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    Anais Nin | Incesto

    Após os acontecimentos relatados em "Henry & June", este volume dos diários não-expurgados de Anaïs Nin detalha o conturbado período de sua vida entre os anos de 1932 e 1934. 

    Mesmo nutrindo grande amor e ternura pelo marido, Hugh Guiler, Anaïs não consegue dar vazão aos seus desejos sexuais dentro do casamento e entrega-se a aventuras com os doutores René Allendy e Otto Rank, os seus psicanalistas, e com Henry Miller, o escritor maldito, então em plena fase de conclusão do seu Trópico de Câncer. 

    Para complicar ainda mais a equação amorosa, em 1933 a autora reencontra o pai, a quem não via desde menina, e acaba envolvida num perturbador relacionamento incestuoso. 

    O livro relata, inclusive, em páginas comoventes e atualíssimas, a decisão impossível que ela se vê obrigada a tomar quando descobre uma gravidez indesejada.


    Henry Miller | O Mundo do Sexo

    Henry Miller (1891-1980) foi um escritor norte-americano, autor de obras consideradas pornográficas e subversivas, entre eles: "Trópico de Câncer" e "Trópico de Capricórnio".

    Em 1934, publicou “Trópico de Câncer”, mas a obra foi considerada “literatura pornográfica e subversiva”, tendo a sua distribuição sido proibida em alguns países da Europa e também nos Estados Unidos. Foi rotulado como “escritor maldito”.

    "Com esse novo amor, a batalha dos sexos teve início sob um clima de grande ansiedade. O talento musical da moça, que foi o elemento de atracção inicial, passou logo a segundo plano. 

    Ela era uma puta lasciva, histérica e puritana, cuja vagina estava escondida sob um monte de pêlos encrespados que, juro, lembravam os pêlos de uma vassoura. (...).

    Passados uns dias, porém, lá estava eu outra vez. Ela tornou a recostar-se no aparelho de aquecimento usando a mesma camisa de seda sobre o corpo nu. Dessa vez fui mais cauteloso. Assim como quem não quer nada, deixei escorregar a mão direita pela camisa macia. O tal monte de pêlos emaranhados que tanto me impressionara, parecia cheio de electricidade; os pêlos eriçavam -se ao meu toque e a sensação que tive foi a de estar acariciando uma escova de fios de aço. 

    Foi necessário, durante esse pequeno ataque, não parar de falar — sobre música e outros assuntos elevados. Enquanto isso continuava a acariciá-la como se estivesse distraído. Usando desse estratagema, consegui convencê-la, creio eu, que não havia nada de errado naquele modo de proceder. 

    Mais tarde, na cozinha, ela fez-me uma demonstração de certas acrobacias que aprendera no colégio; essas proezas serviram, é claro, para me mostrar o seu corpo sob os ângulos mais vantajosos possíveis. Cada vez que aquela camisa de seda se abria, aparecia o tal monte de pelos eriçados, que era o seu grande orgulho. Para mim, tudo aquilo, foi um grande suplício. 

    A situação continuou nesse pé durante algumas semanas, tempo necessário para ela esquecer os seus preconceitos e, finalmente, ceder. Mesmo assim, não conseguiu entregar-se completamente a mim. 

    Na primeira vez que fomos para a cama, insistiu em ficar de camisola. Queria que eu fizesse tudo por cima da sua camisola. Tinha um medo terrível de ser maltratada e queria experimentar-me. Caso eu cedesse aos seus caprichos e fantasias, então seria capaz de confiar em mim. Essa era a sua lógica.

    Pouco a pouco — muito aos poucos mesmo — ela começou a reagir como um ser humano normal. De vez em quando eu aparecia de repente, à tarde. Tinha que repetir sempre a mesma desculpa: viera para ouvi-la tocar música. 

    Não adiantava chegar e querer resolver logo o assunto. Se eu me sentasse com calma e ouvisse com atenção o que estava a tocar, ela era capaz de interromper alguma sonata e aproximar-se de mim, sentindo-se então à vontade. 

    Deixava que eu a acariciasse, começando pelas pernas e subindo lentamente. Depois cedia de todo e montava em cima de mim. Muitas vezes, com o orgasmo, tinha um acesso de choro. 

    Sentia-se culpada por estar a ter relações sexuais comigo em plena luz do dia. (Ela explicava que, de certa forma, o ato sexual prejudicava a sua técnica musical.).

