo as mais doces ao seu prazer, percorrendo com os lábios e os dedos os caminhos secretos do seu corpo, até o sentir vibrar dentro de si. O ventre de Sarai latejara, quente e húmido, e eclodira por fim em ondas de êxtase quase dolorosas, como jamais experimentara no leito de Abraão.

    O virgo postiço rebentara e o sangue correra pelas coxas de Sarai quando Sebekhotep se retirara de dentro dela, sorrindo por vê-la perturbada. Porém, a vergonha da nómada não era devida à perda da virgindade, mas ao ardil usado para o enganar e que contara com a cumplicidade de Meryt, sempre desejosa de lhe satisfazer os mais ocultos desejos.

    A Governanta do Real Harém soubera desde o primeiro dia que a nómada já fora tocada por homem, mas Sarai confiara-lhe uma triste história de infância e ganhara a sua simpatia ou talvez a mulher não gostasse das favoritas Tadukhipa e Ahmose e tivesse visto na nova concubina uma rival capaz de as derrubar.

    Para o conseguir, teria de guardar segredo e proceder de modo a Sarai poder passar por virgem no leito de Sebekhotep, o que não era difícil de fazer, bastando um pequeno artifício muito comum entre as alcoviteiras de qualquer lugar do mundo e algum fingimento da parte da falsa virgem. Assim, antes de a conduzir à câmara do Faraó, Meryt dera-lhe um minúsculo saco de pele com sangue de galinha e ela introduzira-o na vagina. O embuste surtira o efeito desejado, todavia Sarai, enquanto se limpava
    do sangue impuro, chorara de humilhação e pejo.


    Arrancou-se à penosa lembrança para seguir com o olhar os movimentos da ruidosa cáfila, que rumava a leste e se perdia lentamente no horizonte, e o seu coração alegrou-se por não ter de partir com ela ao encontro de Abraão.

    Arrastada no torvelinho da paixão de Sebekhotep, aqueles últimos dias haviam sido para Sarai um tempo de turvação e encantamento. Tudo começara quando Meryt a viera buscar para a conduzir de novo ao harém e lhe vira na cabeça a coroa de flores de lótus com que o Divino Senhor a coroara graciosamente, beijando-a com ardor e ternura, antes de sair da câmara.

    – A coroa de lótus para uma filha do povo das areias?! – espantara-se a Governanta do Real Harém. – E logo na primeira noite? Terá Sarai poderes ocultos de feiticeira que Meryt desconhece?

    Sem parar de falar, passara revista aos aposentos, bisbilhotando tudo, e sorrira de aprovação ao descobrir as manchas de sangue no leito. Vendo o embaraço e a incompreensão da nómada, explicou:

    – A coroa de flores de lótus mostra que o Bom Deus te escolheu para sua favorita e isso é admirável, pois as concubinas reais são damas de sangue nobre, esposas, filhas ou irmãs dos grandes senhores da corte, jamais mulheres do povo e estrangeiras. Como conseguiste tal feito?

    Foram interrompidas por um mensageiro do Faraó, com um recado para a Governanta, que o ouviu, com um misto de agrado e espanto, chamando as servas que aguardavam na antecâmara.

    – Sebekhotep deu ordens para ocupares estes aposentos, com estas escravas para te servirem, guarda-roupa e jóias dignas de uma princesa.

    Se quiseres manter estes privilégios, trata de servir bem o Divino Senhor, pois vais fazer muitas inimigas no harém. Tadukhipa e Ahmose hão-de recorrer a toda a sua perfídia para tramar intrigas e causar a tua desgraça.

    Sarai passou a gozar da posição e privilégios de uma princesa da Casa Real de Tebas, a quem o poderoso Faraó do Egipto vinha visitar todos os dias, para lhe mostrar um mundo de coisas novas e admiráveis, ensinando-lhe os requintes de uma corte que fazia do luxo e do prazer uma arte. A pastora nómada de Ur surpreendera-se a ansiar por essas visitas, cada vez com maior inquietação e deleite, para se oferecer como cera macia às mãos divinas e, deslumbrada, deixar-se moldar segundo o desejo e a imaginação do mestre, tomando a forma das suas fantasias.

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