Flexslider

    Alberto Moravia - A Coisa (Conto Erótico)


    Minha querida Nora,

    Sabe quem encontrei há pouco tempo? A Diana, você se lembra dela? Diana, a que viveu connosco no colégio das freiras francesas. Diana, a filha única daquele homenzarrão rústico, proprietário de terras em Maremma. Diana que nunca chegou a conhecer a mãe, morta ao dar à luz. Diana de quem dizíamos que, tão fria, branca, educada, saudável, com os cabelos louros e os olhos azuis e o corpo com formas de estátua, que se tornaria uma dessas mulheres insensíveis e frígidas, que talvez ponham no mundo uma ninhada de filhos, mas que não chegam jamais a conhecer o amor.

    A recordação de Diana encontra‑se curiosamente ligada ao início da nossa relação; e esta, por sua vez, a uma famosa poesia de Baudelaire que “descobrimos” juntas nos nossos tempos de colégio e acerca da qual, hoje como então, nos encontramos em desacordo quanto ao sentido a atribuir‑lhe.

    A poesia é “Mulheres Condenadas”. Lembra? Em vez de nos apaixonarmos pelos versos humanitários de Victor Hugo que as irmãzinhas nos aconselhavam, líamos às escondidas Les Fleurs du Mal, com essa curiosidade ardente própria da primeira adolescência (tínhamos ambas treze anos), sempre em busca de alguma coisa que não se sabe ainda o que seja e que, todavia, se pressente como predestinada ao conhecimento.
    LEIA TAMBÉM
    Breve sinopse de O Desprezo
    Éramos amigas, muito amigas, talvez já algo mais do que amigas, embora por certo ainda não amantes, e assim, quase fatalmente (há uma fatalidade também para as leituras), entre tantas poesias de Baudelaire, fomos cair na que tem por título “Mulheres Condenadas”. Lembra? Fui eu, para dizer a verdade, quem descobriu essa poesia fui eu a lê-la em voz alta e explicar a você o seu sentido, apoiando‑me prontamente nos pontos, por assim dizer, essenciais.

    Estes eram, sobretudo, dois. O primeiro, na estrofe: “Os meus beijos são leves como as borboletas / que afloram à tarde sobre os grandes lagos transparentes, / os do teu amante cavar‑te‑iam rugas / como trilhos de carro ou cascos de cavalo”; o segundo, na estrofe: “Maldito seja para sempre o sonhador inútil / que primeiro quis, na sua estupidez / vangloriando‑se de uma questão insolúvel e estéril, / misturar as coisas do amor e da moral”.

    Aqui, como se pode ver na primeira estrofe, surge privilegiado o amor homossexual, tão delicado e afetuoso em contraste com o amor heterossexual brutal e grosseiro; e na segunda, deixa‑se o terreno limpo dos escrúpulos morais, que nada têm a ver com as coisas do amor.

    Claro que eu própria, que te explicava o sentido da poesia, captava muito imperfeitamente o alcance das duas estrofes; mas compreendia, apesar de tudo, o bastante para escolhê-las entre todas as outras, como as mais suscetíveis de favorecerem a minha paixão por ti. Para dizer a verdade, esta paixão, hoje tão exclusiva e tão consciente de si própria, teve um começo confuso.

    Foi, de fato, para Diana que, num primeiro momento, orientei as minhas atenções.


    H. P. Lovecraft - A Biografia

    A Vida

    Howard Phillips Lovecraft nasceu no dia 20 de agosto de 1890, em Providence, Rhode Island, nos EUA, sendo o único filho de Winfield Scott Lovecraft, um negociante de jóias e metais preciosos, e Sarah Susan Phillips Lovecraft, dentro de uma família tão tradicional que poderiam traçar a sua árvore genealógica na América desde a chegada dos colonizadores em 1630.

    Os seus pais se casaram por volta dos trinta anos, o que era considerada uma idade avançada para um casamento na época. Em 1893, o seu pai teve uma grave crise psicótica em um hotel de Chicago, durante uma viagem de negócios. Ele foi levado de volta para Providence e internado no Hospital Butler, uma casa de repouso. Desde esse incidente ele permaneceu constantemente internado até à sua morte em 1898.

    Nessa época, Lovecraft tinha apenas nove anos de idade, sendo que acreditou ao longo de sua vida que o seu pai havia morrido em um estado de paralisia imposta por “esgotamento nervoso”, devido ao excesso de trabalho. 