    O fato é que, quanto melhor a foda, mais culpada ela se sentia depois. 'Você não gosta mesmo de mim', ela costumava dizer. 'Só pensa em sexo.' Tendo ouvido a desgraçada repetir mil vezes a mesma frase, acabei por acreditar mesmo e a afirmativa se tornou uma verdade. Eu já estava farto quando legalizamos a nossa situação.

    (...)"


    Alberto Moravia | O Desprezo

    "Durante os primeiros dois anos de casamento o meu relacionamento com a minha mulher foi, por assim dizer, perfeito. (…) Esta história pretende contar como, enquanto eu continuava a amá-la e não a julgá-la, a Emília, por sua vez, descobriu, ou julgou descobrir, alguns dos meus defeitos e passou a julgar-me – e consequentemente a deixar de amar- -me.” 

    Assim se inicia O desprezo (1954), de Alberto Moravia (1907-1990), romance no qual Jean-Luc Godard se inspirou para realizar o célebre Le Mépris (1963), com Michel Piccoli e Brigitte Bardot nos protagonistas.


    Amor e cupidez 
    O desprezo é uma história trágica de desamor. Constrangido a sustentar o apartamento que adquiriu a prestações para agradar à sua mulher, Ricardo aceita um contrato para trabalhar como guionista num filme baseado na Odisseia (O regresso de Ulisses). 

    Na verdade, Ricardo ambiciona dedicar-se à sua carreira de dramaturgo, deixada em suspenso em prol da economia familiar. 

    Entretanto, para evitar um conflito com o produtor do filme (um argentino no romance de Moravia; um americano no filme de Godard), vê-se obrigado a tolerar os sucessivos avanços deste sobre a sua bela mulher. 

    Quem não tolera a indiferença do marido relativamente a esta situação é justamente Emília, que passa a desprezá-lo. Em Capri, durante a rodagem do filme, a ruptura do casal precipita-se e Emília morre, juntamente com o produtor, num desastre de automóvel, ao regressar de Nápoles para Roma.

    Manuel Teixeira-Gomes | Cordélia


    Cordélia


    Mais n'est-tu pas toi-même un
    jet d'eau qui s'irise
    Et qui vers l'infini s'élance et
    puis se brise?...

    PHILÉAS LEBESGUE

    As minhas relações com gente da Catalunha datam da infância, graças a uns negociantes de cortiça, de S. Feliú de Guixols que se estabeleceram na minha terra e de que ainda hoje lá existe descendência. Gente honrada, trabalhadora e bastante culta, mas sobretudo orgulhosa das virtudes da sua raça e belezas da sua província, do seu trato me veio o conhecimento dos seus poetas, e a curiosidade de lhe visitar a pátria e ver-lhe os monumentos. 

    Numerosas foram, no decorrer da vida, as minhas excursões pela Catalunha, dando-me ensejo de assistir ao extraordinário desenvolvimento da sua capital a que me afeiçoei e onde repetidas vezes fui embarcar para Itália. 


    Em uma dessas ocasiões, esperando vapor que não aparecia, a minha demora ali foi relativamente grande, permitindo-me penetrar um pouco mais na compreensão do complicado problema catalão, social, religioso e político, ao passo que vagarosamente, e quase sempre a pé, ia explorando os curiosíssimos arredores da grande cidade.

    Ao contrário do que me tem sucedido noutros sítios, dos quais a primeira impressão sobrepuja a quantas me produziram visitas subsequentes, ficou-me desses dias, bem vivo na memória, um quadro completo, que esmorece ou apaga a lembrança de todos os outros, com a agitação tumultuosa do operariado ativo, o antagonismo das raças e das crenças, a propaganda ....Completo aqui

    Maxim Jakubowski | Biografia

    Maxim Jakubowski (1944) é um escritor e crítico de crime, erótico, ficção científica e rock.

    Jakubowski nasceu em 1944 na Inglaterra, filho de pais russos-britânicos e polocos, mas foi criado na França. Jakubowski também morou na Itália e viajou bastante. 

    Jakubowski editou as antologias de ficção científica Twenty Houses of the Zodiac (1979), para a 37ª Convenção Mundial de Ficção Científica (Seacon '79) em Brighton, e Traveling Towards Epsilon, uma antologia da ficção científica francesa. Ele também contribuiu com um conto para essa antologia.

    Trabalhou na publicação de livros por muitos anos, o que deixou para abrir a livraria Murder One, a primeira livraria especialista em crime e mistério do Reino Unido. Ele contribui para uma variedade de jornais e revistas, e foi durante oito anos o colunista de crimes da Time Out e, de 2000 a 2010, o revisor de crimes do The Guardian. 

