Alberto Moravia - Entrevista com Nello Ajello

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Alberto Moravia, nascido com o nome de Alberto Pincherle, nasceu em 28 de novembro de 1907, em Roma, Itália. Foi considerado o imperador do romance italiano. Mesmo assim, isso não impediu que em 1952 a Igreja Católica o colocasse no “Índex das obras proibidas”, devido ao tema em que se baseiam os seus livros: a degradação de princípios morais durante o empenho dos seus personagens para se manterem vivos. 

Conquistou muitas honrarias e, para seu consolo, ganhou os prémios literários Strega e Legião de Honra no mesmo ano em que foi proibido pela Igreja. 

Com apenas 22 anos escreveu Os indiferentes, um dos romances italianos mais importantes do século. Foi também autor teatral, ensaísta e crítico de cinema. As suas críticas ao fascismo de Benito Mussolini levaram à censura das suas obras, e alguns dos seus contos só foram publicados porque adotou um pseudónimo nada discreto: “Pseudónimo”. 

No entanto, não aguentou o exílio forçado e escreveu a Mussolini, em 1938, pedindo que o excluísse da proibição imposta a todos os judeus de escrever. Dizia que não era judeu, mas “católico de nascimento”. 

Em 1943 refugiou-se com a sua esposa numa região montanhosa, para escapar da perseguição política. Entre as suas obras destacam-se Agostinho (1944), A romana (1947), O conformista (1951), esta considerada por ele mesmo como a sua obra de maior êxito, A ciociara (1957), O tédio(1960), Desideria (1978) e O homem que olha (1985). 

Nos últimos anos de vida, dedicou parte de seu tempo trabalhando numa editora de Milão e como colaborador constante do Corriere della Sera e Francisca Camelo, Photoautomat, 2019 

Entrevista a Alberto Moravia por Nello Ajello, jornalista e ensaísta italiano muito consagrado. 

Como escreve? 
Alberto Moravia 

“Trabalho de manhã, todos os dias, das nove horas à uma, e depois ao fim do dia. Faço sempre isto, mesmo aos domingos, desde os meus dezasseis anos. 

E escrevo diversas vezes cada romance. Como os pintores da Idade Média, passo algumas demãos de tinta. Escrevi duas vezes "A Romana2 e três vezes "O Conformista". Mas também acabei "Agostinho ", num mês... 

Levanto-me e coloco-me à mesa para trabalhar. Escrevo diretamente à maquina. É o gesto e o movimento que conta. No inicio da minha carreira, escrevia três ou quatro linhas por dia e sentia-me esgotado. 

Agora, tudo isso se tornou mecânico: logo de manhã sinto que devo sentar-me à minha mesa de trabalho. É assim a minha maneira de ser...Sei que certos escritores franceses trabalham durante todo o dia. Isso parece-me prejudicial. 

Deve esquecer-se durante uma boa parte do dia de que se é escritor. Em arte, o tempo é, de resto, uma medida convencional: pode-se em dez minutos recuperar alguns anos de preguiça ou de obscuridade. 

A inspiração não se importa com o tempo. Verifica-se isso, verdadeira e fisicamente, nos momentos de inspiração: a inteligência executa, então, operações com uma rapidez extraordinária. Não é de espantar que Stendhal tenha escrito "A Cartuxa de Parma" em quarenta dias. 

Por que escreve? 
Alberto Moravia 

Com a idade de 16 anos, quando eu começava a escrever o meu romance, decidi que daí em diante, escreveria todos os dias, três horas em cada manhã. A tarde e a noite deviam ser consagradas ao que eu chamava então “a vida” e que era, na realidade, o momento em que eu iria “agir”. 

Essa decisão tão precoce provocou em mim, ao longo dos anos, uma espécie de costume fisiológico. 

Depois de tanto tempo, eu escrevo em cada manhã da mesma forma que durmo a cada noite e que como a cada dia: a escrita acabou por se tornar parte integrante de meu ritmo biológico. Ritmo biológico colocado à parte, quando escrevo, eu procuro sobretudo resolver problemas literários, isto é, todos os problemas, porque acredito que a literatura é tudo. 

Em todo caso, eu avanço como o asno da fábula que segue a cenoura diante de seu nariz. Por esta razão, quando me perguntam por que escrevo, eu respondo habitualmente: eu escrevo para saber por que escrevo. 

