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    Luís Fernando Veríssimo - Biografia

    Luís Fernando Veríssimo é um autor brasileiro conhecido pela qualidade de suas crónicas humorísticas e contos. Com mais de 60 títulos publicados; também é músico, tradutor, jornalista e roteirista.

    Nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, dia 26 de setembro de 1936. Filho do consagrado escritor Érico Veríssimo e de Mafalda Halfen Volpe. A família mudou-se para os Estados Unidos em 1941, onde iniciou os seus estudos em São Francisco e Los Angeles.

    Durante a adolescência estudou no Roosevelt High School, em Washington. Nessa época interessou-se por jazz e teve aulas de saxofone. Em 1956 retornou ao Brasil e trabalhou no departamento de arte da Editora Globo em Porto Alegre. Em 1960 integrou o conjunto musical “Renato e seu sexteto”. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como tradutor e redator publicitário.

    Em 1963 casou-se com Lúcia Helena Massa, com quem teve três filhos.

    Retorna para Porto Alegre em 1967 como revisor no jornal “Zero Hora”, onde conquistou sua própria coluna diária em 1969. No mesmo ano produz textos para a agência MPM Propaganda.

    No período entre 1970 e 1975 trabalhou no jornal “Folha da Manhã” escrevendo sobre música, cinema, política e desporto. Os textos consolidam o seu género bem humorado na abordagem dos diversos assuntos.

    Em 1973 publicou “O Popular”, colectânea que reunia seus principais trabalhos já realizados. Em 1975 publicou "A Grande Mulher Nua” e retornou ao jornal “Zero Hora”, contribuindo também para o “Jornal do Brasil”. Em 1979 publicou "Ed Mort e Outras Histórias", livro de crónicas que agradou leitores e crítica, popularizando o personagem-título.

    Foi para Nova York em 1980 e lá residiu por dois anos, escrevendo "Traçando Nova Iorque". Na Feira do Livro de Porto Alegre de 1981 lançou o livro de crónicas "O Analista de Bagé", sucesso instantâneo que se esgotou em dois dias.

    Entre 1982 e 1989 foi redator semanal da revista Veja, produzindo artigos bem humorados que marcaram a carreira do escritor. 

    Em 1994 publica "Comédias da Vida Privada", adaptada para minissérie na televisão. Fez grande sucesso e teve destaque pelo teor de seu conteúdo irreverente e inteligente.

    Em 1995 integrou o grupo “Jazz 6”, lançando os álbuns "Agora é Hora" (1997), "Speak Low" (2000), "A Bossa do Jazz" (2003) e "Four" (2006). Em 1997 foi o primeiro humorista a conquistar o prémio Juca Pato, escolhido por unanimidade como o Intelectual do ano pela União Brasileira de Escritores (UBE).

    Em 2003, a New York Public Library elegeu o seu livro "Clube dos Anjos” como um dos 25 melhores livros do ano.

    Em 2004 recebeu o Prix Deus Oceans do Festival de Culturas Latinas de Biarritz, na França.

    Em novembro de 2012 foi internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, após agravamento de uma gripe do tipo influenza A. 

    Passou 24 dias internado, a metade deles na UTI. Recebeu alta em 14 de dezembro e no dia 3 de janeiro, escrevia sua primeira coluna para o jornal Estado de São Paulo.

    Além dessa coluna, atualmente também escreve para os jornais “Zero Hora” e “O Globo”.

    Algumas obras:

    O Popular, 1973
    A Grande Mulher Nua, 1975
    Amor Brasileiro, 1977
    O Rei do Rock, 1978
    Ed Mort e Outras Histórias, 1979
    Sexo na Cabeça, 1980
    O Analista do Bagé, 1981
    A Mesa Voadora, 1982
    Outras do Analista de Bagé, 1982
    O Gigolô da Palavras, 1982
    A Velhinha de Taubaté, 1983
    A Mulher do Silva, 1984
    A Mãe de Freud, 1985
    O Marido do Doutor Pompeu, 1987
    Zoeira, 1987
    O Jardim do Diabo, 1987
    Noites do Bogart, 1988
    Orgias, 1989
    Pai Não Entende Nada, 1990
    Peças Íntimas, 1990
    O Santinho, 1991
    Humor Nos Tempos de Collor, 1992
    O Suicida e o Computador, 1992
    Comédias da Vida Privada, 1994
    Comédias da Vida Pública, 1995
    Novas Comédias da Vida Privada, 1997
    A Versão dos Afogados, 1997
    Gula - O Clube dos Anjos, 1998
    Aquele Estranho Dia Que Nunca Chega, 1999
    Histórias Brasileiras de Verão, 1999
    As Noivas do Grajaú, 1999
    Todas as Comédias, 1999
    Festa de Criança, 2000
    Comédias Para Se Ler Na Escola, 2000
    As Mentiras que os Homens Contam, 2000
    Todas as Histórias do Analista de Bagé, 2002
    Banquete Com os Deuses, 2002
    O Opositor, 2004
    A marcha, 2004
    A Décima Segunda Noite, 2006
    Mais Comédias Para Se Ler Na Escola, 2008
    Os Espiões, 2009
    Time dos sonhos, 2010
    Amor Veríssimo, 2013
    As mentiras que as mulheres contam, 2015