    Após a morte do pai, Lovecraft passou a morar com a mãe Sarah, as suas duas tias, Lillian Delora Phillips e Annie Emeline Phillips, e o seu avô, Whipple Van Buren Phillips, na residência da família.

    Lovecraft desde criança era considerado um verdadeiro prodígio, sendo que, com apenas dois anos já recitava poesias, com três já lia e com seis já começava a escrever os seus primeiros poemas. O avô procurava estimular desde cedo o seu interesse pela leitura, oferecendo-lhe livros como “As mil e uma noites”, “O Livro de Ouro da Mitologia” (Age of Fable) de Thomas Bulfinch e versões infantis da “Odisséia” e da “Ilíada” de Homero. 

    Lovecraft era uma criança muito doente, e à fragilidade de sua saúde, ele pouco frequentou a escola antes dos 8 anos de idade, e depois de um ano de estudos na Slater Avenue School deixaria novamente a escola. Durante esse período ele leu vorazmente, interessando-se principalmente por química e astronomia. L. Sprague de Camp, biógrafo de Lovecraft, afirmou que ele sofria de poiquilotermia, uma raríssima doença que fazia com que sua pele fosse sempre gelada ao toque.

    Devido aos seus problemas de saúde, ele frequentou a escola de maneira bastante irregular mas era um leitor contumaz e um magnífico autodidata. Nesse período chegou a publicar amadoramente dois jornais sobre Ciências e Astronomia: “The Scientific Gazette” e “The Rhode Island Journal of Astronomy”, que eram distribuídos entre os seus amigos.

    Quando foi para a escola secundária, Hope Street High School, desenvolveu ainda mais os seus gostos pelos estudos, encontrando incentivo tanto dos professores quanto dos novos colegas. Foi durante esse período, em 1906, que se deu a sua estreia nas letras impressas, através de uma carta sobre astronomia para o Providence Sunday Journal. 

    Logo a seguir ele passaria a contribuir mensalmente com uma coluna sobre astronomia para o Pawtuxet Valley Gleaner, um pequeno jornal de pouca circulação. Nos anos que se seguiram ele colaboraria com vários periódicos como Providence Tribune (entre 1906-1908) e o Providence Evening News (entre 1914-1918), bem como para o Asheville e o Gazette-News (1915).

    Em 1986, o Necronomicon Press, boletim de admiradores de H.P. Lovecraft publicaria em suas páginas as seleções dos primeiros artigos de Lovecraft na imprensa, incluindo a carta sobre astronomia que foi publicada no Providence Sunday Journal e as colunas do Pawtuxet Valley Gleaner. 

    Em 1904, o avô de Lovecraft veio a falecer, o que afetou enormemente a sua vida. A má gestão da herança de seu avô deixou a sua família, em difícil situação financeira. Isso obrigou a família a mudar-se da ampla e bela casa em estilo vitoriano para acomodações muito menores na Angell Street. Lovecraft ficou tão profundamente afetado pela perda de casa onde nasceu que chegou mesmo a pensar em suicidar-se. Felizmente o interesse pela leitura e pelos estudos fizeram com que ele desistisse de tais pensamentos mórbidos.

    De início Lovecraft chegou a escrever alguma ficção, trabalhos juvenis, aos quais não atribuiu muita importância. Entre 1908 até 1913, a sua produção foi principalmente poesia. Durante esse tempo, ele viveu um período de profundo isolamento, com quase nenhum contato com ninguém, excepto com a sua mãe.

    Esse estado de isolamento mudaria um pouco depois que quando escreveu uma carta para a revista The Argosy (estilo pulp fiction), criticando as histórias de amor insípidas de um dos escritores mais populares da publicação, chamado Fred Jackson. 

    Iniciou-se à partir daí um debate através de cartas publicadas na revista Argosy e também em outros periódicos do tipo. Tal debate chamou a atenção de Edward F. Daas, presidente da United Amateur Press Association (UAPA), que convidou Lovecraft para participar da UAPA em 1914. A participação na UAPA ajudou a revigorar Lovecraft incitando-o a contribuir com muitos poemas e ensaios não só para a UAPA mas para vários outras revistas e jornais.

    Em 1917, estimulado por cartas, ele regressou à ficção, com histórias muito bem estruturadas como “O Túmulo” e “Dagon”. Este último foi o seu primeiro trabalho publicado profissionalmente, aparecendo em W. Paul Cook’s, O mendigo (novembro, 1919) e Weird Tales em 1923. 