O que é inspiração? 
Alberto Moravia 

Em arte, o tempo é, de resto, uma medida convencional: pode-se em dez minutos recuperar alguns anos de preguiça ou de obscuridade. A inspiração não se importa com o tempo. Verifica-se isso, verdadeira e fisicamente, nos momentos de inspiração: a inteligência executa, então, operações com uma rapidez extraordinária. Não é de espantar que Stendhal tenha escrito A Cartuxa de Parma em quarenta dias. 

Influências literárias 
Alberto Moravia 

Sim, quando era jovem. Mais tarde, não sofri já qualquer influência. Ou, então, não se é de fato um bom escritor. Aos dezassete ou dezoito anos, li muito Joyce e Dostoievski. Depois, gostei bastante de Stendhal. 

Cinema 
Alberto Moravia 

Em certo sentido, sim, o cinema empobreceu a literatura. Deu um rude golpe à narrativa, mas obrigou-a, ao mesmo tempo, a renovar-se. Depois da consolidação do cinema já não é possível conceber um romance descritivo a exemplo de Père Goriot. 

Somente para descrever a pensão em que morava o protagonista, Balzac empregava umas vinte, quarenta páginas, nem sei quantas; num filme, em poucos segundos, vemos toda a pensão. E os romances dramáticos, de ação, de aventura, encontram também na tela um concorrente feroz. Enfim, o cinema é uma arte estranha, que fica entre a pintura e o romance. 

Está ligado ao romance pelo problema da 'duração': sem dispor do pretérito imperfeito ou do pretérito perfeito, a narração cinematográfica está sempre em ligação direta com o presente. Quando na tela Júlio César atravessa o Rubicão, entende-se que está a atravessar naquele momento. 

Além disso, como passatempo, o cinema é muito mais eficaz que o romance. Os filmes de mera diversão ocuparam o lugar de milhares de romances, também de entretenimento, que todos outrora corriam para comprar e que agora já nem sequer se imprimem. E há também os laços do cinema com a pintura. 

Onde quer que haja artesanato, há arte. Mas a questão é: até que ponto permitirá o cinema expressão? 

A câmara é um instrumento menos complexo de expressão que a pena, mesmo nas mãos de um Eisenstein. Jamais será capaz de exprimir tudo aquilo, digamos, que Proust era capaz de fazê-lo. Jamais. 

A despeito disso, é um meio espetacular, transbordante de vida, de modo que o trabalho não é inteiramente penoso. É, hoje, a única realmente viva na Itália, devido ao seu grande apoio financeiro. 

Mas trabalhar para o cinema é exaustivo. E um escritor não consegue ser mais que um homem-ideia, ou um cenarista – um subalterno, na verdade. O cinema oferece-lhe pouca satisfação, à parte o pagamento. 

O seu nome não aparece sequer nos cartazes. Para um escritor, é uma tarefa amarga. E, o que é mais, os filmes são uma arte impura, à mercê de uma confusão de mecanismos – gimmicks (truques), como, creio os senhores dizem em inglês... ficelles.(artimanhas). Quase não há espontaneidade. Isso não deixa de ser natural, claro, quando pensamos nas centenas de expedientes mecânicos empregados na feitura de um filme, no exército de técnicos. 

Todo o processo não passa de cortar e deixar secar. A inspiração das gentes torna-se rançosa, quando se trabalha no cinema – e, o que é pior ainda, a mente das gentes acostuma-se para sempre a procurar truques e, ao fazê-lo, acaba por arruinar-se, por destruir-se. 

Não me agrada, de modo algum, trabalhar para o cinema. Os senhores compreendem o que quero dizer: as suas compensações não são, num sentido real, compensadoras; mal valem o dinheiro que se ganha, a menos que se precise dele. 

Jornalismo 
Alberto Moravia 

São meios que permitem a um escritor não se calar. Eu escrevo 'em' jornais, não 'para' jornais... É questão de esclarecer. Eu jamais poderia escrever num jornal fascista. Jamais poderia escrever num jornal católico. Há na Itália uma tradição mais ou menos vacilante de jornalismo 'leigo' liberal: é dela que me valho para me exprimir. 

É uma tradição que permite certa amplitude de opiniões. Permite, por exemplo, a Franco Fortini escrever no Corriere dela Sera... Há quarenta anos eu escrevia até em jornais fascistas, e nem por isso era fascista. Acho que o moralismo é uma coisa muito respeitável, mas a personalidade é mais importante que a moral. 

