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Deana Barroqueiro | Contos Eróticos do Antigo Testamento
Como escritora portuguesa de romance histórico, e de entre esses, os que abordam temáticas eróticas com relevo no modo de estar da antiguidade fica aqui esse registo, com enfoque nos seus livros
Fica aqui um excerto de "Contos Eróticos do Antigo Testamento’
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Deus sentira-se de tal modo defraudado por a Sua criação mais auspiciosa - o Homem feito à Sua imagem e a Mulher feita segundo a imagem aperfeiçoada do Homem, para dominarem sobre todos os outros seres do Mundo - ter resultado tão defeituosa e rebelde que, depois de os fazer expulsar do jardim do Éden, apesar da insistência dos anjos, se mostrara inabalável na recusa de uma nova tentativa para criar a Humanidade.Apesar da Sua omnisciência (talvez devido ao cansaço de ter feito aquele imenso Mundo em apenas seis dias), no instante da criação do Homem sentira-se muito orgulhoso e satisfeito com a Sua obra e não lhe achara qualquer defeito ou mácula.
Assim, na euforia que se seguiu, não vendo entre todos os animais desse Mundo uma companheira adequada para oferecer à Sua criatura, caíra na tentação de dar vida a um novo ser, feito à imagem do anterior, mas aperfeiçoando o modelo com a introdução de pequenas mas significativas diferenças.
Como desejava um material mais raro do que o pó utilizado na primeira tentativa, adormeceu profundamente o Homem, nas margens do rio Tigre que limitava a Oriente o jardim do Éden, e tirou-lhe uma das costelas que substituiu por carne, esculpindo a partir do osso uma nova criatura em forma de Mulher.
Ao contemplar a Sua obra, Deus achou-a tão bela que, em vez de lhe soprar a vida pelas narinas como fizera ao Homem, lha insuflou através dos lábios beijando-a e, com surpresa, sentiu pela primeira vez o Seu espírito vibrar de emoção nesse fugaz contato com a matéria. Deus conduziu a Mulher para junto do Homem que despertara e observou cheio de curiosidade a sua reação.
Para Seu espanto, o Homem, ao ver diante de si aquele novo ser em toda a sua esplêndida nudez, não se ergueu do lugar, nem agradeceu a dádiva ao Criador, limitando-se a exclamar: - Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne! Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!
Ouvindo estas frases, Deus admitiu pela primeira vez que talvez a sua melhor criação não fosse afinal tão perfeita no espírito como era na carne e pensou se não seria um risco pôr a árvore da ciência do bem e do mal ao seu alcance. Porém como já era tarde, retirou-se para descansar ao sétimo dia e não voltou a pensar no assunto.
E, um dia, as Suas criaturas eleitas atraiçoaram-No e quando Deus os confrontou com o crime da rebeldia e da desobediência, o Homem culpou a Mulher e a Mulher culpou a Serpente pela tentação de provar o fruto proibido. E Deus, ferido no Seu orgulho e no Seu amor, vestiu-os com túnicas de peles e expulsou-os para sempre do Jardim das Delícias, antes que descobrissem o fruto da árvore da vida e vivessem eternamente.
Apesar do seu arrependimento e das suas súplicas, Deus lançou-lhes terríveis maldições: - Tu, Mulher, por teres desejado ser mais inteligente do que o Homem e igual ao teu Deus, procurarás com paixão o teu marido, a quem serás sujeita. Aumentarei os sofrimentos da tua prenhez e parirás teus filhos com dor, suor e lágrimas. Chamar-te-ás Eva pois serás a mãe de todos os viventes.
A Mulher chorou o Paraíso Perdido e a sua nova condição na terra. Em seguida, Deus amaldiçoou o Homem: - Tu, Homem, que provaste o fruto proibido da inteligência, procurarás o alimento, à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida e comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar! E todo o Homem nascido da tua semente há-de ser tentado e enganado pela Mulher, por toda a Eternidade, como tu foste pela tua.
