Alberto Morávia - Ao Deus Desconhecido (conto erótico)

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Durante aquele inverno, encontrava‑me muitas vezes com Marta, uma enfermeira que conhecera alguns meses antes, no hospital onde estivera internado por causa de certas febres misteriosas, contraídas provavelmente na África, durante uma viagem, na qualidade de convidado especial.

Pequena, baixinha, com uma cabeça encimada por densos cabelos castanho‑avermelhados encrespados e finos, apartados por uma risca no meio, Marta tinha um rosto redondo de menina. Mas uma menina, digamos, empalidecida e gasta por uma maturidade precoce. Na expressão absorta e preocupada dos grandes olhos negros, no tremor que tantas vezes lhe aflorava aos cantos da boca, a ideia da infância mesclava‑se estranhamente com a de sofrimento ou, melhor, de martírio. Último pormenor, tinha uma voz um pouco rouca e falava com um sotaque rude, dialetal. 

Mas a Marta não me teria inspirado qualquer forma de curiosidade sentimental se, durante a minha doença, não tivesse mantido comigo uma atitude pelo menos insólita no plano profissional. Em palavras simples, Marta acariciava‑me todas as vezes que arrumava a minha cama ou ajeitava os cobertores, ou quando entrava em contacto com o meu corpo por ocasião das minhas necessidades naturais. 

Eram carícias fugitivas e extremamente breves, sempre entre as virilhas, como arrancadas em segredo que as tornava furtivas e incenas. Mas eram, ao mesmo tempo, carícias de certo modo impessoais, isto é, sentia que não me tinham como alvo, mas apenas uma parte precisa do meu corpo, e nada mais. Não recebera nunca um beijo sequer de Marta, e soubera desde sempre que aquilo, ela o teria feito com qualquer outro doente, se para tanto se apresentasse a ocasião. 
No entanto, havia em tudo isto algo de misterioso. Assim, foi mais por curiosidade do que pelo desejo de reatar qualquer relação que, depois de minha saída da clínica, telefonei à Marta, pedindo‑lhe um encontro. 

Ela marcou‑mo imediatamente, mas com uma estranha condição: “Está bem, vamos nos encontrar, mas só porque você parece ser diferente dos outros e me inspiras confiança”. Tais palavras pareciam um lugar comum um tanto patético, destinados a salvar a dignidade da Marta; porém, como descobri pouco depois, era a mais pura verdade. 

O encontro fora marcado em um Café dotado de uma chamada sala interior, situado no mesmo bairro em que morava a Marta. Foi ela quem indicou o local, com a seguinte frase, cujo sentido real não me foi possível compreender: “A sala interior está sempre vazia; assim, vamos poder estar sozinhos”.

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