A certo nível de personalidade - não digo isso por vaidade, não falo por mim só - podemos dar-nos ao luxo de escrever até em jornais não inteiramente homogéneos com o que somos. Escrever nos jornais que existem. Enfim, é preciso ter força bastante para servir-se dos jornais e não servi-los a eles. 

Música 
Alberto Moravia 

O que é para si a função de escrever? Obedecer a uma certa música. Sentir uma simpatia e caminhar para ela. Trabalha-se pelo ouvido. 

Crítica literária 
Alberto Moravia 

Acho que sim, o tratamento interdisciplinar faz bem à crítica. Os críticos que se baseiam puramente no 'gosto' precisam de ser grandes escritores. Haja vista Baudelaire. O assunto de que fala não tem grande importância. 

Já o caso de Cecchi é diferente: como crítico-escritor, não tinha estatura suficiente; como crítico, na qualidade de juiz, isto é, como 'leitor com golpe de vista', não dizia nada, safava-se com piscadelas. 

Salvo quando encontrava um autor com quem tivesse afinidade: Stevenson, por exemplo. Aí a sua imaginação acendia-se... A obra de arte é um produto cultural-estético, onde estão presentes os elementos mais disparatados. 

Não se pode isolar um deles a capricho, ignorando os demais. É preciso procurar explicar tudo em conjunto. Justamente por isso é que todos os instrumentos são úteis. A interdisciplinaridade é um modo de se mostrar humilde, sério e consciencioso. 

Psicanálise 
Alberto Moravia 

O nível cultural e intelectual dos psicanalistas é inferior ao meu, não posso então me entregar a eles. 

Eles, no fundo, deveriam ser sacerdotes... Na Itália ou noutro lugar, é verdade, para a maioria, o seu nível intelectual é inferior ao meu. E depois, o escritor faz a sua psicanálise através dos seus livros, ele se auto-psicanaliza, então não precisa de uma psicanálise a mais. 

Quanto ao sacerdócio, eu disse isso por uma razão muito simples: ele age em nome de algo que o psicanalisado reconhece como superior; enquanto no caso de um psicanalista, há uma colaboração, estão em pé de igualdade, não existe nenhuma autoridade fora da psicanálise. 

A falta de autoridades não autoriza o psicanalista a colocar-se por cima do psicanalisado... Eu acho que o escritor não deve ser neurótico. Ele deve simplesmente e completamente sublimar com a escrita. 

Política 
Alberto Moravia 

Essa questão do engajamento é um tanto complicada: tentemos examiná-la pelas raízes. Nasci na burguesia romana e tinha quinze anos quando o fascismo chegou ao poder. Por muito tempo não fui nada `engajado`. 

Não era capaz de enxergar a política além dos limites da classe em que me coube crescer e viver. Eu era um jovem burguês de um país onde inexistia vida política. Acresce que a literatura me absorvia por inteiro, até mesmo ao nível dos fatos do dia-a-dia. 

Na minha adolescência os grandes acontecimentos foram a descoberta de Rimbaud e Dostoievski. 

Para mim, a literatura possuía prestígio supremo. Existia, porém, dentro de mim mesmo um elemento que inconscientemente se ia transformando em política: era o meu moralismo, algo que se desenvolvia com prepotência e instinto de necessidade física. Foi sobre esse fundamento moral, e não sobre um fundamento – como dizer? - `técnico`, que vi nascer o meu interesse político. 

Eu nada sabia do lado `técnico` da política; não sabia falar em público, nem tinha a noção do que fossem assembleias, moções, ordem do dia, enfim, eu nada tinha dos jovens de hoje que já aos treze anos se acostumam a agir como parlamentares. 

Eu sempre estive só. A minha revolta era individual, solitária e talvez por isso mais violenta... ? 

Respeito Sartre também por ter sido o defensor dessa fórmula. As suas intenções são nobres, suas justificativas convincentes. Apesar disso, não gosto do engajamento na literatura. Desde o início recusei, sempre o considerei um falso problema, ou melhor, um perigo. 

A literatura não é de tal maneira que exclui o engajamento. O intelectual que pretenda sentir-se engajado dispõe de outros modos para manifestar essa vocação: o artigo de jornal, o panfleto, o discurso em praça pública. Por que perturbar o romance ou a poesia? Um romance 'engajado' é para mim, um mau romance como obra de arte e má propaganda como obra política. 

Além disso, a mera palavra 'engajamento' provoca-me um ímpeto de desconfiança; o fascismo não parava de pedir engajamento a seu favor e mais ou menos pelas mesmas razões adotadas mais tarde pela esquerda.

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