    Fernando Sabino - O Homem Nu (Conto)

    Ao acordar, disse para a mulher: 

    — Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum. 

    — Explique isso ao homem — ponderou a mulher. 

    — Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago. 

    Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. 

    Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento. 

    Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos: 

    — Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa. 

    Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro. 

    Enquanto isso, ouvia lá em baixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares… Desta vez, era o homem da televisão! 

    Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão: 

    — Maria, por favor! Sou eu! 

    Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo… 

    Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. 

    Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão. 

    Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer. 

    — Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado. 

    E agora? Alguém lá em baixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido… 

    Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror! 

    — Isso é que não — repetiu, furioso. 

    Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. 

    Lá em baixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: “Emergência: parar”. Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu. 

    — Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. 

    Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho: 

    — Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu… 

    A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito: 

    — Valha-me Deus! O padeiro está nu! 

    E correu ao telefone para chamar a radio-patrulha: 

    — Tem um homem pelado aqui na porta! 

    Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava: 

    — É um tarado! 

    — Olha, que horror! 

    — Não olha não! Já pra dentro, minha filha! 

    Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta. 

    — Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir. 

    Não era: era o cobrador da televisão. 

    Fernando Sabino - Biografia (1923-2004)


    Fernando Sabino nasce no dia 12 de outubro de 1923, na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. Sua mãe, Odete Tavares, o ensina a ler e escrever e em 1930 ele ingressa na escola. Assim como muitos poetas brasileiros, ele também foi um escritor precoce publicando, adolescente, o seu primeiro conto policial na revista Argus.

    Estimulado pela família e com muito empenho pessoal, Fernando Sabino ganha inúmeros concursos de crónicas e contos, com destaque para o concurso da revista Boa Nova que tinha na sua banca julgadora o também escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade.

    Muito dedicado, não demorou para que o escritor contribuísse com textos para grandes revistas e jornais. Aos 15 anos era colaborador da revista Mensagem e editor do jornal Folha de Minas e também escrevia para a revista Clima (SP), dirigida pelo grande crítico literário António Cândido.

    Em 1941, Fernando Sabino inicia o curso superior na Faculdade de Direito de Minas Gerais. No mesmo ano ele faz uma colectânea dos seus contos e publica sob o título Os Grilos não Cantam Mais e segue sendo colaborador e editor (Dom Casmurro, Vamos Ler, Anuário Brasileiro de Literatura).

    No ano de 1942, trabalha na Secretaria de Finanças de Minas Gerais e dá aulas de Língua Portuguesa no Instituto Padre Machado. Estagia, por três meses, no Quartel de Cavalaria de Juiz de Fora, sua experiência pessoal rende alguns episódios cómicos para o livro O Grande Mentecapto.

    Entre o final da década de 1940 e durante as décadas seguintes, Fernando Sabino vê sua carreira consolidar-se a partir da sua vasta produção, que consegue conjugar a realidade obscura da vida e o humor escondido por trás dela. 

    A comicidade peculiar do escritor permite que ele aborde a metafísica misteriosa e caótica que compõe o mundo com mais leveza e, portanto, o conjunto da sua obra nos presenteia com uma desconstrução progressiva da realidade por meio do riso.

    O auge da estreia literária de Fernando Sabino é quando ele recebe uma carta do escritor modernista Mário de Andrade. 

    Após a primeira troca de correspondências, começa a configurar-se uma amizade fiel e duradoura, interrompida pelo falecimento de Mário. Por meio das cartas, Fernando pedia conselhos literários ao amigo modernista e eles discorriam sobre estilo, o processo de escrita, engajamento da arte ou arte pela arte, de entre outros, até chegarem ao ponto de discutir questões pessoais.