    Por essa altura começou a corresponder-se com vários leitores e escritores. As suas cartas longas e frequentes fariam dele um dos maiores e mais prolíficos escritores do século XX nessa modalidade. Graças ao estimulo dos missivistas e dos associados da UAPA ele se tornou cada vez mais prolífico e produtivo quanto à ficção, género que o consagrou.

    Em referência à UAPA ele chegou a afirmar várias vezes a importância da associação para a sua carreira e mesmo para a sua vida, até pela forma como isso contribui para tirá-lo do isolamento e principalmente pelo estimulo para retornar à ficção.
    “Em 1914, quando a mão amigável do amadorismo se estendeu para mim, eu estava tão próximo do estado de vegetação quanto qualquer animal… Com o advento da [Associação] Unida, ganhei uma renovação de vida, um senso renovado da existência como sendo algo mais que um peso supérfluo, e encontrei uma esfera na qual podia sentir que meus esforços não eram totalmente fúteis. Pela primeira vez, pude imaginar que as minhas investidas desajeitadas no campo da arte eram um pouco mais do que gritos débeis perdidos no mundo indiferente.” H.P. Lovecraft
    Entre os seus correspondentes estavam Robert Bloch (Psycho), Clark Ashton Smith e Robert E. Howard, criador de Conan o bárbaro e que também escreveu diversos contos onde elementos do imaginário Lovecraftiano faziam participações especiais. Lovecraft junto de Clifford Martin Eddy, Jr., trabalhou como ghostwriter da revista Weird Tales, para artigos do famoso mágico Harry Houdini.

    Além de escritores mais conhecidos e que mantinham correspondência com Lovecraft, havia outros menos conhecidos do público em geral, mas que também foram muito importantes para consolidar o universo imaginário de Lovecraft.

    Em 1919, após sofrer de histeria e depressão durante um longo período de tempo, a mãe de Lovecraft teve um colapso nervoso e foi internada no Hospital Butler, a mesma casa de repouso em que seu marido havia sido internado anteriormente. Durante esse período ela manteve contato com o filho através de cartas frequentes. Lovecraft visitava-a também e eles continuaram muito próximos até à sua morte em 21 de maio de 1921.

    Após a morte da sua mãe, Lovecraft foi a uma convenção de jornalistas amadores, em Boston, onde conheceu Sonia Greene. Nascida em 1883, ela era judia de origem ucraniana e sete anos mais velha do que Lovecraft. Casaram-se em 1924, e logo depois, o casal mudou-se para o bairro do Brooklin na cidade de Nova York. As tias de Lovecraft não ficaram felizes com essa união, primeiro pela diferença de idade e depois, ao que parece, pelo fato de Sonia ser uma comerciante (ela era proprietária de uma loja de chapéus).

    Inicialmente Lovecraft ficou fascinado por New York, mas logo a seguir vieram os problemas. As dificuldades financeiras atingiram o casal, e Sonia perdeu a sua loja de chapéus. Sonia começou a ter problemas de saúde, e como Lovecraft não conseguia emprego, Sonia acabou por mudar-se para Cleveland para conseguir um emprego e Lovecraft manteve-se sozinho em Brooklin Red Hook. 

    Todas as dificuldades que passou nesse período ficaram de certa maneira registadas no conto “O Horror em Red Hook.” Durante este período Lovecraft escreveu “A Cidade Sem Nome” e o conto “O” Cão de Caça”.

    Alguns anos mais tarde, ele e Greene, continuam a viver separadamente, e acabaram por se separar amigavelmente. Ele regressou a Providence para morar com as suas tias. Devido à infelicidade do seu casamento, alguns biógrafos têm especulado que Lovecraft poderia ser assexuado, apesar de que Sonia Greene costumava referir-se a ele como “um amante adequadamente excelente”.

    De volta a Providence, Lovecraft viveria em uma “espaçosa casa de madeira escura, estilo vitoriano”, no nº 10 da Barnes Street. O endereço curiosamente é indicado como a casa do Dr. Willett, em “O Caso de Charles Dexter Ward”. Lovecraft viveu nessa casa até 1933.

    Após o seu retorno a Providence – a última década da sua vida – foi o periodo mais prolífico de Lovecraft. Durante esse período ele produziu a quase totalidade dos seus mais conhecidos contos para as principais publicações da época (principalmente Weird Tales).