    Ele também é diretor literário do Crime Scene Festival de Londres e consultor do Festival Internacional de Filmes Misteriosos, Noir in Fest, realizado anualmente em Courmayeur, Itália. Ele é um dos principais editores do campo do crime, do mistério e da literatura erótica, no qual publicou várias antologias importantes, incluindo o livro anual Mamute de Melhor Nova Erótica e Melhor Crime Britânico. 


    Além disso, ele tem mais de 80 outras antologias no seu currículo, incluindo títulos como Vintage Crime, Pulp Fiction, Jack, o Estripador, o Kama Sutra e inúmeras áreas da cultura popular. Editou ainda várias listas clássicas como Black Box Thrillers para Zomba Books, Blue Murder para Simon & Schuster e (mais tarde) Xanadu, Eros Plus e Neon e o selo MaXcrime para editores britânicos John Blake Publishing. Também é tradutor de francês e italiano.

    Os seus romances incluem "É você que eu quero beijar", porque ela pensou que me amava, o estado de Montana, em ternura expressa, beija-me tristemente, confissões de um pornógrafo romântico e eu estava esperando por você. 

    As suas coleções de contos são Life in the World of Women, Fools for Lust e o colaborativo americano Casanova. 

    Ekaterina and the Night foi publicado em 2011 e combinou o crime com o erotismo, assim como o seu último romance "The Louisiana Republic".

    Existiram ainda rumores de ser um dos autores por trás do autor erótico best-seller Vina Jackson, mas nunca foi confirmado.

    Por muitos anos, Jakubowski foi Presidente do Prêmio Arthur C. Clarke e agora é presidente e juiz da estreia da Associação de Escritores de Crimes, John Creasey Dagger; ele também faz parte do comité da Associação de Escritores de Crimes e é comentador frequente de rádio e TV. Actualmente é vice-presidente da Associação de Escritores de Crimes.

    Ele escreveu o conto "Un Avocat pour Dolorès" sob o nome de pluma de "Adam Barnett-Foster". Quando perguntado por que ele usou esse nome quando ele já era conhecido e respeitado, ele é citado como tendo encolhido os ombros e dizendo Le pseudonyme fou vient de frapper - "O pseudônimo louco acabou de me atingir ..." 

    Jakubowski também escreveu vários livros sobre rock nos anos 80. 

    Com site em www.maximjakubowski.co.uk onde está a sua bibliografia completa.

    O discursivo argumentativo em Manuel Teixeira-Gomes

    Breves apontamentos sobre a argumentação

    A importância que a argumentação assume no presente na área da Linguística do Texto é uma recuperação do seu valor na Antiguidade, pois, indissociável da retórica, esta é, inicialmente, “uma «arte de convencer», ligada a situações concretas que representam exclusivamente a necessidade de persuadir um auditório”.

    Está associada à invenção grega da democracia e das suas instituições: o tribunal com júris populares numerosos onde escutam os litigantes, ou o ágora, a assembleia de cidadãos, que também “ouve os oradores, delibera e toma decisões respeitantes à cidade, os ajuntamentos onde se pronunciam os elogios, por exemplo fúnebres, que permitem exaltar e enriquecer os valores da cidade”.

    A este tempo pertencem os dois primeiros períodos da retórica judicial ou argumentativa, segundo Breton e Gauthier, os períodos fundador e de maturidade. Depois, verifica-se progressivamente a separação entre a componente da argumentação retórica e a componente da argumentação mais “literária” da retórica, interessada nas figuras de estilo e modalidades de expressão: a componente argumentativa vê reduzida a sua importância, na medida proporcionalmente inversa ao êxito da demonstração e das ciências exactas e experimentais, sucesso esse que conhece o seu apogeu com Descartes.

    Historicamente, depois de Cícero, a soberania dos auditórios é transferida para o imperador, o que também promove a estética do discurso mais do que o seu carácter convincente. É o período do declínio, em finais do Império até meados do século XX, sendo, de acordo com os mesmos autores, este o momento do período da renovação: a retórica, na sua acepção da argumentação ou a “nova retórica”, assim designada pelo jurista e filósofo belga Chaïm Pereleman em Traité de l’argumentation: la rhétorique; deste estudioso e de Lucie Olbrechts-Tyteca renasce a retórica em 1958, juntamente com a investigação anglo-saxónica de Stephen Toulmin, materializada em The Uses of Argument.

    Hoje em dia, “retórica” é uma palavra polissémica, com sentido pejorativo em alguns contextos: se um discurso for apelidado de “retórico” o intuito é “anunciar o seu carácter superficial, artificial ou dissimulador”.

