Entrevistas

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    Clarice Lispector - Entrevista de Júlio Verner

    Entrevista com Clarice Lispector realizada pelo jornalista Júlio Lerner. O vídeo foi veiculado no programa “Panorama”, da TV Cultura, dia 1 de fevereiro de 1977, ano da morte da escritora.

    De personalidade singular e forte, pouco se importava com as críticas e, segundo ela:

    “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...”.

    Alberto Moravia - Entrevista com Nello Ajello



    Alberto Moravia, nascido com o nome de Alberto Pincherle, nasceu em 28 de novembro de 1907, em Roma, Itália. Foi considerado o imperador do romance italiano. Mesmo assim, isso não impediu que em 1952 a Igreja Católica o colocasse no “Índex das obras proibidas”, devido ao tema em que se baseiam os seus livros: a degradação de princípios morais durante o empenho dos seus personagens para se manterem vivos. 

    Conquistou muitas honrarias e, para seu consolo, ganhou os prémios literários Strega e Legião de Honra no mesmo ano em que foi proibido pela Igreja. 

    Com apenas 22 anos escreveu Os indiferentes, um dos romances italianos mais importantes do século. Foi também autor teatral, ensaísta e crítico de cinema. As suas críticas ao fascismo de Benito Mussolini levaram à censura das suas obras, e alguns dos seus contos só foram publicados porque adotou um pseudónimo nada discreto: “Pseudónimo”. 

    No entanto, não aguentou o exílio forçado e escreveu a Mussolini, em 1938, pedindo que o excluísse da proibição imposta a todos os judeus de escrever. Dizia que não era judeu, mas “católico de nascimento”. 

    Em 1943 refugiou-se com a sua esposa numa região montanhosa, para escapar da perseguição política. Entre as suas obras destacam-se Agostinho (1944), A romana (1947), O conformista (1951), esta considerada por ele mesmo como a sua obra de maior êxito, A ciociara (1957), O tédio(1960), Desideria (1978) e O homem que olha (1985). 

    Nos últimos anos de vida, dedicou parte de seu tempo trabalhando numa editora de Milão e como colaborador constante do Corriere della Sera e Francisca Camelo, Photoautomat, 2019 

    Entrevista a Alberto Moravia por Nello Ajello, jornalista e ensaísta italiano muito consagrado. 

    Como escreve? 
    Alberto Moravia 

    “Trabalho de manhã, todos os dias, das nove horas à uma, e depois ao fim do dia. Faço sempre isto, mesmo aos domingos, desde os meus dezasseis anos. 

    E escrevo diversas vezes cada romance. Como os pintores da Idade Média, passo algumas demãos de tinta. Escrevi duas vezes "A Romana2 e três vezes "O Conformista". Mas também acabei "Agostinho ", num mês... 

    Levanto-me e coloco-me à mesa para trabalhar. Escrevo diretamente à maquina. É o gesto e o movimento que conta. No inicio da minha carreira, escrevia três ou quatro linhas por dia e sentia-me esgotado. 

    Agora, tudo isso se tornou mecânico: logo de manhã sinto que devo sentar-me à minha mesa de trabalho. É assim a minha maneira de ser...Sei que certos escritores franceses trabalham durante todo o dia. Isso parece-me prejudicial. 

    Deve esquecer-se durante uma boa parte do dia de que se é escritor. Em arte, o tempo é, de resto, uma medida convencional: pode-se em dez minutos recuperar alguns anos de preguiça ou de obscuridade. 

    A inspiração não se importa com o tempo. Verifica-se isso, verdadeira e fisicamente, nos momentos de inspiração: a inteligência executa, então, operações com uma rapidez extraordinária. Não é de espantar que Stendhal tenha escrito "A Cartuxa de Parma" em quarenta dias. 

    Por que escreve? 
    Alberto Moravia 

    Com a idade de 16 anos, quando eu começava a escrever o meu romance, decidi que daí em diante, escreveria todos os dias, três horas em cada manhã. A tarde e a noite deviam ser consagradas ao que eu chamava então “a vida” e que era, na realidade, o momento em que eu iria “agir”. 

    Essa decisão tão precoce provocou em mim, ao longo dos anos, uma espécie de costume fisiológico. 

    Depois de tanto tempo, eu escrevo em cada manhã da mesma forma que durmo a cada noite e que como a cada dia: a escrita acabou por se tornar parte integrante de meu ritmo biológico. Ritmo biológico colocado à parte, quando escrevo, eu procuro sobretudo resolver problemas literários, isto é, todos os problemas, porque acredito que a literatura é tudo. 