    É desse período também “The Case of Charles Dexter Ward” “The Mound,” “Winged Death,” “Imprisoned with the Pharaohs”, “The Diary of Alonzo Typer” e “At the Mountains of Madness”. 

    Com um número cada vez menor de leitores, para sobreviver ele frequentemente revisava trabalhos para outros autores e também atuava como ghost-writter de textos assinados por outros, inclusive poemas e não-ficção.

    Apesar dos seus grandes esforços como escritor, no entanto, ele a cada dia ficava mais pobre. Em 1932, a sua tia Lillian faleceu e no ano seguinte ele mudou-se com a sua tia Annie para uma casa menor e alugada, situada bem atrás da biblioteca John Hay.

    Em 1936, o suicídio de seu amigo, Robert E. Howard, deixou-o bastante abalado. Nesse mesmo ano, Lovecraft foi diagnosticado com cancro de intestino já em estado bastante avançado, além disso ele também passou a sofrer de desnutrição. 

    A doença debilitava-o cada vez mais e fazia-o sentir intensas dores. Em 10 de março de 1937 foi internado no Hospital Memorial Jane Brown, em Providence. Dali a cinco dias, em 15 de março de 1937 veio a falecer, então com 46 anos de idade.

    Howard Phillips Lovecraft foi enterrado no dia 18 de março de 1937, no cemitério Swan Point, em Providence, no jazigo da família Phillips. O seu túmulo é até hoje o mais visitado do local, mas passaram-se décadas sem que seu túmulo fosse demarcado de forma exclusiva, constando o seu nome apenas na lápide familiar.

    A Obra

    1897 The Noble Eavesdropper
    1897 The Little Glass Bottle
    1898 The Secret Cave or John Less Adventure
    1898 The Mystery of the Grave-Yard
    1898/1902 The Haunted House
    1898/1902 The Secret of the Grave
    1898/1902 John, the Detective
    1902 The Mysterious Ship
    1905 The Beast in the Cave
    1907 The Picture
    1908 The Alchemist
    1917 The Tomb
    1917 Dagon
    1917 A Reminiscence of Dr. Samuel Johnson
    1917 Sweet Ermengarde
    1918 Polaris
    1918 The Mystery of Murdon Grange
    1918/1919 The Green Meadow
    1919 Beyond the Wall of Sleep
    1919 Memory
    1919 Old Bugs
    1919 The Transition of Juan Romero
    1919 The White Ship
    1919 The Doom That Came to Sarnath
    1919 The Statement of Randolph Carter
    1920 The Terrible Old Man
    1920 The Tree
    1920 The Cats of Ulthar
    1920 The Temple
    1920 Facts Concerning the Late Arthur Jermyn and His Family (The White Ape)
    1920 The Street
    1920 Life and Death
    1920 Poetry and the Gods
    1920 Celephais
    1920 From Beyond
    1920 Nyarlathotep
    1920 The Picture in the House
    1920/1921 The Crawling Chaos
    1920/1921 Ex Oblivione
    1921 The Nameless City
    1921 The Quest of Iranon
    1921 The Moon-Bog
    1921 The Outsider
    1921 The Other Gods
    1921 The Music of Erich Zann
    1921/1922 Herbert West — Reanimator
    1922 Hypnos
    1922 What the Moon Brings
    1922 Azathoth
    1922 The Horror at Martin’s Beach
    1922 The Hound
    1922 The Lurking Fear
    1923 The Rats in the Walls
    1923 The Unnamable
    1923 Ashes
    1923 The Ghost-Eater
    1923 The Loved Dead
    1923 The Festival
    1924? Deaf, Dumb, and Blind
    1924 Imprisoned with the Pharaohs
    1924 Under the Pyramids
    1924 The Shunned House
    1925 The Horror at Red Hook
    1925 He
    1925 In the Vault
    1926? The Descendent
    1926 Cool Air
    1926 The Call of Cthulhu
    1926 Two Black Bottles
    1926 Pickman’s Model
    1926 The Silver Key
    1926 The Strange High House in the Mist
    1926 Supernatural Horror in Literature
    1927 The Dream-Quest of Unknown Kadath
    1927 The Case of Charles Dexter Ward
    1927 The Colour Out of Space
    1927 The Very Old Folk
    1927 The Last Test
    1927 History of the Necronomicon
    1928 The Curse of Yig
    1928 Ibid
    1928 The Dunwich Horror
    1929 The Electric Executioner
    1930 The Mound
    1930 Medusa’s Coil
    1930 The Whisperer in Darkness
    1931 At the Mountains of Madness
    1931 The Shadow Over Innsmouth
    1931 The Trap
    1932 The Dreams in the Witch House
    1932 The Horror in the Museum
    1932 Winged Death
    1933 Through the Gates of the Silver Key
    1933 Out of the Aeons
    1933 The Thing on the Doorstep
    1933 The Evil Clergyman
    1934 The Book
    1934 The Tree on the Hill
    1934 The Battle that Ended the Century
    1934 The Thing in the Moonlight
    1935 The Horror in the Burying-Ground
    1935 The Shadow Out of Time
    1935 Till A’ the Seas
    1935 Collapsing Cosmoses
    1935 The Challenge of Beyond
    1935 The Disinterment
    1935 The Diary of Alonzo Typer
    1935 The Haunter of the Dark
    1935 Fungi From Yuggoth
    1936 In the Walls of Eryx
    1936 The Night Ocean
    1949 Something about Cats