    Obras (algumas):

    O Encontro Marcado, 1956.
    O Homem Nu, 1960.
    A mulher do vizinho, 1962 – Prêmio Chinaglia do Pen Club do Brasil.
    O Grande Mentecapto, 1979 – Prêmio Jabuti.
    O Grande Mentecapto (filme), 1989 – ganha o Festival Internacional de Gramado.

    Alberto Morávia - Ao Deus Desconhecido (conto erótico)

    Durante aquele inverno, encontrava‑me muitas vezes com Marta, uma enfermeira que conhecera alguns meses antes, no hospital onde estivera internado por causa de certas febres misteriosas, contraídas provavelmente na África, durante uma viagem, na qualidade de convidado especial.

    Pequena, baixinha, com uma cabeça encimada por densos cabelos castanho‑avermelhados encrespados e finos, apartados por uma risca no meio, Marta tinha um rosto redondo de menina. Mas uma menina, digamos, empalidecida e gasta por uma maturidade precoce. Na expressão absorta e preocupada dos grandes olhos negros, no tremor que tantas vezes lhe aflorava aos cantos da boca, a ideia da infância mesclava‑se estranhamente com a de sofrimento ou, melhor, de martírio. Último pormenor, tinha uma voz um pouco rouca e falava com um sotaque rude, dialetal. 

    Mas a Marta não me teria inspirado qualquer forma de curiosidade sentimental se, durante a minha doença, não tivesse mantido comigo uma atitude pelo menos insólita no plano profissional. Em palavras simples, Marta acariciava‑me todas as vezes que arrumava a minha cama ou ajeitava os cobertores, ou quando entrava em contacto com o meu corpo por ocasião das minhas necessidades naturais. 

    Eram carícias fugitivas e extremamente breves, sempre entre as virilhas, como arrancadas em segredo que as tornava furtivas e incenas. Mas eram, ao mesmo tempo, carícias de certo modo impessoais, isto é, sentia que não me tinham como alvo, mas apenas uma parte precisa do meu corpo, e nada mais. Não recebera nunca um beijo sequer de Marta, e soubera desde sempre que aquilo, ela o teria feito com qualquer outro doente, se para tanto se apresentasse a ocasião. 
    No entanto, havia em tudo isto algo de misterioso. Assim, foi mais por curiosidade do que pelo desejo de reatar qualquer relação que, depois de minha saída da clínica, telefonei à Marta, pedindo‑lhe um encontro. 

    Ela marcou‑mo imediatamente, mas com uma estranha condição: “Está bem, vamos nos encontrar, mas só porque você parece ser diferente dos outros e me inspiras confiança”. Tais palavras pareciam um lugar comum um tanto patético, destinados a salvar a dignidade da Marta; porém, como descobri pouco depois, era a mais pura verdade. 

    O encontro fora marcado em um Café dotado de uma chamada sala interior, situado no mesmo bairro em que morava a Marta. Foi ela quem indicou o local, com a seguinte frase, cujo sentido real não me foi possível compreender: “A sala interior está sempre vazia; assim, vamos poder estar sozinhos”.

    Alfred de Musset - Biografia (1810-1857)


    Alfred de Musset nasceu em Paris, filho de Victor-Donatien de Musset-Pathay e de sua mulher Edmée Guyot-Desherbiers, uma família culta e equilibrada, desde há longa data ligada às letras. O seu avô fora poeta e o seu pai, também escritor de mérito, mantinha uma relação estreita com Jean-Jacques Rousseau, cujas obras editava. Por esta via, Rousseau exerceu uma grande influência sobre o jovem poeta, em cuja obra recebe diversas homenagens, enquanto atacava violentamente Voltaire, o grande adversário de Rousseau.

    Foi poeta, dramaturgo e ficcionista. A sua poesia combinava a clareza clássica com a subjectividade apaixonada dos românticos. 

    Depois de tentar iniciar uma carreira em Medicina, que abandonou devido à sua repugnância pelas dissecções, tentou Direito, desenho, ensino da língua inglesa, piano e saxofone. Foi então que, com a ajuda de Paul Foucher, um cunhado de Victor Hugo, começou a frequentar, com apenas 17 anos de idade, o Cénacle, o salão literário de Charles Nodier na Bibliothèque de l'Arsenal, descobrindo a sua vocação para a literatura e decidindo seguir carreira literária.

    No Cénacle simpatiza com Charles Augustin Sainte-Beuve e Alfred de Vigny, mas recusa-se a adular o «mestre» Victor Hugo. Mais tarde ridicularizou os passeios nocturnos dos membros do Cénacle pelas torres da catedral de Notre-Dame e outras actividades do grupo.