    Em todo caso, eu avanço como o asno da fábula que segue a cenoura diante de seu nariz. Por esta razão, quando me perguntam por que escrevo, eu respondo habitualmente: eu escrevo para saber por que escrevo. 

    O que é inspiração? 
    Alberto Moravia 

    Em arte, o tempo é, de resto, uma medida convencional: pode-se em dez minutos recuperar alguns anos de preguiça ou de obscuridade. A inspiração não se importa com o tempo. Verifica-se isso, verdadeira e fisicamente, nos momentos de inspiração: a inteligência executa, então, operações com uma rapidez extraordinária. Não é de espantar que Stendhal tenha escrito A Cartuxa de Parma em quarenta dias. 

    Influências literárias 
    Alberto Moravia 

    Sim, quando era jovem. Mais tarde, não sofri já qualquer influência. Ou, então, não se é de fato um bom escritor. Aos dezassete ou dezoito anos, li muito Joyce e Dostoievski. Depois, gostei bastante de Stendhal. 

    Cinema 
    Alberto Moravia 

    Em certo sentido, sim, o cinema empobreceu a literatura. Deu um rude golpe à narrativa, mas obrigou-a, ao mesmo tempo, a renovar-se. Depois da consolidação do cinema já não é possível conceber um romance descritivo a exemplo de Père Goriot. 

    Somente para descrever a pensão em que morava o protagonista, Balzac empregava umas vinte, quarenta páginas, nem sei quantas; num filme, em poucos segundos, vemos toda a pensão. E os romances dramáticos, de ação, de aventura, encontram também na tela um concorrente feroz. Enfim, o cinema é uma arte estranha, que fica entre a pintura e o romance. 

    Está ligado ao romance pelo problema da 'duração': sem dispor do pretérito imperfeito ou do pretérito perfeito, a narração cinematográfica está sempre em ligação direta com o presente. Quando na tela Júlio César atravessa o Rubicão, entende-se que está a atravessar naquele momento. 

    Além disso, como passatempo, o cinema é muito mais eficaz que o romance. Os filmes de mera diversão ocuparam o lugar de milhares de romances, também de entretenimento, que todos outrora corriam para comprar e que agora já nem sequer se imprimem. E há também os laços do cinema com a pintura. 

    Onde quer que haja artesanato, há arte. Mas a questão é: até que ponto permitirá o cinema expressão? 

    A câmara é um instrumento menos complexo de expressão que a pena, mesmo nas mãos de um Eisenstein. Jamais será capaz de exprimir tudo aquilo, digamos, que Proust era capaz de fazê-lo. Jamais. 

    A despeito disso, é um meio espetacular, transbordante de vida, de modo que o trabalho não é inteiramente penoso. É, hoje, a única realmente viva na Itália, devido ao seu grande apoio financeiro. 

    Mas trabalhar para o cinema é exaustivo. E um escritor não consegue ser mais que um homem-ideia, ou um cenarista – um subalterno, na verdade. O cinema oferece-lhe pouca satisfação, à parte o pagamento. 

    O seu nome não aparece sequer nos cartazes. Para um escritor, é uma tarefa amarga. E, o que é mais, os filmes são uma arte impura, à mercê de uma confusão de mecanismos – gimmicks (truques), como, creio os senhores dizem em inglês... ficelles.(artimanhas). Quase não há espontaneidade. Isso não deixa de ser natural, claro, quando pensamos nas centenas de expedientes mecânicos empregados na feitura de um filme, no exército de técnicos. 

    Todo o processo não passa de cortar e deixar secar. A inspiração das gentes torna-se rançosa, quando se trabalha no cinema – e, o que é pior ainda, a mente das gentes acostuma-se para sempre a procurar truques e, ao fazê-lo, acaba por arruinar-se, por destruir-se. 

    Não me agrada, de modo algum, trabalhar para o cinema. Os senhores compreendem o que quero dizer: as suas compensações não são, num sentido real, compensadoras; mal valem o dinheiro que se ganha, a menos que se precise dele. 

    Jornalismo 
    Alberto Moravia 

    São meios que permitem a um escritor não se calar. Eu escrevo 'em' jornais, não 'para' jornais... É questão de esclarecer. Eu jamais poderia escrever num jornal fascista. Jamais poderia escrever num jornal católico. Há na Itália uma tradição mais ou menos vacilante de jornalismo 'leigo' liberal: é dela que me valho para me exprimir. 