    Alberto Moravia - Os Indiferentes (Sinopse)

    Roma. Pós-Primeira Guerra Mundial. 

    Michele é um jovem numa revolta inoperante contra o vazio da vida burguesa. Órfão de pai, vê a mãe agarrar-se com devoção a um amante ocioso e calculista, Leo, enquanto a irmã, sem qualquer confiança na ideia de casamento ou de carreira, se deixa arrastar indolentemente pelos avanços do mesmo homem. 

    Leo Merumechi é um comerciante sem escrúpulos que se envolve com a filha da amante, usando a sua relação com ambas como uma estratégia para “deitar as mãos” às propriedades da família. 

    Indiferentes, os 4 ou 5 personagens do romance são arrastados por Leo, inconscientemente, para um processo de dominação em relação ao qual demonstram uma inactividade por vezes desesperante.

    Hostil a este que reconhece ser um jogo sem escrúpulos, Michele é instigado por uma amiga da família, também ela antiga amante de Leo, a tomar uma atitude, mas o estado de torpor em que vive - em que todos eles vivem - parece ser demasiado profundo. 

    Cinco personagens, alguns dias, uma sucessão de intrigas familiares.

    Os Indiferentes é uma história de contornos simples que põe em evidência o tédio da existência, o erotismo desapaixonado, a decadência de valores na qual assenta a ascensão social dos tempos modernos. Trata-se também de uma reflexão sobre o medo, ou pelo menos sobre a insegurança, que leva as pessoas a deixar-se arrastar pelos outros quando estes demonstram poder.

    Por outro lado, há as condições materiais. Na esteira do neo-realismo, Morávia aborda a Itália do pós guerra como um meio decadente, onde o acesso à riqueza se reveste de estratégias pouco claras, onde o recurso à burla se torna banal. Este decadentismo ético e moral conduz a uma vontade de afirmação social que põe em causa os padrões morais da época. 

    Acima de tudo, é uma obra sobre a inacção. Indiferença e cobardia resultam em infelicidade. Parece-me ser esta a ideia fundamental do livro.

    Publicado em 1929, este primeiro romance de Alberto Moravia teve um impacto marcante no meio literário italiano da época e é considerado uma obra-prima da literatura decadentista. É a sua primeira obra, escrita com apenas 22 anos. Talvez por isso, o livro mistura uma grande simplicidade narrativa com aquele traço de génio tão peculiar em Morávia: um estilo directo, frontal por vezes frio, outras vezes terrivelmente apaixonado. 

    Alberto Moravia - O Peru de Natal

    Os "Racconti Surrealisti e Satirici" de Alberto Moravia foram compostos de 1935 a 1945 durante os anos mais difíceis da vida na Morávia. Estes foram os anos de guerra e ditadura e, para o seu trabalho, foi um período difícil, porque nesse período a maioria de seus trabalhos narrativos foram censurados.

    O autor, no entanto, não deixa de escrever, mudando suas técnicas usando alegorias que sustentam suas opiniões sobre o que estava acontecendo naquele momento histórico, cujas histórias refletem a experiência humana e têm mensagens moralistas.

    "Il Tacchino di Natale" ou, "O Peru de Natal" é um desses contos, em que a história se passa no dia de Natal.

    Curcio recebe um telefonema de sua esposa que lhe diz para ir para casa porque havia um peru. Ele volta para casa e descobre que o peru, em vez de estar no forno ou no espeto, está na sala de estar. Esse peru, um tipo inteligente, "nobre", mas de acordo com Curcio sem "substância", trata Curcio de maneira desrespeitosa e com um "ar de superioridade".