    Publicou em 1829 o seu primeiro livro, intitulado Contos de Espanha e da Itália, que despertou ao mesmo tempo admiração e protesto, por conter paródias em verso a algumas das mais reverenciadas obras românticas da época.

    Sendo o mais novo integrante da nova escola literária francesa, ombreando com grandes nomes, como Alfred de Vigny, Prosper Mérimée, Charles Augustin Sainte-Beuve, entre outros, quando tinha 20 anos a sua fama literária era já grande, colocando-o entre os melhores cultores do Romantismo, mas também já o ligando a hábitos de dandy e a uma vida amorosa desregrada e boémia.

    Musset tentou então a sua sorte no teatro, tentando produzir obras dramáticas que lhe permitissem ganhar a vida. Em Dezembro de 1832 aparece o seu primeiro Spectacle dans un fauteuil, que se compunha de um drama, La Coupe et les Lèvres, uma comédia, À quoi rêvent les jeunes filles?, e um conto oriental, Namouna. Musset exprime já nesta recolha a dolorosa tensão entre deboche e pureza de costumes que dominará muita da sua obra.

    Contudo, após o fracasso da sua obra Nuit Vénitienne, escreveria, numa carta a P. Calais «adieu à la ménagerie, et pour longtemps» (adeus à ribalta, e por muito tempo), num afastamento que duraria até 1847, ano em que, já alcoólico, retorna às lides teatrais com outra serenidade.

    Em 1832 parte para Itália na companhia de George Sand, com quem mantinha um escandaloso relacionamento amoroso. Esta viagem inspirou-lhe a obra Lorenzaccio, um drama romântico escrito em 1834. Publica então os Contes d'Espagne et d'Italie.

    Durante esta viagem Musset adoece e George Sand torna-se na amante do seu médico, Pietro Pagello. Regressa então a Paris, onde faz representar as comédias Le Chandelier, On ne badine pas avec l'Amour e Il ne faut jurer de rien, que se mantêm no repertório do Théâtre-Français. Escreve também novelas em prosa e a Confession d'un enfant du siècle, autobiografia anónima dedicada a George Sand, onde ele descreve os sofrimentos que ela lhe teria infligido com a sua infidelidade.

    Entre 1835 e 1837, Musset compõe a sua principal obra lírica, intitulada Les Nuits (Nuits de mai, d'août, d'octobre, de décembre), em torno de temáticas relacionadas com o sofrimento amoroso, o amor e a inspiração. Estas poesias, muitos sentimentais, são hoje consideradas como as obras mais representativas do romantismo francês.

    Foi entretanto nomeado bibliotecário do Ministério do Interior durante a Monarquia de Julho, envolvendo-se durante esse período numa polémica relacionada com as pretensões francesa nas margens do Reno, agudizadas durante a Crise Franco-Alemão de 1840. A polémica iniciou-se quando o primeiro-ministro francês Adolphe Thiers, que enquanto Ministro do Interior tinha chefiado Musset, exigiu que o território francês se prolongasse até à margem esquerda do Reno, então assumida como a "fronteira natural" da França a leste. Essa pretensão, apesar da população da região ser de língua alemã, baseava-se no domínio sobre a zona exercido durante o consulado de Napoleão Bonaparte, mas era fortemente rejeitada pelos alemães.

    Surgiram então canções e poemas rejeitando a pretensão francesa, entre os quais um poema heróico de Nikolaus Becker intitulado Rheinlied (Canção do Reno), que continha o verso: "Sie sollen ihn nicht haben, den freien, deutschen Rhein …" (Jamais o terão, o livre Reno alemão). Musset respondeu a este poema com o seu: "Nous l'avons eu, votre Rhin allemand" (Já o tivemos, o vosso Reno alemão).

    Musset foi exonerado do seu lugar de bibliotecário na sequência da Revolução de 1848, mas foi depois nomeado bibliotecário do Ministério da Instrução Pública durante o Segundo Império.

    Musset recebeu a Légion d'honneur em 24 de Abril de 1845, ao mesmo tempo que Honoré de Balzac, e foi eleito para a Académie française em 1852, depois de duas tentativas frustradas em 1848 e 1850.