    É uma tradição que permite certa amplitude de opiniões. Permite, por exemplo, a Franco Fortini escrever no Corriere dela Sera... Há quarenta anos eu escrevia até em jornais fascistas, e nem por isso era fascista. Acho que o moralismo é uma coisa muito respeitável, mas a personalidade é mais importante que a moral. 

    A certo nível de personalidade - não digo isso por vaidade, não falo por mim só - podemos dar-nos ao luxo de escrever até em jornais não inteiramente homogéneos com o que somos. Escrever nos jornais que existem. Enfim, é preciso ter força bastante para servir-se dos jornais e não servi-los a eles. 

    Música 
    Alberto Moravia 

    O que é para si a função de escrever? Obedecer a uma certa música. Sentir uma simpatia e caminhar para ela. Trabalha-se pelo ouvido. 

    Crítica literária 
    Alberto Moravia 

    Acho que sim, o tratamento interdisciplinar faz bem à crítica. Os críticos que se baseiam puramente no 'gosto' precisam de ser grandes escritores. Haja vista Baudelaire. O assunto de que fala não tem grande importância. 

    Já o caso de Cecchi é diferente: como crítico-escritor, não tinha estatura suficiente; como crítico, na qualidade de juiz, isto é, como 'leitor com golpe de vista', não dizia nada, safava-se com piscadelas. 

    Salvo quando encontrava um autor com quem tivesse afinidade: Stevenson, por exemplo. Aí a sua imaginação acendia-se... A obra de arte é um produto cultural-estético, onde estão presentes os elementos mais disparatados. 

    Não se pode isolar um deles a capricho, ignorando os demais. É preciso procurar explicar tudo em conjunto. Justamente por isso é que todos os instrumentos são úteis. A interdisciplinaridade é um modo de se mostrar humilde, sério e consciencioso. 

    Psicanálise 
    Alberto Moravia 

    O nível cultural e intelectual dos psicanalistas é inferior ao meu, não posso então me entregar a eles. 

    Eles, no fundo, deveriam ser sacerdotes... Na Itália ou noutro lugar, é verdade, para a maioria, o seu nível intelectual é inferior ao meu. E depois, o escritor faz a sua psicanálise através dos seus livros, ele se auto-psicanaliza, então não precisa de uma psicanálise a mais. 

    Quanto ao sacerdócio, eu disse isso por uma razão muito simples: ele age em nome de algo que o psicanalisado reconhece como superior; enquanto no caso de um psicanalista, há uma colaboração, estão em pé de igualdade, não existe nenhuma autoridade fora da psicanálise. 

    A falta de autoridades não autoriza o psicanalista a colocar-se por cima do psicanalisado... Eu acho que o escritor não deve ser neurótico. Ele deve simplesmente e completamente sublimar com a escrita. 

    Política 
    Alberto Moravia 

    Essa questão do engajamento é um tanto complicada: tentemos examiná-la pelas raízes. Nasci na burguesia romana e tinha quinze anos quando o fascismo chegou ao poder. Por muito tempo não fui nada `engajado`. 

    Não era capaz de enxergar a política além dos limites da classe em que me coube crescer e viver. Eu era um jovem burguês de um país onde inexistia vida política. Acresce que a literatura me absorvia por inteiro, até mesmo ao nível dos fatos do dia-a-dia. 

    Na minha adolescência os grandes acontecimentos foram a descoberta de Rimbaud e Dostoievski. 

    Para mim, a literatura possuía prestígio supremo. Existia, porém, dentro de mim mesmo um elemento que inconscientemente se ia transformando em política: era o meu moralismo, algo que se desenvolvia com prepotência e instinto de necessidade física. Foi sobre esse fundamento moral, e não sobre um fundamento – como dizer? - `técnico`, que vi nascer o meu interesse político. 

    Eu nada sabia do lado `técnico` da política; não sabia falar em público, nem tinha a noção do que fossem assembleias, moções, ordem do dia, enfim, eu nada tinha dos jovens de hoje que já aos treze anos se acostumam a agir como parlamentares. 

    Eu sempre estive só. A minha revolta era individual, solitária e talvez por isso mais violenta... ? 

    Respeito Sartre também por ter sido o defensor dessa fórmula. As suas intenções são nobres, suas justificativas convincentes. Apesar disso, não gosto do engajamento na literatura. Desde o início recusei, sempre o considerei um falso problema, ou melhor, um perigo. 

    A literatura não é de tal maneira que exclui o engajamento. O intelectual que pretenda sentir-se engajado dispõe de outros modos para manifestar essa vocação: o artigo de jornal, o panfleto, o discurso em praça pública. Por que perturbar o romance ou a poesia? Um romance 'engajado' é para mim, um mau romance como obra de arte e má propaganda como obra política. 