    Tendo em consideração o percurso da retórica até aos nossos dias, esta hoje recupera o seu primeiro sentido enquanto discurso argumentativo construído em função de um fim, e ultrapassa-o, na medida em que se reconhece em qualquer momento de comunicação a difusão de uma tese, cuja complexidade dependerá das características do discurso em que se insere.

    Ao considerar-se que a concepção de qualquer discurso tem um objectivo final, considera-se, igualmente, a necessidade de este ser um texto de relativa homogeneidade que tem em conta os conceitos (enunciados por van Dijk) de coesão (relações estabelecidas entre elementos) e coerência (boa formação textual). De um modo geral, pode associar-se as características macro-estruturais à coerência, e as características micro-estruturais à coesão. Num contexto de análise argumentativa, o objectivo poderá então consistir em assinalar: em termos de coerência, uma intenção discursiva argumentativa global no(s) texto(s); e, consequentemente, para efeitos de coesão, a sua articulação entre argumentos e conclusões.

    Por intenção argumentativa global entende-se a ideia ou objectivo final que o locutor pretende transmitir, que poderá ser explicitada no seu discurso, ou comunicada de modo mais ou menos disseminado, pois a argumentação é uma potencialidade intrínseca da língua.

    Perspectivas de estudo da argumentação

    Uma perspectiva de estudo da argumentação é a da Argumentation Dans la Langue de Ducrot, conjugada com um fenómeno anteriormente assinalado por Bakhtine, a polifonia, e que tem por base o conceito musical referente à sobreposição de diferentes partituras, derivando, depois, para a literatura e, finalmente, para linguística.

    Como termo linguístico, polifonia é a adaptação da teoria de Bakhtine à análise linguística de pequenos enunciados do discurso, pondo em causa o axioma da unicidade do sujeito falante, ou seja, uma única pessoa que fala por detrás de um enunciado.

    Ducrot acredita que “el autor de un enunciado no se expresa nunca directamente, sino que pone en escena en el mismo enunciado un cierto número de personajes. (...) el sentido del enunciado no es más que el resultado de las diferentes voces que allí aparecen”, e que estas vozes reflectem que “en un mismo enunciado hay presentes varios sujetos con status lingüísticos diferentes”.

    Desta forma, Ducrot define três categorias de pessoas ou funções que falam num enunciado: o sujeito falante: o ser empírico, real, o autor (portanto, exterior à produção linguística, e como tal, a sua identificação, não sendo um problema desta ordem, não é relevante do ponto de vista linguístico); o locutor: aquele que fala no texto e a quem se atribui a responsabilidade enunciativa; é uma entidade inerente ao cotexto linguístico (num contexto ficcional, poderá ser o narrador ou as personagens, alguém que revela pontos de vista ou dá entrada e saída às mesmas); e o(s) enunciador(es): é (são) o(s) ponto(s) de vista abstracto(s) apresentado(s) e que pode(m) ser identificado(s) com o do locutor.

    Na mesma linha de pensamento segue Grize, para quem é possível “concevoir l’argumentation d’un point de vue plus large [que não restrito a uma situação jurídica] comme une démarche qui vise à intervenir sur l’opinion, l’attitude, voire le comportement de quelqu’un”; por isso, na opinião deste autor, o leitorespectador é também actor, na medida em que se pode distinguir três momentos da sua actividade: receber (a disposição de reconstruir a esquematização de quem produziu o enunciado, e ter condições reais de o fazer), concordar (não ter objecções a apresentar à esquematização), e aderir (assimilar a esquematização do Outro).

    Os enunciadores são parcelas do locutor, perfazendo-o na sua totalidade. Ou, como afirma Jean-Blaise Grize, são imagens de quem fala, pois a partir do discurso de um emissor-A, é possível inferir a imagem que A pensa que o seu receptor-B tem de si próprio, e que pode, ou não, ser (re)construída por B no momento de descodificação do discurso. Somos, então, B que reconhece as imagens projectadas de A, no momento da descodificação e análise do texto.

    Note-se, então, que qualquer enunciado apela ao discurso do próprio locutor, mas também a pontos de vista ou perspectivas de outros sobre o tema ou assunto em questão. A noção do Outro é, assim, duplamente redimensionada: não só este está sempre presente, no sentido de que se fala sempre para alguém, como o seu ponto de vista de vista e de outros está incorporado no discurso do locutor.

    A teoria polifónica da enunciação de Ducrot está associada a uma perspectiva de argumentação na língua, na medida em que “plantea que las argumentaciones realizadas en el discurso están determinadas por las frases de la lengua y que esta argumentación es independiente, al menos parcialmente, de los hechos expresados en los enunciados.”