    O peru, ao que parece, está cortejando a filha de Curcio: Rosetta, mas não pede para ela se casar com ele. Rosetta, sendo a amante do peru, não recebe um pedido de casamento e decide, portanto, sempre com o Peru fugir de casa. Quando Curcio percebe que Rosetta fugiu com o Peru, ele vai à esquadra para denunciá-lo, mas ninguém acredita que um peru possa roubar um homem.

    Depois de um tempo, no entanto, eles percebem que o Peru é um ladrão procurado, com uma esposa e filhos. Acontece, portanto, que ele roubou a Rosetta para obter um resgate do Curcio. O "comerciante Policarpi" dá-lhe o dinheiro para que a sua filha volte para casa.


    Alberto Moravia - Biografia

    A Vida:

    Alberto Pincherle (1907-1990), que ficou conhecido com o pseudónimo de Alberto Moravia, nasceu em Roma, Itália. De origem judaica, é um dos grandes escritores do século XX. Acreditava na necessidade de haver coerência entre a literatura e a militância política.

    Na adolescência, foi obrigado a interromper os estudos para tratar da saúde. Moravia contraiu tuberculose óssea quando tinha nove anos e passou boa parte da infância e adolescência em sucessivos sanatórios. Talvez este isolamento, que compensou lendo vorazmente, explique o milagre da precocidade literária do escritor. Seu interesse pela literatura, assim, nasceu no período em que ficou hospitalizado.

    Ainda muito jovem começou colaborando em jornais e, em 1929, publicou o seu primeiro romance (com recursos próprios), Gli Indifferenti (Os Indiferentes), uma análise impiedosa da decadência moral da burguesia italiana. 


    Este romance de feição existencialista consagrou-o como escritor, e teve um forte impacto na literatura italiana da época. A ação do livro decorre em pouco mais de 48 horas e centra-se em cinco personagens e três casas. É como uma peça de teatro em que o espectador não só ouve os diálogos das personagens, mas, por via telepática, sabe também o que elas estão pensando. Moravia tinha apenas 22 anos quando publicou este lúcido e sufocante retrato da natureza humana.

    Em 1929, na Itália, foi também o ano de consolidação do governo fascista, com a assinatura de uma concordata entre Mussolini e o Vaticano. E era difícil não ler no livro de Moravia, com o seu retrato impiedoso da decadência da média burguesia romana, uma crítica à atitude demissionista com que a sua própria classe social vinha assistindo ao endurecimento do regime.

    O escritor não teve, aliás, de esperar muito tempo para ver as suas obras proibidas pelo governo de Mussolini e colocadas no Index do Vaticano. A crueza com que Moravia retrata o sexo, que já neste seu primeiro livro surge como uma atividade inteiramente desligada de qualquer contexto sentimental, devia irritar particularmente a Igreja.

    De família judaica e militante de esquerda, viveu nos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial (1939-1945). Retornou à Itália após o conflito e retomou a militância, ao mesmo tempo que crescia o seu prestígio no exterior com a adaptação de obras suas para o cinema. 

    Os seu temas principais são o desamor, a aridez da vida moderna e a corrupção da alta classe média. 

    A sua obra-prima é O Desprezo (1954), romance em que conta a história de um intelectual abandonado pela jovem mulher. Em 1984 foi eleito pelo Partido Comunista deputado ao Parlamento Europeu. Morreu em Roma.
    Romancista consagrado com títulos como Os Indiferentes, A Romana, As Ambições Frustradas, teve alguns de seus romances filmados por Bertolucci (O Conformista) e Godard (Le Mépris), entre outros. Moravia escreveu ainda centenas de contos, a maioria deles disponíveis em português: Contos Romanos, Novos Contos Romanos, A Casa de Praia das Sextas-feiras, A Coisa e outros contos e Contos Surrealistas e Satíricos.

    Da sua obra fazem ainda parte Diciotto Liriche (1920), La Bella Vita (1935), Il Conformista (1951), Racconti Romani (1954) e outros títulos.