    Além disso, a mera palavra 'engajamento' provoca-me um ímpeto de desconfiança; o fascismo não parava de pedir engajamento a seu favor e mais ou menos pelas mesmas razões adotadas mais tarde pela esquerda.

    Alberto Moravia | Entrevista com Madeleine Chapsal

    Entrevista conduzida por Madeleine Chapsal, publicada no seu livro Os escritores e a literatura Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1967.

    As entrevistas embora tenham muito de preparado num jeito de antecipação calculada trazem sempre consigo aspectos inesperados, genuínos, que reflectem pelo menos, num dado momento, as preocupações e a alma do escritor, daí serem tão importantes.


    - Há muito tempo que não vinha a Paris?

    Desde 1951. Nessa época tinha acabado o argumento para um filme mal encaminhado. Foi um período triste... Desta vez, porém, estou completamente livre.

    - Para um escritor, que diferença existe entre a vida em Paris e a vida em Roma?

    Em Paris pode dizer-se que os escritores mais integrados na sua personalidade de escritores, são personagens sociais. Em Roma, os escritores deixam-se estar tranquilos. E Roma não passa, claro, de uma cidade da Itália, enquanto em Paris se concentra noventa por cento da vida intelectual.

    - Escreve algum romance neste momento?

    Sim, como sempre.

    - Interrompeu-o para vir a Paris?

    Não, escrevo de manhã no hotel. Esta manhã já escrevi. Trago sempre o meu manuscrito. Encontro-me muito bem aqui, porque posso escrever. E isso depende muito do quarto, da disposição da mesa...

    - Qual é o tema do seu romance?

    O herói é um pintor que não pinta ou não pintará mais.

    - Um impotente?

    Do ponto de vista da criação artística, sim. Um problema interessante a descrever será o que se refere ao fim da arte, que, aliás, tem sido previsto por diversos filósofos. O mundo moderno já não tem necessidade das artes e substitui-as por alguns ersatzs (sucedâneo) artísticos. 

    Por exemplo, no domínio da literatura, cria-se a máquina para ler. Diversas revistas americanas, como a Time, são já máquinas de leitura, como as casas de Le Corbusier são máquinas de habitar - a Time é composta de frases ajustadas umas às outras, de uma maneira completamente mecânica. É isso a industrialização da cultura.

    - Parece, pois, que nunca se escreveu tanto.

    Sim, mas a maior parte das coisas que se redigem não são escritas. Os jornais, por exemplo, são mais impressos do que escritos.

    - Será uma questão de inspiração?

    É um problema de civilização. As artes poderão morrer por uma razão simples: a arte não é mais do que uma alta, muito alta, forma de artesanato. No mundo inteiro, assistimos ao fim do artesanato. 

    Ora, o homem reflete-se naquilo que produz: pois que, se se fabrica para tudo objetos em série, não se poderá também impedir de criar homens em série - e o homem em série é o contrário do artista.

    - Haverá sempre homens que resistirão à sociedade?

    Um artista é um belo ser independente, mas quando se trata de assuntos para uma sociedade restrita como a de Luís XIV, ou vasta como a atual sociedade francesa, põem-se problemas diferentes. Há sempre uma pressão.

    - Que representa para si o público?

    Isso pergunto a mim mesmo! Não existe público italiano. A nossa crítica, por vezes excelente, funciona em ciclo fechado: são algumas conversas privadas que vão para a tipografia. Como saber o que isso representa? 

    Devo parecer, pois, como um senhor que fabrica regularmente alguns objetos de qualidade satisfatória, numa fábrica em que a produção é conhecida por ser honesta... Então, se ele inspira confiança, muita confiança, não deverá ir mais longe...

    - Quando começou a escrever?

    Aos nove anos! De fato, aos dezasseis anos já escrevia muito seriamente. Não poderá imaginar o que foi o sucesso do meu primeiro livro! Gli indifferenti, publicado em 1929. 

    Tinha pouco mais de vinte anos. Apesar, claro, de a tiragem ser de início muito frouxa: 6000 exemplares. Depois sobreveio o fascismo, que não permitiu a reimpressão. Agora, é necessário multiplicar por dez essa primeira cifra.

    - Como explica esse sucesso?

    Não existia, então, nem romances nem romancistas na Itália, exceto Italo Svevo. 