    Ou seja, apesar do significado do enunciado dar indicações sobre qual a conclusão (o mesmo é dizer “que ejerce una especie de coacción para imponer lo que debe ser la conclusión” ou uma intenção argumentativa global), o sentido de um enunciado consiste na descodificação dos pontos de vista (ou possíveis enunciadores) e nas origens dos mesmos, que compõem o potencial argumentativo do enunciado, sendo que as conclusões daí retiradas podem ser implícitas e assumidas ou não pelo enunciador.

    Deixando de lado a função argumentativa inerente a unidades lexicais demonstrada por Ducrot, o estudo da argumentação tem-se centrado em aspectos de coesão, nomeadamente sobre a função dos advérbios, conjunções e locuções conjuntivas que “jouent un rôle de connexion entre unités du discours“, considerando Adam que a intenção argumentativa de um discurso poderá também depender do uso destas palavras, dividindo os diferentes tipos de conectores de acordo com a sua função: os conectores que estabelecem uma simples função de conexão, os conectores que marcam enunciativamente o discurso, e os conectores argumentativos.

    Os conectores que estabelecem uma simples função de conexão são igualmente chamados de organizadores, pois “jouent un rôle important dans le balisage des plans de texte”, estabelecendo uma conexão simples, entendida como segmentar e religar. Visto que “ordonnent les éléments de la représentation discursive sur les deux axes majeurs du temps et de l’espace“, podem  subdividir-se em organizadores espaciais (ex.: à esquerda, à direita, à frente, atrás, um ao lado do outro…), organizadores temporais (ex.: então, de seguida, [e] depois, a véspera, agora…), e ainda em organizadores enumerativos que segmentam e ordenam o discurso (ex.: e, ou, também, primeiro, por último…).

    O segundo tipo de conectores, também designados conectores de reformulação que reflectem uma retoma metalinguística (ex.: quer dizer, dito de outra forma, em uma palavra…), podem associar a essa retoma metalinguística uma marca comparável àquela dos marcadores de integração linear conclusivos (ex.: em suma, finalmente, em conclusão…).

    Por fim, os conectores argumentativos reúnem as funções de segmentação dos enunciados e de responsabilidade enunciativa:

    Ils orientent argumentativement la chaîne verbale en déclenchant un retraitement d’un contenu propositionnel comme un argument, soit comme une conclusion, soit comme un argument chargé d’étayer ou de renforcer une inférence ou encore comme un contre-argument.

    O autor considera que desta última categoria fazem parte os organizadores argumentativos e concessivos (ex.: mas, no entanto…); os introdutores de explicação e de justificação (ex.: porque, visto que…), o se hipotético, e os simples marcadores de um argumento (ex.: mesmo, não somente…).


    Análise de textos

    Pela sua natureza reflexiva, como excelentes exemplos de produção de enunciados premeditados, serão objecto de análise textos do domínio discursivo literário: exemplos de «A Cigana» e «Margareta», da colecção Novelas Eróticas, de Manuel Teixeira-Gomes.

    Nos exemplos, o(s) locutor(es) (aqui entendido segundo Ducrot, apresenta(m) alguma homogeneidade de texto para texto, que deverá(ão) ser categorizado como personagem complexa, principalmente considerando o conjunto das novelas: uma personagem que mascara a vaidade pessoal de se ter relacionado com algumas belas mulheres, e de cujo término de relação se descompromete, ao atribuir a responsabilidade a terceiros, amplificando o efeito narcisista, na medida em que se considera especial pelas experiências vividas.

    Recorde-se que Ducrot defende que a tentativa de convencer o Outro é uma capacidade intrínseca da língua, bem como a característica de algumas palavras possuírem um conteúdo argumentativo inerente, os conectores. A teoria polifónica da enunciação parte do conceito de polifonia discursiva de Ducrot, que considera a presença de diferentes sujeitos com estatutos linguísticos distintos num enunciado, representando pontos de vista diferentes partilhados por um locutor.

    «A Cigana», uma novela composta por uma carta que antecede a narrativa propriamente dita (os envolvimentos românticos do locutor com três jovens na Andaluzia), pode ser analisada de acordo com os princípios enunciados por Ducrot, sendo distinguíveis as seguintes vozes: do autor empírico, aquele cujo nome figura na capa, Manuel Teixeira-Gomes, personagem de carne e osso, e que escreve uma carta (ou que escreve uma narrativa) para António Patrício, personagem também real; do locutor, aquele que fala no Presente do Indicativo e revela as suas experiências passadas a um destinatário; e ainda de enunciadores diversos, como por exemplo, os ecos de uma personagem amiga do locutor chamada Pepe Cuadrado.