E Deus enviou querubins armados de espadas flamejantes expulsá-los do Paraíso, pela porta do Oriente, para as terras desérticas da futura Babilônia, entre os rios Tigre e Eufrates que Adão, o primeiro homem, deveria tornar férteis pelo esforço do seu lavor e castigo. Quando Deus acalmou a Sua ira e pôde pensar com serenidade nas duas criaturas caídas em desgraça, viu que dispunha apenas do casal primordial, Adão e Eva, para povoar o mundo e, como não queria voltar com a palavra atrás, criando novos seres, foi forçado a prolongar as suas vidas miseráveis assim como a dos seus descendentes, tornando-as férteis durante séculos para que a Humanidade pudesse crescer e multiplicar-se com algum sucesso.
Mesmo assim o processo era tão lento que os Filhos de Deus, contrariando os desígnios do Pai, decidiram sair da esfera celeste e contribuir para o acréscimo da Humanidade, escolhendo entre as mais belas filhas dos Homens as que bem quiseram para mulheres e da sua união nasceram os gigantes e os famosos heróis dos tempos remotos, paridos em grande dor pelas filhas dos Homens, pois a maldição divina jamais fora levantada.
Deus, tomando conhecimento da desobediência das forças celestes e da desordem cósmica que isso implicava, arrependeu-se mais uma vez de ter criado o Homem e a Mulher e, sofrendo amargamente, castigou de novo as Suas criaturas: - Não quero que o meu espírito permaneça indefinidamente no homem, pois o homem é carne, por isso, os seus dias não ultrapassarão os cento e vinte anos.
E Deus enviou o Dilúvio e destruiu as terras da Mesopotâmia e todos os seres vivos, permitindo que apenas Noé com a sua família - a nona geração de Adão - e um casal de todos os animais em vias de extinção se salvassem numa arca, abrindo assim o caminho para uma nova Humanidade, num processo quase idêntico ao anterior. Deus contava com a efemeridade da vida a que havia condenado os homens e com a sua lentidão em crescer e se multiplicar, para tão cedo não ser importunado pelos seus erros e desacatos, nem ter de os vigiar, punir ou premiar pelos seus atos.
E então Deus deixou os homens entregues a si próprios e esqueceu-se deles. Porém, contrariando os desígnios divinos, as forças celestes interessaram-se de novo pela Humanidade e, para acelerar o seu crescimento, concederam aos descendentes de Noé, tal como haviam feito aos de Adão, uma esperança de vida de mais de novecentos anos nos homens e uma juventude e fertilidade quase eternas nas mulheres, segundo consta nos registos do livro das gerações nascidas de Adão, de todos os Patriarcas de antes e depois do Dilúvio, no Livro do Génesis, que não enunciaremos aqui, por ser demasiado extenso e não servir os propósitos deste nosso conto.
Os Cuidados de Abraão
Pela vez primeira a nómada contemplara o corpo nu de um homem na força da juventude, moldado no exercício das armas e no requinte da corte, feito à imagem dos deuses, uma escultura de carne e osso, com músculos e tendões movendo-se como pequenas cobras irrequietas sob a pele macia e lisa, cor de cobre, brilhante de óleos perfumados.Sarai recordara com desgosto o corpo velho de Abraão, mole e enrugado, o hálito fétido dos dentes podres, o cheiro azedo a suor e a bedum de carneiro. A água era um bem demasiado precioso para ser desperdiçado em banhos e não havia erva defumadora que lograsse afastar das tendas e da própria pele dos pastores nómadas o fedor da urina quente e do sebo dos rebanhos a que todos acabavam por se habituar. Ela só se apercebera do seu cheiro depois de ter entrado no sumptuoso harém do Faraó.
Quando Sebekhotep se deitara sobre o seu corpo para lhe tomar a flor da virgindade, enroscara-se nele como a hera no tronco firme da árvore que a sustenta, sentindo-o deslizar para dentro de si, com a dureza do bronze e a maciez de uma lâmina oleada. Fizera-lhe as carícias que Meryt lhe ensinara como sendo as mais doces ao seu prazer, percorrendo com os lábios e os dedos os caminhos secretos do seu corpo, até o sentir vibrar dentro de si. O ventre de Sarai latejara, quente e húmido, e eclodira por fim em ondas de êxtase quase dolorosas, como jamais experimentara no leito de Abraão.