    Com exceção dele, era necessário recuar até 1910 - quase vinte anos antes - para encontrar D'Annunzio, que apresentava os burgueses transfigurados em heróis. Sim, na obra de D'Annunzio, todos os burgueses eram heróis! E foi isso que fez o sucesso de Gli Indifferenti: eu tinha mostrado a burguesia tal como ela era, muito pouco heróica.

    - Não tem ultimamente procurado atingir um público mais vasto? La Provinziale, A Ciociara, não parecem ter um estilo mais popular, quase «folhetinesco»?

    Não me interessa nada o público. Hoje, lança-se um livro como uma lata de sardinhas ou um maço de cigarros...

    - Mas, apesar disso, não há atualmente uma nova fase na sua obra?

    Absolutamente! Com efeito, eis o que se passa: após uma evolução formal muito complicada, tentei duas experiências paralelas: de uma vez escrevi um romance sobre as «massas», de outra vez sobre os intelectuais. 

    Costumo alternar. Escrevi A Romana e, em seguida, A Desobediência. Depois escrevi L'amore conjugale, seguindo-se Il conformista. Ultimamente escrevi A Ciociara, a história de uma prostituta, e agora estou a escrever um romance em que o herói é um pintor.

    - E não sofre quaisquer dificuldades ao passar de um tom para outro?

    Nada. E digo-lhe porquê: nasci de uma família bastante burguesa, em 1907. Gli indifferenti, o meu primeiro romance, é a descrição crítica desse ambiente social. Logo após ter escrito esse romance senti que me desligava da burguesia e me aproximava com mais simpatia e atração das classes populares. 

    De qualquer modo, quando realizo um romance sobre a burguesia não é esta que mais me interessa enquanto classe do dinheiro. A meu ver, o verdadeiro drama da burguesia é o drama dos intelectuais. 

    Apenas eles têm consciência desta situação de nivelamento como burgueses em face das classes populares, de que tentam, aliás, separar-se. O único herói burguês possível é o intelectual.

    - Em que medida Michel, o jovem herói burguês de Gli indifferenti, é o que se chama um intelectual?

    Michel encontra-se perante um problema moral, atormenta-se, pensa, e isso faz dele uma espécie de intelectual. Mas também Il confomista. Interessam-me as classes populares, porque somente nelas se pode encontrar ainda o sentido do carácter e da moral que não existe nos burgueses. 

    Nestes, claro,o carácter é destruído e corrompido. Encontra-se em decadência como a própria burguesia, Na minha opinião, não existem hoje mais do que duas formas de romances possíveis: o romance de ideias e o romance popular.

    - E porque entende praticar estas duas formas?

    Julgo mostrar duas espécies de herói: de um lado, o intelectual, o herói da dúvida, atormentado pela sua consciência e a sua lucidez - note que não digo que o inventei -, e, do outro lado, algumas personagens picaras como aquelas que mostrei nos meus contos romanos. 

    A personagem pícara tem apenas necessidades económicas. A sua única preocupação é o estômago. 

    De fato, não há nela qualquer outra aspiração, mesmo o amor a deixa indiferente. Necessita de comer para não morrer, e daí o seu comportamento tantas vezes grosseiro, cúpido e até manhoso.

    - Tem-se reprovado os seus livros por tratar neles muitas vezes problemas do sexo. Que pensa disso?

    Antes de mais, há um problema de designação: o que antes se afirmava por “amor” é agora designado por “sexo”. Mas não é essa a única razão: a verdadeira é que no mundo moderno não existem muitos valores seguros e sólidos, sendo o sexo um desses valores. 

    Ora, o escritor tem necessidade de se basear naquilo que, a seus olhos, represente uma certa realidade. Outros escritores apoiam-se sobre o dinheiro; em Stendhal, por exemplo, existe a missão social. Para mim, talvez seja o sexo.

    - Porque continua a escrever romances? Não se tem dito muitas vezes que o romance clássico é hoje um género literário ultrapassado, fora de moda?

    Ah!, pretende falar-me de Robbe-Grillet? Objetivo, desumanizado, apoiando-se principalmente no olhar. Mas a própria escolha pelo olhar julga e decide logo que isto ou aquilo lhe interessa. Se quisesse descrever exaustivamente sei lá o quê... uma mosca, por exemplo, seriam necessárias dez mil páginas...

    - Mas não se tem aplicado muito para ser uma espécie de romancista integral do mundo?

    Talvez, mas em mim não acontece por tema. Isso deriva do fato de acreditar sempre que as coisas me escapam.

    - Sofreu algumas influências?

    Sim, quando era jovem. Mais tarde, não sofri já qualquer influência. Ou, então, não se é de fato um bom escritor. Aos dezassete ou dezoito anos, li muito Joyce e Dostoievski. Depois, gostei bastante de Stendhal.