    Tendo em conta alguns dos enunciados de «A Cigana», podemos constatar que no enunciado “Os meus amigos, a fina flor da estúrdia sevilhana, já troçam da minha indecisão.” subsistem vozes de diferentes origens: para além do locutor (que coincide com a figura de um enunciador), existe um enunciador que corresponde a quem fala na parte do enunciado considerada sintacticamente o aposto, que especifica quem são os amigos do locutor e representa o discurso de uma consciência cívica e moral sevilhana (“a fina flor da estúrdia sevilhana”); é apresentado também um terceiro enunciador que constata o eco dos discursos gozadores dos amigos do locutor condensados numa só frase (“já troçam da minha indecisão”).

    Um outro exemplo onde existem mais de dois locutores diferentes é “Esa mujer – observa ele – no pasa de una vulgar criminal. Goza con tus sufrimientos.”, divisível num primeiro enunciado da autoria do locutor, “observa ele”, e num conjunto de outros enunciados “-Esa mujer no pasa de una vulgar criminal. Goza con tus sufrimientos”.

    Este último tem como locutor Pepe Cuadrado e diversos enunciadores cuja identificação é mais complexa que os enunciados anteriores: um primeiro enunciador que corresponde àquele que reproduz a expressão “criminosa vulgar” utilizada para descrever aqueles que tenham cometido algum acto ilícito de pequena monta; um segundo que reflecte o uso da mesma expressão utilizada normalmente para “criminosos de segunda” associada a pessoas de má índole e que, por isso, deveriam receber qualquer tipo de castigo como os delinquentes; um outro enunciador que utiliza a expressão “criminoso vulgar” no campo amoroso para quem não respeita os sentimentos do outro, devendo também ser castigado; e por fim, um quarto enunciador que faz o mesmo uso da expressão que o terceiro enunciador, mas que também lhe atribui um contexto, visto que se refere à noiva do amigo, e que acrescenta que esta não o respeita, partilhando a responsabilidade de também ser o locutor destes enunciados e contribuindo para a formação de auréola de simpatia em torno do amigo, apresentando-o com uma atitude subserviente perante a noiva.

    Desta forma, é possível percepcionar que em «A Cigana» existe um locutor que relata um acontecimento, e que ao reproduzir em discurso directo ou no seu próprio discurso o que outras personagens e outras vozes disseram parece crer tornar a história mais verosímil ou credível, mais fácil de lhe ser atribuível crédito por quem leia o discurso do locutor, na medida em que existem várias vozes que expressam ideias como as suas, tratando-se também de uma partilha da responsabilidade enunciativa, como é o caso de alguns discursos de Pepe Cuadrado sugerindo um castigo para a noiva do amigo (telepatia do que Cigana havia dito na noite anterior, quando se relacionava com o locutor, levando a noiva a ter uma síncope), o que contribui para uma leitura final dos acontecimentos.

    Depende, então, do leitor deixar-se seduzir pela argumentação do seu locutor: ou ingénuo, acredita nas suas palavras e não valoriza o desenlace inverosímil: o ataque da noite provocado pela telepatia da noite anterior.

    Portanto, no caso de «A Cigana», de acordo com Grize, ou recebe, concorda e adere ao relato; ou alerta da intenção persuasiva inerente a toda a produção linguística, põe em causa o contrato implícito entre o locutor e o seu interlocutor, e recebe, mas não concorda nem adere ao discurso do Outro.

    Admitindo-se que num texto literário se manifeste a intenção de convencer o leitor da conclusão a que deve chegar ou aderir, esse objectivo poderá ser dissimulado ao longo do texto; no entanto, tendo em conta que o final da narrativa é a última oportunidade para persuadir o leitor do ponto de vista do locutor, tomar-se-á em conta alguns dos parágrafos finais.

    Em «Margareta», quer-se fazer crer que o Destino interveio e não quis que o locutor e Margareta se reencontrassem, pois o este tinha-se demorado em várias cidades no seu caminho até ao local combinado. Este facto, juntamente com a parecença física constantemente notada pela comitiva da jovem com alguém que prejudicaria o seu pai nos negócios, deverá ser contabilizado como mais uma adversidade.

    Apesar de se isentar de qualquer responsabilidade em relação aos acontecimentos, a lembrança de Margareta no presente, marcada pelo marcador temporal “ainda hoje”, é agri-doce, e precursora da frase contraditória na qual o locutor afirma, apesar de não ter qualquer tipo de culpa (repare-se na expressão “sem culpa alguma” destacada entre vírgulas), recordar-se de Margareta com remorso.