    De saúde frágil devido a uma malformação cardíaca congénita, estava frequentemente adoentado, situação que se foi agravando devido ao alcoolismo e a um estilo de vida desregrado. A sua malformação cardíaca provocava abalos cervicais concomitantes com a sua pulsação, fenómeno comum em situações como a insuficiência aórtica. Como Musset tinha essa condição, ela ficou consagrado pela medicina francesa, e hoje por todo mundo, como Sinal de Musset.

    Faleceu em Paris a 2 de Maio de 1857, quase esquecido. A influência do seu irmão mais velho, Paul de Musset, levou a que fosse sepultado no cemitério de Père Lachaise, em Paris, onde hoje uma artística obra funerária o relembra. Foi também Paul de Musset quem exerceu um importante papel na redescoberta da obra de Musset, redigindo a sua biografia e reeditando muitas das suas obras.

    A polémica e os comentários despertados pela sua célebre relação amorosa entre Musset e George Sand, que durou entre 1833 e 1835, levou a que escrevesse a novela autobiográfica La Confession d'un Enfant du Siècle, a que ela ripostou com Elle et lui, recontando a história do seu ponto de vista. Esta obra de Sand, publicada em 1859, não foi bem recebida pelos admiradores de Musset, em particular por Paul de Musset, o irmão do visado, que a parodiou seis meses mais tarde com a obra Lui et Elle.

    Sobre esta relação têm sido publicadas diversas obras, entre as quais Les Amants de Venise, George Sand et Musset de Charles Maurras (1902), que leva a cabo um aturado estudo do envolvimento amoroso e do relacionamento intelectual entre eles.

    Manuel Teixeira-Gomes - ? (Interrogação)


    Novelas Eróticas
    Manuel Teixeira-Gomes




    ?


    O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo, em Esmirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projetara. Não que o panorama fosse risonho; bem pelo contrário. 

    A desarmónica imensidade do golfo, a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias, restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um quadro melancólico.
    E a pretensiosa fachada italiana da cidade (existirá ela ainda?) que levantaram sobre o cais, à semelhança de Messina, era mais um engano que a ninguém alegrava nem contentava.

    Depois, a situação moral dos habitantes (domínio de dez mil turcos sobre trezentos mil italianos, gregos, arménios e judeus), os receios, os terrores mal disfarçados da população cristã, a qual dir-se-ia que julgava próxima e inevitável a chacina exterminadora com que os muçulmanos a ameaçavam, diariamente e sem rebuço, junto a uma profunda crise económica, alimentavam a atmosfera de tristeza que a paisagem, com os seus inúmeros ciprestes, por seu turno acentuava. 

    H. P. Lovecraft - A Coisa (Conto)


    Ao relatar as circunstâncias que conduziram ao meu confinamento neste asilo de loucos, tenho consciência de que minha posição atual criará dúvidas naturais acerca da autenticidade de minha narrativa. É grande infortúnio o fato de que o grosso da humanidade seja limitado demais, em sua visão mental, para pesar com paciência e inteligência esses fenómenos isolados, vistos e sentidos apenas por uma minoria psicologicamente sensível, os quais jazem fora de toda experiência comum.

    Homens de intelecto mais amplo sabem que não existe nenhuma distinção precisa entre o real e o irreal; que todas as coisas aparecem como tais apenas em virtude dos delicados meios psíquicos e mentais de cada indivíduo, por meio dos quais nos tornamos conscientes delas; mas o materialismo prosaico da maioria reputa como loucura os lances de visão superior que perfuram o véu comum do empirismo óbvio.

    Meu nome é Jervas Dudley, e desde a mais tenra infância tenho sido um sonhador e um visionário.

    Rico para além das necessidades de uma vida comercial, e de um temperamento inapto para os estudos formais e o recreio social daqueles com quem me relaciono, tenho lidado desde sempre em reinos que não pertencem ao mundo visível, passando minha juventude e minha adolescência debruçado sobre livros antigos e pouco conhecidos e a percorrer os campos e bosques das cercanias de meu lar ancestral.

    Não creio que o que li nesses livros ou vi nesses campos e bosques fosse exatamente o que os outros rapazes leram e viram ali, mas sobre isso preciso falar pouco, pois que discorrer mais detalhadamente apenas confirmaria essas calúnias cruéis acerca de meu intelecto que às vezes ouço sussurrarem os atendentes furtivos que me rodeiam. Basta-me relatar os eventos, sem analisar as causas.

    Disse que vivi afastado do mundo visível, mas não disse que vivi sozinho. Isso nenhuma criatura humana poderia fazer, desde que, à falta da camaradagem dos vivos, inevitavelmente se entra na companhia de coisas que não são – ou não mais estão – vivas.

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