    - E Maupassant?

    Não, e não é por causa de Maupassant que eu escrevo contos, mas devido a um grande poeta italiano do século XVIII, Giuseppe Gioacchino Belli, que escreveu três mil sonetos sobre a vida do seu tempo. Foi isso que me inspirou na realização de algumas novelas sobre Roma: já escrevi cento e trinta, que, muito brevemente, aparecerão em volume.

    - Por que sobre Roma?

    Porque é a minha cidade. Sou romano e passei em Roma alguns anos, por vezes mesmo longos períodos. Tenho, pois, uma grande experiência de Roma... Os meus contos apareceram antes no Corriere della Sera. É muito interessante escrever tendo em conta um espaço previamente limitado - duas colunas do jornal -, o que nos obriga a restringir e a encurtar.

    - Como é que escreve?

    Trabalho de manhã, todos os dias, das nove horas à uma, e depois ao fim do dia. Faço sempre isto, mesmo ao domingo, desde os meus dezasseis anos. E escrevo diversas vezes cada romance. Como os pintores da Idade Média, passo algumas demãos de tinta. Escrevi duas vezes A romana e três vezes Il conformista. Mas também acabei o Agostinho num mês.

    - Sente-se mal com esse ritmo de trabalho?

    Não. Levanto-me e coloco-me à mesa para trabalhar. Escrevo diretamente à maquina. É o gesto e o movimento que conta. No início da minha carreira, escrevia três ou quatro linhas por dia e sentia-me esgotado. Agora, tudo isso se tornou mecânico: logo de manhã sinto que devo sentar-me à minha mesa de trabalho. É assim a minha maneira de ser.

    - E nunca trabalha além das quatro horas?

    Sei que certos escritores franceses trabalham durante todo o dia. Isso parece-me prejudicial. Deve esquecer-se durante uma boa parte do dia de que se é escritor. Em arte, o tempo é, de resto, uma medida convencional: pode-se em dez minutos recuperar alguns anos de preguiça ou de obscuridade, 

    A inspiração não se importa com o tempo. Verifica-se isso, verdadeira e fisicamente, nos momentos de inspiração: a inteligência executa, então, operações com uma rapidez extraordinária. Não é de espantar que Stendhal tenha escrito A Cartuxa de Parma em quarenta dias.

    - O que é para si a função de escrever?

    Obedecer a uma certa música. Sentir uma simpatia e caminhar para ela. Trabalha-se pelo ouvido.

    - Que encontra de mais difícil no ato de escrever?

    A incompreensão do escritor em frente do seu tema. É preciso muito tempo para compreender bem o que queremos. Descobrir os temas... Deve-se escrever um romance durante alguns anos.

    - O que pretendeu mostrar em Il conformista?

    Aquilo que me parece um ato humano típico: como um indivíduo pode transformar uma situação negativa do ponto de vista sexual numa situação positiva do ponto de vista social. 

    Il conformista é um rapaz que, sendo pederasta, procura salvar-se e escapar ao seu sentimento de culpabilidade, entrando para a policia. Você pensa certamente que ele não deixa de permanecer numa situação negativa. É isso o fascismo.

    - E como explica O desprezo?

    Em O desprezo procurei mostrar como o dinheiro, num mundo capitalista, determina não apenas as relações de negócios, mas também as relações afetivas. Está igualmente fixado sobre a dúvida: a mulher começa a desprezar o seu marido porque desconfia que ele a quer pôr nos braços, do realizador, do qual depende o seu futuro como cenógrafo. O livro decorre em Roma e em Capri, no mundo do cinema. onde o dinheiro tudo corrompe.

    - Os seus romances apresentam uma imagem muito cruel e amarga do mundo.

    Eu diria violenta, mas não amarga.

    - Mas os seus heróis não parecem ter qualquer momento de bom humor.

    Não procuro mostrar o bom humor. Os heróis de romance não têm de ser felizes. Devem, pelo contrário, ser durante todo o tempo aquilo que as pessoas são num instante no auge dos seus conflitos. Enquanto na vida se esquecem à vontade os seus problemas, as pessoas são desse modo mais felizes.

    - A sua atividade de romancista ocupa-o inteiramente?

    Num mês há trinta dias. Quatro dias por mês são consagrados à critica de cinema, que, durante dez anos, todas as semanas, faço no Espresso... 