    Ainda lhe escrevi mas as cartas voltaram-me recambiadas por insuficiência de endereço. Esperaria ela que eu a fosse buscar à América? Isso era, precisamente, o que teria feito… se pudesse. Pobre Margareta! e pobre de mim, que, sem culpa alguma, ainda hoje a sualembrança me atormenta como um remorso…

    Atente-se no uso do conector organizador “mas” (opõe dois argumentos orientados para conclusões diferentes, enfatizando a segunda), iniciando a frase na qual o locutor se isenta de toda e eventual culpa por não se ter dado o reencontro, apesar de ele ter tentado reatar a comunicação entre ambos através do expediente ao seu alcance.

    A hipótese de procurá-la na sua terra é assim descartada, por falta de meios próprios, resumida na expressão pronominal anafórica “isso” e enfatizada pelo advérbio de modo “precisamente”, que confirma o ponto de vista enunciativo do locutor, ou seja, a acção que teria sido empreendida caso tivesse disponibilidade para tal.

    Conclusão

    No início, foi assinalado o facto da argumentação ter sido primeiramente encarada como um fenómeno exclusivamente retórico. Hoje é objecto de estudo dos pontos de vista discursivo e linguístico através, por exemplo, da análise da intenção do locutor, obediente aos princípios da boa coerência textual, alicerçada na escolha lexical em geral, e dos conectores em particular, para além de atribuir um papel activo a todos os enunciadores discursivos e ao próprio leitor na descodificação do conteúdo.

    Ducrot e a sua teoria Argumentation dans la Langue (a argumentação no seu sentido lato), na qual a tentativa de convencer o Outro é uma capacidade intrínseca da língua, bem como a característica de algumas palavras possuírem um conteúdo argumentativo intrínseco, os conectores, são exemplos de enquadramentos teóricos de estudo, tal como Grize que não restringe a argumentação a situações jurídicas, concebe-a como “une démarche qui vise à intervenir sur l’opinion, l’attitude, voire le comportement de quelqu’un”; por isso, na opinião deste autor, o leitor-espectador é também actor, na medida em que se pode distinguir três momentos da sua actividade: receber (a disposição de reconstruir a esquematização de quem produziu o enunciado, e ter condições reais para o fazer), concordar (não ter objecções a apresentar à esquematização), e aderir (assimilar a esquematização do Outro).

    A tese argumentativa defendida implicitamente pelo locutor destes exemplos foi a de que outrora se relacionou acidentalmente com mulheres belíssimas cujo desfecho de relação tem sempre algo de curioso, e do qual se demarca em termos de responsabilidade.

    A sua desresponsabilização pode ser disseminada pela interferência de outras personagens, seja através da presença do Destino sugerida na narrativa, pelo encaixe subtil do discurso de outrem ou visível através do desdobramento de vários enunciadores de acordo com a polifonia discursiva, o que permite estabelecer um padrão narrativo ou assinalar a composição de uma estratégia argumentativa.

    Em suma, tendo por objecto os exemplos em estudo neste trabalho, esta apresentação dedicou-se a abordar a temática da argumentação como elemento intrínseco ao discurso humano.


    Excerto do artigo "O discursivo argumentativo em algumas novelas de Manuel Teixeira-Gomes" de Carla Teixeira
    Investigadora do Centro de Linguística da Universidade NOVA de Lisboa
    http://jiclunl.fcsh.unl.pt/wp-content/uploads/sites/43/2018/02/IFPL_Carla-Teixeira.pdf

    Manuel Teixeira-Gomes | Biografia (1860-1941)

    Nascido em Portimão, a 27 de Maio de 1860, numa casa com janela para o rio Arade, cedo apreendeu a beleza do azul do mar do Algarve. O movimento dos veleiros e dos vapores que demandavam o porto era um permanente desafio à viagem que o levaria a percorrer o Mediterrâneo, de Marrocos à Turquia. 

    Descendente de homens familiarizados com os países do Norte – Bélgica, Holanda e Inglaterra e também a França, foi criado num ambiente cultural cosmopolita. A cultura francesa chegava regularmente a sua casa, através de jornais e revistas.

    A atmosfera muçulmana, que o envolvia no Algarve e na Andaluzia, seduziu-o e fê-lo viajante nómada em terras da moirama – o espaço magrebino bem conhecido dos portugueses e marcado por uma relação colonial com a França.