O virgo postiço rebentara e o sangue correra pelas coxas de Sarai quando Sebekhotep se retirara de dentro dela, sorrindo por vê-la perturbada. Porém, a vergonha da nómada não era devida à perda da virgindade, mas ao ardil usado para o enganar e que contara com a cumplicidade de Meryt, sempre desejosa de lhe satisfazer os mais ocultos desejos.
A Governanta do Real Harém soubera desde o primeiro dia que a nómada já fora tocada por homem, mas Sarai confiara-lhe uma triste história de infância e ganhara a sua simpatia ou talvez a mulher não gostasse das favoritas Tadukhipa e Ahmose e tivesse visto na nova concubina uma rival capaz de as derrubar.
Para o conseguir, teria de guardar segredo e proceder de modo a Sarai poder passar por virgem no leito de Sebekhotep, o que não era difícil de fazer, bastando um pequeno artifício muito comum entre as alcoviteiras de qualquer lugar do mundo e algum fingimento da parte da falsa virgem. Assim, antes de a conduzir à câmara do Faraó, Meryt dera-lhe um minúsculo saco de pele com sangue de galinha e ela introduzira-o na vagina. O embuste surtira o efeito desejado, todavia Sarai, enquanto se limpava
do sangue impuro, chorara de humilhação e pejo.
Arrancou-se à penosa lembrança para seguir com o olhar os movimentos da ruidosa cáfila, que rumava a leste e se perdia lentamente no horizonte, e o seu coração alegrou-se por não ter de partir com ela ao encontro de Abraão.
Arrastada no torvelinho da paixão de Sebekhotep, aqueles últimos dias haviam sido para Sarai um tempo de turvação e encantamento. Tudo começara quando Meryt a viera buscar para a conduzir de novo ao harém e lhe vira na cabeça a coroa de flores de lótus com que o Divino Senhor a coroara graciosamente, beijando-a com ardor e ternura, antes de sair da câmara.
– A coroa de lótus para uma filha do povo das areias?! – espantara-se a Governanta do Real Harém. – E logo na primeira noite? Terá Sarai poderes ocultos de feiticeira que Meryt desconhece?
Sem parar de falar, passara revista aos aposentos, bisbilhotando tudo, e sorrira de aprovação ao descobrir as manchas de sangue no leito. Vendo o embaraço e a incompreensão da nómada, explicou:
– A coroa de flores de lótus mostra que o Bom Deus te escolheu para sua favorita e isso é admirável, pois as concubinas reais são damas de sangue nobre, esposas, filhas ou irmãs dos grandes senhores da corte, jamais mulheres do povo e estrangeiras. Como conseguiste tal feito?
Foram interrompidas por um mensageiro do Faraó, com um recado para a Governanta, que o ouviu, com um misto de agrado e espanto, chamando as servas que aguardavam na antecâmara.
– Sebekhotep deu ordens para ocupares estes aposentos, com estas escravas para te servirem, guarda-roupa e jóias dignas de uma princesa.
Se quiseres manter estes privilégios, trata de servir bem o Divino Senhor, pois vais fazer muitas inimigas no harém. Tadukhipa e Ahmose hão-de recorrer a toda a sua perfídia para tramar intrigas e causar a tua desgraça.
Sarai passou a gozar da posição e privilégios de uma princesa da Casa Real de Tebas, a quem o poderoso Faraó do Egipto vinha visitar todos os dias, para lhe mostrar um mundo de coisas novas e admiráveis, ensinando-lhe os requintes de uma corte que fazia do luxo e do prazer uma arte. A pastora nómada de Ur surpreendera-se a ansiar por essas visitas, cada vez com maior inquietação e deleite, para se oferecer como cera macia às mãos divinas e, deslumbrada, deixar-se moldar segundo o desejo e a imaginação do mestre, tomando a forma das suas fantasias.