    Escrevo as minhas novelas numa média de duas por mês e preciso sempre de quase quatro dias para cada uma... Depois, claro, é preciso contar com as doenças... e as viagens... De uma maneira geral, restam-me quinze dias por mês para trabalhar no romance. O que, aliás, não é muito.

    - Interessa-se muito de perto pelo cinema?

    É a forma de espectáculo que, na Itália, tem hoje mais vitalidade. Nela se encontra tudo: o dinheiro, o talento, a cultura. É, de resto, uma arte perigosa para o escritor: arrisca-se a esta contínua procura de processos. E, depois, a máquina necessita permanentemente de material novo. O cinema e a televisão são monstros que devoram todo o material.

    Encontramo-nos numa época de indústria cultural. Onde vai o tempo em que o escritor não sabia a quem confiar os seus manuscritos? Quando se pensa que a Idade Média viveu apenas do único Roman de Renart*...

    - Há quantos anos é crítico de cinema?

    Há dez anos. Falar de filmes é um pretexto que me permite falar de hábitos, de literatura, enfim, de tudo o que quero. Reconheço assim que a atividade crítica é a que mais convém a um artista. E mais: a atividade crítica é-lhe necessária. Um bom escritor é sempre um crítico.

    - A que chama você, um «bom escritor»?

    Isso não é uma questão de técnica ou de qualquer outra coisa: o bom escritor - como o bom cientista ou o bom pintor - é aquele que tem mais temperamento que os outros. 

    Veja uma página de um bom escritor: é de fato uma página bastante rica. Vê-se isso em todas as linhas, na invenção, na novidade do estilo, na originalidade da linguagem. É um tecido fechado, brilhante..

    - Não acabou de ser eleito presidente do Pen Club ?

    Sim. Não era membro, mas aceitei, porque penso na utilidade de uma associação como esta: multiplicar os encontros fora da Europa. Os congressos do Pen Clube têm lugar uma vez por ano e prolongam-se durante sete dias. Parece-me que o congresso teve mais um forte interesse que o de Frankfurt. E eu pretendo criar um prémio literário.

    - Disse-me que uma parte do seu tempo era consagrada às viagens. Aonde tem ido?

    No tempo do fascismo, a gente aborrecia-se muito e isso levava-nos a partir! Estive em Londres, na China, em Paris, no México. Depois da guerra, fui aos Estados Unidos em 1955, à Rússia em 1956, à Pérsia, ao Próximo Oriente e, ultimamente, ao Japão.

    - Como escritor, nunca encontrou quaisquer obstáculos?

    Tive dois obstáculos para superar. Primeiro, foi a minha doença - tuberculose óssea. De cinco em cinco anos ia à cama, o que me deprimiu bastante. E depois, claro, houve o fascismo. No entanto, não acredito muito nos obstáculos exteriores. O olhar do homem moderno é demasiado forte para tudo conseguir anular, mesmo a doença. Há somente para ele alguns obstáculos interiores.

    - Para toda a gente?

    O homem comum tem certamente os mesmos problemas do artista, mas este possui sobre ele uma vantagem incalculável: pode exprimir-se. O artista liberta-se criando, e isso dá-lhe um equilíbrio, nem sempre feliz, mas de qualquer modo um equilíbrio. 

    Para o homem vulgar, que não tem outro meio de defesa, só lhe resta sofrer ou, então, torna-se doido, ladrão, mata a mulher, etc.

    - Inclui nos seus livros muitos aspectos da sua personalidade?

    Os meus livros não são absolutamente autobiográficos. Tendo a repetir-me. Ou melhor, mete-se sempre muito do que é nosso naquilo que se escreve. Ora, eu sou um homem como os outros. Não quero ser diferente, mas por outro lado sei bem que o artista é diferente, porque possui um poder de contemplação. 

    Poderia mesmo dizer-se que é uma testemunha, «a testemunha» no verdadeiro sentido da palavra. Em certas circunstâncias, ele é a única pessoa que «viu» o que se passou. Os outros agem, sentem, mas o artista viu e pode recordar.

    - Em seu entender, o artista será, pois, um homem superior?

    Não, necessariamente. Acredito que a criação humana é universal. Sim, penso que qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.