    A educação em casa dos pais completou-a no colégio particular S. Luís Gonzaga, em Portimão, frequentado pelas elites locais, e no Seminário de Coimbra. A cultura clássica, a filosofia, a literatura e a arte moldaram-lhe uma sensibilidade rara para a estética e para a interiorização do mundo cuja legibilidade o tornou um homem singular. 

    Não concluiu os estudos em Medicina, contrariando a vontade dos pais, preferindo a boémia literária nos cafés e círculos culturais de Lisboa e do Porto. Relacionou-se com escritores, jornalistas, pintores e futuros políticos republicanos.

    José Libânio Gomes, seu pai, era um abastado comerciante com recursos bastantes para garantir uma boa formação aos seus quatro filhos. O espírito rebelde do filho mais velho e a recusa do academismo obrigou-o a intervir no seu futuro, exigindo o regresso a casa. Com pouco mais de vinte anos, desolado, desterrado no “buraco do mundo”, o jovem Manuel Teixeira Gomes procurou lenitivo para o seu isolamento na contemplação das paisagens, na leitura, na escrita e na viagem. 

    Viagens de negócios para os países frios e sombrios do Norte, viagens de ócio para o Sul luminoso – Andaluzia, Catalunha, Norte de África, Itália, Grécia, Ásia Menor. Conciliava a sua vida de “lavrador abastado” com a escrita. Foi um período frutuoso, sob o ponto de vista literário pois publicou cinco livros até ao advento da República: Inventário de Junho (1899), Cartas sem moral nenhuma (1903), Agosto azul (1904), Sabina Freire (1905) e Gente Singular (1909), além de artigos em jornais e revistas.

    Em 1910, muitos dos seus amigos, companheiros do Seminário ou da boémia lisboeta e portuense, envolveram-se na revolução republicana. Ele estava em Portimão, onde desenvolvia intensa actividade política, e logo foi chamado para servir a República. Ministro plenipotenciário em Londres, por nomeação de Bernardino Machado em 1911, teve uma acção decisiva no reconhecimento do novo regime republicano pela monarquia britânica e na participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, ao abrigo da aliança luso-britânica. Chefiou a delegação portuguesa à Sociedade das Nações (1922) que o elegeu vice-presidente. 

    Em 5 de Outubro de 1923 tomou posse como 7º presidente da República Portuguesa, cargo que desempenhou até 11 de Dezembro de 1925. Renunciou ao cargo que desempenhara com ética e fidelidade às instituições democráticas, incapaz de resolver as gravíssimas dissensões políticas que minavam a vida parlamentar e impediam a governabilidade do país.


    Partiu para descansar, a bordo do cargueiro Zeus, em 17 de Dezembro de 1925, sem que deliberadamente renunciasse definitivamente ao seu país. Viajante nómada, recuperou a liberdade que perdera nos últimos 15 anos ao serviço da República. Revisitou todos os lugares que conhecera até 1910. 

    A sua terra de eleição era Florença, mas a ditadura fascista do “façanhudo” Mussolini criara um ambiente hostil à pura e descontraída fruição da arte. Optou por ficar no Magrebe, repartindo-se entre a Argélia e a Tunísia donde facilmente ia a Paris, cidade emblemática da cultura que o moldara. Como Nietzsche, “professava” uma espécie de “fé no Sul”, preferindo a margem magrebina à europeia.

    A escrita era o elo de ligação com o seu país. Dominado pela “febre epistolar”, escreveu milhares de cartas, correspondendo-se regularmente com mais de setenta pessoas, quase todas ligadas ao mundo das artes e das letras. 


    Do exílio, geriu a reedição das suas primeiras obras e a edição de seis novos livros: Cartas a Columbano (1932), Novelas eróticas (1935), Regressos (1935), Miscelânea (1937), Maria Adelaide (1938) e Carnaval Literário (1939). Londres Maravilhosa seria publicada em 1942, um ano após a sua morte, graças ao seu amigo Castelo Branco Chaves que preparou também a edição de uma selecção de Cartas a Políticos e diplomatas (1960).

    Era doente do coração, fruto da escarlatina que tivera na infância, e sofria de um glaucoma congénito que lhe provocava cegueira progressiva. Adoeceu em Bougie, cidade na costa argelina, que lhe lembrava Sintra pelo recorte das montanhas da Cabília e Portimão, pelo mar fronteiro. Em 5 de Setembro de 1931, instalou-se no Hotel l’Étoile e o quarto nº 13 foi a sua casa durante uma década. 

    Aí morreu, em 18 de Outubro de 1941, sem nunca mais ter visto a família. Os seus restos mortais trasladados para o cemitério de Portimão em 1951.

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