    A Obra:

    GLI INDIFFERENTI, 1929 – Time of Indifference – film 1963, dir. Francesco Maselli 

    LE AMBIZIONI SBAGLIATE, 1935 – Wheel of Fortune / Mistaken Ambitions 

    LA BELLA VITA, 1935 

    L’IMBROGLIO, 1937 

    IL SOGNI DEL PIGRO, 1940 

    LA MASCHERATA, 1941 – The Fancy Dress Party 

    LA CETONIA, 1943 

    L’AMANTE INFELICIDE, 1943 

    LA SPERANZA OVVERO CHRISTIANISMO E COMMUNISMO, 1944 

    AGOSTINO, 1944 – Two Adolescents – Välinpitämättömät – film 1963, dir. Mauro Bolognini 

    L’EPIDEMIA, 1944 

    DUE CORTIGIANE E SERATA DI DON GIOVANNI, 1945 

    LA ROMANA, 1947 – The Woman of Rome – Roomatar – film 1954, dir. Luigi Zampa 

    LA DISUBBIDIENZA, 1948 – Disobedience 

    L’AMORE CONIUGALE, 1949 – film 1971, dir. Dacia Maraini 

    IL CONFORMISTA, 1951 – The Conformist – film 1970, dir. Bernardo Bertolucci, starring Jean-Louis Trintignant, Stefania Sandrelli, Gastone Moschin, Dominique Sanda, Enzo Taroscio. "The film succeeds in unmasking Marcello as a conformist not to some illusory social standard but rather to unconscious desires and structures. The genius of Bertoluci’s film is that it succeeds in reincorporating most of Moravia’s narrative elements into a new and more meaningful oneiric structure while at the same time subtly but surely addressing the issue of the relationship between original text and film." (T. Jeferson Kline in ‘The Unconformist’, from Modern European Filmmakers and the Art of Adaptation) 

    I RACCONTI, 1952 

    RACCONTI ROMANI, 1954 – Roman Tales 

    IL DISPREZZO, 1954 – A Ghost at Noon – Keskipäivän aave – film Le Mépris, dir. Jean-Luc Godard (1964), starring Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang, Giorgia Moll, Jean-Luc Godard 

    L’EPIDEMIA, RACCONTI SURREALISTI E SATIRICI, 1956 

    Bitter Honeymoon and Other Stories, 1956 

    LA CIOCARA, 1957 – Two Women – Kaksi naista – film 1960, adapted for the screen by Vittorio de Sica, starring Sophia Loren, Jean-Paul Belmondo, Eleonora Brown, screenplay by Cesdare Zavattini and De Sica . "The tragic history of these two women is not given time and space to work itself out, so that at the end, they lose their individuality and rich, willful humanity, and become puppets dancing to a production stopwatch." (Robert Hatch in The Nation, June 3, 1961) 

    TEATRO, 1958 

    UN MESE IN URSS, 1958 

    NUOVI RACCONTI ROMANI, 1959 – More Roman Tales 

    The Wayward Wife and Other Stories, 1960 

    LA NOIA, 1960 – The Empty Canvas – Tyhjä kangas – film 1964, dir. Damiano Damiani; film L’Ennui, 1998, dir. by Cedric Kahn, starring Charles Berling, Sophie Guillermin, Arielle Dombasle 

    L’AUTOMA, 1962 – Automaatti 

    CLAUDIA CARDINALE, 1962 

    UN’IDEA DELL’INDIA, 1962 

    L’UOMO COME FINE, 1963 – Man as an End 

    L’ATTENZIONE, 1965 – The Lie – Valhe 

    CORTIGIANA STANCA, 1965 

    LE LUZI DI ROMA, 1965 

    IL MONDO È QUELLO CHE È, 1966 

    L’INTERVISTA, 1966 

    UNA COSA È UNA COSA, 1967 – Command and I Will Obey You 

    IL DIO KURT, 1968 

    LA RIVOLUZIONE CULTURALE IN CINA, 1968 – The Red Book and the Great Wall – Maon Kiina eli kivinen kutsuvieras 

    RACCONTI DI ALBERTO MORAVIA, 1968 

    LA VITA È GIOCO, 1969 

    IL PARADISO, 1970 – Bought and Sold / Paradise and Other Stories 

    IO E LUI, 1971 – Two: A Phallic Novel / The Two of Us – Minä ja hän 

    A QUALE TRIBÙ APPARTIENI, 1972 – Which Tribe Do You Belong To? 