    *O Roman de Renart (Romance de Renart) é o mais famoso conjunto de histórias de animais produzido na Idade Média. Não é uma história, mas uma coleção de 26 capítulos composta por vários copistas e menestréis por volta do final do século XII e início do XIII. Ele foi inspirado nas Fábulas do antigo escritor grego Ésopo, e no poema épico de escárnio em latim de Nivardus, escrito em Gante por volta de 1150, chamado Ysengrin. Sob o pretexto da guerra interminável entre Renart, a raposa e Ysengrin, o lobo, a obra ilustra a natureza animal do homem e oferece uma crítica à sociedade cavaleiresca do mundo feudal. Este manuscrito bastante ilustrado, criado na primeira metade do século XIV, é uma cópia do raro manuscrito do romance. Miniaturas de estilo ingénuo celebram as façanhas da raposa, o mais astuto dos animais. Elas também ilustram as histórias, como o funeral de Lady Coppée, a galinha (f. 4r); a partida de Renart para as Cruzadas (f. 12v); o ataque ao castelo de Maupertuis (o covil do herói) por Tibert, o Gato; Noble, o Leão; Tardif, o caracol e Ysengrin, o Lobo, enquanto Reinart e seus filhos jantavam descontraídos (f. 14v); e a violação de Hersent, a esposa de Ysengrin (f. 16r).

    Maxim Jakubowski | Entrevista

    Sean Tuohy é um importante comentador desportivo nos EUA  e Maxim Jakubowski um importante escritor inglês em várias áreas desde a ficção cientifica à literatura erótica.

    Parece não haver nenhum género que possa conter o autor Maxim Jakubowski. Da ficção hardboiled à science-fiction, Jakubowski é um escritor trabalhador e habilidoso. As antologias de Jakubowski são altamente elogiadas, e o  Mammoth - O Livro de Pulp Fiction foi o romance de entrada que o levou a uma ficção policial pesada.

    Esta é uma entrevista que está publicada na writersbone.com/, pelo que ficam aqui registados os seus créditos.

    As entrevistas embora tenham muito de preparado num jeito de antecipação calculada trazem sempre consigo aspectos inesperados, genuínos, que reflectem pelo menos, num dado momento, as preocupações e a alma do escritor, daí serem tão importantes.


    Sean Tuohy: Quais os autores com que você adorou crescer?

    Maxim Jakubowski: Não posso dizer que adorei autores. Alguns eu gostava mais do que outros e tomei como regra ler mais se gostasse deles. A minha primeira grande “paixão” literária foi Júlio Verne apenas por causa de seu senso de admiração e originalidade, o que provavelmente me levou a começar a escrever ficção científica e fantasia na minha adolescência e depois.

    ST: O que te atraiu para a ficção criminal?

    MJ: Sempre fui um amante da ficção popular / de género ao lado do que pode ser chamado de literatura “mainstream”, mais uma vez porque o género deve apelar em primeiro lugar para a imaginação e não para os sentidos, e muitas vezes o fantástico é mais atraente que contos de pia de cozinha ou costumes sociais. Mas hoje em dia todos eles coexistem alegremente no meu menu de leitura e as minhas escolhas são bastante idiossincráticas.

    ST: Qual é o seu processo de escrita: delinear então começar a escrever ou apenas vomitar na página e ver o que acontece?

    MJ: As histórias curtas simplesmente surgem do nada e são frequentemente improvisadas. Novelas menos, e tem que ser brevemente delineado, mas não excessivamente preparado, na medida em que a escrita se torna entediante. O período mais longo e mais difícil é a gestação real quando nenhuma escrita está sendo feita e tudo gira na minha mente até que eu tenha uma correção na história, nos personagens e em alguma forma de estrutura, ponto no qual eu realmente começarei a trabalhar. Em alguns livros podem levar anos, com outros menos. Além disso, na última década, todos os meus romances foram vendidos aos editores em linhas muito antes de uma palavra ser colocada no papel; então tornou-se uma obrigação financeira trabalhar dessa maneira.

    ST: O que o futuro reserva para Maxim Jakubowski?

    MJ: Só para continuar escrevendo o que eu quero escrever, independentemente das demandas de mercado ou de género. Os próximos dois livros são um longo thriller psicológico com várias reviravoltas importantes sob o meu principal pseudónimo, que eu tinha reservado até agora para o meu erotismo; como esse mercado já entrou em colapso, mas eu tenho uma "marca" por isso faz sentido mudar esse nome do autor para um género vizinho e, o primeiro romance com o meu próprio nome em quatro anos, um thriller pós-apocalíptico que começa como um fio condutor padrão e se transforma em algo bastante curioso e sobrenatural à medida que avança.

    ST: Que conselho você dá aos aspirantes a escritores?

    MJ: Não falem sobre isso, apenas escrevam. Ler. Viver.

    ST: Você pode nos contar um facto aleatório sobre você?

    MJ: Eu sobrevivi um fim de semana inteiro com um quilo de batatas.


    Por Sean Tuohy, 25-02-2016


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