Manuel Teixeira-Gomes - A Cigana (Conto)

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Novelas Eróticas
Manuel Teixeira-Gomes

A CIGANA

CARTA A ANTÓNIO PATRÍCIO

Hammamet, dezembro, 1930.

Meu caro amigo:

Com aquela mesma mulher cuja presença, anos depois de nos separarmos para sempre, adivinhei, «senti», num recinto imerso em profundas trevas e cheio de gente; e logo, porque fugi para a não ver, me sugeriu a explicação do mito de Orfeu e Eurídice; com essa mesma mulher, durante os nossos longos e atormentados amores, deu-se um caso de telepatia tão raro, que merece realmente ser arquivado.

Eu jurei a mim mesmo que jamais contaria a alguém os episódios dessa paixão, e tenho cumprido o juramento na sua parte mais íntima e essencial; mas não resisto a lembrar certas passagens de menor importância, e escrevendo-as experimento um intenso e amargo deleite. É curioso que seja eu próprio que me constranjo a voltar a um assunto, no qual bem sei que não posso bulir sem que se me espedacem raízes do coração!

E no caso presente ainda tenho de arcar (ridículo detalhe) com as dificuldades da linguagem, que deverá ser escarolada de todos os ouropéis, para o efeito almejado. Árdua empresa.

Reportando-me ao tempo em que se passou o estranho caso, ainda respiro a sua atmosfera literária, que alimentava os «ansiosos poetas do sonho errante»...

E foi em Córdova que ele se deu: Córdova nostálgica, das violas, do nardo, dos jacintos...; Córdova dolente, das mulheres fatais, que disparam olhares acesos em luxúria para quem se lhes cruza no caminho; e onde é ainda mais selvagem, excitante, afrodisíaco, o tripúdio das bailarinas andaluzas...; Córdova oriental, da torre de «mala muerte», e do «infinito» palmar estilizado em pedra que a mesquita «encerra»...

Que irresistível tesouro de ornamentação e digressões! Porém recordo que tão embebido andava então no meu amor, que dessa vez nem à mesquita fui. Isso me valerá para narrar o caso nu e cru, o qual podemos intitular A Cigana e encabeçá-lo com as sagradas palavras de um bispo, a Águia de Meaux, o sublime Bossuet:

«Dans le transport de l'amour humain, qui ne sait qu'on se mange, qu'on se devore, qu'on voudrait s'incorporer en toutes manières et, comme disait ce poète, enlever jusqu'avec les dents ce qu'on aime pour le posséder, pour s'en nourrir, pour s’y unir, pour en vivre?»

Sinto que os meus amores atravessam uma crise agudíssima. Durante as nossas entrevistas noturnas os silêncios da minha noiva apavoram-me. E se os corta é para chamar pela sua aia, a fiel Gertrudes, que no quarto próximo está de vela, para dar o alarme ao menor prenúncio de perigo. Pede-lhe água, flores, um lenço, as pastilhas, mil lembranças que servem só para interromper o gozo de um ou outro raro momento, em que ela parece querer realmente interessar-se pela minha presença.

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