    L’AMORE CONIUGALE, 1972 

    UN’ALTRA VITA, 1973 – Lady Godiva and Other Stories / Mother Love 

    CORTIGIANA STANCA, 1974 

    AL CINEMA, 1975 

    BOH, 1976 – The Voice of the Sex and Other Stories 

    LA VITA INTERIORE, 1978 – Time of Desecration – Desideria 

    UN MILIARDO DI ANNI FA, 1979 

    COSMA E I BRIGANTI, 1980 

    IMPEGNO CONTROVOGLIA, 1980 

    LETTERE DAL SAHARA, 1981 

    STORIE DELLA PREISTORIA, 1982 

    LA COSA E ALTRI RACCONTI, 1983 – Eroottisia tarinoita 

    1934, 1982 – Vuosi 1934 

    L’UOMO CHE GUARDA, 1985 – The Voyer – Sivustakatsoja 

    L’ANGELO DELL’INFORMAZIONE A ALTRI TESTI TEATRALI, 1986 

    L’INVERNO NUCLEARE, 1986 

    PASSEGIATE AFRICANE, 1987 

    IL VIAGGIO A ROMA, 1988 – Journey to Rome – Matka Roomaan 

    LA VILLA DEL VENERDI E ALTRI RACCONTI, 1990 – Perjantain huvila ja muita kertomuksia 

    VITA DI MORAVIA, 1990 – Life of Moravia (with Alain Elkann, trans. by William Weaver) – Moravian elämä 

    DONNA LEOPARDO, 1993 (unfinished novel) 

    VIAGGI. ARTICOLI, 1930-1990, 1994 (ed. Enzo Siciliano)

    Aluizio Azevedo - O Cortiço (Excerto (1890)

    Sensualidade, perversão, remorso, reincidência.

    Ingredientes perfeitos para uma das cenas mais eróticas da literatura universal.

    1. Vou reproduzir aqui o trecho, antes contextualizando-o na narrativa.

    O Miranda era um comerciante português que casara com a “levada da breca” Estela, cujo dote garantia-lhe a prosperidade nos negócios. 

    Tendo apanhado em flagrante a mulher em adultério com um dos seus caixeiros (o que se repetiria ao longo dos anos com outros empregados), Miranda, acovardado diante da possibilidade de escândalo e perda de status social, decide simplesmente pela separação de corpos, dormindo desde então em quartos separados, mas mantendo as aparências do casamento. 

    Viviam na mesma casa sem trocarem palavra ou olhar, odiando-se mutuamente.

    Até que um belo dia, ou melhor dizendo, uma negra noite, “sentindo-se em insuportável estado de lubricidade”, o sujeito, se remoendo de dúvidas e vacilações, vai ao quarto da mulher, que se tornara, para ele, uma espécie de fruto proibido desde que se impusera o dever moral de desprezá-la.

    Para resumir, Estela, fazendo que dormia, deixou-se penetrar pelo marido. No dia seguinte, cruzam-se constrangidos pela casa, comportando-se como se nada houvera acontecido. Miranda afoga-se em culpas e promete a si mesmo nunca mais cair em tentação.

    2. Passemos agora a palavra diretamente ao romancista:

    “Mas, daí a um mês, o pobre homem, acometido de novo acesso de luxúria, voltou ao quarto da mulher.

    Estela recebeu-o desta vez como da primeira, fingindo que não acordava; na ocasião, porém, em que ele se apoderava dela febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. 

    O pobre-diabo desnorteou, deveras escandalizado, soerguendo-se, brusco, num estremunhamento de sonâmbulo acordado com violência.

    A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir; passou-lhe rápido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o com uma metralhada de beijos. Não se falaram.

    Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer. Estranhou-a. 

    Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada: descobriu nela o capitoso encanto com que nos embebedam as cortesãs amestradas na ciência do gozo venéreo. 

    Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos cabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delírio, com verdadeira satisfação de animal no cio.

    E ela também, ela também gozou, estimulada por aquela circunstância picante do ressentimento que os desunia; gozou a desonestidade daquele ato que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo daquele seu inimigo odiado, achando-o também agora, como homem, melhor que nunca, sufocando-o nos seus braços nus, metendo-lhe pela boca a língua úmida e em brasa. 

    Depois, um arranco de corpo inteiro, com um gemido gutural e estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se num abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e chorosos, toda ela agonizante, como se a tivessem crucificado na cama.”


    Carlos Drummond de Andrade | Poema Sobre uma Noite de Amor

    'Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem.

    A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, 
    quando, sorrateiramente, te aproximaste. 

    Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! 
    Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.

    Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.

    Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. 
    Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força.
    Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. 
    Só descansarei quando vir sair o sangue quente do teu corpo.

    Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito Filho da Puta! 


Feature